The Mission
18 Acordo fechado
Notas iniciais
Rose Weasley
Estávamos na cozinha colocando a mão na massa – literalmente – quando decidi que era hora de iniciar a conversa sobre o teste, ou pelo menos amaciar as coisas a fim de introduzi-lo com tranquilidade mais tarde. Aproveitei que falávamos de musica para envolvê-la no assunto.
– Você gosta de dança, Thalia? – indaguei.
– Adoro dança – respondeu com ar sonhador – Quando éramos crianças, mamãe praticamente obrigava Thifany e eu a fazermos balé, só que o meio clássico não me agradava muito, ainda não agrada – comentou com uma careta de desgosto – Mas ainda assim desfrutávamos de diversas atividades extracurriculares.
– Faziam o que?
– Natação, ginástica, karatê, e eu ainda praticava leitura conjunta na escola aos sábados. Não era uma atividade que atraía muito a minha irmã.
– E do que você gostava mais?
– Da ginástica, com toda certeza. Todos aqueles saltos, piruetas e cambalhotas. Era um sonho fazer tudo aquilo, e era o que deixava mamãe ainda mais irritada comigo, pois fazia tudo isso na ginástica e no balé não me desenvolvia de forma alguma. Para ela isso era frustrante.
Lembro-me de quando mamãe tentou me colocar no balé e eu chutei a cara de praticamente todas as minhas coleguinhas ao tentar me alongar. Fui expulsa no primeiro dia de aula. Triste, é, eu sei.
– E por que não prosseguiu na ginástica já que aprecia tanto?
– Apesar de gostar tanto, ser ginasta não é exatamente o meu sonho, além disso, sempre coloquei o estudo à frente de tudo, não seria diferente logo agora, por isso parei de praticar há dois anos.
– É uma pena – lamentei.
– Concordo. Papai tenta esconder mas sei que se decepcionou comigo por ter abandonado todos os esportes. É claro que ele me apoia em todas as decisões sensatas que tomo, porém, essa em particular deve ter partido o coraçãozinho atleta dele.
– Ora, vejam só, temos um pai atleta aqui.
Thalia riu com minha brincadeira.
– Sim, ele era nadador. Ganhou prêmios, torneios e olimpíadas, no entanto optou por se aposentar quando fiz sete anos. Decidiu que era hora de parar de se aventurar nas piscinas e cuidar um pouco mais da família.
Nadador. Por que será que nunca ouvi falar nele? McMillan, McMillan. Sempre assisti aos jogos olímpicos com papai e Hugo, então por que não me lembro dele?
– Os fãs do seu pai não costumam atacar você e sua irmã?
– Não. Ele é muito reservado em relação à família, sempre protegendo suas filhas dos paparazzi, e também nunca usou seu sobrenome na carreira, preferia ser chamado de Ernest Henri. Claro que seu nome completo sempre saia em revistas de fofoca como uma grande descoberta, mas como ele faz parte de uma geração passada, geralmente o nome McMillan não chama atenção, nem mesmo quando Thalia pronuncia o nome do papai para que todos saibam a importância dele. Graças aos céus isso não provoca mais alvoroços, os que já presenciei já bastam – terminou com um suspiro.
Decidi dar aquele assunto como encerrado assim que reparei que as enchiladas estavam prontas. Qual é? Eu havia preparado praticamente tudo previamente para que não ocorressem atrasos. Liberei Thalia e pedi para que se juntasse a Scorpius. Pude ouvir de longe que os dois logo engataram numa conversa animada sobre tênis, foi a única coisa que consegui pegar antes de continuar a prestar atenção no alimento. Quando cheguei na sala com uma travessa lotada de deliciosas enchiladas os dois ainda conversavam sobre o mesmo assunto, entretanto, um nome chamou minha atenção. Quidditch.
