The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
8 Capítulo 8
- É, eu também. Mas não só a Ushio. Eu me importo com a Reika, com a Ami e com a Sora também... Caramba, eu levaria uma bala por qualquer uma delas.
Eu não sabia quem eram aquelas pessoas, mas podia presumir, pelo contexto, que provavelmente eram os nomes das outras namoradas do Sera... Espere.
- ...Peraí — eu disse. — Você falou quatro nomes agora há pouco?
- É. São as quatro garotas por quem estou apaixonado. A Reika já terminou o ensino médio e trabalha meio período. A Ami é caloura, mora na cidade vizinha e adora ir a cafeterias. A Sora ainda está no ensino fundamental, mas está estudando firme para ser aceita na Escola de Ensino Médio Tsubakioka enquanto conversamos. E a Ushio... Bem, acho que você já sabe o suficiente sobre ela.
- Peraí... Você está por aí dando em cima até de meninas do ensino fundamental?
- Não gostei muito da sua escolha de palavras. Não estou "dando em cima" de ninguém. Estou namorando com ela como namoraria qualquer outra garota, tratando-a com total respeito. Eu a amo do fundo do meu coração.
Comecei a sentir que ia vomitar. Minha cabeça girava loucamente. Meus dentes batiam, embora não estivesse nem um pouco frio, e minhas mãos suavam profusamente. Lambi meus lábios secos e rachados e — com toda a repulsa do meu coração — disse apenas:
- ...Você é nojento.
Sera não pareceu irritado ou triste com o meu julgamento. Na verdade, ele nem pareceu abalado — a julgar pela gargalhada que soltou do fundo da garganta.
- Caramba! — disse Sera. — Isso foi um pouco rude, não acha? Sabe, você realmente não deveria julgar os outros só porque o seu cérebrozinho fechado não consegue entendê-los.
E ele continuou rindo como se aquilo fosse a coisa mais divertida do mundo. Tudo o que pude fazer foi ficar ali parado em silêncio. Senti que, não importava o que eu dissesse àquela altura, pareceria patético e inútil se eu me deixasse provocar e continuasse com a conversa. Eventualmente, porém, ele se cansou de rir do que quer que achasse tão engraçado. Ele limpou as lágrimas dos cantos dos olhos enquanto olhava para mim com um grande sorriso no rosto e disse, entre risinhos:
- E aí? Tem mais alguma coisa que queira me dizer, amigão?
No final, apenas me afastei sem dizer mais nenhuma palavra, incapaz de pensar em uma resposta adequada. Meu cérebro ainda parecia uma papa por um bom tempo depois, e mesmo depois de chegar em casa, não consegui raciocinar direito por um tempo. Enquanto deitava ali, enrolado no meu cobertor fino, ouvindo o meu próprio coração ecoar no travesseiro, um desejo sombrio começou a arder silenciosamente dentro de mim.
"Eu não vou deixar o Sera ficar em primeiro lugar no nosso ano. Não apenas pela Ushio — mas porque o meu próprio orgulho agora exigia isso. Mais do que tudo, eu só não queria perder."
"Não para ele."
Era quarta-feira finalmente — o dia anterior ao início dos nossos exames de fim de semestre. Assim que acabou o quarto período, peguei o meu impresso e fui para a sala dos professores. Eu sabia que, tecnicamente, o acesso de alunos era proibido durante o período de exames, mas não era algo tão rigorosamente restrito que você não pudesse bater e chamar da porta o professor com quem tinha assuntos a tratar. Avisei ao professor mais próximo da entrada que precisava entregar algo para a professora Iyo, e ele foi chamá-la. Pouco depois, ela veio correndo do fundo da sala, com seu longo rabo de cavalo balançando de um lado para o outro.
- Aqui está o meu plano pós-formatura — eu disse, entregando o impresso a ela. — Desculpe a demora para entregar.
Não era que eu estivesse em dúvida sobre o que queria fazer da vida após o ensino médio. Eu estava apenas tão preocupado estudando para as provas que genuinamente esqueci de entregar o questionário. A professora Iyo aceitou o papel, deu uma olhada rápida e assentiu satisfeita.
- Sim — disse ela. — Este parece um caminho bem decente. Mas, honestamente, acho que você poderia tentar uma faculdade um pouco melhor. E parece que você tem levado seus estudos muito mais a sério ultimamente, então tenho certeza de que suas notas só vão subir daqui para frente.
Parei para conter um bocejo.
- ...Hã? Ah, sim... É verdade.
- Você parece um pouco cansado — disse a professora Iyo, forçando um sorriso. Ela não estava errada.
Na segunda-feira — após a sessão de estudos com a Hoshihara e o meu encontro com o Sera — decidi aumentar ainda mais as horas de estudo. Nas últimas duas noites, fiquei colado à minha escrivaninha até as quatro da manhã, momento em que dormia como uma pedra até as sete. Isso significava que eu estava funcionando com apenas três horas de sono, o que obviamente não era suficiente — então sim, eu estava me sentindo um tantinho cansado, para dizer o mínimo.
Era um mal necessário para impedir que o Sera ficasse em primeiro lugar no nosso ano, no entanto. O que talvez tenha sido exatamente a motivação de que eu precisava para deixar de ficar em cima do muro e começar a agir, por mais engraçado que pareça. Não que eu tivesse qualquer intenção de ser grato ao Sera por inspirar essa mudança em mim, nem por um nanossegundo.
- A propósito — disse a professora Iyo, mudando de assunto quando não dei uma resposta adequada -, como estão as coisas entre você e a Ushio? Indo bem, espero?
- Desculpe?
- Vocês dois são bem próximos, não são? Tenho visto vocês juntos com bastante frequência ultimamente.
- Ah, sim... É, sei lá, na verdade. Nós definitivamente começamos a conversar com bastante regularidade de novo, depois da transição dela e tudo mais, mas não sei se diria que somos tão próximos...
Para ser sincero, era um pouco difícil definir. Claro, provavelmente parecíamos ótimos amigos para um observador externo, mas eu não diria que estávamos realmente nos comunicando como bons amigos deveriam, por exemplo. Eu tinha a impressão de que a Ushio ainda guardava muitos de seus verdadeiros sentimentos para si, e aqui estava eu, conduzindo essa operação secreta pelas costas dela para garantir que ela não namorasse aquele outro cara. Parecia um pouco forçado afirmar que éramos amigos próximos no fim das contas.
A professora Iyo soltou uma risadinha sem graça.
- É, imaginei que pudesse ser um pouco complicado. Mas eu entendo. Dezesseis anos é uma idade bem difícil, afinal.
- Eu só tenho quinze — eu disse a ela.
- Ah, poupe-me dos detalhes técnicos. As garotas não gostam de garotos que ficam corrigindo-as o tempo todo, sabe?
"Eu não vim aqui buscar conselhos amorosos, senhora", pensei comigo mesmo.
A professora Iyo cruzou os braços e olhou para mim com mais seriedade.
- Bem, eu ainda diria que você está fazendo um ótimo trabalho. Graças a você e à Natsuki, a Ushio finalmente está começando a sorrir de novo. Honestamente, nós realmente precisávamos ter um sistema de apoio melhor para pessoas como ela, mas fazer o quê. Muitos velhos teimosos por aqui, infelizmente...
Ela disse essa última parte em voz baixa para que os outros professores na sala não ouvissem. Mesmo em um volume tão baixo, detectei a dor em sua voz. Eu não conseguia imaginar os tipos de batalhas que ela teve que lutar para conseguir para a Ushio até mesmo as acomodações mais básicas.
- ...Parece que a senhora está cheia de trabalho — eu disse.
