The Music Is In Our Veins - Interativa
2 Capítulo 1
Notas iniciais
Aquela escola era como um castelo renascentista, feito de mármore bruto e enfeitado com arabescos e ornamentos de vidro. Um dos projetos arquitetônicos mais excêntricos com o nome Theater Veins of Gold escrito em aço em cima das portas de vidro da entrada. Ao emergir no saguão imenso — feito de vidro, aço e arenito — os futuros alunos são recepcionados por uma jovem loura que está sentada atrás de sua mesa maciça. Ela era atraente e vestia um impecável terno azul marinho, e uma saia estilo lápis.
— Boa tarde, meu nome é Alexandria. – apresentou-se enquanto se levantava e arrumava o crachá que levava seu nome. – Vou lhes conduzir até o Anfiteatro.
Alexandria pegou sua prancheta em cima da mesa e fez sinal para que o grupo de cinco pessoas a seguisse, porém todos foram parados com o barulho da pesada porta de vidro sendo arrastada.
— Em que posso ajudá-los? – disse a loura, que tombou a cabeça para o lado, tendo uma visão melhor da garota de cabelos violeta e o moreno que a acompanhava.
— Boa tarde, eu sou Marie Claire e esse é meu irmão Jason. – a garota se enfiou no meio do grupo, puxando seu irmão pela mão. – Estamos esperando mais alguém? Se não, já podemos ir.
A recepcionista dedilhou a prancheta a procura dos nomes e continuou fazendo seu caminho, sem se importar se o grupo a seguia ou não.
— Marie e Jason Sweeney? – olhou por cima do ombro, e percebeu que o rapaz assentia a sua pergunta. – Atrasados. – cantarolou a palavra, enquanto rabiscava a sua prancheta com um sorriso indecifrável.
Marie arqueou uma sobrancelha e bufou baixo.
— Marie, o que você está fazendo? A mulher já não gostou de nós, não faça ela nos odiar — disse Jason, olhando para ela com os olhos semicerrados.
— Fica quieto, não é como se ela fosse me ouvir bufar. A não ser que ela seja uma bruxa ou uma criatura mágica da vida... É, bruxa combina melhor com ela — disse Marie, olhando seu irmão com um sorriso sarcástico.
— Como eu te aguento mesmo? — perguntou o garoto, revirando os olhos.
— Você não viveria sem mim, essa é a mais pura verdade — retrucou Marie, dando de ombros. Assim que eles entraram na sala de audições, a garota se sentiu desconfortável — Jason, eu não sei se quero estudar nesse colégio.
— O que? Olha aqui, você me fez passar poucas e boas para conseguir nos inscrever nessa maldita audição. Você vai tentar sim — disse ele, olhando para ela irritado.
— Dê uma olhada nisso tudo, é chique demais. Isso não é para nós, só somos pessoas normais — ela suspirou enquanto olhava para o irmão.
— Marie, isso vai ser uma melhor chance para nós, só acredite em mim — disse ele, sorrindo gentilmente e abraçando a irmã de lado.
O Anfiteatro era enorme, e parecia que toda a escola estava ali. Discentes e docentes. Todos os futuros alunos estremeceram assim que Alexandria se virou para eles com um sorriso felino lhe preenchendo os lábios pintados de vermelho.
— Aqui estão os crachás, números e tudo que vão precisar para a audição. – pegou um saco plástico, onde estavam as identificações de cada um. – Anastacia Monroe. Denis Ashby. Isabella Touss. Jason Sweeney. Joseph Grawndeck. Lucinda Scarlet e Marie Claire Sweeney. – quando chamou o último nome, a loura chegou próximo o bastante da garota para lhe sussurrar no ouvido: — Eu não sou bruxa, nem tenho superpoderes, mas quando você trabalha em uma escola de música é necessário ter uma audição impecável.
— Sejam bem-vindos a Europe Arts School. – disse a loura ao se afastar da garota, seus olhos de felina passaram por cada rosto apavorado e pararam no de Marie, por um minuto. – Boa sorte! Podem escolher um lugar.
