The Mission
20 Encontrado
Notas iniciais
Rose Weasley
Comparado ao início conturbador da semana, os últimos dias até que foram tranquilos. O sábado chegou e trouxe com ele sol e calor, embora o vento estivesse soprando forte. O verão estava chegando a seu fim e as folhas douradas já começavam a se desprender das árvores. Havia me esquecido de fechar as persianas na noite anterior e isso resultou em um incômodo causado logo cedo pelos raios de sol refletidos em minha janela pouco depois das oito da manhã. Espreguicei-me frustrada por ter sido tirada à força da terra dos unicórnios com chifres comestíveis sabor chocolate. Sempre levei muito a sérios a frase que mamãe me dizia todas as noites. Tenha doces sonhos, desejava ela.
Levantei-me, cuidei da minha higiene e vesti-me adequadamente e desci para o primeiro andar a fim de preparar o café pois apostaria todos os meus relógios que meu colega loiro estava em seus aposentos desfrutando de um sono tranquilo e sem a interrupção da luz solar. Deixei a cafeteira funcionando e as torradas preparadas e encaminhei-me até o quarto do meu colega na intenção de acordá-lo de uma forma sutil e carinhosa.
– SCORPIUS MALFOY, LEVANTE DA CAMA AGORA MESMO – exclamei enquanto esmurrava a porta – ANDA LOGO, EU NÃO TENHO O DIA TODO! SAIA JÁ DESTE QUARTO ANTES QUE EU...
– Cale a boca, sua doida – rugiu o loiro mal-humorado ao sair do cômodo com a cara amassada e sem camisa.
– Que bom que acordou – comentei com um sorriso cínico – O café já está pronto, vamos descer?
Malfoy analisou-me confuso.
– Creio que não esteja em seu estado normal Weasley, aliás, que horas são?
– Já passou da hora de acordar.
Ele bufou, mas quem disse que tal gesto me incomodou? Despertá-lo era essencial para a função que teríamos.
– A casa precisa de limpeza – constatei o óbvio.
–Nisso eu tenho que concordar – declarou a contra gosto – Será que a CIA consegue alguém de última hora em pleno sábado?
– Consultei a Central ontem. Disseram que o pedido está fora dos padrões mas faria o possível para ajudar.
– Em outras palavras, temos que nos virar.
– Basicamente, é isso aí. Podemos só organizar as coisas , limpar o banheiro e o resto vemos depois.
– Pensei que fosse mais perfeccionista, Srtª Weasley. Pelo que o Albus fala de você, parece que tem mania de organização – caçoou.
–Sim, eu gosto das coisas em seu devido lugar, diferente de você. Segundo o Al, sua empregada quase morre asfixiada toda vez que vai ao seu apartamento.
– Aquele fofoqueiro – resmungou Scorpius.
– Pois é, como a vida dele é um tédio, ele prefere divagar sobre nós dois – concluí revirando os olhos.
– É melhor descermos antes que eu desmaie de tanta fome – sugeriu o loiro me encarando pensativo – Ou pior, antes que você decida me empurrar escada abaixo.
***
Após o café da manhã, a limpeza e as eventuais discussões, concordamos em descansar um pouco. O relógio já marcava meio-dia e, segundo o combinado, Thalia chegaria às duas.
Durante o período em que eu e a garota estivéssemos ensaiando, Malfoy sairia de casa para deixar, não a mim, mas a loira mais confortável. Pedi a ele que deixasse uma salada pronta antes de sair, algo mais leve, principalmente porque estamos em treinamento, e, querendo ou não, tenho que mantes a forma. Espero que essa coisa de líder de torcida me auxilie pelo menos nisso, assim não passarei por este vexame sem ganhar nada. Imagine só: Rose Weasley, líder de torcida. O que a minha família diria sobre isso? Francamente, não faço ideia, porém não posso me prender à opinião que eles poderiam vir a ter. Sou Elizabeth Parker agora, Rose não tem nada a ver com isso.
***
Estava deitada tranquilamente no sofá da sala vendo desenho animado e quase cochilando quando sou interrompida.
– Ruivosa, a louça é sua – anunciou Scorpius – Já cumpri minha missão na cozinha.
– Se aquilo estiver revirado vou fazer você limpar com a língua – avisei – E que diabo de apelido é “Ruivosa”?
– Uma mistura de ruiva e nervosa – explicou – É a sua cara.
