The Mysterious Lady
5 Capítulo V
Notas iniciais
— Tive um dia adorável — Luka anunciou ao marquês assim que desceu para o jantar.
— Alegra-me ouvir isso. O que fez hoje?
— Fomos almoçar com aquelas pessoas amáveis que Vossa Alteza nos apresentou — Luka replicou — e em seguida assistimos à partida de pólo, que seu filho jogou com brilhantismo.
— Pensei que tivesse ido fazer compras — o marquês falou.
— Oh, fizemos isso pela manhã — ela explicou —, comprei um vestido maravilhoso para a festa e, se Vossa Alteza não gostar, juro que cairei em prantos.
O marquês deu uma gargalhada.
— Sei que isso jamais vai acontecer e você, com certeza, será considerada a belle da festa.
— Espero que sim — Luka retornou —, porém, como diz minha i... madrasta, há muita concorrência em Londres.
Luka tropeçou na palavra "madastra" e, ao perceber o olhar crítico de Miku sobre si, sentiu-se embaraçada.
A excitação dos últimos acontecimentos às vezes não a deixava lembrar que Miku deveria parecer bem mais velha que ela.
Sempre que estavam juntas, ambas divertiam-se como duas crianças, aproveitando o tempo com prazer, como jamais haviam feito antes.
Miku comprara para a irmã os vestidos mais belos que ela já vira.
Atendendo aos pedidos do marquês, ela deixara de lado os vestidos pretos, substituindo-os por roupas de outras cores bem mais alegres.
A vendedora da loja fora bastante amável.
Miku percebeu que a reputação de adquirir presentes caros e bonitos não era do marquês, mas sim do conde. Havia escutado os comentários que as vendedoras faziam sobre o filho do marquês e perguntou-se o que sua mãe teria dito a respeito de damas que aceitam presentes de homens com quem não eram casadas.
Para sua surpresa, Miku soube que o conde jantaria em casa naquela noite.
Luka e ela não esperavam encontrá-lo.
— Talvez — Luka conjecturou, ao saber da notícia — o conde, como nós, também queira descansar, para estar bem em forma amanhã.
Miku imaginou que Kaito deveria se sentir sempre muito bem-disposto.
Como Luka, ela também ficara impressionada com o brilhantismo que ele apresentou na quadra de pólo. Fora-lhe difícil observar qualquer outro jogador. O conde movimentava-se com desenvoltura e graça.
Miku sentia que seu pai teria aprovado o modo de vida do conde.
A porta se abriu e Kaito entrou. Suas roupas de noite lhe davam um ar magnífico.
— Oh, ei-lo que chega, Kaito! — o marquês exclamou. — A que devemos a honra de sua companhia esta noite?
— É fácil responder a essa pergunta — o conde replicou. — Simplesmente porque não tenho um convite melhor.
— Não acredito nisso — o marquês contrapôs. — Vi uma pilha de cartas endereçadas a você esta manhã, e cheguei a imaginar que um carteiro exclusivo fora contratado pelo correio para despachar as correspondências para nossa casa.
O conde sentou-se ao lado de Luka.
— Divertiu-se no jogo de pólo? — Kaito quis saber.
— Acabei de dizer a Sua Alteza que você jogou muito bem — Luka replicou — e não foi surpresa ver seu time ganhar de cinco pontos a zero.
— O jogo foi satisfatório — ele comentou. — Só espero que você ganhe de cinco pontos a zero no baile que meu pai vai oferecer amanhã.
Luka caiu na risada.
— Depois de todos os comentários que ouvi, só espero não ser um fracasso.
— Quanto a isso você não precisa se preocupar — o marquês interpôs. Havia bondade em seus olhos, enquanto contemplava Luka e seu filho conversando.
Miku sabia o quanto o velho marquês ficaria feliz se seus sonhos se tornassem realidade.
O jantar foi delicioso e o conde mostrou-se bastante amável durante a refeição. Contou histórias sobre suas aventuras no exterior e apesar de não ter dito nada, Miku sabia que ele partira em várias missões especiais, a pedido do primeiro-ministro. E ficou fascinada quando ele contou a história de suas aventuras nos Balcãs.
