The Mission
30 Hey, Charlie
Notas iniciais
Rose Weasley
“Sei que lhe comprei numa papelaria por menos de cinco dólares. Sei também que não passa de um monte de papel inútil com a capa bonitinha. Foi este motivo, porém que me levou a compra-lo. Sou como você: uma linda garota, mas oca.
Adquiri-o pois precisava de amigo para fazer minhas confidências mais profundas. Papai diz para eu não confiar em ninguém, e o obedeço porque sei o que ele faz com Edward quando esse o desrespeita e duvido que hesitaria em fazer o mesmo comigo só porque sou uma garota.
Preciso de você, Charlie. Sim, Charlie. Esse será o seu nome. O mesmo do garoto que conheci no jardim de infância. Meu único amigo. Não o vejo desde então. Ele costumava falar de um reino do qual eu era a princesa. Uma princesa morena, de óculos enormes e dentes tortos. Quando cheguei em Hogwarts não era mais assim. Papai transformara-me em sua idealizada princesinha loira de sorriso encantador. Ele nem me perguntou se gostaria de ser princesa deste reino de líderes de torcida e manicure três vezes por semana, contudo aprendi a me acostumar.
Espero que guarde meus segredos, Charlie.
Com amor,
Mel.”
– Estou me sentindo até um pouco culpada por julgá-la agora – confessei.
A verdade é que esperava por algo como “Olhe Diário, comprei uma roupa nova”. Será que todo mundo nesta escola não era o que parecia ser? Thalia não e revolucionária, Thifany não é burra, Edward não é filho do Lestrange e Taylor Foster não era gay. Agora descubro também que Melanie Lestrange não é uma megera total. Qual seria a novidade agora? Talvez o sol girasse em torno da Terra.
Scorpius havia imprimido as fotos que tiramos do diário original e as transformado num novo livro. Estávamos no momento analisando juntos este verdadeiro documento em plena madrugada de domindo.
– Quer continuar? – Scorpius perguntou ao meu lado no sofá da sala.
Assenti.
– Vamos procurar por palavras-chave, você sabe quais são. Qualquer coisa que envolva violência ou agressão deve ser avaliada.
Comecei a folhear as páginas preenchidas em tinta lilás com a minúscula caligrafia de Melanie.
– Pare, pare, pare. – alertou Scorpius – Acho que vi “arma”.
Parei para checar.
“Houve algo muito estranho por aqui hoje. Cheguei da escola um pouco mais cedo pois consegui uma carona com Bradley. É horrível quando seu carro está na oficina e seu irmão está usando o reserva. O pior é que nem posso tocar nos carros do meu pai e ele já fica nervoso. Voltando ao assunto: cheguei mais cedo da escola e vi meu pai em seu escritório com uma arma na mão. Temi que ele percebesse minha presença e corri depressa para o quarto. Ele não me seguiu, o que era bom sinal. É óbvio que poderia ser apenas para proteção, no entanto temos vários seguranças, para que ele precisaria de uma arma?
Consegui me acalmar durante o banho que Minerva preparou para mim. Ela é a única pessoa no mundo com quem não consigo ser rude. É também a única referência de mãe que tenho. Ás vezes sinto inveja de Edward, pelo menos ele conheceu a mãe.
Talvez um dia encontre a minha.
Com amor,
Mel”
– Uma arma não representa muita coisa – expus – Não é como se não soubéssemos que ele possui armamento pesado. Precisamos de algo que ainda não sabemos, e também de uma linha do tempo. Por que essa garota não pode colocar as datas?
– Talvez não achasse importante. – palpitou Malfoy – O caderno é dela, afinal.
Suspirei já perdendo as esperanças de encontrar algo de fato útil. Entreguei o amontoado de folhas a Scorpius.
– Procure algo que possa ser realmente proveitoso.
O loiro começou a passar as paginas vagarosamente, avaliando por alto trechos que pudessem indicar alguma prática ilícita do patriarca Lestrange.
– Rose, olhe isso. – chamou minha atenção.
“Charlie, Eddie não foi à escola hoje e eu sei a razão. Sei que papai bateu nele novamente. Eddie não me escuta e insiste a mexer nas coisas do papai sendo que o mesmo ordenou expressamente para nunca, em circunstância alguma tocarmos em seus objetos sem permissão. Nunca sei o que procura, mas é melhor que pare com isso. Minerva disse que dessa vez ele ganhou mais do que um olho roxo. Tentei visitá-lo, porém fui impedida pelo próprio.
O pior de tudo é que durante o jantar tive de fingir que não sabia de nada. Papai deu-me de presente uma pulseira de diamantes e eu sorri, mas não queria diamantes, queria ver meu irmão.
Com amor,
Mel.”
– O que este rapaz quer? – inquiri a mim mesma – Será que ele sabe o que o pai esconde?
– Me parece que ele tem certeza do que é, só não sabe onde encontrar.
Analisei o parágrafo mais uma vez.