– Você vai ver só o que é a sua cara quando eu enchê-la de bofetadas – esbravejei – Isso assim que a minha preguiça passar, é claro.
Fiquei enrolando na frente da TV por um bom tempo. Thalia chegou alguns minutos após o horário combinado.
– Me perdoe pelo atraso – pediu assim que abri a porta – Tive uma videoconferência agora a pouco com o pessoal da Armada via Skype e acabamos perdendo a noção do tempo.
– Sem problemas – garanti convidando-a para entrar.
Scorpius, que estava há um bom tempo enfurnado em seu quarto, apareceu na sala.
– como vai Thalia? – cumprimentou-a assim que a viu – Me desculpe a falta de modos, mas estou de saída. Espero que não se importe.
– Tudo bem, vá tranquilo.
Malfoy saiu e nós duas ficamos nos encarando. Resolvi quebrar o silêncio.
– Sabe como os testes são feitos? – inquiri – É exigido algum padrão, movimentos específicos ou algo do tipo?
– Não. Na gestão de Dumbledore isso era comum, porém, por questões envolvendo uma certa Lestrange, as instruções foram revogadas. Atualmente só temos que fazer a coreografia de alguma música para que Glenda, a professora de Educação Física e treinadora da equipe, avalie sua coordenação.
– Quer dizer então que as Ninfas não exercem influência alguma sobre os testes.
– Sobre os testes não, já sobre a professora.... – deixou subentendido. É claro, nem todos os professores são honestos e corretos. Dolorrores que o diga – Além do mais, tem a segunda etapa e essa é a capitã das líderes que coordena, nesse caso, a Melanie. As inscritas são submetidas a uma espécie de iniciação onde passam por provas disciplinares e seus saltos, equilíbrio e força são avaliados – explicou – Foi por isso que avisei antecipadamente que não passaria. É impossível.
Impossível. É incontável a quantidade de coisas que eu fiz e que eram taxadas impossíveis. Pular de um avião sem paraquedas, emergir de um lago congelado no qual fui jogada amarrada, ser golpeada em partes letais do corpo. Passar por tudo isso e ainda sobreviver para contar a história parecia impossível, no entanto, não estou aqui viva e saudável?
– Impossível é uma palavra inexistente em meu vocabulário, portanto, exclua-a do seu também. Erga a cabeça, vamos procurar uma coreografia e treinar bastante.
A garota assentiu mais confiante. Peguei o notebook disponibilizado pela CIA exatamente para uso de outras pessoas além de Scorpius e eu e dei início à busca. Agora, mais do que e favor da missão, estava determinada a passar no teste junto de Thalia e dar uma lição naquelas garotas mimadas.
Scorpius Malfoy
Optei por anda pelas redondezas enquanto as meninas ocupavam a casa. Passar um tempo ao ar livre nem é tão ruim assim. Okay, é ruim sim. Gostaria de estar em casa nesse momento, de preferência dormindo e na minha casa de verdade. Não sei onde estava com a cabeça quando resolvi entrar para a CIA.
Caminhava pela calçada quando ouvi um assovio. Parei abruptamente. O que seria? Não parecia ser de origem animal, mas vinha de um dos arbustos que cercavam a passarela de concerto, disso eu tinha certeza.
– Scorp, aqui – sussurrou a voz.
Analisei por um instante. Eu conhecia aquela voz. Após dois segundos algo acertou minha cabeça e eu vi uma pedrinha caindo no chão. Segui a direção da qual ela poderia ter surgido e dei de cara com meu melhor amigo encolhido numa moita.
– Albus, o que está fazendo aqui? – perguntei espantado enquanto o ajudava a sair de seu esconderijo – Sabe que não podemos manter contatos pessoais durante as missões que envolvem disfarces.
– É, eu sei – disse exasperado voltando para a calçada – Acontece que se trata de um caso muito grave.
Examinei-o melhor. Suas roupas pareciam ter sido mastigadas por um lhama, cuspidas por ele e depois trituradas num liquidificador. A barba estava por fazer e seus cabelos que se mantinham milimetricamente bagunçados agora estavam desleixadamente bagunçados. Realmente, algo grave aconteceu.
– Vamos sair daqui – sugeri. Nós teríamos uma longa conversa pela frente.
***
Há três quarteirões dali, o carro de Albus se encontrava em frente ao que me parecia um parque de diversões abandonado.
– Por que estacionou tão longe? – perguntei ofegante devido à corrida feita até ali.