— Ouvir dizer que Benjamin Disraeli mandou chamá-lo outro dia de manhã. O que ele desejava? — o marquês perguntou.
— O senhor não sabe?
— E você concordou em fazer o que ele lhe pediu?
O conde sacudiu a cabeça.
— Não, eu me recusei. Gosto de ficar em Londres nesta época do ano e, conforme o senhor sabe, adoro jogar pólo.
O marquês franziu a testa, mas não fez nenhum comentário.
Ao observar pai e filho, Miku chegou à conclusão de que o marquês tinha muitas ambições para o filho. Ela sabia que o marquês temia que a vida do filho se arruinasse, devido ao envolvimento com lady Meiko.
Perguntou-se o que aquela mulher audaciosa e bela estaria fazendo aquela noite, já que o conde não lhe fazia companhia.
Ao notar o arrebatamento com que Luka ouvia as histórias dele, porém, imaginou que talvez tudo tivesse mudado.
Após o jantar, sentaram-se para conversar na sala de estar.
Foi quando o marquês aconselhou:
— Acharia melhor que todos nós nos recolhêssemos mais cedo. Afinal, estamos muito ansiosos pelas festividades de amanhã e precisaremos de uma boa noite de sono.
— Um conselho bastante sensato — Miku observou. — Vamos, Luka. Amanhã com certeza, não dormiremos muito cedo. Só nos recolheremos depois que o último convidado tiver ido embora.
— Quero ver você duas brilhando como estrelas! — o marquês comunicou.
— Faremos tudo o que pudermos para agradá-lo — Miku prometeu.
Luka fez uma mesura graciosa para o marquês, que em seguida comentou:
— Fico feliz por terem se divertido tanto hoje. Quero que essa visita seja inesquecível, tanto para você quanto para a sua madrasta.
— Tenho certeza de que jamais me esquecerei da alegria que sinto aqui — Luka observou. — Eu tenho um diário onde escrevo minhas impressões, porém já não tenho mais adjetivos para descrever o quanto tudo aqui é maravilhoso.
Ela se virou para o conde e prosseguiu:
— Sei que vou sonhar com seu último gol e vou descrever tudo o que sinto em meu diário.
— Sinto-me honrado por fazer parte dele — Kaito replicou com voz gentil.
Ao observá-lo, porém, Miku notou o mesmo ar cínico e escarnecedor em seus olhos.
Consternada com aquela visão, Miku deixou a sala sem dizer boa-noite.
Dirigiu-se ao hall, sem esperar por Luka.
Quando ambas se encontravam sozinhas no andar superior, Luka passou os braços em torno do pescoço da irmã e exclamou:
— É maravilhoso estar em Londres e devo tudo isso a você, Miku! Quanta esperteza a sua!
A voz de Luka não passava de um murmúrio, mas Miku apressou-se a dizer:
— Tenha cuidado!
Lembrou-se de que, apesar de seu bom humor aparente, o conde não afastara os olhos dela durante todo o jantar.
Era como se ele suspeitasse de algo. Ela se sentia vigiada.
Miku, por sua vez, não lembrava de ter dito nada que pudesse levantar suspeitas. Mas também confiava em sua intuição.
Mesmo que o conde não suspeitasse de nada, estava curioso, e aquilo era perigoso.
A criada a aguardava no quarto, a fim de ajudá-la a se despir.
Quando a mulher saiu, Miku puxou as cortinas, para contemplar as estrelas.
— Obrigada, muito obrigada — ela murmurou, quase sem fôlego.
Sabia que seu pai a ouviria.
— Obrigada, papai — ela tornou a agradecer.
Fechou as cortinas e enfiou-se na cama.
Havia um pequeno candelabro, ostentando três velas ao lado do leito. Junto ao ornamento, encontrava-se a Bíblia que pertencera à mãe de Miku.
Quando criança, prometera à mãe que sempre leria um versículo ou pelo menos uma linha, todas as noites antes de dormir.
