The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
9 Capítulo 9
- Bom, se você não lembra, então não precisa se preocupar com isso — falei. — Então... em qual classificação você ficou nas provas?
- Ah, eu? — disse ele. — Hum, deixa eu ver...
Ele enfiou a mão no bolso e tirou uma folha de papel minúscula e dobrada. Presumi que fosse a sua folha de resultados. Ele colocou-a na minha carteira e depois olhou para mim, fazendo um sinal para que eu visse por mim mesmo. Queria que ele me poupasse do trabalho e simplesmente falasse logo, mas acabei cedendo e desdobrei o papel. Imediatamente, meus olhos foram para o campo da classificação: "34/214". Sera tinha ficado... trigésimo quarto lugar na nossa série.
- Espera, hã? — soltei, sem conseguir conter a confusão.
Trigésimo quarto. Talvez não fosse tão ruim assim no geral — ainda o colocava entre os vinte por cento melhores da série — mas para alguém que se vangloriara alto e bom som de como seria fácil ficar em primeiro, e que aparentemente também tinha um desempenho escolar muito sólido, aquele número era difícil de aceitar. Hoshihara se inclinou ao meu lado para dar uma olhadinha e ficou tão perplexa quanto eu de imediato. Olhei para Sera, esperando alguma explicação razoável, mas ele apenas encolheu os ombros e coçou a bochecha sem graça.
- É, não sei — disse ele. — Acho que só fiquei meio entediado no final das contas.
- Como é? — perguntei.
- Passei a maior parte das últimas duas provas apenas desenhando quadrinhos nas folhas de questões.
- ...O que foi que disse?
O que ele tinha acabado de dizer? Ele ficou desenhando quadrinhos em vez de realmente fazer as provas? Mas por quê? Tédio sequer era uma desculpa válida? Não, não, não. Isso seria totalmente ridículo. Ele não iria se descuidar de uma prova tão importante — não quando Ushio estava em jogo. Não é mesmo?
Ah, espera um pouco. Acho que já entendi o que está acontecendo aqui.
Aquilo era apenas uma desculpa. Ele não queria admitir que tinha sido derrotado de forma justa — e que nem sequer chegou perto, aliás — então estava tentando fazer parecer que era legal demais para se importar. Claro, já tinha ouvido boatos de que ele era absurdamente inteligente, mas parecia que na realidade ele não era nenhum aluno excepcional, afinal. Nem sequer conseguiu chegar à classificação de um dígito, apesar de provavelmente ter estudado bastante. A forma mais fácil de engolir esse constrangimento era alegar que só tinha ficado "entediado" com as provas e não tinha se dado ao trabalho de se esforçar de verdade. Não pude evitar rir com essa conclusão, aliviado por saber que ele nunca foi uma ameaça real, afinal. Que manobra tola. Quase senti pena dele por recorrer a um mecanismo de defesa tão infantil.
Ao mesmo tempo, essa explicação não me parecia totalmente correta. Uma voz no fundo da minha cabeça dizia para não subestimá-lo ainda. Olhei novamente para a sua folha de resultados, dessa vez lendo além da linha com a classificação dele em relação ao resto da turma, descendo e analisando suas notas individuais por matéria uma por uma.
Meus olhos se arregalaram. Ele tinha tirado nota quase máxima em todas as provas, exceto duas: geografia e língua japonesa contemporânea — as "últimas duas provas", como Sera tinha dito, no último dia de exames. Nessas duas, suas notas foram absolutamente péssimas.
Pelo amor de Deus. Esse cara é sério mesmo?
Será que ele realmente ficou entediado e começou a desenhar em vez de fazer as provas?
- Você não pode estar brincando comigo... — falei, enquanto um súbito acesso de raiva subia pela minha cabeça. Levantei-me e fitei Sera com dureza. — Eu sabia. Você nunca levou Ushio a sério de verdade, não é mesmo?
- Não, não é isso — disse Sera. — Só não estava muito com vontade dessa vez, sabe? Não consegui realmente focar. Mas não, sou totalmente sério sobre ela, de verdade. Talvez não tenha ganhado dessa vez, mas não vou desistir dela tão fácil assim. Além disso, não é como se notas de provas bobas fossem a única forma de medir o quanto eu sinto por uma pessoa.
