The Mysterious Lady
6 Capítulo VI
Notas iniciais
Miku contemplou o salão de baile, pensando que jamais vira lugar tão atraente.
As damas, com seus lindos vestidos, mais pareciam cisnes deslizando sobre nuvens de sonho.
As tiaras sobre seus cabelos cintilavam à medida que seus pares as conduziam pela pista de dança, ao sabor de uma linda valsa.
Miku também colocara a tiara de sua mãe, imaginando que assim pareceria mais velha.
O marquês insistira para que ela e Luka ficassem a seu lado, para receber os convidados. Ele as achava encantadoras.
Temia, porém, que alguém se lembrasse de que seu pai tivera duas filhas. Entretanto, tranquilizou-se lembrando que tudo acontecera à muito tempo. Além disso, seus pais sempre preferiram o isolamento do campo. Ninguém se lembraria de um detalhe sem nenhuma importância.
Agradou-a ouvir um dos amigos do marquês elogiar sir Kotaro para Luka.
Outros comentaram que não houve em Londres homem mais atraente do que ele.
O marquês as manteve a seu lado, até ter certeza de que todas as pessoas importantes haviam chegado à festa.
Em seguida, Luka foi requisitada para dançar com um parceiro após o outro.
Miku, por sua vez, também não ficou sozinha um minuto.
Ela estava encantada com a orquestra. A visão dos convidados espalhados pelo salão cheio de flores encheu os olhos seus de alegria.
Uma das grandes janelas se abria para o jardim. E o marquês mandara instalar lanternas chinesas que pendiam dos ramos das árvores. Os atalhos do jardim também eram adornados com pequenas lâmpadas.
Teve a certeza de que Luka era a belle da festa. Seu vestido era branco, preso na cintura por um buquê de rosas cor-de-rosa.
A visão da adolescente era um espetáculo digno de ser admirado. Corada de excitação, Luka mais parecia uma criança que acabara de ganhar um brinquedo.
Miku não ficou surpresa ao ouvir vários homens comentarem:
— Sua enteada é a garota mais atraente que já vi na vida!
O conde sentou-se à cabeceira da mesa durante todo o jantar.
Ladeavam-no duas damas mais distintas da recepção: uma marquesa e uma condessa.
Naquela noite, pelo menos, o conde não precisava escolher entre o "bem" e o "mal".
Várias condecorações adornavam-lhe a roupa de noite, o que lhe dava uma aparência muito distinta e atraente. Uma cruz pendia em seu peito, suspensa por um cordão vermelho.
Miku teve muita vontade de saber o que aquilo representava. Mas conteve seu impulso, com medo de parecer ignorante.
Logo depois que a orquestra começou a tocar, o conde convidou-a para dançar.
Por um momento, hesitou, pensando que ele poderia ter convidado Luka primeiro. Mas temendo parecer provinciana, ela aceitou o convite e o conde conduziu-a à pista de dança.
Ele dançava muito bem.
Miku só esperava que o conde não percebesse sua pouca experiência. Ela costumava dançar nas festas infantis oferecidas em Worcestershire.
Outras vezes, dançara com seu pai enquanto sua mãe tocava piano.
— Você parece uma pluma em minhas mãos — o conde comentou. — Depois de ter dançado com você, todas as outras mulheres vão parecer verdadeiros sacos de batatas!
Enquanto dançavam, perguntou-se o que o conde tinha em mente fazendo tais comentários.
Quando a dança chegou ao fim, ele acrescentou:
— Seus pés não parecem tocar o chão.
Ela estava cada vez mais intrigada.
Quando Miku sorriu, ele indagou em voz baixa:
— Estou perdoado?
— Sim... claro — ela apressou-se em dizer.
Não pôde impedir o rubor que lhe subiu às faces, o que fez seus olhos cintilarem.
Em seguida, agradeceu:
— Obrigada pela linda... orquídea.