- Nem me fale. Já estou com as mãos cheias me preparando para os exames, tarefas de verão, e todos os tipos de eventos esportivos e de clubes, mas agora tenho todo um novo problema para lidar, tendo que sempre defender uma das minhas alunas só para garantir que ela receba o apoio de que precisa. É um trabalho de quebrar as costas, vou te contar. Se eu não amasse tanto isso, já teria desistido há muito tempo.
Ela soltou um leve suspiro, e seus olhos se franziram enquanto assumia uma expressão nostálgica.
- ...A Ushio é uma jovem tão boa comparada a tantos adolescentes de hoje em dia. Tão incrivelmente talentosa, mas ainda assim a pessoa mais humilde que existe, e sempre pensando nos outros. Mas também sei que é exatamente esse tipo de pessoa que sempre guarda suas próprias lutas pessoais trancadas por dentro, onde ninguém mais pode ver, por isso eu estava tentando prestar atenção especial a isso... Nunca teria adivinhado que essas lutas eram relacionadas ao gênero, no entanto. As pessoas realmente são difíceis de ler, não são?
- É... Com certeza — eu disse baixinho.
Ficamos ali parados em silêncio por um tempinho depois disso — até que a professora Iyo deu um tapa na própria testa ao se lembrar de algo de repente.
- Ah, caramba! Meu macarrão instantâneo! Estamos conversando há tanto tempo que perdi completamente a noção da hora!
- Espera. A senhora está almoçando macarrão instantâneo? — perguntei.
- Sim, e daí?
- Bem simples da sua parte.
- Ah, calado. Eu costumava fazer meu próprio almoço todo dia, sabe. Acho que você não entende o trabalho que dá acordar cedo toda santa manhã só para...
- Seu macarrão vai ficar mole.
- Nossa, sinto que você está me cortando totalmente agora... mas que seja. Tudo bem, vou voltar ao meu trabalho. Continue fazendo o que está fazendo, Kamiki — só não exagere.
- Não vou, obrigado.
Saí da sala dos professores e voltei pelo corredor. O corredor do segundo andar do prédio anexo estava completamente deserto, mas o barulho dos alunos no prédio principal logo ao lado ainda podia ser ouvido. Durante a minha caminhada, pensei novamente em como a professora Iyo devia estar passando por momentos difíceis, considerando o que ela havia sugerido sobre a Ushio ser um assunto polêmico entre o corpo docente também. Eu provavelmente conseguia adivinhar quem seriam alguns dos "velhos teimosos" que ela mencionou — e embora não pudesse imaginar exatamente que tipo de discussão havia ocorrido, tinha certeza de que não estavam facilitando as coisas para a professora Iyo. Esperava que ela não se matasse de trabalhar por causa de todo esse estresse.
Virei à esquerda na esquina para atravessar a passarela elevada de volta ao prédio principal — e acabei trombando direto com a Ushio.
Nós dois soltamos um som de leve surpresa com esse encontro casual, parando de repente. Ela estava sozinha no momento e, enquanto minha boca ficava aberta, esperando que meu cérebro entregasse as próximas palavras, notei que ela também segurava um impresso na mão.
- Você vai entregar o seu plano pós-formatura também? — perguntei.
- Aham — disse ela. — Foi isso que você acabou de fazer?
- É. Estou voltando agora.
- Entendi. Poxa, que pena que a gente não pôde ir junto. Se eu não tivesse ficado presa com o Sera antes de conseguir sair da sala...
Sera. Meu humor despencou na hora ao ouvi-la falar dele com tanta naturalidade, como se fossem amigos íntimos. Pensei no meu encontro com ele dois dias atrás. Eu ainda não tinha pedido para a Ushio confirmar se ele realmente havia contado sobre ficar com outras garotas, e se ela realmente tinha dito que não se importava. Principalmente porque eu estava com medo de descobrir que era verdade.
- Bem, a gente se vê por aí — disse ela, virando-se para andar pelo corredor.
- Espera, Ushio — chamei, quase por reflexo, antes que ela pudesse dar outro passo. Ela cedeu, parando para esperar minhas próximas palavras com um olhar curioso. Fiquei ali parado, olhando-a bem nos olhos, honestamente um pouco desorientado com a minha própria atitude.
- O que foi? — perguntou ela, com um tom de preocupação na voz.
- ...O Sera não é um cara legal, sabe? Ele já está namorando várias outras garotas.
As palavras saíram da minha boca por conta própria, ignorando qualquer plano ou pretexto. Mas não senti que tinha falado errado. Muito pelo contrário; fiquei me sentindo satisfeito, como se tivesse dito exatamente o que vim dizer. No entanto, de alguma forma, Ushio não pareceu nem um pouco abalada.
- Eu sei.
Um choque de dor atravessou minha cabeça como um golpe brutal. Eu me recusava a acreditar. Rezava para que ainda houvesse algum mal-entendido ali.
- Espera, então... você realmente disse para ele que ainda sairia com ele, desde que ele cumprisse a sua condição? — perguntei.
- Sim, eu disse. Por quê? Ele mesmo te contou isso?
Assenti — embora tenha sido difícil, com o quão abalado eu me sentia.
Era exatamente como o Sera tinha dito: mesmo que a decisão de namorarem ou não ainda estivesse no ar, Ushio de fato sabia da infidelidade dele e estava expressamente de acordo com isso. Por alguma razão, a palavra "cúmplice" surgiu na minha mente, e não consegui mais olhá-la de frente. Parecia que a imagem idealizada que eu tinha dela havia sido vandalizada, destruída. Mas quando virei o rosto, Ushio deu um passo para mais perto e tentou me encarar. Por entre as frestas da franja, seus olhos cinza-arroxeados pareciam sérios e suplicantes.
- E o que você achou disso, Sakuma? — perguntou ela.
- O que eu acho? — respondi. — Acho que você precisa ficar bem longe daquele cara. Ele não bate bem da cabeça. Quer dizer, quem diabos sai por aí pedindo para namorar outras garotas quando já está com alguém? Qualquer um com meio neurônio sabe que isso não está certo.
- É, foi mais ou menos o que senti quando ele me contou pela primeira vez. Mas a questão sobre o Sera é que, bem... eu percebo pelo jeito que ele me trata e cuida de mim que ele se importa bastante comigo. Acho que decidi apenas fechar os olhos para essa coisa de "outras namoradas".
- E você está... bem com isso?
- Sim. Você pode estar certo sobre ele não ser uma pessoa muito boa no geral — mas pelo menos ele é honesto comigo sobre as intenções dele e me trata como um ser humano, então não preciso ficar pensando demais perto dele. Isso já é melhor do que nada.
Cerrei os punhos.
- Escute o que você está dizendo. Esse é realmente o seu nível de exigência? Por que você se daria ao trabalho de sair com alguém de quem nem gosta? Isso é só perda de tempo. Além disso, você sabe que ele vai perder o interesse e começar a dar em cima de outra garota rapidinho. Você deveria dizer não enquanto ainda tem chance.
- Eu não me importo se ele perder o interesse em mim. Honestamente... sinto que a experiência de um relacionamento me faria bem, dure o que durar.
- Mas...
- Por que você está ficando tão bravo com isso, Sakuma?
Essa observação calma e controlada me calou na hora. "Não estou bravo", eu queria dizer — mas conhecia aquela emoção desagradável à espreita no meu peito muito bem, e a única palavra para ela era raiva.
Mas por que eu estava com raiva? Eu não sabia. Ou talvez soubesse, lá no fundo, mas meu subconsciente estava hesitando — tentando desesperadamente não transformar aquele sentimento em palavras. Tracei os cantos da minha mente como uma criança perdida tateando a parede de um corredor escuro e assustador. O que eu realmente estava tentando fazer agora? Qual era o resultado que eu esperava alcançar? Usando essas perguntas como uma picareta, tentei escavar meus sentimentos mais profundos e reais. Até que, finalmente, atingi o ponto central do problema.