Quidditch – artigos esportivos é o nome da empresa montada por Gina Potter e Angelina Johnson há cerca de quinze anos. Tia Gina era jornalista esportiva de um jornal local e Angelia – a quem chamo carinhosamente de tia Angie – treinadora esportiva infantil. Ensinava de tudo, vôlei, basquete, futebol. Tudo começou com uma pequena loja e em 2004 se expandiu de modo avassalador, fazendo com que a marca tivesse visibilidade mundial e fossem criadas centenas de filiais mundo afora. Thalia havia acabado de dizer “e assim surgiu a Quiddich, mas, por favor, guarde segredo” quando eu apareci. Pouquíssimas pessoas sabiam como a empresa surgiu, apenas os familiares mais próximos. Albus havia me contado porque mamãe e papai ocultaram tal informação dos filhos por anos. Segundo Al, um atleta podre de rico resolveu investir na Quidditch por achar a ideia interessante, principalmente tendo como fundadoras duas mulheres. Ele ajudaria as duas apenas por trás das cortinas, pois compartilhava da opinião de que os méritos adquiridos pela empresa se dariam através das donas. 2004, dez anos atrás. Thalia disse que o pai decidiu se aposentar quando ela tinha sete anos, se considerarmos que ela fará 17, quer dizer que o pai dela é o investidor misterioso da Quidditch? E se ela conhecer a família Potter? Ou pior, se ela souber algo da família Weasley? É óbvio que tia Gina e tia Angie saiam em revistas, entretanto, o máximo da família que também aparecia eram os maridos e filhos das duas, e ainda assim, Roxanne e Albus quase nunca davam as caras. Mas será que Thalia os conhece? Será que conviveu com eles de alguma forma? Scorpius pareceu ver o desespero em meus olhos, ele com certeza já sabia da história, Thalia havia acabado de contar.
– Você convive com as famílias das sócias do seu pai? – perguntou o loiro temeroso pela resposta.
– Não – respondeu a garota com uma breve risada. Aliviei-me – Mamãe morre de ciúmes delas. As reuniões são feitas apenas na presença de advogados e do marido de cada uma delas, e com Regina McMillan de olho em tudo – aproximou-se de nós e sussurrou como se estivesse contando um segredo – Não costumam manter relações pessoais, embora meu pai tenha me confessado uma vez que as admira muito pela coragem e determinação.
– Vamos atacar logo? – sugeriu o loiro desviando do assunto – Estou morto de fome.
– É pra já – concordei apoiando a travessa na mesa e servindo-os.
Durante a refeição conversamos sobre amenidades e enquanto tomávamos sorvete de sobremesa, assistimos a um filme muito adulto e sério: Enrolados. No decorrer do filme, Scorpius e eu bagunçamos o cabelo de Thalia e afirmamos com veemência que ela era a Rapunzel. No fim das contas, chegamos à conclusão que sim, Thalia era a Rapunzel, mas eu era a Merida e Scorpius/Josh a Cinderela.
Pelo fim da tarde, Scorpius saiu para fazer as tarefas escolares passadas no dia anterior, pelo menos foi essa a desculpa que ele deu. Depois de mais um pouco de papo furado, decidi fazer o anúncio à loira:
– Acho que vou fazer o teste para animadora.
– Sério? – Thalia parecia surpresa, mas ainda assim saudosa – Que bom, Elizabeth, é bom saber que terá uma pessoa legal por lá este ano.
– Sim. Acontece que tenho medo de me sentir sozinha por lá.
– Não vai, vejo que está se enturmando com as Ninfas, vai se dar bem – comentou. Sua voz um tanto abatida.
– O que diabos são essas Ninfas? – questionei exasperada. Já ouvi isso antes e ninguém me explica.
– São as animadoras no geral. Não só elas, mas todas as garotas que andam com a Lestrange.
– Ninfas?
– Belas e encantadoras. É, Ninfas.
Belas e encantadoras, não sei porque, mas sinto que esta não é a definição certa para descrevê-las.
– Não gosto delas – confessei. Droga Rose, a missão, foco na missão – São bem idiotas, não as suporto.
– Então por que convive com elas? – perguntou irritada.
– Você não entenderia. Falo sério, nem tenta.
– Não vou tocar mais nesse assunto. Você é legal, não tenho motivos para me irritar, só não compreendo.
– E quanto ao fato de eu querer virar animadora?
– Tudo bem, contanto que não use aquele uniforme ridículo o tempo todo.
– Prometo que não – afirmei cruzando os dedos – Só gostaria de ter você por lá.
A expressão da loira se transfigurou numa mescla de tristeza, raiva e rancor.
– Está zoando com a minha cara, né? – inquiriu e finalizou com uma risada irônica.