Sentindo que a Bíblia Sagrada lhe falaria, Miku resolveu abri-la aleatoriamente. Em seguida, com os olhos fechados, ela pousou o dedo indicador sobre a página:
Abrindo os olhos, leu:
"Pede e te será dado; procura e acharás... bate e a porta se abrirá..."
As palavras, de certa forma, pareciam apropriadas para o momento e Miku só esperava que as promessas fossem cumpridas.
Depois de colocar a Bíblia no lugar, já estava prestes a apagar as velas quando a porta se abriu.
Surpresa, ela ergueu os olhos, imaginando que fosse Luka.
Mas, para sua consternação, foi o conde quem entrou no quarto.
Ele fechou a porta atrás de si e avançou para a cama.
— O que aconteceu? — Miku quis saber.
Quando o conde se aproximou mais, ela notou que ele usava o mesmo tipo de robe longo e cruzado no peito que seu pai costumava usar.
A roupa dava-lhe uma aparência bastante militar.
Quando ele chegou bem perto da cama, Miku tornou a indagar:
— O que foi? Por que... está aqui?
— Você se esqueceu de dizer-me boa-noite — o conde replicou — e por isso vim até aqui para perguntar-lhe se está me ignorando ou fazendo-me um convite.
Miku cravou os olhos no rosto dele, bastante aturdida.
— Não sei... o que... está dizendo — replicou trêmula. — Agora... por favor... vá embora. Você não tem... o direito de entrar no meu quarto... dessa maneira.
O conde sentou-se na beirada da cama.
A luz que vinha de fora o iluminava enquanto Miku encontrava-se parcialmente na penumbra causada pelo dossel.
Ao contemplá-la, o conde achou-a adorável, os longos cabelos cianos descendo-lhe até a cintura. Os braços e o pescoço, esplendidamente pálidos, destacavam-se na escuridão.
O conde continuou contemplando-a sem nada dizer.
Finalmente, ele conseguiu murmurar:
— Você é linda, adorável demais para que eu aceite sua rejeição.
— Eu não o... rejeitei — Miku contradisse, acrescentando em seguida: — E agora, por favor, saia de meu quarto... Se deseja dizer-me algo... poderemos conversar amanhã.
O conde sorriu.
— É mais fácil conversarmos enquanto estamos aqui sozinhos, sem ninguém para nos perturbar. Sei que posso fazê-la muito feliz.
— Não sei do que está... falando — Miku falou, constrangida. — Por favor... vá embora. Sabe que não deveria ter... invadido meu quarto.
— E quem precisa saber que estou aqui? — o conde indagou.
— Eu não o... quero aqui — Miku persistiu. — Jamais imaginei que pudesse invadir meu quarto dessa... maneira.
— Pensei — o conde tornou — que, como viúva, você se sentisse sozinha à noite. Talvez eu tenha me enganado, mas também pensei que você tem muito que aprender sobre o amor.
Por um momento, Miku não soube o que dizer. Os olhos, arregalados e cheios de medo pareciam dominar-lhe todo o rosto.
Então, quando o conde se inclinou, Miku imaginou que ele fosse tocá-la. Por isso, deixou escapar um grito.
— Vá embora! — ela berrou. — Como ousa... vir até aqui e falar comigo... desse jeito?
O conde fez um pequeno movimento em sua direção.
— Não é nada do que você imagina! — ele explicou. — Apenas, Miku, imaginei que fosse excitante beijá-la, o que a faria sentir-se bem menos solitária do que está no momento.
— Não me sinto sozinha! — Miku rebateu. — E , por favor, não ouse me beijar. Vá embora... imediatamente!
O conde estendeu-lhe os braços e Miku lutou contra ele, desviando o rosto. Ela não conhecia suas intenções. Porém, sentia-se desamparada e não sabia o que fazer.
Quando os lábios dele tocaram-lhe o rosto, Miku declarou:
— Você... me assusta e ...não há ninguém aqui para ajudar-me. Por favor... deixe-me em paz!
Por um momento, o conde ficou paralisado.
Então, para surpresa de Miku, ele tomou-lhe o rosto entre as mãos, forçando-a a encará-lo.
— Sente medo de mim? — ele indagou.