- Eu só... não quero deixar ele ter você — confessei.
Era puro sentimento de posse, simples assim. Eu e a Ushio nos conhecíamos há uma eternidade. Mesmo tendo nos afastado por alguns anos, ela ainda era uma das minhas melhores amigas. Eu não queria ver um cara qualquer chegar do nada e roubá-la. No fim das contas, era só sobre isso. Não sabia se havia algum sentimento romântico misturado ali ou não, mas sabia que a ideia de o Sera e a Ushio darem certo não me caía bem. Esse fato simples era inegável.
Meu rosto ardia de tanta vergonha, como se estivesse prestes a pegar fogo. Queria sair correndo dali e fingir que aquela conversa nunca tinha acontecido. Ushio cerrou os lábios com força e segurou a frente da camisa. Então, ergueu seus olhos marejados e intensos para encontrar os meus.
- Tudo bem — disse ela. — E se eu prometesse não sair com o Sera? O que você... faria de diferente, então?
Engoli em seco.
- Quero dizer, eu...
Não saíram mais palavras.
Ouvi o som do papel do plano pós-formatura da Ushio se amassando de leve na mão dela. Se não estivesse tão silencioso naquele corredor específico, eu provavelmente não teria escutado. Mas naquele som minúsculo e quase imperceptível, senti uma decepção profunda.
- ...Você não precisa inventar uma desculpa. Eu já sei que você gosta da Natsuki — disse Ushio, sorrindo de forma tão suave e doce que doeu no meu peito. Ela gentilmente baixou os olhos para o chão. — Desculpe. Eu realmente preciso ir entregar isso. A gente se vê depois.
Com isso, ela passou num sopro por mim em direção à sala dos professores, sem nem me dar a chance de responder.
- Ushio — chamei atrás dela. Ela parou, mas não se virou. — Eu... eu só vou fazer o que eu puder por enquanto.
- ...O que te fizer feliz, eu acho — disse ela, e continuou andando pelo corredor. Fiquei observando-a se afastar, com o que me pareceram ombros caídos, por um tempo antes de voltar para a sala de aula.
Amanhã, nossos exames finalmente começariam.
A quinta-feira havia chegado, o primeiro dia das provas finais. Fiz questão de chegar à escola um pouco mais cedo do que o habitual. Contive um bocejo ao entrar na sala, onde todos pareciam extremamente tensos. A maioria dos meus colegas já estava em suas carteiras com os livros abertos, muitos deles aproveitando uma sessão de estudos de última hora com os amigos — testando uns aos outros com vocabulário de inglês e coisas do tipo.
Notei a Ushio e a Hoshihara entre eles; esta última estava de pé ao lado da carteira da primeira enquanto faziam uma última revisão da matéria da prova juntas. Virei o rosto um pouco mais e vi o Mashima, a Shiina e a sempre chamativa Nishizono, que estava de volta à escola agora que sua suspensão informal havia terminado. Ela encarava o próprio livro com uma expressão emburrada — mas percebi que não estava prestando atenção na Ushio. Presumi que não haveria mais provocações da parte dela, depois de tudo o que tinha acontecido.
Sentei-me na minha carteira e abri o caderno, tentando ao máximo decorar mais algumas palavras de inglês que pareciam prováveis de cair no exame. Bem nessa hora, ouvi alguém se aproximar de mim. Olhei para cima e vi que era o Hasumi.
- Alguém está bem animado para fazer essa prova, pelo que estou vendo — disse ele, com o rosto sereno de sempre.
- Você tem toda razão — respondi. — Com certeza nunca estudei tanto para uma prova antes. Estou tentando conseguir cem por cento de acertos, se possível.
- Deixa eu adivinhar... você só quer esfregar isso na cara do Sera, não é?
- Não, cara. Não é por causa disso...
Era totalmente por causa disso, mas eu não ia admitir nem morto.
- Bem, não que faça diferença para mim de qualquer forma — disse Hasumi de maneira apática, dando de ombros. Por alguma razão, aquilo me incomodou um pouco.
- Sabe, cara... sem ofensa, mas às vezes não consigo saber se você literalmente não tem interesse nenhum nas outras pessoas.
- Claro que tenho. Provavelmente mais do que a maioria, para ser sincero. Mas também não tenho muita vontade de me envolver pessoalmente no drama dos outros, sabe?
- Olhar mas não tocar, né? Acho que você é mais um observador de pessoas, então.
- É, talvez. Eu meio que gosto de ser uma mosca na parede. Um espião invisível que consegue receber transmissões, mas não consegue enviar nenhuma.
- Você faz parecer que quer ser um fantasma voyeur ou algo assim...
- Quero dizer, você pode me culpar? Relacionamentos humanos são uma bagunça, cara. Quem quer se envolver profundamente com um monte de gente diferente?
Assenti como se compreendesse uma grande sabedoria. Aquilo parecia o resumo perfeito da filosofia pessoal do Hasumi. Ele estava certo, no entanto — relacionamentos humanos eram uma bagunça. Eu tinha aprendido isso muito bem nos últimos dias. Sempre que você se envolvia com as pessoas, todo tipo de emoção complexa entrava em jogo, e as coisas podiam ficar bem confusas muito rápido.
Até aquele dia fatídico — quando a Hoshihara e eu trocamos contatos depois da aula, e depois encontrei a Ushio usando o uniforme da irmã dela no parque à noite -, eu nunca tinha realmente precisado me estressar tanto por causa de outras pessoas, e sobre quem gostava ou odiava quem. De certa forma, a vida tinha sido muito mais fácil e simples naquela época — apenas um estudante cuidando da própria vida, sem dramas com que se preocupar. E ainda assim... nunca me peguei pensando que gostaria de voltar àqueles dias. Nem por um único momento.
O sinal de aviso tocou, e o professor de inglês entrou na sala de aula, instruindo-nos a esvaziar o interior das nossas carteiras enquanto todos voltavam para os seus devidos lugares. Em seguida, ele entregou pilhas de exames virados para baixo para os alunos sentados na primeira fileira, avisando a todos para não virarem as folhas até que ele desse o sinal. Assim que todo o material da prova foi distribuído, a sala de aula mergulhou em silêncio. Estava tão quieto que até o menor dos sons — um lápis rolando pela mesa, alguém pigarreando, uma cadeira rangendo — ecoava alto pelo ambiente. Então, finalmente, o sinal do primeiro período tocou.
- Tudo bem — disse ele. — Podem começar.
Corri minha lapiseira pela página, avançando de forma rápida, mas metódica, por cada questão. Inglês era pura memorização, pelo menos na minha cabeça. Eu queria preencher o máximo de respostas que conseguisse enquanto minha memória ainda estava fresca.
Comecei muito bem — tanto que foi até meio eletrizante. Eu não precisava de muito tempo para pensar em cada pergunta, então parecia que minha mão se movia mais rápido do que meus olhos conseguiam ler. Na verdade, estava sendo bem divertido, embora talvez minha falta de sono estivesse distorcendo minhas emoções. Senti um entusiasmo crescer quando os cantos da minha boca se curvaram para cima, e a ponta do grafite batia um ritmo ritmado contra a mesa através do papel.
Em menos de quinze minutos, cheguei à seção de interpretação de texto longo. Não havia uma única questão que tivesse me pegado até ali, mas eu sabia que teria de desacelerar e pensar mais nas respostas para aquela parte mais complexa da prova. Conforme passava a ponta do lápis por cada frase, eu as traduzia na minha mente em tempo real. Não diria que estava lendo com fluência, propriamente dito, mas com certeza consegui captar o sentido geral do texto.