— Linda como você — o conde comparou.
Porém, ele não pôde dizer mais nada.
Um nobre, que Miku sabia ser uma figura importante do mundo político, aproximou-se do conde e comunicou:
— Espero que não vá monopolizar a mulher mais linda da festa. Não quer me apresentá-la?
Depois de dizer aquelas palavras, o nobre tomou Miku dos braços do conde e a levou para dançar.
Quando terminou a dança com o nobre, que lhe fez elogios extravagantes, Miku lançou um olhar em torno à procura de Luka, mas não viu nenhum sinal da irmã.
Imaginou que ela fora até o jardim.
Ocorreu-lhe que deveria tê-la advertido para não ficar muito tempo sozinha com um cavalheiro estranho. Tal atitude, com certeza, poderia dar-lhe uma péssima reputação.
Miku, porém, ficaria bastante surpresa se soubesse onde Luka se encontrava naquele momento.
Ela saíra correndo do salão de baile e entrara numa das salas de estar. O aposento fora arranjado para os convidados que desejavam conversar em vez de dançar.
Luka achava-se de pé diante da lareira, admirando as flores que adornavam o aposento.
A porta então se abriu e Gakupo entrou.
— Pensei tê-la visto atravessando o corredor — ele comentou. — Por que está aqui? Dveria estar dançando!
— Não quero dançar... essa valsa — Luka respondeu em voz baixa.
Gakupo colocou-se ao lado dela.
— E por que não?
Como ela não respondesse, após um momento, Gakupo pediu:
— Por favor, Luka, diga-me, por que não quer dançar essa valsa?
— Porque... — respondeu com certa hesitação na voz — é... com o conde.
— E você não quer dançar com ele?
Ela sacudiu a cabeça.
— E por que não? — Gakupo indagou. — O que foi que ele lhe disse?
A voz de Gakupo era firme e, como Luka permanecesse em silêncio, prosseguiu:
— Se ele a magoou, prometo arrancar-lhe o pescoço! Conheço muito bem a fama de Kaito com as mulheres e não permitirei que ele a magoe.
Luka deu um gritinho.
— Não... foi nada... disso — murmurou. — O problema é... seu tio.
Gakupo tomou a mão de Luka entre as suas, conduzindo-a ao sofá.
Depois de terem se sentado, Gakupo indagou em voz baixa e gentil:
— Agora, conte-me o que aconteceu. O que a aborreceu tanto?
— Não sei se deveria contar-lhe...
— Pensei que confiasse em mim, Luka.
— E eu confio! — ela apressou-se em dizer. — mas... o que ele falou foi um choque... para mim.
Gakupo aumentou a pressão que exercia sobre a mão dela.
— Não acredito que titio tivesse a intenção de magoá-la — ele tornou. — Agora, conte-me o que ele lhe disse para que possamos saber o que fazer.
A voz de Gakupo oferecia conforto e ela então confidenciou em voz baixa:
— Aproximei-me do marquês depois de uma dança e então lhe disse: "Oh, muito obrigada por esta festa magnífica. Estou me divertindo muito!".
A voz de Luka morreu na garganta e ele indagou:
— E o que foi que titio respondeu?
— Disse... — ela replicou num tom de voz que Gakupo mal pôde ouvir: — "Espero que a próxima festa oferecida aqui seja a de seu casamento. Sei que você e Kaito serão muito felizes juntos".
A voz de Luka tremeu e então acrescentou:
— Agora compreendo por que o marquês colocou-me ao lado do conde na mesa de refeições, mas... não quero me casar com ele... o conde me... assusta!
A voz de Luka era comovente e Gakupo ficou em silêncio.
De repente, ele se pôs de pé e puxou-a de encontro a seu peito antes de dizer:
— Quero mostrar-lhe uma coisa.
Luka não fez perguntas, deixando-se conduzir por Gakupo até o corredor.