O conde a fitava detidamente, os olhos examinando-lhe o rosto com certa admiração.
Percebeu então que os lábios da moça tremiam e que ela parecia, de fato, bastante assustada.
— Você sente mesmo muito medo de mim! — ele concluiu em voz alta, como se precisasse de confirmação.
— Sim, estou assustada! — Miku declarou em voz baixa. — Você é forte... dominador e eu... não saberia como me defender. Apenas sei... que papai ficaria muito chocado ao vê-lo aqui.
O conde soltou-a e se pôs de pé. Com os olhos ainda presos no rosto de Miku, ele se afastou da cama.
— Jamais insisti com nenhuma mulher que não me quisesse — ele declarou após um instante. — Minha única desculpa é que não percebi que você era diferente.
O conde encaminhou-se para a porta, abriu-a e deixou o quarto sem olhar para trás.
Tudo acontecera muito depressa.
Miku mal podia acreditar que o conde estivera ali, dissera-lhe todas aquelas palavras e fora embora.
— Como ele ousou vir até meu quarto dessa... maneira? — ela indagou em voz alta. Seu corpo ainda tremia.
Sentia-se fraca e, por alguma razão que não conseguiu entender, teve vontade de chorar. Ela permaneceu deitada sentindo-se muito infeliz até que se deu conta de que tudo acontecera por sua própria culpa.
Deveria ter trancado a porta antes de se deitar.
Mas como podia supor que numa casa como a do marquês, um homem pudesse entrar no quarto de uma dama sem ser convidado?
Quando esse pensamento lhe ocorreu, Miku se lembrou das palavras do conde assim que ele entrou no quarto.
Será que ele realmente imaginara que, como ela não lhe dera boa-noite, insinuara com isso um convite a seus aposentos?
Era assim então que se comportavam lady Meiko e todas as outras mulheres que conhecera em Londres?
Durante o almoço a que ela comparecera aquele dia, notara que algumas mulheres conhecidas como "beldades" flertavam abertamente com todos os homens que as ladeavam.
Miku sabia que sua mãe ficaria bastante chocada com aquele tipo de comportamento e com o atrevimento do conde invadindo seu quarto.
Ele desejava beijá-la e ensinar-lhe o amor.
Miku ficou de repente muito tensa.
Será que o conde imaginara que podia se comportar com ela da mesma maneira como se comportava com lady Meiko?
Apesar de Miku ser muito inocente, sabia que lady Meiko tinha intimidades com o conde.
Imaginou, então, com certa vergonha, que Maika deveria ter tido o mesmo tipo de intimidades com seu pai.
— Como ele ousa pensar que eu posso ter um comportamento tão vergonhoso? — Miku vociferou.
De súbito, lembrou-se que o conde a imaginava como uma mulher viúva, e não virgem como Luka.
Ao raciocinar sobre o assunto, Miku chegou à conclusão de que o conde jamais se atreveria a entrar no quarto de sua irmã.
Mas ela era diferente.
Diferente porque mentia ser cinco anos mais velha que a irmã, e viúva.
Levou algum tempo para que ela coordenasse as idéias, mas finalmente conseguiu entender tudo.
Seu pai lhe ensinara a analisar sempre seus próprios sentimentos e também os das outras pessoas.
Miku acabava de entender que todo aquele episódio acontecera por sua própria culpa e por ter enganado o conde em primeiro lugar.
No entanto, tal história parecia-lhe extraordinária.
O conde acreditava que podia entrar no quato de qualquer mulher que o agradasse, confiante de que ela o esperava de braços abertos.
Porém, a verdade é que ela, tendo sido no passado uma mulher casada e experiente em matéria de amor, deveria ser tratada de maneira diferente de uma mulher solteira.
"Foi tudo culpa minha", Miku disse a si mesma.
Lembrou-se de sua mãe ter-lhe dito, quando era criança:
— Nunca devemos mentir. Mentiras fazem com que nos sintamos culpados e coias inesperadas podem acontecer como consequência.
Ela mentira com a única intenção de ajudar Luka. Mas depois do comportamento do conde, sentia que precisava deixar aquela casa imediatamente.