Era o relato de um antigo operário de fábrica explicando como a fábrica de automóveis onde ele trabalhava começou a cometer um grande número de erros de produção e fabricação, então eles implementaram um monte de verificações e equilíbrios para evitar que esses erros acontecessem de novo. Mas aí acabaram dando tanto peso e importância a esses procedimentos de garantia de qualidade que isso colocou pressão demais sobre os funcionários responsáveis por tais procedimentos, o que levou a um aumento nos erros de produção devido a falhas humanas.
Os pontos principais do texto pareciam ser que erros estavam destinados a acontecer não importa o que você fizesse, e que, embora fosse importante mitigá-los o máximo possível, existia algo como estar tão excessivamente preparado que isso só convidava a ainda mais acidentes. A história em si era bem sem graça, e certamente nada de extraordinário, mas o simples ato de traduzi-la por conta própria fez com que parecesse estranhamente mais instigante e significativa. Perguntei-me se seria pelo mesmo motivo que uma refeição objetivamente medíocre sempre parecia muito mais gostosa quando você mesmo a cozinhava.
Preenchi os espaços em branco na folha de respostas, incluindo pitadas da minha própria interpretação pessoal. Senti que tinha entendido muito bem o texto, então nenhuma das perguntas foi particularmente difícil de responder. Quando cada espaço foi preenchido, larguei o lápis, satisfeito ao ver que não houve uma única questão que eu não tivesse compreendido. "Será que eu consigo uma nota perfeita nessa prova?" Pude sentir minha confiança surgir no peito. Passei o resto do tempo estipulado até o sinal tocar revisando minhas respostas, só para garantir.
Os exames seguintes foram química e literatura clássica, os quais também terminei bem facilmente e com tempo de sobra. Novamente, não tinha certeza se tinha gabaritado ou não, mas estava bem seguro de que tinha tirado pelo menos mais de noventa em ambos. Eram praticamente idênticos em estrutura às provas do ano passado, e muitas das perguntas eram parecidas também. Eu devia uma enorme ao Mashima por isso.
Havia apenas três matérias agendadas para hoje, o que significava que eu tinha passado com sucesso pelo primeiro dia de exames. Tudo o que restava agora era ir para casa e estudar muito para as provas de amanhã. Notei que o clima geral da sala de aula era de derrota; a maioria dos meus colegas parecia mentalmente exausta, e alguns até estavam largados sobre as mesas, suspirando em miséria e lamento.
- Puta que pariu...
- Eu tô muito fodido, cara.
- Ai, eu não sabia nada daquilo.
- Ei, o que você colocou naquela questão?
Tais eram as vozes dos quebrados e derrotados ao meu redor.
- Parabéns por aguentar o primeiro dia, Sakuma — disse Natsuki Hoshihara, abrindo caminho entre os corpos enquanto vinha elogiar meus esforços. Senti minha energia esgotada ser restaurada só um pouquinho.
- Ei, você também — eu disse a ela. — Como acha que se saiu?
- Éee, então, sobre isso... Ahahaha...
Sua risada vazia e desconfortável me disse tudo o que eu precisava saber. Não era a risada de uma vencedora, disso eu tinha certeza — então decidi não bisbilhotar mais.
- Enfim, esquece de mim — disse ela, mudando de assunto. — E você?
- Ah, eu diria que me saí muito bem. Acho que quase gabaritei as três matérias de hoje.
- Ei, que incrível! Isso é um sinal muito bom!
O sorriso dela foi genuíno dessa vez, e o entusiasmo dela me deixou bem feliz também. Então me dei conta de que a felicidade dela vinha do pensamento de que o Sera não conseguiria o primeiro lugar do nosso ano, e não estava realmente relacionada a mim, Sakuma Kamiki, ou às minhas conquistas, e isso me fez sentir meio vazio por dentro. Mesmo assim, eu também compartilhava do desejo dela de impedir que o Sera saísse com a Ushio, então achei melhor parar de pensar demais e apenas ficar feliz com ela por enquanto.
- Amanhã é matemática, né? — disse ela. — Acha que vai estar pronto?
- Sim, vou ficar bem. Tenho certeza de que peguei o jeito da maior parte, graças àquela sessão de estudos de alguns dias atrás.
- Boa, boa. Vamos terminar com tudo, então!
Mas o grito de incentivo da Natsuki foi abafado por outra voz, muito mais alta, que entrava pela porta da sala de aula.
- Bom trabalho hoje, pessoal!
Olhei para o lado e, com certeza, era o Sera — embora aquela fosse a primeira vez que ele passava na nossa sala hoje, parando para pensar. Assisti enquanto ele avançava pelo corredor em direção à mesa da Ushio, lamentando e parabenizando meus outros colegas por terem sobrevivido ao primeiro dia de exames. Eventualmente, nossos olhos se cruzaram.
- Ah, olá — disse ele. — Se não é o Sakuma. Olha só, eu não sabia que você e a Ushio eram da mesma sala.
Ele realmente não tinha notado até agora?
Sera mudou de rumo e veio falar comigo em vez disso. Nenhum dos meus colegas pareceu ligar para isso, dada a propensão do Sera para puxar papo e ser amigável com literalmente qualquer um.
- Parabéns por terminar as provas hoje — disse ele. — Quer um chiclete?
- Não, estou bem, obrigado...
- Ué? Por que não? É um chiclete muito bom. — Ele tirou um tablete do bolso, desembrulhou-o do papel-alumínio e jogou na boca. Depois de mastigar algumas vezes, virou-se para a Natsuki. — E aí, como foi nas provas, Natsuki?
- Ah, sim... Acho que não fui muito bem, para ser sincera — disse ela, rindo sem jeito.
- Sério? Poxa. Quer que eu te dê uma força com os estudos, então? — ele sugeriu casualmente.
Eu paralisei por um instante. Obviamente, aquilo não podia acontecer de jeito nenhum.
- E-e como você foi, Sera? — perguntei antes mesmo que a Natsuki pudesse responder. Eu sabia que ela provavelmente apenas recusaria educadamente mesmo sem a minha ajuda, mas não queria correr riscos de ele tentar convencê-la a aceitar qualquer coisa. Os olhos do Sera se arregalaram um pouco com aquela interrupção inesperada, mas o sorriso despreocupado dele ressurgiu logo em seguida.
- Ah, foi moleza — disse ele. — Mas quer dizer, é claro que seria, né? Estou mirando no primeiro lugar, sabe! E eu sempre consigo o que coloco na cabeça!
- ...Você parece bem seguro de si.
- Pois é. Estudei numa escola de elite bem prestigiada antes de me transferir para cá, afinal. Enfim, continue se esforçando, Sakuma. Quem sabe — se tiver sorte, você pode até conseguir o segundo lugar.
E com aquela última provocação sarcástica, Sera se virou e caminhou até a mesa da Ushio. Não gostei do sentimento que ficou após a saída dele — como se eu estivesse sendo totalmente subestimado.
- Você consegue, Sakuma... — disse Natsuki, com a voz num sussurro calmo, mas cheio de força apesar de tudo. Confirmei com a cabeça convictamente em resposta. Minha determinação para vencer o Sera foi reacendida, e meu cérebro exausto recebeu um tranco de energia mais uma vez. Assim que chegasse em casa, eu me afundaria nos livros de novo. Amanhã era o grande dia: matemática. Eu precisava decorar aquelas fórmulas de uma vez por todas para poder entrar totalmente preparado amanhã de manhã. Era hora de mostrar àquele babaca o que eu realmente conseguia fazer. Infelizmente, apesar do meu surto intenso de motivação, acordei na manhã seguinte em péssimas condições para fazer provas. Talvez aquele exato surto de motivação na noite anterior fosse o culpado — passei a noite em claro encarando o livro antes de eventualmente desmaiar em cima da mesa. Como resultado, meu corpo parecia mais pesado que chumbo, e cada um dos meus músculos doía.