Tomaram a direção oposta ao salão de baile, indo dar numa escadaria lateral, que subiram em silêncio.
Passaram do primeiro andar para o segundo e em seguida tomaram uma outra escadaria em espiral que os levou ao último andar, onde se encontrava o sótão.
Gakupo atravessou com Luka o sótão, até que chegaram a alguns lances de escada. Então, no último degrau, ele abriu a porta.
Aturdida, ela perguntava-se por que ele estava levando-a para o telhado da casa.
O teto era baixo e havia uma balaustrada num dos cantos.
Gakupo conduziu-a até lá.
Diante de si, Luka avistou um panorama inacreditável.
O firmamento, acima de suas cabeças, estava cravejado de estrela e uma grande lua cheia lançava seus raios de prata sobre Londres.
Logo abaixo, achavam-se as àrvores frondosas de St. Jame's Park.
Adiante, avistou a Câmara do Parlamento contornada pelo Tâmisa. O rio, fazendo sua rota em direção ao mar, parecia uma vertente de prata líquida sob o luar.
As luzes das pontes que o cruzavam refletiam-se em sua calma superfície.
Fitava o panorama embevecida, até que Gakupo indagou com voz branda:
— O que tudo isso significa para você?
— É lindo! A paisagem mais linda que já vi! — ela respondeu — É como... se tudo fizesse parte de minha vida... de minha alma.
Luka parecia falar consigo mesma, pensando em voz alta.
— É assim mesmo que eu esperava que você se sentisse — Gakupo replicou. — Tenho algo para lhe dizer... Luka.
— Sobre o quê? — ela questionou, os olhos ainda fixos no rio.
— Pintei alguns quadros — ele replicou — e meu professor, um artista bastante conhecido, elogiou meu trabalho. O que eu realmente desejo é viajar pelo mundo todo retratando paisagens magníficas como esta que tem a sua frente.
— Viajar pelo mundo?
— Quero pintar todos os cenários que me emocionarem, assim como este lhe proporcionou — ele explicou. — E então, pretendo compilar todas as obras num livro para que as pessoas, que não podem viajar, sintam o mesmo que eu.
Um silêncio se seguiu, após que Luka murmurou:
— É uma ideia... maravilhosa, mas você pretende partir e... sozinho?
— Não se você vier comigo — Gakupo respondeu em voz baixa.
Ela se virou para ele, os olhos arregalados e repletos de encantamnto sob o luar.
— Com... você? — murmurou.
— Não desejava ter mencionado isso agora — ele interveio —, mas é que me apaixonei por você desde o primeiro momento em que a vi. Pensei que, sendo jovem como era e conhecendo tão pouco do mundo, eu deveria dar-lhe a oportunidade de encontrar outros homens, viver outras situações.
Gakupo aumentou a pressão que exercia sobre o braço dela, até Luka sentir dor.
Em seguida, ele declarou:
— Mas não podia arriscar perder você.
Entreolharam-se um momento e Luka então indagou com voz tímida:
— O que... você quer... que eu faça?
Ele sorriu.
— Peço-lhe que se case comigo, querida. Posso não ser tão importante quanto meu primo Kaito, mas sei que nós dois compartilhamos a mesma filosofia sobre beleza e felicidade. O mundo vai ser muito mais bonito, com você ao meu lado.
Luka deixou escapar um grito de pura alegria.
Quando ela deu um passo na direção de Gakupo, ele a enlaçou com ternura. Estreitou-a em seus braços e a fitou detidamente.
Luka sentia como se as estrelas tivessem descido todas do céu.
— Adoro você, me amor — Gakupo confessou com voz rouca.
Ao beijá-la, ele teve o cuidado de ser delicado, sabendo que Luka era beijada pela primeira vez.
Para ela, as portas do céu acabavam de se abrir. Gakupo a conduzia para um mundo de beleza e amor com o qual sempre sonhara.
