The Mission
21 Positivamente negativo
Notas iniciais
Rose Weasley
Não era minha intenção espernear e gritar a plenos pulmões negando o inegável. Não era uma escolha aceitar ou não, era o que estava imposto, não um caso em discussão. Não era minha intenção encolher-me nos braços de Scorpius Malfoy enquanto o mesmo afagava meus cabelos e secava minhas lágrimas, tampouco parecer tão fraca diante de alguém que não era totalmente confiável. Não era minha intenção, mas foi inevitável.
Naquela noite em questão, confesso, descontrolei-me. A pior notícia que havia recebido na vida fora dada após uma tarde agradabilíssima, regada de risos e trapalhadas. É, definitivamente, não estava preparada, de qualquer forma, não estaria.
Negação, aceitação, conformação e entrega. Por ironia do destino, os estágios de reconhecimento do sofrimento e do amor eram os mesmos, ou talvez não fosse tão irônico assim, já que o maior sofrimento do mundo vem com a perda um amor. Não importa se ele se foi por vontade própria, sacrificou-se, ou foi tirado à força, a dor é profunda e incurável em todos os casos e aferida, apesar de cicatrizar-se aos poucos, sempre deixa uma marca, quando se trata de perdas, um grande vazio. Primeiro Peter, agora meu pai. Quando o vácuo em meu peito começava a fechar-se, vinha uma noticia dessas para abrir um buraco negro em meu coração.
Não me recordava de meus gritos, mas sei que gritei, nem dos surtos, no entanto tenho plena consciência de que surtei. Apenas flashs da noite passada vagavam em minha mente.
– ENTREGUE-ME AS CHAVES DO CARRO AGORA, MALFOY. – exigia – EU PRECISO VÊ-LOS, MINHA FAMÍLIA PRECISA DE MIM.
Sim, eu estava disposta a abrir mão da missão, do meu emprego, de tudo.
Quando entrei para a base de recrutamento aos 18 anos me avisaram que passaria por situações como essa, que teria que me afastar de meus familiares e amigos em qualquer circunstância caso fosse intimada para uma função em campo. Na época não me importei porque toda a parentela parecia saber se virar muito bem sem minha ajuda, além de que não tinha amigos. Não me ocorreu que eles precisassem de mim, ou pior, que eu precisasse deles. Ninguém me liberaria por isso, não era nem para eu estar sabendo, afinal de contas, tratava-se da CIA, Agência Central de Inteligência, não uma empresa qualquer que levava em conta os desvios emocionais de seus funcionários. Apesar de todo peso que o agente Ronald Weasley exercia sobre eles, não seria sensato oferecer uma folga para mim, da mesma forma que não fora circunspecto continuar as buscas por ele.
Lembro-me que naquela noite Malfoy tentou reconfortar-me.
– Acalme-se, Rose sei que você consegue. Vamos lá seja forte. Volte a ser durona, Weasley. – sussurrava o loiro ao passo que eu apenas tentava controlar meus soluços.
– Dói tanto. – declarei com a voz embargada – Não consigo parar de sentir.
– Então sinta até que passe. Só se acalme e sinta, aqui, perto de mim. Vou cuidar para que você se cure dessa dor, não se preocupe.
***
Ainda doía quando despertei pela manhã com os olhos inchados e vermelhos, porém, ao olhar para Scorpius dormindo numa poltrona ao lado da minha cama, senti-me mais calma e tranquila. Assim como sua mãe, ele sabia fazer a dor passar.
– Já acordou? – indagou ao abrir os olhos e observar-me. Sua voz estava levemente embolada e rouca, uma combinação exótica, mas agradável, como licor e chocolate.
– Esteve vigiando meu sono?
– Mais ou menos. – respondeu levantando-se – Vou preparar alguma coisa para você comer.
– Não precisa, não estou com a mínima fome. – garanti – Pode voltar a dormir, deve estar cansado.