Mas não era só isso. Eu também estava com uma dor de cabeça terrível, e minha garganta estava inflamada. E quando desci as escadas com as pernas bambas para medir minha temperatura, o termômetro marcou trinta e oito vírgula sete graus. Eu tinha oficialmente pego um resfriado de verão. Sob circunstâncias normais, eu teria apenas ligado dizendo que estava doente e tirado o dia de folga da escola, mas precisava aguentar firme hoje e amanhã, pelo menos.
"Ou, espera... Posso faltar hoje, na verdade?" Esqueci qual era o procedimento se você por acaso ficasse doente no dia de uma prova importante. Eles me deixariam fazer os exames sozinho assim que eu melhorasse? Se sim, então eu preferiria ficar em casa hoje. Meu corpo parecia pesado e dolorido, e eu preferia estar no auge das minhas condições dado o que estava em jogo.
Depois de hesitar um pouco, liguei para a escola. Embora não soubesse se haveria funcionários na secretaria àquela hora, um dos professores do primeiro ano felizmente atendeu. Explicaram-me o conceito de "notas estimadas". Se você estivesse ausente no dia do exame final de uma determinada matéria, sua nota da prova seria derivada da média de todos os seus testes naquela aula até aquele momento — embora, dependendo de você ter um atestado médico ou do seu histórico escolar geral, talvez nem se qualificasse para isso. Resumindo, se eu faltasse hoje, não haveria chance de conseguir noventa ou mais na prova de matemática. Se fosse baseado apenas nos meus testes anteriores de matemática, eu provavelmente tiraria apenas uns cinquenta ou sessenta. E provavelmente não me sairia muito melhor nas outras matérias também.
Aqueles números eram simplesmente inaceitáveis — eles me desqualificariam completamente de ficar em primeiro lugar no nosso ano. Desliguei o telefone, tomei um remédio para resfriado e me arrumei para ir à escola.
Eu esperava que pegar um pouco de ar fresco nos pulmões pudesse me fazer começar a me sentir pelo menos um pouco melhor, mas infelizmente a vida não era tão conveniente. Na verdade, quando cheguei à escola, eu estava completamente sem fôlego, a ponto de até subir as escadas ser um sacrifício. Caminhei cambaleante até a sala de aula e encontrei minha cadeira, os sons da agitação do início da manhã berrando como um alto-falante diretamente no meu cérebro. Puxei meu livro de matemática e tentei folhear as páginas um pouco, mas minha dor de cabeça e moleza geral tornavam impossível absorver sequer um único problema de exemplo.
"Será que eu consigo mesmo me concentrar na prova nessas condições?" A ansiedade começava a revirar meu estômago — e para piorar as coisas, comecei a sentir náuseas também. Talvez devesse ter ficado sem tomar café da manhã, afinal. "Por que eu tinha que pegar um resfriado logo agora, de todas as horas?" Ou talvez aquela pergunta se respondesse sozinha: estive tão estressado e privado de sono tentando estudar para essas provas nos últimos dias que forcei meu corpo muito além da sua capacidade habitual, provavelmente enfraquecendo meu sistema imunológico no processo, e essa negligência tinha se manifestado na forma de um resfriado. Sendo assim, eu só tinha a mim mesmo para culpar por isso — mas era tarde demais para me arrepender. Eu só precisava me concentrar e focar na matemática, para que...
- ...Sakuma? Ei, Sakuma?
Dei um sobressalto com a cabeça, soltando um suspiro pesado. Natsuki estava bem ao lado da minha mesa, olhando para mim com preocupação.
- V-você está bem? — perguntou ela. — Você parecia meio que um zumbi por um minuto aí.
- Ah... — eu disse. — Sim, desculpa. Estou me sentindo um pouco mal...
- Espera, está? Mediu sua temperatura?
- Sim, medi. Hoje de manhã cedo.
Como previsto, ela perguntou qual era minha temperatura, e quando confessei que estava com trinta e oito graus, os olhos dela se escancararam.
- Tá, não, de jeito nenhum — disse ela. — Você devia mesmo estar em casa descansando.
- Desculpa, sem chance. Vou perder pontos demais na prova.
- Eu sei, mas...
- Vou ficar bem, não se preocupe. Só preciso aguentar firme. Além disso, amanhã é o último dia, né? Tenho certeza de que aguento até-
Antes que eu pudesse terminar, meu nariz começou a escorrer. Dei uma fungada, puxando o catarro de volta para as narinas. Parecia que meu resfriado só ia continuar piorando — não que eu não pudesse prever isso depois de medir minha temperatura. Natsuki franziu as sobrancelhas com uma preocupação genuína.
- ...Tem certeza de que não está exagerando, Sakuma?
- Não, estou bem... Ahahaha — disse eu, tentando ignorar as preocupações dela.
Imediatamente, a expressão dela mudou de preocupada para determinada enquanto me dizia para esperar um segundo e corria de volta para a mesa dela. Ela revirou as coisas dentro da mochila para pegar alguns itens, depois os trouxe de volta para mim e os soltou nas minhas mãos: três pacotes de lenços de papel e uma bala da marca Milky embalada individualmente.
- Aqui, pega isso — disse ela. — Não sei se vão te ajudar muito... mas achei melhor do que nada.
Senti um aperto caloroso no coração.
- Obrigado, Natsuki. Eu não costumo carregar lenços comigo, então agradeço muito. E obrigado pela bala também.
Logo depois de eu terminar de agradecer, no entanto, a expressão dela ficou sombria, e o olhar dela caiu para o chão.
- Desculpa... Queria de verdade poder fazer mais, especialmente porque fui eu quem te meteu nisso... Mas sério, se ficar difícil demais continuar, quero que pare e descanse. Sua saúde é mais importante do que qualquer uma dessas idiotices.
- Natsuki...
"Caramba, ela vai me fazer começar a chorar." Eu não estava emocionalmente preparado para lidar com palavras tão doces no meu momento de fraqueza. Mesmo que aquela doçura tivesse mais a ver com o agradecimento dela pelo que eu estava fazendo em relação à Ushio do que qualquer outra coisa, isso não tirava o quão feliz aquilo me fazia sentir. E agora, aquilo por si só já bastava para mim. Tentei o meu melhor para retribuir a gentileza dela com um sorriso.
- Vou ficar bem — disse eu. — E não é só pela Ushio, ou porque você me pediu. Quero ficar em primeiro por mim também. Então vou levar isso até o fim, não importa o que aconteça.
- ...Está bem — disse ela. — Então vou deixar você em paz e espero ver esses resultados. Mas falo sério quando digo que é melhor não se esforçar demais!
Ela sorriu de volta para mim e depois voltou para a sua carteira.
Certo. Hora de fazer isso.
A última prova do dia — história mundial — tinha acabado. E assim que entreguei a minha folha de respostas para a pessoa sentada na minha frente, desabei como uma pilha de exaustão, como aqueles brinquedos de fantoche que desmontam.
"M-meu Deus, minha cabeça está doendo horrores... Esse remédio para gripe não está fazendo efeito nenhum..."
Minhas costas estavam molhadas de suor, mas eu tremia de frio, apesar das cigarras de verão cantarem no calor lá fora. Meu nariz escorrendo tinha piorado também; se não fossem os lenços que Hoshihara tinha me emprestado, eu teria passado o dia inteiro fungando. Minha garganta também ficava cada vez mais inchada, a ponto de até engolir ser uma experiência dolorosa.