Quando ele levantou a cabeça, ela declarou:
— Eu... também o amo... eu não sabia que o amava até este momento.
Em seguida, Gakupo tornou a beijá-la e só restaram a lua, as estrelas e o amor.
—
Por volta das duas horas da manhã, os convidados começaram a ir embora.
Foi então que Miku percebeu que não via a irmã já há algum tempo. Era-lhe difícil, porém, em meio a tanta agitação, controlar os passos de Luka.
À medida que a noite passava, se deu conta de que lady Meiko não havia sido convidada, o que a deixou satisfeita.
Mas na metade do baile, quando Miku dançava com o conde, um criado se aproximou e disse:
— Há uma dama aguardando-o, milorde — ele anunciou — e diz que deseja vê-lo com urgência.
Por um momento, Kaito perguntou-se quem poderia ser. Porém, imaginando que seria um erro fazer perguntas a criados, ele foi até o hall.
A porta de entrada achava-se aberta e uma carruagem podia ser vista do lado de fora.
Ainda não imaginava quem podia ser, até descer as escadas. Foi quando reconheceu a libré do lacaio que se achava ao lado da porta da carruagem.
Ele a abriu e avistou lady Meiko usando um vestido que lhe realçava o corpo esbelto e tinha uma tiara de diamantes sobre os cabelos castanhos.
— Resolvi comparecer a sua festa, querido Kaito — ela informou — , mas estou esperando que me conduza para lá.
— Receio ser impossível — o conde replicou com voz fria.
— Mas por quê? O que você quer dizer com isso? — lady Meiko quis saber com indignação na voz.
— Em primeiro lugar, a festa não é minha — explicou com cuidado — e, como deve saber, meu pai ofereceu a recepção a fim de apresentar Luka aos amigos de seu pai.
— E o marquês, é claro, não me quer em sua festa! — lady Meiko concluiu com fúria na voz. — Mas essa é a sua casa também, e não me agrada saber que fui impedida de fazer qualquer coisa que lhe diga respeito.
Temendo que o lacaio ouvisse o que diziam, o conde resolveu entrar na carruagem. Ele se sentou ao lado de Meiko e fechou a porta em seguida.
— Agora ouça-me, Meiko... — começou.
Ela se atirou nos braços do conde e tocou-lhe o rosto num gesto desesperado.
— Oh, querido, querido — lady Meiko murmurou. — Quantas saudades senti! Por que se afastou de mim? Esperei-o durante toda a noite.
— Vamos falar do presente — ele replicou, não se sentindo disposto a ouvir lamúrias dela. — Como bem sabe, meu pai não a aprova. Sintou muito, Meiko, mas acho que não seria bem-vinda à festa que ele oferece a Luka.
— Deve ter percebido — lady Meiko tornou — que ele espera que você se case com aquela criança que nem das fraldas ainda saiu! Pode imaginar garota mais enfadonha do que Luka?
— Como já lhe disse antes — o conde contrapôs —, não pretendo me casar com ninguém, até que me veja obrigado a produzir um herdeiro. Além do mais, saiba que jamais me casaria com uma mulher que meu pai desaprova.
Lady Meiko afastou a mão que acariciava o rosto dele.
— Como pode ser tão cruel? — idagou. — Poderíamos ser tão felizes juntos!
— Não se isso vier a ferir meu pai — o conde respondeu com firmeza.
Ele estendeu a mão para a maçaneta da porta.
— Não posso me ausentar da festa assim, Meiko. Falaremos sobre esse assunto depois.
Quando terminou de falar, o conde abriu a porta e saiu da carruagem.
Lady Meiko ainda esperou que ele voltasse para lhe dizer boa-noite. Em vez disso, o conde galgou os degraus da porta de entrada e desapareceu dentro da casa.