Porém, antes de partir, precisaria explicar ao marquês o porquê de sua decisão.
Com certeza, ele ficaria magoado e infeliz.
"Não posso fazer isso", Miku pensou. "Preciso ficar."
Perguntou-se de que maneira encararia o conde dali por diante, depois do que ocorrera.
Decerto, sentir-se-ia pouco à vontade naquela casa.
Miku saltou da cama e foi até a janela.
Novamente, contemplou as estrelas.
— Que devo fazer, papai? — ela indagou ao firmamento. — Por favor, diga-me!
Sentiu vontade de chorar ao se lembrar do quanto estava feliz ao vir para a cama. Mas o conde estragara tudo com seus caprichos.
No entanto, Miku sentia-se naquele momento guiada pelo pai.
A melhor coisa que tinha a fazer era comportar-se como se nada houvesse acontecido.
A casa era espaçosa.
Sem dúvida, Miku conseguiria evitar o conde. Não ficaria em nenhuma circunstância a sós com ele.
Contudo, se o comportamento irascível dela o houvesse aborrecido, com certeza o conde insistiria para que ambas deixassem a casa. E aquilo seria desastroso.
Novamente, Miku sentiu como se seu pai lhe falasse.
Dizia-lhe que, apesar das circunstâncias, o conde ainda era um cavalheiro.
E ele, certamente, jamais faria comentários sobre o que acontecera.
Miku sentia que podia confiar no conde e que ele jamais a humilharia em público.
Sentindo-se um pouco mais calma, fechou as cortinas e foi para a cama.
Apagou as velas em seguida, mas demorou muito para adormecer.
—
Em seu quarto, o conde perguntava-se como pudera ser tão tolo e convencido.
Jamais havia lhe ocorrido que uma mulher bela e jovem como lady Hatsune pudesse rejeitá-lo.
Acostumara-se a ter nos braços as mulheres mais charmosas de Londres, antes mesmo de saber seus nomes.
Mulheres como Meiko perseguiam-no de maneira implacável.
Jamais se lembrava de terem lhe recusado um beijo ou um carinho e nem de terem-no rejeitado quando desejava fazer amor.
Não restava dúvidas que Miku ficara bastante consternada ao vê-lo invadindo seu quarto.
O conde tinha certeza de que ela não mentira, ao dizer que sentia medo.
No início, imaginara que Miku fazia algum jogo de sedução que ele ainda não conhecia.
Não levara a sério seus protestos, até perceber que ela tremia.
Perguntava-se como pudera ser tão estúpido. Esquecera-se de que no campo esse tipo de situação não acontecia. Mesmo sendo uma mulher casada.
Ao pensar nisso, Kaito retesou o corpo.
No momento em que a tocou aquela noite, sentiu que Miku era inocente, muito jovem e sem nenhum traço de sofisticação.
Aquilo parecia-lhe estranho, pois sempre ouvira comentários, desde criança, sobre o charme de sir Kotaro.
Todos falavam sobre seus vários affaires de coeur.
Quanto a ele, sempre gostara muito de conversar com sir Kotaro, quando vinha a Londres.
O conde lembrava-se de que, aos seis anos, costumava esgueirar-se pelas escadas, a fim de espiar os convidados que chegavam para jantar.
Em seguida, sua nanny o levava para o seu quarto, a fim de alimentá-lo.
Ele descia da cama para observar, da galeria de arte, os convidados comendo na sala de jantar de Garle Park.
Certa vez, vira-o beijando uma mulher muito bonita no jardim da casa, enquanto o luar banhava o casal que se encontrava de pé ao lado do chafariz.
Jovem como era, o conde achara a cena bastante romântica.
Sir Kotaro era para ele um herói.
Mais precisamente, um cavaleiro real que mataria um dragão antes que este assustasse sua amada.
De repente, o passado voltava-lhe à mente.
O conde também se lembrava de sir Kotaro ter desaparecido de Londres depois de seu casamento.
Seu pai lhe dizia que o amigo devia se sentir muito feliz no campo e por isso não desejava vir para Londres.
— Quando um homem está no jardim do Éden — em tom poético comentara o marquês — não quer mais voltar ao deserto.