Naquele gigantesco salão era possível fazer uma reunião da corte, ou até mesmo um show digno da Broadway. Seis fileiras de cadeiras acolchoadas desciam em formato de meia lua, na direita e na esquerda, deixando um espaço para o corredor e as escadas, estes que levavam até um luxuoso palco, ornamentado em cortinas de veludo vermelhas e detalhes dourados, assim como as luminárias e o grande lustre do salão.
— Ela realmente não gosta de mim — Marie sussurrou para Jason, assim que se sentaram lado a lado.
— Eu também não gostaria se fosse ela, você chegou atrasada e ainda a chamou de bruxa... É, eu não gostaria de você — respondeu ele com um tom divertido.
— Cala a boca – ela retrucou, revirando os olhos. Marie cerrou os dentes para não soltar um palavrão, ao ver número de apresentação. — Ela inclusive me deixou por último. Eu realmente estou começando a odiar aquela ratazana — a garota sussurrou e Jason somente riu, ele seria o antepenúltimo a se apresentar.
— Fica quieta e se acalma — disse ele, se sentando de um modo mais confortável.
Alexandria esperou com que todos estivessem acomodados e saiu do salão. Tudo o que se podia ouvir era o estacado do salto agulha em contato com o chão e o arrastar da porta ao ser aberta e fechada.
De repente, os holofotes sobre o palco se acenderam e as cortinas de veludo foram puxadas revelando a imensidão do local de apresentações.
Um burburinho se formou entre os alunos.
— Silencio! – gritou uma criatura alta e esguia, seu tom era agudo e podia ser ouvido do outro lado do Anfiteatro, mesmo que ele não usasse o microfone. – Boa tarde. – pigarreou, então, uma diminuta mulher de cabelos curtíssimos correu para junto dele levando uma taça cristalina de água.
O homem ajustou o microfone clássico a sua altura e deu duas batidinhas para se certificar que o objeto funcionava como devia.
— Boa tarde! Eu me chamo Anthony Gold e sou o diretor do Centro Acadêmico Europe Arts School, ou como chamamos EAS. Quero dar as boas-vindas para todos. Hoje é um dia especial para nossa instituição, pois além de estarmos iniciando mais um ano letivo, nós também estamos recebendo convidados. – tentou mostrar um pouco de entusiasmo com a noticia.
Anthony Gold, um frustrado representante da Broadway, que encontrou na Inglaterra seu refúgio e uma maneira de recomeçar. Seu porte não impunha autoridade alguma, já que era alto e magro demais, chegando a ser desengonçado. Porém, seu temperamento era marcante e não o deixava passar por despercebido. Rolavam boatos pelos cantos escuros de EAS que ele tinha relações com alguns professores e até ex-alunos. Naquela tarde, ele se vestira para a formalidade com um terno preto e uma gravata borboleta na cor bordô. Os cabelos castanhos estavam curtos, quase raspados e serviam como ornamento para a pele branquíssima junto com os olhos azuis, atentos e grandes como os de uma coruja.
— Como parte do Sistema de Integração do nosso Centro Acadêmico, hoje nós teremos audições para os ingressos de colegas não tão afortunados. – ele abriu um sorriso vasto e felino, que parecia ser normal por aquelas bandas. – Eu, junto de um grupo de professores, irei avaliar cada um. Veremos quantos serão os merecedores da bolsa integral. – o sorriso se desfez. – Quebrem a perna. – levou a mão aos lábios, soltando um risinho fino.
Anthony desceu do palco e se colocou em seu lugar no júri e o palco fora tomado por uma mulher.
Elizabeth era uma mulher corpulenta, com os cabelos ruivos que chegavam até as omoplatas, a pele era levemente corada e lisa, e seus olhos escuros reluziam como o ébano, seus lábios e a pele das bochechas eram rosados, talvez naturalmente. Vestida com uma larga camiseta da banda Red Hot Chilli Peppers – lembrança de um amor antigo –, uma saia de couro que lhe batia acima dos joelhos e uma bota de cano alto, nem aparentava ser uma professora de balé, filha de uma ilustríssima cantora de Ópera.