– Estou bem disposto, não se preocupe. Você vomitou ontem, precisa comer.
– Eu vomitei? – perguntei meio tonta.
– Sim. – afirmou – Quando tentou engolir a chave do carro para que eu não as pegasse.
Não admito que tenha passado por um constrangimento desses na frente dele, era pior do que eu pensava, provavelmente Scorpius teve de lidar com uma louca porque eu definitivamente estava insana e descontrolada. Sentimentos, quando engaiolados por tempo demais, explodem. Eu sou uma granada quanto a isso, aquelas em que o pino está quase escorregando e só basta um toque para que tudo vá para os ares.
– Me perdoe por qualquer coisa que tenha feito você passar. – pedi – É que não é fácil, sabe? Parece que está tudo..., que tudo vai... – faltavam-me palavras, fôlego, tudo, chegava a faltar-me até lágrimas. Todos os sentimentos que me faziam forte estavam cobertos por uma camada muito densa de dor, uma camada quase impenetrável.
– Nem tente se desculpar, eu não ligo de ter que cuidar de você. – assegurou – Não considere-se exclusiva, nem nada. É só uma das coisas que me sinto na obrigação de fazer.
– Sinto-me lisonjeada.
– Agora tenho que descer. Trago suas coisas num instante. – Scorpius desapareceu do quarto por alguns segundos até voltar apoiando-se em seu batente. – Prefere suco de mação ou laranja?
– Laranja.
– Okay, já volto.
Os minutos que seguiram-se da sua ausência foram silenciosos e reflexivos. Como pudera eu, Rose Weasley, ter me firmado a um sentimento por tanto tempo? Me agarrei à esperança de poder, quem sabe ver meu pai pela ultima vez. Eu realmente esperava encontra-lo vivo, embora não bem. Nunca pensei que ele voltaria em perfeito estado, estaria estragados física ou psicologicamente, quem sabe até os dois. Quem fica sumido por tanto tempo não volta com a cabeça boa, e mesmo que tenha mantido a sanidade em perfeito estado, teria que se desgastar imensamente numa viagem de fuga, porque se alguém pegou Ronald Weasley, este alguém não o largaria nunca. Meu pai era precioso demais para a família, e em outros sentidos, para os inimigos também. Era sua última missão, a última tarefa a ser cumprida, ele mesmo confidenciara-me em uma conversa que tivemos no meu apartamento. Foi quando entreguei a ele minha corrente, e ele me disse que era valiosa demais, e que a protegeria. Eu disse a ele que ela é quem devia protegê-lo, não o contrário, mas papai era teimoso e afirmou que sua última missão final não era capturar nenhum criminoso, sequer salvar o mundo, que faria como sua última tarefa algo bem mais interessante: trazer de volta meu colar. E ele viria, em perfeito estado. O problema é que não o receberia das mãos de quem queria que o trouxesse, de quem mais amava, de quem mais admirava, do homem que me ensinou valores além dos bons modos que a sociedade implantava e ordenava que seguíssemos. Não sentirei seu corpo abraçando-me e transmitindo-me conforto, nunca mais. E isso era o que mais me incomodava, era o que mais doía.
O meu celular tocou, e eu não estava disposta a atender. Deveria ser Thalia, com novas ideias de músicas, ou até mesmo sua irmã a procura de tonalizantes vermelhos.
Mesmo com nenhuma vontade de falar com quem quer que fosse, levantei-me da cama e desloquei-me até a escrivaninha ao lado da poltrona, onde o celular estava sobre. Número privado é o que estava indicado na tela, o que me espantou e me deixou curiosa ao mesmo tempo.
– Aqui é Elizabeth Parker, quem fala? – disse cautelosa após levar o aparelho próximo da minha orelha.
– Rose, é o Al – respondeu a voz do outro lado da linha.
Fiquei chocada. Como ele conseguiu a proeza de me ligar?
– Al, onde você está? Isso pode custar seu emprego, sua carreira, sabia? Desligue já este telefone, está grampeado, seu imbecil!