Por um momento, ela pensou em sair correndo atrás dele e forçar sua presença na festa. Lembrou-se, porém, que o conde detestava mulheres que faziam escândalos em público. Seria um erro comportar-se mal diante do marquês e do amigos íntimos do conde que não a aprovavam.
O lacaio ficou aguardando instruções ao lado da porta.
Numa voz que soou grosseira até para si mesma, Meiko informou-lhe que caminho tomar. Iria para uma festa ruidosa e regada a vinho.
As mulheres presentes não pertenciam à mesma classe social que ela, mas àquela altura isso não tinha tanta importância.
—
O conde estava furioso no momento em que voltou para o salão de baile.
"Só mesmo Meiko", ele pensou, "seria audaciosa o bastante para tentar comparecer a uma festa a que não fora convidada".
Perguntou-se de que maneira poderia fazê-la perceber, de uma vez por todas, que o relacionamento deles terminara. Não era incomum para o conde perceber que de repente seus sentimentos por uma mulher se desvaneciam, transformando-se em pura indiferença.
Percebia agora que lady Meiko fora um erro desde o princípio.
Faria todos os esforços possíveis para evitar encontrá-la ou fazer amor com ela.
Ao entrar no salão de baile, o conde viu lady Hatsune retornando do jardim. Sua silhueta elegante destacou-se contra a escuridão.
O luar e a luz das lanternas chinesas refletiam-se em seus cabelos esverdeados, envolvendo-a numa aura de sonho.
Parecia que ela acabava de descer do céu.
Se mostrava tão adorável naquele cenário, que chegou á conclusão de que jamais vira mulher tão atraente e enigmática. Parecia respirar espiritualidade e pureza, como se fisseze parte de outro mundo.
Kaito se encaminhou em sua direção.
Quando a alcançou, teve a certeza de que ela era diferente de todas as outras mulheres que conhecera na vida.
—
Os ponteiros do grande relógio do hall indicavam três horas da manhã quando os últimos convidados saíram.
Todos agradeceram efusivamente ao marquês pela noite magnífica e divertida.
— Fico contente por saber que se divertiram — ele declarou a Miku.
— É claro que sim — ela enfatizou.
— Esta foi a festa mais maravilhosa que o senhor já ofereceu, papai — o conde elogiou. — Felicito-o pela organização e pelo fato de ter convidado as pessoas certas que Luka deveria conhecer.
— Muitos convidados lembraram-se de sir Kotaro — o marquês tornou. — Aliás, como alguém poderia esquecê-lo?
Ele fitou Miku e sorriu.
Naquele instante, ela lançava um olhar em torno do salão de baile, à procura de Luka. Achou bastante estranha a ausência da irmã. Ela poderia, pelo menos, ter se despedido das pessoas que tantos comentários fizeram sobre seu pai.
Miku estava prestes a falar sobre a ausência de Luka, quando a irmã apareceu acompanhada de Gakupo no atalho iluminado do jardim.
Caminhavam de mãos dadas, o que Miku achou bastante indiscreto.
Para sua surpresa, o casal continuou de mãos dadas quando de aproximaram do marquês.
— Ah, ei-los que chegam! — o marquês exclamou. — Havia várias pessoas desejando despedir-se de vocês.
— Sinto muito — Luka desculpou-se —, mas eu estava com Gakupo.
O marquês olhou para o sobrinho, mas antes que este dissesse qualquer coisa, Luka se adiantou:
— Oh, muito obrigada por esta festa maravilhosa, que jamais esquecerei! Esse foi o momento mais importante na vida de Gakupo e... na minha.
Enquanto falava, ela olhava para o homem amado
Miku já começava a imaginar o que havia acontecido, quando Gakupo declarou:
— Por favor, me dê os parabéns, titio. Luka aceitou se casar comigo.
— Casar-se... com você? — o marquês repetiu, surpreso.
Era óbvio que tal idéia jamais lhe ocorrera.
Em seguida, Luka se inclinou e beijou-lhe a mão.