– Claro que não – afirmei – Só gosto de você, tenho simpatia por você e te acho uma pessoa interessante.
– Já é a segunda pessoa que me diz isso hoje. Não sei onde vocês veem tanto interesse, olhe bem para mim, sou tão comum quanto um floco de neve no Natal.
– Todos ficam felizes quando neva no Natal.
A garota engoliu em seco.
– Não vou fazer nada disso – decretou – As garotas da Armada não se misturam com as Ninfas.
Ótimo, mais uma palavra estranha. O que estes jovens de hoje querem? Montar um dicionário apenas com palavras misteriosas?
– O que isso significa? – quis saber.
– Não vem ao caso agora. O que interessa é que não vou me prestar a um ridículo desses – encerrou levantando-se e juntando suas coisas na mochila – Se é por isso que me chamou até aqui, acho melhor me retirar.
Apressei-me em segurar a segurar sua mão.
– Espera – pedi – E a sua irmã?
– Onde a Thifany entra nessa história?
– Não gostaria de mostrar a ela que pode ser mais do que ela mesma espera de você, que pode ir além das expectativas?
– Que tipo de expectativas você supõe que a minha irmã tem sobre mim? – inquiriu-me.
– Não sei se percebe, mas sua irmã faz de você um tapete para que ela pise – disse um pouco fora da linha. Alguém tem que dar a essa garota um choque de realidade – Quem faz as tarefas dela?
– Sou eu – respondeu envergonhada.
– E os trabalhos escolares?
– Eu.
– E o que você ganha com isso?
– Acho importante fazer o bem sem olhar a quem.
– Você não está fazendo o bem, está sendo explorada. Sei que não está satisfeita, você não é boba e nem burra – exasperei-me – Vi como ela te trata, ouvi como ela te chama. Acha mesmo que isso é justo?
– Você tem que entender, ela é minha irmã.
– Sim, contudo, te trata como tal?
A loira respirou fundo, procurando se acalmar.
– Ela não é sempre assim – explicou com sua voz habitualmente doce – Nós sempre fomos muito diferentes, mas nunca a ponto de trocar ofensas desenfreadamente, papai nunca permitiria – deu uma breve pausa, parecia ponderar a ideia de me contar sobre um assunto tão íntimo – Só que desde que entramos em Hogwarts e ela conheceu a Melanie e todas as outras, tudo mudou – suspirou – Em casa apenas nos ignoramos, mas na escola, bem, você viu.
– Você a ama – concluí – A ama como irmã, de um modo que ela não corresponde.
– Tanto que chega a doer, especialmente quando ela me esnoba.
Thalia beirava às lágrimas. Eu também fui humilhada no entanto, minha família sempre estava lá para me defender, principalmente Hugo, mesmo sendo ele o caçula. Thalia, porém era desmoralizada por alguém que deveria acolhê-la e confortá-la. Imagino o tamanho de seu sofrimento, sua dor, ao notar que a própria irmã preferiu seguir que não lhe amavam verdadeiramente a corresponder o carinho da caçula. Observava-a com tristeza e pena, sei que este último não é um sentimento bonito, mas de certa forma a situação de Thalia fazia com que recordasse de mim mesma nesta idade, quando o mais comum dos sentimentos ou sofrimentos criava um turbilhão se sensações dentro de mim.
– Eu nunca dancei em público – confidenciei – Será a primeira vez.
– Pensei que já fizesse isso há tempos – surpreendeu-se a loira, provavelmente suspeitando que eu já havia sido animadora antes – Por que fará o teste então?
– Porque sou corajosa e quero testar meus próprios limites – aproximei-me ainda mais dela – Sei que também é corajosa e pode lidar muito bem com isso.
A garota respirou fundo mais uma vez. Aquela situação parecia muito difícil para ela.
– Não serei aceita – afirmou.
– Só saberá se tentar. Por favor, faço qualquer coisa para que vá comigo.
– Qualquer coisa? – inquiriu pensativa.
– Sim.
– Qualquer coisa mesmo? – questionou com um sorriso malicioso nos lábios. Nota mental: até as mentes aparentemente puras são chantagistas.
– Desde que esteja ao meu alcance – apressei-me a acrescentar.
– Certo, lembra-se do que disse a você no primeiro dia de aula?