Por isso, eu não estava com vontade de falar muito — então quando Hoshihara veio perguntar como eu estava, mantive a conversa em apenas algumas frases curtas e depois guardei minhas coisas para ir embora. Tudo o que eu queria agora era ir para casa o mais rápido possível. Mas justo quando me levantei pesadamente da cadeira, cruzei o olhar com Ushio, que parecia ter algo a me dizer. Mas naquele momento eu não tinha energia para conversar com ela, nem mesmo para refletir sobre o que aquele olhar poderia significar, então simplesmente ignorei e saí da sala de aula.
Provas finais, terceiro dia. Apesar de ter feito questão de dormir cedo ontem, meu estado não mostrava sinal de melhora. Pelo contrário, minha febre tinha aumentado. Minha pele estava grudenta de suor, e minha visão embaçada por causa do excesso de umidade que parecia escorrer dos meus olhos. Não ficava tão doente há anos. Eu estava tão mal que até minha irmã mais nova, Ayaka, que sempre era implicante, pareceu preocupada e perguntou se eu realmente planejava ir para a escola assim mesmo, enquanto eu me arrumava.
Claro que eu iria — afinal, era o último dia de provas. Se eu conseguisse passar por hoje, poderia descansar o resto do semestre inteiro se quisesse. Estava preparado para dar tudo o que tinha e fazer um último esforço. Tomei mais um pouco de remédio para gripe, mesmo sabendo que provavelmente não adiantaria, calcei os sapatos e saí de casa. Imediatamente fui atingido pelo brilho e pelo calor implacáveis. Meus olhos ardiam de dentro para fora, e meu corpo ficou tão pesado de repente que parecia como se os raios de sol que caíam sobre mim fossem vigas sólidas que realmente me puxavam para baixo.
Queria poder pedir uma carona para a escola, mas meus pais saíam para trabalhar muito antes de eu e Ayaka sairmos de casa, então não tive escolha a não ser aguentar firme. Arrastei minha bicicleta do lugar onde estava estacionada perto da porta da frente e parti em direção à escola. Os pedais pareciam pesados sob os meus pés. Minha mente estava nebulosa. Tinha a sensação de que se parasse de pedalar, cairia de lado ali mesmo, no meio da rua, com a bicicleta e tudo. Mas espremei cada resto de energia que conseguia reunir e, de alguma forma, cheguei aos portões da Escola Secundária Tsubakioka. Arrastei os pés pela entrada, subi as escadas e entrei na sala. Depois de chegar à minha carteira, fiquei meio que perdido por um tempo, até que de repente fui acordado por um barulho de algo caindo. A pessoa sentada na minha frente tinha deixado cair uma lapiseira no chão. Nosso professor de física se aproximou e pegou para ela, para que não precisasse tirar os olhos da própria prova.
Espera um pouco. A prova já começou...?
Me endireitei de um salto na cadeira — e ao mesmo tempo minhas lembranças voltaram de uma vez. Num instante, lembrei do professor entrando na sala, distribuindo as provas e o sinal tocando para marcar o início do exame. Senti um suor frio escorrer do meu couro cabeludo.
"Ah, meu Deus, ah, meu Deus, ah, meu Deus. No meu cansaço, deixei minha mente vagar para outro lugar, e agora a prova de física já começou." Olhei para a minha carteira; minha folha de respostas estava completamente em branco. Olhei para o relógio; já tinham se passado quinze minutos desde o início da prova. Minhas lembranças daquele tempo eram tão vagas que me perguntei se não tivesse cochilado de olhos abertos por um tempo. Escrevi meu nome depressa e comecei a fazer a prova, o cabo da lapiseira ficando escorregadio de suor na minha mão. Até mesmo ler os enunciados das questões dissertativas parecia doloroso, com a minha capacidade de concentração tão esgotada depois de duas noites quase em claro. Meu cérebro parecia desligar por instantes no meio da leitura de uma frase, e então eu perdia o ponto onde estava. Era extremamente frustrante não conseguir sequer entender a pergunta para começar a pensar nela. Na minha impaciência, escrevia com mais força do que o normal, e a ponta da lapiseira quebrava toda hora.
Faltavam apenas dez minutos para o fim da prova, e eu não tinha terminado nem a metade. Bati as duas mãos no meu rosto. Continuei preenchendo as respostas, uma após a outra, sem sequer parar para piscar. Com o nariz entupido, comecei a respirar forte pela boca, como algum animal selvagem descontrolado.
Faltava apenas um minuto. Escrevi a resposta da última questão justo quando o sinal tocou. Entreguei a folha de respostas para frente e desabei sobre a minha carteira.
"Ugh. Me sinto horrível."
Esse pensamento ficava se repetindo na minha cabeça vez após vez durante o resto do dia, como percebi enquanto respondia às questões da prova de geografia no período seguinte. A dor de cabeça e a náusea se recusavam a passar. As folhas da prova grudavam no meu braço por causa do suor. Quase conseguia sentir o gosto da torrada e da banana que tinha comido no café da manhã se revirando no meu estômago. Sentia-me enjoado. Minha mente repetia o mesmo sentimento de formas diferentes. Sentia fraco. Enjoado. Nojento.
"Você é nojento."
De repente, ouvi a voz de Nishizono soar nos meus ouvidos. Por que estava lembrando de toda aquela discussão agora? Afinal, havia uma grande diferença entre usar a palavra "nojento" para descrever uma sensação ou coisa desagradável e usá-la como ela usou — ou seja, para pintar Ushio como uma espécie de aberração ou alguém com problemas por usar saia.
Para ser sincero, foi uma coisa muito ruim de dizer. Quer dizer, o que há de tão nojento em querer se apresentar como quem realmente é por dentro? E também não era como se ela ficasse mal assim — ela parecia perfeitamente uma garota, apesar do corpo e da voz com os quais nasceu. E não estava machucando ninguém, então também não era como se fosse moralmente repugnante. Obviamente, Nishizono ou precisava fazer um exame de vista ou conhecer alguém como Sera para atualizar o seu modo de ver as coisas.
Agora sim, esse sim merecia ser repreendido moralmente. O cara já namorava várias garotas ao mesmo tempo, incluindo uma aluna do ensino fundamental, e agora estava tentando pôr as mãos sujas também em Ushio. Era praticamente a definição de canalha do dicionário. Não conseguia entender como Nishizono podia chamar alguém como Ushio de "nojenta" quando existiam pessoas como Sera.
Ou, espera um pouco. Não fui eu mesmo que literalmente chamei Sera de nojento na cara dele, do mesmo jeito que Nishizono fez com Ushio? Será possível que Nishizono sente o mesmo por ela que eu sinto por ele?
Depois que a prova de geografia acabou, houve um pequeno intervalo antes do próximo exame começar. Seria a nossa última prova de todas — e a matéria era língua japonesa contemporânea. Assim que terminasse essa, minha longa e cansativa jornada finalmente chegaria ao fim. Mesmo assim, não conseguia tirar aquela incerteza estranha da minha cabeça. Ela tinha grudado no meu cérebro e criado raízes como mofo, forçando seu caminho em cada pensamento meu, não importando o quanto tentasse esquecer. E sabia que a única forma de eliminar esses pensamentos invasivos era encontrar uma resposta satisfatória para a minha pergunta principal. Tentei o meu melhor refletir sobre isso com o meu cérebro tomado pela febre.
Será que Nishizono e eu sentimos "repulsa" da mesma forma por Ushio e Sera, respectivamente? Não, com certeza não. Nishizono estava apenas soltando agressões verbais baseadas apenas na sua própria opinião egoísta, enquanto eu estava apenas fazendo um julgamento pessoal e honesto sobre o caráter dele — o que significava que a diferença fundamental entre nós dois era... era... hã...