— Por favor... abençoe-nos — ela implorou. — Estamos tão... tão felizes.
O marquês aceitou a situação com uma dignidade que Miku julgou inata.
— Então vocês pretendem se casar? — ele indagou. — Bem, esta é certamente uma grande surpresa para mim! Mas, é claro que lhes desejo toda a felicidade do mundo.
— Seremos muito felizes — Gakupo garantiu. — Vamos viajar pelo mundo todo e Luka vai ajudar-me com meus quadros e com o livro que sonho em escrever.
— Você já falou sobre isso antes — o marquês respondeu —, mas confesso que não levei a sério. Agora, com Luka a seu lado, sei que seus sonhos vão se tornar realidade.
— Ela terá grande participação nas minhas obras — Gakupo asseverou — e, como meu livro será um culto à beleza, dedicá-lo-ei a minha futura esposa.
Enquanto falava, Gakupo não tirava os olhos da amada. Havia tanto amor nos olhos dele, que Miku sentiu vontade de chorar.
Luka aproximou-se da irmã e lançou os braços em torno de seu pescoço.
— Diga-me que está feliz! — ela implorou. — Sei que você gosta de Gakupo. Ele... é o homem mais adorável que já conheci!
— É claro que fico satisfeita — Miku tornou.
Ela beijou Luka antes de se virar timidamente para o conde. E, como se entedesse o motivo de seu embaraço, ele replicou:
— Acho que Gakupo fez a escolha certa, tomando por esposa uma das mulheres mais lindas já conheci. E é bom que se casem logo, antes que Luka fique mimada demais com tantos elogios.
Enquanto falava, os olhos do conde brilhavam e Gakupo estendeu-lhe a mão.
— Obrigado, Kaito — ele agradeceu —, sabia que você entederia.
— Agora só precisa me dizer o que deseja como presente de casamento — replicou o conde — e é claro que papai dará a festa aqui e acredito que será tão maravilhosa quanto a desta noite.
Luka deu um grito de alegria.
— Fará... isso? — ela questionou o marquês. — Não haveria espaço para tantas pessoas em Worcestershire e, além disso, quero que seja meu padrinho.
— O que aceito com muita honra — o marquês tornou com um sorriso — e agora, crianças, acho que é melhor nos recolhermos. Eu, particulamente, estou exausto!
— Estamos todos muito cansados — o conde concordou —, poderemos conversar sobre tudo isso amanhã, e principalmente sobre o futuro casamento de Luka e Gakupo.
— Sim, vamos, vamos — o marquês interpelou.
Enquanto subiam as escadas, Miku perguntou-se se o marquês se desapontara com a súbita revelação. Porém, ela não podia deixar de pensar que Luka seria muito mais feliz com Gakupo do que com o conde.
Além do mais, ambos tinham a mesma idade.
Sabia também que Gakupo era uma pessoa simples e amável, que jamais ganharia a reputação do conde. Ele, no futuro, se tornaria lorde Lambton.
Enquanto isso, o casal podia se divertir sem restrições de títulos e exigências sociais. Mais tarde, sim, deveriam se preocupar em atender os requisitos inerentes à posição que Gakupo herdaria.
Quando chegou a seu quarto, Miku pensou que seus pais aprovariam aquela união com muita alegria. O marquês podia ter outras idéias, mas não pensara um só momento na felicidade de Luka. Sua única intenção fora a de arrancar seu filho das garras de lady Meiko.
"Preciso pensar em Luka", Miku disse a si mesma, "e cuidar para que nada atrapalhe sua felicidade."
Ela deixou escapar um suspiro profundo.
— Apesar de a sociedade não concordar comigo, sei que Luka jamais seria feliz como esposa do conde.
Pensou em sua irmã tendo contato com mulheres como lady Meiko e estremeceu. Sabia que Luka era jovem e inexperiente demais para lidar com mulheres fúteis e vulgares.