Ele só estava falando besteira agora, e não pude evitar ser tomado por uma raiva indescritível. No entanto, também senti outro sentimento, bem no fundo do meu ser, começando rapidamente a se acalmar e diminuir. Eu finalmente estava começando a achar que entendia um pouco melhor o caráter de Sera. Ele não passava de um brincalhão comum que adorava provocar as pessoas para ver sua reação. Não eram as expectativas da sociedade ou mesmo o interesse próprio que guiavam suas decisões — era muito mais simples que isso. Tudo o que realmente lhe importava era satisfazer a própria curiosidade e diversão.
Não dava para lidar com esse cara. Ele era uma causa perdida em quem eu não poderia confiar nem um pouco. Por que diabos eu me preocupei em pedir desculpas a um canalha como esse?
- Você realmente é o pior dos piores... Sabe disso, não é? — falei.
- Ei, calma aí — disse Sera. — De onde vieram esses insultos de repente? Sou o sujeito mais sincero, honesto e correto que você vai conhecer na vida.
- Ah, por favor. Correto, uma ova. Você não é nem...
- K-Kamiki... — disse Hoshihara, segurando-me pelo braço. Olhei para ela, ali parado, sem conseguir conter minha indignação. Ela olhava ao redor apreensiva, preocupada com a atenção que estávamos atraindo. Eu nem tinha percebido até agora, mas todos os olhos que ainda restavam na sala estavam observando a mim e a Sera com total atenção. Havia um brilho daquela mesma curiosidade faminta por drama naqueles olhares.
De repente, me senti um idiota por ter perdido a cabeça e feito uma cena. Quase imediatamente, minha fúria esmoreceu, deixando apenas um simples e silencioso asco em seu lugar. Respirei fundo e suavemente, e fitei Sera mais uma vez.
- Eu realmente não suporto você — cuspi. — É exatamente o tipo de pessoa que odeio.
- Ah, que pena. Porque eu na verdade gosto muito de você, eu diria — disse Sera, rindo como se tudo isso não passasse de uma grande piada para ele. Diante dessa total falta de remorso e má vontade, até Hoshihara não pôde deixar de fitá-lo com desprezo. Mas após uma breve pausa, Sera finalmente cedeu, erguendo levemente as duas mãos em sinal de rendição. — Certo, certo! Já entendi. Perdi, então vou deixar vocês em paz. Não quero que vocês passem a me odiar mais do que já odeiam.
Eu tinha certeza de que falava por mim e por Hoshihara quando dizia que seria difícil ele piorar ainda mais a nossa opinião sobre si mesmo. Mesmo assim, ele ainda acenou um "tchau-tchau" para nós como se fôssemos todos bons amigos e estivéssemos nos entendendo perfeitamente, enquanto saía da sala, deixando sua folha de resultados amassada na minha carteira. Ele realmente nasceu com má índole; não faço ideia do que deve ter acontecido com ele na infância para se tornar assim, mas de certa forma quase senti pena do cara. Espero nunca mais ter que interagir com ele — e que ele também nunca tente interagir com Ushio ou com Hoshihara novamente. Agora que a tensão na sala mais ou menos diminuiu, virei-me para Hoshihara e cocei a nuca sem jeito.
- Ei, hum... Obrigada por me segurar lá atrás — falei. — Acho que você meio que me ajudou a voltar a mim mesmo.
- S-sim, de nada — disse Hoshihara. — Mas, hum...
Ela agora olhava ao redor da sala, parecendo um pouco nervosa. Presumi que fosse apenas porque ainda havia muitos olhares sobre nós, mas logo descobri qual era a verdadeira causa do seu desconforto.
- Espera um pouco — falei. — Onde está Ushio?
Não conseguia vê-la em lugar nenhum. Ai, ai. N-não me diga que...
- Tsukinoki já saiu correndo para ir embora, cara — disse Hasumi — que, para minha surpresa, estava parado bem atrás de mim. Há quanto tempo ele estava ali parado? Fiquei curioso e um pouco estranhado, mas não tinha tempo para isso agora.
Isso é ruim; deixei Sera me distrair por tempo demais. Não que eu pudesse culpar Ushio por não querer ficar por perto e ouvir nós dois discutirmos como crianças.
- O-obrigado pela dica, Hasumi — falei. — Acho que é melhor eu ir então — desculpa.
Hasumi fez um aceno firme de compreensão enquanto Hoshihara e eu rapidamente guardávamos nossas coisas. Saímos correndo da sala e descemos as escadas em direção à entrada principal. Ao pisar no corredor do primeiro andar, avistei Ushio de costas.