Nenhuma distinção clara me veio à mente. Será que estar doente estava dificultando o funcionamento do meu cérebro? Não, não poderia ser tão difícil assim de perceber. Qualquer um com um mínimo de juízo perceberia que ela e eu não somos nada parecidos. Tinha que haver algo que diferenciasse o comportamento julgador dela do meu. Eu só precisava descobrir o que... Ou será que eu realmente não sou melhor do que ela?
"Você realmente acha que é aceitável tratar as pessoas com quem discorda como se não valessem nada só porque não as entende? Isso não é uma opinião 'tão válida quanto qualquer outra'. Isso é apenas você sendo idiota."
"Sabe, você realmente não deveria julgar as pessoas só porque o seu cérebro fechado não consegue entendê-las."
As palavras que eu disse a Nishizono durante aquela discussão, e as palavras que Sera me disse outro dia, ecoaram na minha mente — e embora houvesse diferença na gravidade, o quanto elas se pareciam tanto no sentimento quanto na forma de falar era um pouco desconfortável. Em ambas as situações, uma pessoa pensou mal da outra sem nenhuma base objetiva para julgar, além do seu próprio código moral. Haveria alguma diferença, então, entre mim e Nishizono?
...Não. Nós éramos praticamente iguais.
Ambos éramos forçados a confrontar algo com o qual não nos identificávamos ou não conseguíamos compreender, e ambos tivemos uma reação negativa imediata a isso. Em outras palavras, nossos sentimentos de repulsa não passavam de uma manifestação dos nossos próprios preconceitos. Ou melhor — no caso de Nishizono, havia também uma espécie de desejo distorcido e até uma certa preocupação, pois ela mesma admitiu que queria que Ushio voltasse a ser um garoto e que não queria que ela sofresse ou enfrentasse discriminação a vida toda por causa dessa decisão. Nesse sentido, a reação dela talvez fosse até menos baseada em ódio do que a minha.
Então o que isso faz de mim? Apenas mais um preconceituoso e de mente fechada, como todo mundo nessa cidade?
Que droga, cara... Então sou tão ruim quanto eles no fim das contas?
Não queria admitir. Realmente não queria admitir — mas sabia que precisava. Se eu não conseguisse nem reconhecer as minhas próprias falhas, aí sim saberia que já era tarde demais para mim. Droga. De repente, senti muita vergonha de mim mesmo. E por que agora? Por que eu tinha que ter essa percepção justo no meio da nossa última prova, de todos os momentos possíveis? Certo, não — precisava sair desse transe e voltar ao trabalho. Mas ainda assim... Ugh. Droga...
Meu cérebro parecia estar cheio de uma massa mole de doença e arrependimento. Não conseguia acreditar em mim mesmo. Como pude ser tão raso quanto as pessoas que eu julgava o tempo todo?
Em minha defesa, quando sentimos repulsa por algo ou alguém, é muito difícil se livrar desse sentimento. Então é claro que não tive vontade de tentar entender Sera como pessoa. Não havia maldade ou motivo especial por trás da minha antipatia por ele — eu simplesmente não gostava dele como pessoa, e não conseguia apoiar as suas escolhas e ações, pura e simplesmente. Todo mundo provavelmente tem pelo menos uma pessoa assim na vida, e embora certamente não seja muito gentil ou maduro dizer na cara das pessoas que as acha nojentas, não se pode evitar o sentimento em si quando alguém realmente nos incomoda. Se isso me torna mesquinho, tudo bem — mas eu simplesmente não gostava do cara. E não quero que ele saia com Ushio. Simples assim.
O sinal tocou. Nossas provas finais de semestre tinham acabado.
Com as provas terminadas e a escola liberada pelo resto do dia, decidi passar na clínica de clínica geral da região à tarde. Como suspeitava, o médico disse que eu realmente não devia ter me forçado a ir à escola — me deu um longo sermão sobre como se esforçar demais assim poderia acabar com a minha vida, se eu não tomasse cuidado. Quando contei isso para a minha família, meus pais disseram que ficaram felizes por eu não ter acabado morrendo, e minha irmã Ayaka disse que eu era um completo idiota. Agradeci a variedade de reações às minhas aparentes decisões ruins.
Passei o resto da noite no meu quarto, sentindo-me como uma casca vazia de ser humano. Tinha gastado cada gota de energia para terminar aquelas provas, e agora não conseguia nem reunir forças para me levantar da cama. E mesmo assim, quando recebi uma ligação de Hoshihara mais tarde naquela noite, de alguma forma consegui pular de pé na mesma hora.
- Ei! Parabéns por ter terminado! Você conseguiu, Kamiki! Não acredito! Você parecia estar morto de cansaço no final. Fiquei muito preocupada com você!
- Ha ha... É, com certeza parecia mesmo. Cheguei a pensar que poderia realmente cair duro e morrer por um tempo. Nem lembro o que escrevi naquelas últimas provas.
- N-nossa, foi tão crítico assim?
- Eu estava praticamente funcionando só no vapor no final, sim. Então... desculpa antecipadamente se eu não acabar vencendo o Sera.
- Ah, não! Tudo bem! — Ela se apressou para me tranquilizar, apesar dessa ressalva. — Sinceramente, não esperava que você se esforçasse tanto assim. Pensando bem, me sinto mal por ter pedido para você fazer tudo isso... Tem alguma coisa que você quer que eu faça por você, então?
Meu coração disparou com essa pergunta súbita e inesperada. Eu conseguia pensar em um milhão de coisas que queria que ela fizesse por mim, é claro. Mas, depois de muita e cansativa discussão interna, optei pela opção mais segura possível.
- Se pudéssemos...
- Pois é?
- Se pudéssemos conversar sobre aquela série de livros que te indiquei há um tempo, acho que gostaria disso... Supondo que você tenha tido chance de começar a ler, é claro.
- Espera, é só isso que você quer? Bom, poxa, isso é moleza! Mas só para avisar, só consegui ler mais ou menos a metade do primeiro volume até agora, mas...
Passamos a ter uma conversa longa e agradável sobre livros, começando com ela dando suas impressões sobre a primeira metade do tal volume. Depois, isso se transformou numa discussão mais solta sobre quais outros livros nós realmente gostávamos, quais queríamos ler no futuro, e assim por diante. Fiquei bem chateado por não poder falar tanto quanto gostaria por causa da minha garganta dolorida, mas ainda assim foi um tempo muito, muito bom. Suficiente para eu sentir que o esforço que fiz valeu a pena.
Os dias seguintes passaram rápido, e embora cada nascer do sol parecesse mais quente que o anterior, felizmente recuperei-me completamente da gripe, pelo menos. A essa altura, minha experiência de quase morte durante as provas parecia algo distante o suficiente para que eu já pudesse olhar para trás e rir.
Hoje era a cerimônia de encerramento do semestre na Escola Secundária Tsubakioka. Todos os alunos de todas as séries foram obrigados a ficar em filas bem arrumadas no ginásio abafado e ouvir o diretor discursar longamente sobre isso ou aquilo — embora, pessoalmente, eu não estivesse prestando muita atenção no discurso dele. Minha mente estava muito ocupada pensando na classificação das notas das provas.
Já tínhamos recebido todas as nossas provas de volta — e eu, de alguma forma, consegui tirar mais de noventa por cento em todas elas. Tinha quase certeza de que isso me garantia um lugar na classificação de um dígito da nossa série. A grande questão era como o Sera tinha se saído nas provas dele. Ele provavelmente me contaria se eu perguntasse, mas eu estava com medo de que a nota total dele fosse melhor que a minha para fazer isso. De qualquer forma, mesmo que ele tivesse tirado notas melhores que as minhas, isso não significava necessariamente que ele ficou em primeiro lugar. Sempre poderia haver mais alguns alunos com notas melhores do que nós dois. De qualquer maneira, hoje era o dia em que finalmente iríamos descobrir.