— Boa tarde. – disse a ruiva, que tinha um sorriso de poucos amigos e uma voz de derreter geleiras. – Todos sabem das audições que acontecerão hoje e nós teremos, até então, sete apresentações. – ela tinha uma prancheta nas mãos, assim como a que Alexandria carregava pelos corredores do colégio. – Avaliaremos desde o carisma até a desenvoltura vocal de cada um, com notas de um a cinco. As apresentações são em ordem alfabética, portanto, peço que os que irão fazer o teste se dirijam até aquela área ali.
[...]
— Qual o seu nome? – disse Anthony olhando, inquisitorialmente, para a menina no palco.
— Eu me chamo Anastacia, senhor. – sussurrou ela, ainda acanhada no meio de todo aquele esplendor.
Anthony pareceu analisar cada aspecto da morena, e não se agradou com o que vira. – Mostre-nos do que é capaz. – disse o diretor, se aprumando na cadeira, como o bom pavão que era.
Anastacia era uma garota baixa, com cabelos castanhos claros e olhos grandes e atentos, como uma coruja. Não ligava muito para moda, e muito menos para música. Gostava mesmo era de ciências e das coisas loucas da vida, mas sua mãe lhe obrigara a fazer a inscrição. Tudo graças a sua irmã gêmea, Dakota, que tivera um trágico fim no último inverno.
Dakota sempre foi a preferida na casa dos Monroe. Não era muito inteligente, mas aparentava ser a mais bonita das gêmeas e também era a mais carismática, de longe. Seu sonho era ficar famosa, e no final do ano quando descobriu sobre as vagas na EAS não tardou a se inscrever. Mas, o destino não lhe sorriu. A garota teve um ataque fortíssimo de pneumonia e acabou falecendo no último inverno.
Depois da morte de sua irmã, Ania foi obrigada a se inscrever para as audições, mesmo sabendo que aquele não era seu mundo.
— O que você está esperando? Nós não temos a tarde toda. – Anthony se levantou, e falou enquanto estalava os dedos, demonstrando sua pressa.
A morena fechou os olhos e respirou fundo, pedindo para que sua irmã – de onde estivesse – a ajudasse naquele momento.
Assim que a música começou a tocar, Anastacia sentiu o ar esvair de seus pulmões e perdeu toda a coragem que estava tentando adquirir. Abriu um dos olhos, e não conseguiu enxergar quase nada, mas não sabia se eram os óculos que estavam embaçados ou se sua visão que estava turva. Aquela altura já havia perdido a entrada da música, e quando pensou em cantar sua voz saiu semelhante a um grunhido de um animal machucado. Sabia que tudo estava perdido, mas lembrou do motivo de estar ali. Lembrou-se das vezes que ficara doente e Dakota a fizera dormir, cantando para ela. As lágrimas não tardaram a rolar, deixando aquele delicado rosto pálido, coberto pela vermelhidão.
Anastacia sabia que tinha que fazer aquilo, pela irmã, e mesmo fora de ritmo e de maneira desafinada ela começou a cantar Somewhere Over the Rainbow, do Mágico de Oz.
— Pare! – gritou o diretor, parecendo enfurecido, interrompendo a canção. – Você se acha digna de estar aqui? Nós dois sabemos que isso é uma loucura, então poupe os meus ouvidos e vá embora! – ele pegou sua prancheta de anotações e procurou o nome da candidata. – Anastacia Monroe. Carisma: Zero. Afinação: Zero. Escolha de música: Péssima, a Doroti está ultrapassada, a não ser que você seja uma garotinha de cinco anos ou a senhorita Leona Lewis.
A garota largou o microfone como se tivesse levado um choque, e cobriu a boca com as mãos para abafar o choro. Sentia os olhares sendo jogados em si, e ouvia o cochicho que se forma entre os alunos e professores. Queria se esconder, ou morrer, se fosse possível. Não estava preocupada por não ter sido aceita, mas tentava pensar no queria diria para sua mãe quando chegasse em casa carregando o fardo do fracasso.
— Próximo! – gritou Anthony, ainda impassível.
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