- Ah, lá está ela! — exclamou Hoshihara. — Ei, Ushio!
Ao ouvir o próprio nome, os ombros de Ushio se contraíram, e ela virou-se de repente. Depois, após um momento de hesitação, saiu correndo o mais rápido que pôde.
Espera... Ela fugiu?!
Hoshihara e eu nos entreolhamos. A expressão dela se tornou séria. — T-temos que ir atrás dela! — disse ela.
- C-certo!
Estávamos totalmente de acordo: ir para casa sem Ushio não era uma opção. E então nós dois fomos ao seu encalço, mas perdemos a visão dela depois de contornar uma esquina. Ao passar pela entrada principal, verifiquei o armário de calçados de Ushio e vi que seus sapatos de rua ainda estavam lá, o que significava que ela tinha que estar em algum lugar dentro da escola.
Combinamos de nos separar; eu procuraria no prédio de salas especiais, e Hoshihara verificaria o refeitório e a biblioteca. Corri pelos corredores, passando em revista todos os locais possíveis do prédio onde Ushio poderia ter ido. No segundo andar ficava a sala dos professores, enquanto o terceiro andar abrigava principalmente salas de reuniões para diversos clubes culturais. Além disso, havia o terraço, mas a porta estava sempre trancada, então normalmente não era possível sair para lá. Mesmo assim, não conseguia imaginar Ushio correndo pelos corredores de um dos outros dois andares como primeira opção para escapar de olhares curiosos, já que ambos provavelmente ainda estariam cheios de pessoas depois do expediente, então subi a escada em direção ao topo em vez disso. Meu palpite estava certo — encontrei Ushio parada no patamar superior, perto da porta que dava para o terraço. Ela tinha jogado a mochila escolar no chão e estava agachada em posição de bola, com a cabeça entre os joelhos e as costas voltadas para mim.
Ao subir os últimos degraus do lance final de escadas, parei um instante para recuperar o fôlego e então disse: — Ushio.
Após uma breve pausa, ela se levantou. Depois, virando-se, fitou-me de cima a baixo com uma expressão fria e indiferente. Havia mais hostilidade no seu olhar do que eu esperava, e isso me parou no meio do caminho. Mas não tinha intenção de recuar, então continuei a avançar, subindo lentamente os últimos degraus até que ela e eu estivéssemos frente a frente no mesmo nível.
- Ushio, vamos lá — falei. — Vamos ir para casa junt...
- Ouvi dizer que ficou em primeiro lugar na nossa série. Sei que nunca foi tão inteligente assim, Sakuma. E lembro o quanto você estava doente naqueles dias de prova. Mesmo assim, ficou em primeiro apesar de tudo isso. Então suponho que deve ter se esforçado bastante estudando, não é mesmo? — Ela elevou a voz para mim. — Então me diga: por que fez todo esse esforço? Para que foi tudo isso?
Apesar de atordoado, tentei dar uma resposta honesta. — Para impedir que o Sera ganhasse aquela aposta que você fez com ele.
- E por que você se importou tanto com isso? — perguntou Ushio.
- Quer dizer... porque ele não é uma boa pessoa. Não sei se você ouviu a gente conversando na sala de aula agora há pouco, mas é bem óbvio que ele nunca levou você a sério de verdade. Falou alto e bom som sobre ficar em primeiro lugar na nossa série, e acabou ficando em trigésimo quarto porque literalmente deixou de se importar. Queria saber se eu tivesse percebido o quão rápido ele perderia o interesse desde o começo — então não teria passado por todo esse trabalho, mas fazer o que...
Quando terminei de falar, Ushio soltou um suspiro exagerado e bagunçou o cabelo com as duas mãos, frustrada. — Não quero falar sobre o Sera — disse ela. — Realmente não me importo, tá?
- N-não se importa...? — falei. — Mas ele praticamente acabou de admitir que só estava brincando com você desde o início!
- Pois é. Você acha que eu não sabia disso? Dava para perceber pelo jeito que ele falava comigo que só estava passando o tempo, e que não estava realmente interessado em mim como pessoa.
Meus ombros caíram sem força, e minha mochila escorregou e caiu no chão. — Então por que você não me disse isso da última vez...? — perguntei. — Por que fez parecer que não se importaria de sair com ele?