Ao refletir sobre tudo, o conde se lembrou de que a primeira esposa de sir Kotaro havia morrido e que Luka devia ser muito parecida com ela.
E ele então contraíra novas núpcias com Miku.
Seria possível que sir Kotaro não a tivesse tocado, por ser ela muito jovem?
Era inacreditável!
De repente, como um raio de luz rasgando a escuridão, o conde pareceu ouvir Miku dizendo:
— Papai ficaria muito chocado ao vê-lo aqui.
Ela se referira ao pai com toda a certeza, mas seria bem mais natural tê-la ouvido dizer:
— Kotaro ficaria muito chocado.
Ainda tentava decifrar o enigma, quando adormeceu.
—
Ao acordar na manhã seguinte, Miku lembrou-se do que havia acontecido na noite anterior.
Era tudo tão inacreditável, a ponto de ela imaginar que tivesse sonhado.
O coração bateu-lhe apressado e o rubor coloriu-lhe as faces.
Como encararia o conde dali para frente?
— Que devo dizer-lhe, meu Deus? — ela indagava.
A criada, depois de puxar as cortinas, veio até a cama.
— Sua Alteza sugeriu, milady — ela começou —, que você e miss Hatsune tomassem o café da manhã em seus próprios aposentos e dormissem um pouco mais, já que ficarão acordadas quase a noite toda de hoje.
— Foi muita gentileza de Sua Alteza — Miku comentou.
Ela sentia-se feliz, não porque podia descansar um pouco mais, mas sim porque não precisava enfrentar o conde durante o breakfast.
Miku viu quando um lacaio colocou a bandeja sobre uma mesa ao lado da porta e a criada foi até lá para buscá-la.
Após colocar a bandeja ao lado da cama, a criada comunicou:
— Espero que não lhe falte nada, milady, porém, se precisar de algo, basta tocar a sineta que virei no mesmo instante.
— Sei que não vou precisar de mais nada — Miku replicou — e ficarei bem gorda se continuar hospedada aqui.
A criada sorriu.
— Espero que não, milady. Ouvi comentários entre os criados que milady tem a cintura mais esbelta de todas as damas que já se hospedaram aqui.
Quando ela terminou de falar, ouviu-se uma pancada na porta.
A criada abriu-a em voz baixa com alguém do lado de fora.
Em seguida, ela voltou para a cama, levando um pequeno pacote nas mãos.
— Pediram-me para entregar-lhe isso, milady — a criada comunicou.
Miku tomou o pacote das mãos dela, perguntando-se o que podia ser.
Era ainda muito cedo para ter chegado pelo correio.
De qualquer forma, o embrulho fora feito com papel branco e amarrado com fita.
Pensou que talvez o marquês tivesse lhe mandado um presente.
Abriu o pacote com cuidado e de seu interior tirou uma orquídea imaculadamente branca e perfeita.
Surpresa, leu o cartão que a acompanhava:
"Perdoe-me".
Aquela única palavra fez seu coração acelerar.
Um rubor subiu-lhe às faces no mesmo instante, ao se dar conta de que o conde pedia-lhe desculpas pelo acontecido.
De repente, seus sentimentos em relação a ele começaram a mudar.
Ele já não era mais um figura ameaçadora e hostil que poderia assustá-la a qualquer momento.
Em vez disso, transformava-se em um homem honesto e humilde, a ponto de admitir que cometera um erro que precisava ser reparado.
"Papai tinha razão", ela disse a si mesma. "O conde é um cavalheiro e, portanto, age como tal."
Miku colocou a orquídea ao lado da cama.
No mesmo instante começou a sentir-se feliz com o dia que tinha pela frente.
Lembrou-se da festa que aconteceria à noite e dos lindos vestidos que ela e Luka usariam.
Tudo era tão excitante!
As nuvens, que por um momento, empanaram o brilho do Sol, haviam se afastado.
Miku sentia-se feliz.
E tudo porque o conde comportara-se como um perfeito cavalheiro.
A orquídea branca que se achava ao lado da cama refletia toda a alegria que Miku experimentava naquele momento.
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