– Ela gosta dele. – concluí – Melanie gosta do Edward.
– E Minerva também. – acrescentou – Vamos voltar ao trabalho.
Mais páginas passaram até que vi algo interessante.
“Essa noite tive um pesadelo. Havia um homem e uma mulher loira. O homem não tinha nariz e a mulher loira parecia estar protegendo um menino. Meu pai estava lá e eu via tudo. A mulher mandou o garotinho fechar os olhos e eu também fiz isso. Ouvi um barulho ensurdecedor, sei que era de uma arma sendo disparada e depois disso acordei. Não é a primeira vez que sonho com isso e tudo ocorre exatamente da mesma maneira. É o mesmo pesadelo e eu sempre acordo com o som do tiro. Espero que nossas conversas melhorem isso, Charlie.
Com amor,
Mel.”
– É Voldemort, não é?
– Sim. E isso não é um sonho, Scorpius, é uma lembrança.
– Então ela o viu?
– Sim. – respondi – Só tem uma coisa que não compreendo. A lembrança não é recente. Se fosse ela se recordaria. O choque a obrigaria a isso. Acho que é essa a razão dos sonhos, ela ficou chocada com a cena.
– E não faz tanto tempo que você arrancou o nariz dele. – completou o loiro – Você tem algum palpite?
Pensei numa resposta plausível. Forcei meu cérebro ao máximo para criar uma teoria que se encaixasse.
– Pode ser que ela tivesse a lembrança inativa. – comecei gesticulando – Ao encontrar Voldemort novamente a memoria se reativou e a imagem dele foi substituída na cena pela atual.
– Isso é possível? – duvidou.
– Possível é. – confirmei – Tenho algumas recordações dos meus pais da época de criança e nelas eles aparecem do jeito que são agora. Os mesmos tipos de roupas e cabelo.
– E onde ela pode tê-lo visto novamente? – indagou.
– Acho que a pergunta é: em que estado? Para que ela não se recordasse totalmente, pode ter sido numa ocasião em que estivesse em estado de sono ou até mesmo dopada.
– Vamos continuar procurando. – sugeriu – Talvez haja algo que esclareça isso.
Concordei retirando as páginas de sua mão e retirando do monte aquelas já lidas.
“Charlie, as férias estão no fim e que quero mais é que acabem logo. Pensei que a temporada na França fosse me animar, entretanto papai me mantém trancada no quarto do hotel e não me deixa sair nem por um decreto. O pior é que sonhei com o homem sem nariz novamente. Quero ir logo para casa e me livrar das lembranças dessa experiência em Paris.
Com amor,
Mel.”
– Ele tinha algo muito importante para resolver na França. – Scorpius exteriorizou antes de mim.
– Ou estava fugindo daqui e a levou consigo por medo de sequestrarem-na ou matarem-na no lugar dele. – manifestei.
– E o Edward?
– Ele por acaso deu algum indício de se importar com ele?
Malfoy negou. Continuamos nossa função.
“Charlie, ele me bateu. Me deu um tapa na cara porque disse que precisava da minha mãe. Agora tenho certeza de que preciso. Eddie diz que fui idiota por confrontá-lo dessa forma, que devo ficar calada para me manter segura. Não entendo o que ele quer dizer, mas sei que seu desejo é me proteger, portanto acato seus conselhos.
Com amor e um pouco de dor,
Mel.”
– Covarde! – acusei ao terminar de ler enquanto amassava a folha de papel em minha mão – Ela é só uma menina. Uma menina frágil e indefesa que só queria saber da mãe.
– Lembra-se que não se pode bater numa mulher nem com uma flor? – o loiro citou – E ela é tão jovem.
Entendia um pouco a dor da garota, apanhar de um homem aos dezessete anos era mais do que ela poderia aguentar. Rabastan era um monstro completo que não poupava a própria filha. Indignada, parti para o outro parágrafo.
“Eu vi um homem morto, Charlie. Vi sua cabeça decepada no meu jardim com o que me parecia ser todo o sangue do mundo em volta, eu vi. Edward também viu e veio ao meu quarto saber como eu estava. Eu não estava bem, e ainda não estou. Ele me fez jurar que não contaria ao papai e eu não contei, mas só porque me abraçou e fazia muito tempo que alguém não fazia isso de verdade, com carinho.
Ele é meu irmão, Charlie, e eu confio nele.
Com amor e muito assustada,
Mel.”
Agora sim algo relevante. Um assassinato na mansão.
– Quem você acha que foi? – questionou Scorpius curioso.
– Há inúmeras possibilidades, esse pessoal mata por qualquer besteira.
– Ela deve ter surtado, não acha? – referiu-se a Melanie.
– Sim, – concordei – no entanto teve ajuda. – apontei para a parte do texto referente ao abraço.
Scorpius sorriu.
– Acho que irmãos servem para isso, afinal. – divaguei – Por mais estranhos que sejam e apesar das diferenças acabamos nos apoiando sempre. Sinto muito por você não ter podido experienciar isso.