- Bom, quer dizer... porque eu estava... Ah! Meu Deus, por que você não consegue entender de uma vez?!
Ushio agora expunha toda a sua raiva e desabafava contra mim. Tudo o que eu conseguia fazer era ficar ali parado, confuso, incapaz de traçar a linha lógica por trás dessa mudança drástica de humor.
- Quer dizer, estou tentando entender... — falei. — Mas você não está facilitando muito para mim aqui. Então por que não me diz exatamente o que quer dizer?
- É realmente tão difícil assim?! Entenda logo, seu idiota!
- Alguns de nós não somos tão intuitivos por natureza quanto você, tá certo?! Então a menos que queira que eu fique aqui brincando de adivinhação, sugiro que fale claramente!
- Eu só... eu só não sabia como superar você, tá bem?!
Meus ouvidos começaram a zumbir, e senti como se tivesse levado um golpe forte bem no estômago. Foi como se aquela sequência de palavras cortantes tivesse perfurado meu peito e se enrolado ao redor dos meus pulmões, comprimindo-os. E agora estava ficando difícil demais respirar.
- Eu não estava pronta para simplesmente desistir de você, Sakuma... — continuou ela. — Mas sabia que também não podia continuar sentindo coisas por você. Estava começando a ficar cansativo... então queria encontrar alguém, algum jeito de me ajudar a começar a te esquecer. Não me importava quem ou o quê, desde que pudesse me distrair o suficiente para seguir em frente. Mas então você teve que ir e fazer isso, não teve...?
Seus olhos acinzentados brilharam. Então, de repente, estendeu as duas mãos, agarrou-me pela gola e empurrou-me contra a parede. Soltei um grunhido baixo quando uma pontada de dor percorreu minhas costas. Suas mãos tremiam enquanto me segurava ali, ainda apertando o tecido da minha camisa.
- O que você está tentando fazer aqui, Sakuma? Queria tirar o primeiro lugar do Sera para poder sair comigo em vez disso? Não pode ser isso, não é mesmo? Provavelmente só estava tentando se mostrar para a Natsuki, não é? Porque gosta dela, e queria provar para ela que conseguiria se realmente se esforçasse. Era só isso para você, certo? Então diga logo — diga que não sente nada por mim desse jeito. Diga que isso não teve nada a ver comigo, absolutamente nada. Não aguento mais esses sinais confusos que você está me dando. Está me deixando infeliz, Sakuma...
Podia ouvir sua voz ficando cada vez mais baixa, quase ameaçando desaparecer por completo. A raiva que queimava em suas pupilas havia se apagado, e agora seus olhos oscilavam fracos, enchendo-se de lágrimas.
- Apenas me diga que não sente nada por mim e acabe com isso. Estou te pedindo. Sei que é ruim. Você acha que eu nunca tive que decepcionar ninguém antes? Perdi muitos bons amigos assim. Fui forçada a partir o coração de garotas que mal conhecia... Nunca é divertido — é apenas algo que temos que fazer. Mas aí existem covardes como você, que só ficam arrastando a situação, dando esperanças às pessoas e deixando que elas entendam errado...
- Ushio...
Levantei a mão direita e coloquei-a suavemente sobre a mão esquerda trêmula de Ushio. Era pálida, esguia e fria. Seus dedos finos pareciam frágeis ao toque — e, por algum motivo, isso me encheu de uma tristeza estranha. Levantei o olhar, percorrendo o comprimento do braço dela até o seu pescoço delicado. Suas feições sutis. Sua boca franzida com força. Suas bochechas coradas, e seus olhos acinzentados brilhando sob a luz que entrava pela janela. Havia um brilho como uma auréola ao redor da cabeça dela — como se o sol tivesse se entrelaçado em cada fio do seu cabelo loiro prateado.
Ela realmente era fofa. Bonita. Linda, até.
Mas eu sabia o que tinha que fazer.
- ...Está bem.
Não queria fazer Ushio sofrer mais do que já havia sofrido. Era hora de dar um nome definitivo aos meus sentimentos. Não podia continuar respondendo às suas repetidas declarações de afeto com indecisão. E se eu fosse realmente honesto comigo mesmo, já tinha me decidido na primeira vez que lhe disse que não tinha certeza — que precisava de mais tempo. Eu estava tão desesperado para encontrar uma forma de torcer e enrolar minhas emoções em algo que não eram, só para que ninguém tivesse que se machucar. Mas não havia solução perfeita aqui. Algo tinha que ceder.