– Rose, acalme-se. Não vai me acontecer nada, eles sequer saberão. Estou agora mesmo na sala da segurança eletrônica, tenho dez minutos até que celular seja grampeado novamente.
– O que? Como conseguiu fazer isso, você não entende nada de tecnologia avançada, Albus. – tornei desesperada, ele não deveria estar se arriscando.
– Relaxa, Lysander está me ajudando. Ele aceitou na hora quando soube que era um favor para você.
Senti-me levemente aliviada. Lysander trabalhava na parte tecnológica da CIA há um bom tempo, e éramos amigos de longa data.
– Para que está ligando, afinal? Estou péssima, se quer saber. – soltei com a voz embargada.
– É exatamente por isso que liguei, Rose. É por isso que vim aqui no meu dia de folga, porque fui avisado de algo.
Neste instante Scorpius apareceu no quarto com uma bandeja apoiada nas mãos, a qual deixou sobre o criado-mudo ao reparar que falava ao telefone. Gesticulou querendo saber quem estava do outro lado da linha, respondi a mesmo modo e coloquei o aparelho no viva-voz.
– Sobre o que foi contatado, Al? – questionei receosa. Mais uma notícia ruim não, por favor, não.
– O exame deu negativo. – soltou – Não era o tio Rony – pela primeira vez na minha vida uma resposta negativa trouxe reações positivas. Ronald Weasley era osso duro na queda, não pode-se negar. Lágrimas escorriam pelas minhas bochechas sem que pudesse controla-las, mas desta vez não me importava mais, poderia chorar um rio inteiro e sequer me preocuparia porque elas eram de alegria. Sorria abertamente, e por incrível que pareça, Scorpius também, talvez ele realmente se importasse. – Fomos avisados de madrugada, então vim para cá o mais rápido possível, mas tive que esperar até a troca de turnos e Lysander demorou aparecer.
– Ele está vivo, então? – inquiri trêmula.
– O fato de não ser ele naquele rio não indica que ele está vivo. – alertou seriamente o moreno. – Contudo, agora nós acreditamos, Rose, todos nós. Tios, primos, amigos, nossas esperanças foram renovadas, Rosie.
Mal podia crer naquelas palavras. Mamãe, que há muito parecia ter desistido, Albus, que sempre tentara convencer a mim e meu irmão do contrário, tio Harry, tia Gina, todos eles, sem exceção, acreditavam.
– Eu nem sei o que dizer Al. – confessei – Obrigada, muito obrigada.
– Tenho alguns recados para você: sua mãe mandou dizer que te ama e que faz a maior fé em você. Seu irmão disse que espera que você volte logo para que possam viajar juntos de volta a Londres, e vovó Molly ordenou que você se alimentasse direito, porque voltou muito magrinha da última missão.
– Diga a eles que os amo muito, e que os recados estão anotados e muito bem guardados.
– No coração? – brincou fazendo-me lembrar de como falávamos um com o outro quando criança.
– No coração.
– Rose, não se esqueça que eu te amo, está bem?
– Nunquinha.
– Espero que Scorpius esteja dando conta de você, sua danada.
– Eu estou, fique tranquilo. – participou o loiro que até então estava calado.
Albus se despediu, disse que não poderia mais ligar, o que me deixou um pouco triste, porém conformada. Para quem nunca pode ligar, se arriscar assim uma vez que seja já vale muito.
Após tomar café junto de Scorpius, o loiro avisou que se deitaria novamente – agora em sua cama – a fim de descansar um pouco, pois suas costas doíam. Por fim, decidi que era melhor tentar pegar no sono também, afinal, a manhã foi agitada, mas nada comparada com a noite que se passara. Aconcheguei-me sob as cobertas e fiquei esperando que o sono viesse, até que um pensamento súbito preencheu minha mente: se o homem não era o meu pai, o que meu colar estava fazendo em seu pescoço?
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