– Não se preocupe, você faz um ótimo papel de irmã.
Sorri para ele enquanto folheava as páginas decoradas. Algo me chamou atenção. Cheguei mais perto para poder ler o que estava ali.
– Que merda é essa? – praguejei.
Scorpius chegou mais perto para ver do que se tratava.
– Rose, só porque ela disse que sou lindo não precisa ficar com ciúmes. Tem Malfoy para todo mundo. – brincou não dando atenção à gravidade da situação.
– Não estou falando disso, seu ridículo. – me irritei – E sim disto.
“Charlie, as aulas começaram novamente e o novo garoto é um gato, parece até mais velho. Sarado, alto, loiro, amei! Ele tem uma irmã e as roupas dela são incríveis. A princípio até pensei que Edward havia se interessado por ela, porém esse negou. No fim disse que já a conhecia e que seria nossa “Rosa da Salvação”. Não sei o que isso quer dizer, nem ousei perguntar, só espero que signifique algo bom.
Com amor e empolgada,
Mel”
Malfoy de repente me pareceu mais branco que o habitual.
– Não é possível que ele tenha me visto, ou pior, que me conheça.
– Você se lembra dele?
– Claro que não. – assegurei – A não ser que...
Não era possível, não pode ser. Se bem que aquelas pintinhas no pescoço me lembravam alguém. Subi as escadas correndo para o meu quarto, ignorando completamente os protestos de Scorpius. Precisava pensar, precisava ter a confirmação de que era mesmo quem eu pensava que fosse. A idade batia, a cor de cabelo, os olhos, as benditas pintas no pescoço.
Por um lado estava feliz, finalmente o encontrara mas por outro sentia-me apavorada. Então era esta a sua vida? Um Lestrange?
Deitei-me na cama para pensar melhor numa forma de conseguir a informação que tanto precisava, e já imaginava como.
– Bom dia, Rosinha. – desejou Scorpius em tom de ironia.
– Me desculpe, por favor. – pedi culpada – Precisava pensar.
Me juntei a ele para o café da manhã. Com tanta variedade na mesa, peguei apenas uma maçã. Do jeito que estava ansiosa meu estômago rejeitaria qualquer coisa a mais que ingerisse.
– Você parece meio...
– Nervosa?
– Eu ia dizer elétrica, mas nervosa também serve. – disse – O que está planejando?
– Você será o primeiro a saber, mas não posso contar ainda. – declarei encarando a maçã – Precisamos ir agora para o colégio. – avisei.
– Ainda temos meia hora. – argumentou.
– Precisamos chegar antes. Confie em mim.
Hesitante, ele pegou a chave do carro e eu o segui. Percorremos todo o caminho em silencio. A expectativa era grande demais. Tinha que ser ele.
Como o previsto, chegamos em Hogwarts um pouco antes do horário habitual. Poucos alunos estavam na entrada àquela hora, no entanto o que me interessava era quem estava lá dentro. Percorri os corredores com Scorpius a meu encalço. Parei ao alcançar a porta do Laboratório de Química. Era segunda-feira, dia de decidir quem ficaria com as chaves de lá pelo resto da semana, era mais que óbvio que ele estaria ali.
– Bom dia meninos. – cumprimentei.
Os olhares dos nove garotos ali presentes se voltaram para mim. É, o Malfoy tinha razão, eles me encaravam como se fosse um pedaço de carne.
– Será que podem me dar um minuto com o Lestrange? – pedi simpática.
Os garotos acataram, lançando olhares furtivos a Edward. Ao passarem por mim, lancei um sorriso a cada um, eles pareciam ter ganhado o dia com isso. Esperei que virasse o corredor para dar continuidade ao que havia planejado.
– Tranque a porta. – pedi para Scorpius, que obedeceu prontamente.
Edward sorriu educadamente para mim, no entanto vi seu sorriso vacilar ao notar minha fúria. Scorpius observava tudo de longe, pronto para interferir caso necessário.
Segurei o ombro esquerdo do garoto com uma mão e com a outra forcei seu pescoço, atravessando a sala até a parede mais próxima. O moreno tentava sem sucesso desvencilhar-se de mim, contudo eu estava obstinada a concluir o meu plano. Prensei-o contra a parede forçando ainda mais minha mão sobre seu pescoço.
– Diga o meu nome. – ordenei com a voz firme.
– Elizabeth Parker. – respondeu com a voz falha, já estava sem ar.
Enforquei-o um pouco mais. Uma hora ele teria que falar.
– Acho que não ouviu direito, eu mandei que dissesse o meu nome. – repeti calmamente, porém ainda firme – Vamos logo, estou esperando.
Ele estava roxo. Vi Scorpius se aproximar, estava a ponto de pedir que eu parasse.
– Rose. – falou quase inaudível, totalmente sem fôlego. Afrouxei levemente o aperto para que ele inspirasse um pouco mais de ar – Seu nome é Rose Weasley.
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