– Tive medo que pudessem me rastrear, essa é uma distância segura – respondeu referindo-se à CIA – Fiquei esperando por vocês a manhã inteira, não me aguantava mais de agonia. As câmeras de segurança da parte externa da casa estão sob a supervisão do pessoal. O áudio pode ser horrível, mas em compensação a visibilidade é ótima. Tive que resistir várias vezes ao impulso de correr até lá e bater na porta.
Albus destravou o alarme e entramos no carro. Ele no banco do motorista e eu no carona. Ligamos o ar condicionado para amenizar a temperatura.
– E o que te levaria a fazer isso? – questionei preocupado – É a minha mãe ou meu pai, aconteceu alguma coisa com eles?
– Relaxa cara, a família Malfoy nunca esteve melhor – permiti-me suspirar aliviado – O problema é com o lado Weasley da força.
Algo me dizia que Rose Weasley não receberia uma boa notícia hoje. Minha preocupação voltou com pressão maior.
– O que ouve? – quis saber mesmo que receoso.
– Um corpo foi encontrado boiando no Tâmisa – o moreno respirou fundo – Isso assustou os turistas e a história repercutiu bastante. Nossa Central foi informada imediatamente quando removeram o cadáver da água e constataram que era um agente nos nossos. Ele estava com o uniforme.
Temia que aquele corpo era de quem eu imaginava. Vi que Albus sentia-se desconfortável e claramente abalado emocionalmente, contudo, continuou.
– Os dedos estavam mutilados e o rosto desfigurado, além disso, o indivíduo já apresentava um certo estado de decomposição, a perícia acredita que ele foi mantido submerso num tanque ou em uma piscina até decidirem se livrar do corpo. Se ele estivesse em contato com a água corrente por todo esse tempo estaria muito pior – meu amigo lutava contra as lágrimas que, teimosas, insistiam em escorrer por seu rosto, o que o fez fungar antes de concluir – Apesar das dificuldades, foi confirmado que se tratava de um homem forte, alto, cerca de 1,90 metros e ruivo.
– Al, isso não quer dizer que seja necessariamente quem pensamos que seja.
– Não, isso somente não comprovaria nada – concordou – Só que Roxy e eu fomos chamados para tentar identificar o corpo, como se fosse possível – soltou um riso de escárnio – Nós não conseguimos ver marca de nascença alguma, nem sabíamos se ele tinha, também fica complicado quando a única coisa que podemos ver são fotos e mais fotos. Mas depois, quando apresentaram os objetos encontrados com ele nós reconhecemos um. Era uma corrente, nos disseram que estava no pescoço dele e tinham as iniciais R. W. gravadas atrás.
– Ronald Weasley – deduzi.
– Não, Rose Weasley – corrigiu-me – Se tratava do colar que o pai de Rose deu a ela em sua formatura, quando ela tinha 17 anos. Sempre que o tio Rony saía em alguma missão ela pendurava o cordão em seu pescoço e alegava que era para sua proteção. Quando ele voltava, ela tomava seu objeto novamente. Rose não vê seu colar há mais de dois anos.
– Agora terá ele de volta – concluí.
– Não da forma que ela esperava mas, é, ela terá.
Nos afundamos num silêncio confortante, de certa forma. O pesar pairava sobre nós.
– Você podia trazê-la até aqui – sugeriu Albus – Tenho que contar isso a ela.
– Não, não tem – assegurei – Eu faço isso. Seu emprego está em jogo, não se arrisque mais.
– Isso é o de menos – retrucou – Não vai querer ver a fortaleza Rose Weasley se desfazendo.
– Eu já vi, eu aguento.
– Seja lá o que você tenha visto de fraqueza na Rose, isso não é nada comparado ao que virá – alertou.
– Estou preparado. Vou garantir que ela não surte.
Saímos do carro e no lado de fora Albus me envolveu num abraço apertado agradecendo-me sem parar.
– O exame para a confirmação deve ser feito amanhã – anunciou – Eles não tinham material genético para comparar e como os dedos não ajudariam para as impressões digitais neste caso, demorou mais do que o esperado.
– Eu sinto muito.
– Eu sei. A família inteira se mobilizou. Estamos trabalhando para que Rose seja liberada ao menos para as cerimônias fúnebres. Apesar de aposentado, papai ainda exerce grande influência por lá, e está nos ajudando.