- Sinto muito, Ushio — falei, e ela mordeu o lábio, preparando-se para a dor. Meu peito ficou apertado. Sabia que isso iria machucá-la — talvez até deixá-la em prantos. Mas tinha que dar a ela um motivo para deixar esses sentimentos morrerem e seguir em frente. Devia isso a ela, pelo menos, como a pessoa por quem ela se apaixonou.
- Você está certa. Eu sinto algo pela Hoshihara... e não posso corresponder aos seus sentimentos.
Ushio abaixou a cabeça e apertou ainda mais a minha gola. Podia sentir toda a dor, toda a tristeza, pressionando contra o meu peito. — Mas me escute, Ushio — continuei, embora ela mantivesse o rosto voltado para o chão. — Isso não significa que você e eu não possamos continuar próximos ou algo assim. Vou continuar me relacionando com você como sempre, mesmo que seja bem estranho no começo. Mesmo que você me mande ir embora, não vou ouvir. Vou continuar firmemente na sua vida, quer você queira ou não. Porque, afinal, você é a minha melhor amiga.
Ushio soltou um pequeno soluço. Ela agora fazia o máximo para conter as lágrimas enquanto se agarrava à gola da minha camisa. Levantei a mão e coloquei-a sobre a cabeça dela, passando os dedos pelo seu cabelo para confortá-la. Não havia nada de estranhamente íntimo nesse gesto para mim — apenas parecia a coisa certa a se fazer, dada a nossa proximidade e a situação, então fiz.
Soltei um longo suspiro pelos dentes, baixinho para que Ushio não ouvisse, e depois levantei o olhar da cabeça dela. Pela pequena janela embutida na porta, podia ver um pedaço perfeito e retangular de azul-celeste recortado no vasto céu de verão. Pouco depois disso, o choro de Ushio começou a diminuir.
- ...Desculpa, Sakuma.
- Tudo bem. Não se preocupe com isso.
Ela ergueu a cabeça, olhando para mim com olhos que ainda guardavam um traço de saudade enquanto fitavam diretamente os meus. Suas bochechas coradas. Sua respiração quente. Suas cílios molhados de lágrimas. Senti um baque forte no coração e engoli em seco. Sentia-me desconfortavelmente quente, como se pudesse sentir o sangue percorrendo cada veia do meu corpo. A antecipação e o medo continuaram a crescer na mesma medida, ambas as emoções disputando o controle total da minha mente enquanto meu corpo ficava rígido — como um animal paralisado diante de um predador no topo da cadeia alimentar.
Então, no que pareceu uma eternidade e um instante ao mesmo tempo, senti um cheiro. Não pelo nariz, mas por cada poro, cada receptor e cada instinto primitivo embutido em cada célula do meu corpo inteiro. Algo como feromônios — um aroma inebriante que só conseguia descrever como "mulher". E um instante depois...
Ushio agarrou meu peito e me puxou pelo tecido da camisa. E então pressionou os lábios contra os meus.
E assim, ela roubou o meu primeiro beijo. ...Hã?
Espera. Espera aí.
O que acabou de acontecer?
Ushio afastou o rosto rapidamente. Seus olhos se arregalaram, e seus lábios começaram a tremer como se nem ela mesma conseguisse acreditar no que tinha acabado de fazer.
- Ai meu Deus... Sakuma, eu... não quis fazer isso, só...
Nesse exato momento, ouvi o som inconfundível de borracha rangendo sobre o linóleo ecoar pela escada. Ushio e eu nos viramos ao mesmo tempo — e vimos Hoshihara parada ali, no patamar do terceiro andar, apenas um lance curto de escadas abaixo de nós.
- Não consegui encontrar vocês lá embaixo — disse ela — então vim até aqui procurar... Hum, vocês dois estavam... b-beijando...? Eu... Espera... Hã?
Hoshihara estava atordoada.
Eu estava exatamente como ela.
Algo me dizia que Ushio também estava.
E enquanto ficávamos todos ali, nesse estado de total confusão mútua, ouvi um som. O som de algo se desfazendo suavemente — ou começando a ruir. De onde, não saberia dizer. Talvez fosse impressão minha. Talvez tudo estivesse acontecendo dentro da minha cabeça.
Mas algo, em algum lugar, estava prestes a ceder.
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