– Depende – respondi começando a ficar mais interessada.
– Você me perguntou se havia algo estranho ou suspeito na escola e eu te falei sobre a professora de História.
– Estou me recordando.
– Bem, como já comentei anteriormente, não sou a única a suspeitar das coisas por lá, então eu e meus amigos criamos um grupo para investigar o que está acontecendo, já que desde que o antigo diretor morreu e Lestrange ocupou sua vaga, Hogwarts não é mais a mesma.
– E descobriram alguma coisa? – indago verdadeiramente interessada, minha vontade era de chamar Scorpius para que ouvisse tudo o que Thalia contava.
– Nada muito relevante, entretanto ainda não estamos satisfeitos e queremos mais. Nosso desejo é desvendar o que há por trás dos professores desqualificados e misteriosos. Estamos em pequeno número, mas somos espertos. Queremos apenas que tudo volte a ser como era na administração de Dumbledore, por isso nos denominamos Armada de Dumbledore. É meio secreto, mas nos difere do restante dos alunos.
Isso é melhor do que eu esperava. Farei questão de esfregar todas essas informações na cara de Scorpius Malfoy para que ele dobre a língua antes de proferir ofensas aos nerds novamente. Só não havia compreendido ainda a minha relação com essa história.
– Entendi – declaro – Fico lisonjeada por você ter compartilhado informações da armada comigo, contudo, não sei como te ajudar. Sinceramente, não vejo ligação de nada disso a mim.
– Calma, estou quase lá – explicou com um sorrisinho – Como disse, todas estas investigações são meio secretas e nós da Armada costumávamos nos reunir numa sala cheia de quinquilharias lá em Hogwarts mesmo. O problema é que a direção resolveu decretar que qualquer grupo, seja ele estudantil ou esportivo, deveria ser repostado à diretoria, então passaria por uma vistoria e, caso fosse aprovado, passaria a receber acompanhamento didático.
– E como os professores não poderiam saber o que vocês discutiam, tiveram que parar com os encontros – deduzi.
– Exato. Até tentamos nos reunir em outros lugares, mas nunca dava certo. Eu ofereceria minha casa, porém com a Thiffy lá, fica difícil.
– Deixa eu ver se entendi – pedi – Você quer fazer as reuniões aqui em casa porque meu irmão e eu moramos sozinhos e assim os riscos seriam mínimos – especulei.
– Sim, e em troca eu aceito fazer o teste.
– Tenho que conversar com o Josh primeiro – enrolei. É óbvio que aceitaria, estas crianças estão praticamente fazendo nosso trabalho, a diferença é que não possuíam treinamento e nem equipamento.
Thalia concordou com um simples menear de cabeça. Subi as escadas em disparada e entrei com tudo no quarto de Scorpius sem ao menos bater na porta. Arrependi-me imediatamente quando observei-o estirado na cama apenas de cueca jogando vídeo-game.
– Hey, não se tem mais privacidade nesta casa? – protestou aos gritos. Fechei a porta atrás de mim ignorando seu ataque.
– Cale-se e me ouça – ordenei em tom baixo – Temos ouro nas mãos e não podemos perdê-lo.
– O que quer dizer com isso?
Sentei ao seu lado e resumi a história brevemente.
– É claro que podem se reunir aqui – exclamou ao fim do relato – Podem até morar aqui se quiserem, contando que nos incluam nestas reuniões.
– É claro que nos incluirão, Thalia não me contaria tudo simplesmente por contar.
– Eu até te daria os parabéns por esta conquista, porém, visto que não se esforçou nadinha para...
– Cale a boca – interrompi-o – Vamos descer logo antes que ela desista.
Saímos do cômodo descemos amistosamente até a sala, onde Thalia aguardava pacientemente uma resposta nossa.
– E então? – perguntou ansiosa.
– Por mim tudo bem – afirmou Scorpius – E acredito que a Lizzy compartilhe da mesma opinião – concordei com a cabeça.
– Podemos começar as reuniões na segunda? – questionou a loira.
– Contanto que os ensaios se iniciem neste sábado.
– Pode ser – concordou Thalia ainda desconfortável.
– Acordo fechado? – estendi minha mão. Thalia apertou-a.
– Acordo fechado.
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