Em todos estes oito anos de amizade eu nunca tinha visto Albus tão triste, porém entendo. Ronald era seu tio referido. O melhor amigo de seu pai, o irmão mais presente de sua mãe, e como melhor amigo de Rose, ele sempre esteve ali, rondando a família junto de seus irmãos. Lembro-me de Al me falando das trapalhadas de James, das fotos que Lily obrigava Hugo a tirar deles, da inocência, do amor, da união. Lembro-me sem ter vivido.
– No fim das contas, Rose tinha razão – disse ele. Encarei-o curioso – Tio Rony esteve vivo esse tempo todo. Uma semana apenas, é esse o tempo que faz de sua partida, e nós desacreditamos tão cedo.
Dito isso, Albus despediu-se de mim, arrancou o carro e partiu. E eu fiquei.
Caminhei a passos lentos pensando numa maneira pouco angustiante de comunicar a Rose o falecimento de seu amado pai. Não encontrei. Amargura, arrependimento, culpa, dor. Ter acreditado ou não que ele estava vivo não faria diferença de qualquer forma. Todos sentiriam isso, era inevitável.
De uns dias para cá, o meu respeito por Ronald Weasley só havia crescido. O jeito como Rose falava dele e relatava seus feitos me impressionou. Todas as vezes que a Weasley o citava, seus olhos brilhavam, seja pela dor de sua ausência ou pelo fascínio por seus atos. A moça me confidenciou ter herdado muito de seu herói. Tal qual o pai, Rose tinha os cabelos ruivos. Embora tenha adquirido os olhos amendoados da mãe, alegava que imitavam a forma do de Ronelad. Além do mais, sua impulsividade provinha dele também, o que ela considerava um bem precioso, já que, segundo ela, diante de algumas situações agir racionalmente não é uma opção. E eu estava diante de uma dessas situações. Não existe preparação para noticiar a morte de um ente querido, seja qual for o grau de parentesco ou o tempo de convivência. Se aquela pessoa tocou seu coração, sentir sua partida é sempre um martírio. Não existe um escudo para repelir o sofrimento sequer de si mesmo, imagine o alheio. Temos que aceitar a dor e aprender a conviver com ela, só assim tiramos proveito das piores situações, só assim aprendemos a nos fortalecer diante da dor.
Não fazia ideia de como a Weasley receberia a notícia. A única certeza que eu tinha era da dor e do sofrimento. Por mais que não fossemos grandes amigos, estaria ali para apoiá-la, ampará-la e cuidar dela. Não sabia se ela proferiria ofensas a mim ou a quem quer que fosse, ou se quebraria objetos pela casa como uma ursa selvagem. Havia a possibilidade dela se manter quieta, cada um reage de uma maneira diferente diante da dor, portanto, se eu fosse útil na missão de apaziguar a sua, para mim, teria completado meu dever com louvor.
Antes de voltar para casa, passei num mercado e comprei guloseimas, sei que Rose gota de doces, talvez eles ajudem, não custa nada tentar. Enrolei por lá até anoitecer, não queria chegar lá e topar com Thalia.
***
– Olá – disse assim que adentrei no recinto.
Rose estava parada de pé ao lado do sofá apoiando-se no mesmo e estava suada.
– Ei, ainda bem que chegou, estou tentando aproximar o sofá da TV, é incômodo às vezes – bufou e olhou para as sacolas em minhas mãos – Você fez compras? Mostre o que trouxe.
Só então percebi que estava paralisado. Despertei do transe causado pela apreensão que sentia.
– Er... é só sorvete, chocolate, você sabe, coisas não-saudáveis – tentei transmitir um tom de normalidade na frase.
Ela abriu um sorriso vindo em minha direção. Deus, estragar seu sorriso e acabar com seu entusiasmo não seria tarefa fácil, gostaria de não ter que fazer isso.
– Trouxe jujubas? – perguntou tomando as embalagens dos meus braços e investigando o conteúdo delas.
– Claro, não me esqueceria delas.
– Vou guardar tudo na cozinha – disse indo em direção ao local – Nós nos divertimos muito por aqui, não conseguíamos fazer nada direito no inicio, ficou tudo uma trapalhada só – gritou de lá.
– Sério? Legal – falei sem entusiasmo.
Quando voltou, seu rosto transfigurou-se em preocupação.
– O que houve? Você está sério – comentou analisando-me.
– É que eu tenho uma notícia não muito agradável para lhe dar.
– O que aconteceu? – inquiriu ofegante.
– É melhor se sentar, Rose – avisei – É sobre seu pai.
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