Para Miku, lady Meiko personificava todo o mal que podia existir num ser humano.
Gakupo beijou a mão de Luka e desejou-lhe boa-noite.
Num sussurro, ele confessou-lhe, em voz bem baixa, que ninguém pôde ouvir, que a amava.
Planejava passar a noite na casa do tio, já que seus pais moravam em Wimbledon, um pouco distante de Londres.
Quando ele se recolheu, Luka beijou a irmã e disse:
— Conto-lhe tudo amanhã. Por ora, é melhor obedecermos as ordens do marquês e irmos logo para a cama.
— É uma boa idéia — Miku ponderou. — Boa noite, querida, e que Deus a abençoe.
— Ele já me abençoou — Luka respondeu sorrindo. — Que mais podia ser tão maravilhoso quanto me casar com Gakupo?
Ela tornou a beijar a irmã e atravessou o corredor na direção de seu quarto.
Miku abriu a porta de seu cômodo e foi aí que percebeu que o conde havia chegado ao patamar da escada. Ela dirigiu-lhe um olhar rápido, antes de tentar fugir para o interior do aposento.
Porém, antes de conseguir seu intento, o conde a alcançou.
— Ficou desapontada? — ele quis saber.
Sem refletir, devolveu em tom de voz sério:
— Foi idéia de seu pai, não minha.
— Sei disso — ele respondeu —, mas imagino que, como toda mulher, deve estar imaginando que posição invejável Luka teria casando-se comigo.
Havia um tom de provocação na voz do conde.
— Pelo contrário — Miku defendeu-se. — Desejo que Luka seja tão feliz quanto seus pais o foram.
Ela fez uma pausa antes de acrescentar:
— A única coisa que desejavam era ficar juntos e isso é o que também desejo para Luka.
— E é isso que também deseja para você? — o conde questionou com voz grave.
— É claro que sim — replicou. — Você também deve desejar o mesmo, assim como qualquer pessoa no mundo. O amor verdadeiro não se compra, se conquista.
Havia fervor e sinceridade nas palavras de Miku. Porém, ela sentiu que havia falado demais.
Entrando no quarto, fechou a porta na cara do conde e, de pé, encostada na porta, ouviu seus passos ressoarem pelo corredor enquanto perguntava-se se havia sido muito rude.
Pelo menos fora sincera, ela disse a si mesma.
Como ele podia pensar que as emoções que experimentava por lady Meiko podiam ser classificadas de amor? A menos que Kaito fosse um grande tolo.
"Se ele observar o amor que une Luka e Gakupo", ela pensou, "vai perceber o que lhe falta."
Miku despiu-se depressa e enfiou-se na cama.
Quando assim o fez, descobriu-se pensando não na festa e nem em Luka, mas sim no conde.
Embora ele fosse tolo perdendo seu tempo com lady Meiko, Miku considerava-o o homem mais belo que jamais vira.
O conde destacara-se no salãod e baile.
Miku se surpreendera várias vezes admirando a elegância dele, que mal ouvira o que seu parceiro lhe dizia.
Pensou que o conde era uma anfitrião tão gentil quanto seu pai. Sua maior preocupação era que todos se divertissem e se sentissem à vontade. Para isso, dera atenção a todos que chegavam.
Durante a noite, ela notara que o conde dirigira a palavra a todos os convidados do marquês, sem distinção. Muitos deles eram seus parentes e bastante idosos para dançar. Por isso, conversava com eles o tempo todo oferecendo-lhes o máximo de sua atenção.
A conversa de Kaito parecia prender-lhe a atenção e diverti-los.
— Há um traço de cordialidade no conde, que o distingue de todos os homens que conheço — Miku admitiu.
Em seguida, ela se perguntou quem o marquês escolheria para futura esposa de seu filho, agora que Luka estava comprometida.
Ainda conjecturava sobre o assunto, quando adormeceu profundamente.
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