- ...E com isso, acredito que posso encerrar esta cerimônia — disse o diretor, e a assembleia acabou. Em seguida, voltaríamos às nossas salas de aula e receberíamos nossos boletins, além das folhas com os resultados individuais das provas. Seria nesse momento que descobriríamos nossa classificação em relação aos outros alunos da nossa série.
Meu coração começou a bater forte. Sabia que ficaria tudo bem desde que o Sera não ficasse em primeiro, mas sinceramente, depois de todo o esforço que fiz, esperava realmente que fosse eu a ocupar esse lugar. Ao sinal do vice-diretor, chegou a nossa vez, os alunos do segundo ano, de sair do ginásio. As portas eram bem estreitas para o número de alunos tentando sair, então a área ao redor da entrada ficou bastante cheia, mesmo com as saídas escalonadas. Senti alguém esbarrar no meu ombro, e a pessoa se apressou em pedir desculpas antes mesmo de olhar para mim.
- Ah, desculpa, eu...
Era Ushio, e ela aparentemente nem percebeu que tinha esbarrado em mim, a julgar pela surpresa no rosto dela. Na mesma hora, ela desviou o olhar e se apressou em seguir em frente sem mim. Isso me deixou bem para baixo.
Ushio vinha me evitando desde que as provas terminaram. Ela ainda falava com o Sera e com a Hoshihara normalmente, mas tinha deliberadamente colocado uma distância entre ela e mim. Eu tinha uma boa ideia do porquê. Presumivelmente, ela ainda se sentia estranha por causa daquela conversa em que eu disse que "não queria deixar o Sera ficar com ela" e coisas do tipo. Para ser sincero, eu também me sentia um pouco desconfortável com isso. Isso se tornou mais uma fonte de ansiedade para mim, além das notas das provas. Sabia que precisava fazer algo para esclarecer as coisas, mas não estava conseguindo pensar em nenhuma boa solução.
No geral, eu me sentia bem desanimado para alguém que começaria as férias de verão amanhã.
A professora Iyo apareceu pouco depois de voltarmos para a sala de aula. Meus colegas, que estavam conversando entre si obedientemente, voltaram para as carteiras, mais do que ansiosos para acabar com a última aula daquele semestre.
- Certo, pessoal! Quem está animado para as férias de verão?! — gritou a professora Iyo animada do púlpito. — Nossa, foram uns meses bem agitados, não é mesmo? O que vocês acham — diriam que foi ótimo? Ou foi difícil? Brincadeira. Sei que não é fácil escolher uma única palavra para descrever o semestre inteiro! Mas presumo que todos estejam muito ansiosos por esse descanso merecido, não é? Apenas fiquem avisados que as férias vão passar voando, então façam o possível para não desperdiçá-las. Vão lá e criem memórias realmente incríveis. Pois bem! Sem mais delongas...
Ela bateu as palmas das mãos sobre as duas pilhas de papéis que estavam no púlpito. Qualquer um com olhos poderia adivinhar que eram nossos boletins e as folhas com os resultados das provas finais.
- É o momento que todos estavam esperando! Vou distribuir um por um, então venham aqui quando eu chamar o nome de vocês!
De repente, a sala silenciosa ganhou vida. Sussurros de expectativa e ansiedade surgiram de todos os cantos enquanto ela começava a ler a lista de alunos. Eu era apenas o oitavo aluno em ordem alfabética, então minha vez chegou rapidamente.
- Sakuma Kamiki? — chamou ela.
Levantei da cadeira e caminhei até o púlpito.
A professora Iyo olhou nos meus olhos e me cumprimentou com um sorriso largo.
- Você com certeza deu tudo de si dessa vez — disse ela. — Bom trabalho.
Ela me entregou meu boletim e a folha de resultados virada para baixo. Aceitei tudo com humildade e voltei para a minha carteira. Meu coração batia a mil. Respirei fundo, soltei o ar e virei a folha de resultados.
- ...Hã?
Olhei para a linha "Classificação na Série" e vi o número: 1/214.
Esfreguei os olhos, mas os números não mudaram. Também não tinha recebido a folha de resultados errada por engano. Lá estavam meu nome e número de matrícula, bem ali. Parecia algum tipo de erro, mas não era.
Espera. Então eu realmente fiquei em primeiro? Mas isso é... Ai meu Deus, eu realmente consegui. Nossa!
Mesmo depois que a professora terminou de distribuir as folhas de resultados e continuou com o que tinha a dizer, eu ainda estava em total descrença. Ela falava, mas as palavras entravam por um ouvido e saíam pelo outro. Tudo o que eu conseguia ouvir era o som do meu próprio coração batendo. Meu corpo tremia de empolgação. Minhas pernas também estavam bambas. Não parecia real.
- Todos de pé! — ordenou o representante da turma, e eu me levantei para fazer a última reverência do semestre junto com o resto da turma. No meu estado de atordoamento, acabei ficando um pouco atrás de todo mundo. Depois que a professora Iyo saiu da sala, meus colegas começaram a comemorar a tão esperada chegada das férias de verão, alguns ficando para fazer planos enquanto outros seguiam para suas atividades extracurriculares. Hoshihara veio direto à minha carteira com uma expressão cautelosa de expectativa.
- Kamiki! — disse ela. — Como foi...?
Olhei para ela, com a expressão dura.
- E-eu fiquei em primeiro lugar na nossa série — falei — e só depois que as palavras saíram da minha boca é que finalmente comecei a acreditar nisso também. Uma sensação de orgulho surgiu dentro de mim. Hoshihara cobriu a boca com as duas mãos, incrédula, e depois começou a bater os pés no chão de pura alegria.
- O quê?! Ai meu Deus, não pode ser! Você realmente conseguiu?! Isso é incrível, Kamiki!
- É, eu também não acredito, ha ha... — falei meio sem graça.
A alegria infantil na voz de Hoshihara fez com que alguns dos nossos outros colegas virassem para olhar, curiosos para saber do que se tratava todo aquele alvoroço. Antes que eu percebesse, a notícia da minha conquista se espalhou por toda a sala como fogo.
- Espera, o Kamiki ficou em primeiro?
- Uau...
- Desde quando ele é tão inteligente?
- Acho que isso significa que o Sera deixou a desejar.
- Cara... eu até que estava torcendo por ele, não vou mentir.
- Pois é, eu também.
A sensação geral parecia ser de uma leve surpresa, misturada a um toque de decepção de alguns. Foi só nesse momento que percebi algo que deveria ter sido óbvio: sim, eu ter ficado em primeiro significava que o Sera tinha perdido.
- Desculpa, pessoal! Não consegui dar conta no fim das contas!
Falando no diabo.
Sera entrou caminhando com desenvoltura na sala de aula, um tom de lamentação exagerada na voz que desmentia o sorriso presunçoso no rosto dele. Foi recebido com frases como "Não se preocupe, cara" ou "Da próxima vez você consegue!". Dava para perceber pela atmosfera geral da sala que a maioria das pessoas esperava que ele tivesse sucesso na sua tentativa de conquistar Ushio — embora eu também presumisse que não estivessem realmente envolvidos emocionalmente na situação dele. Apenas gostavam do espetáculo da existência teatral dele e da fofura e drama que isso gerava.
Ele parou perto do púlpito e, por algum motivo, virou-se para mim e caminhou até a minha carteira. Não era a Ushio que ele tinha vindo ver? Não que eu me importasse, porém — tinha algo que precisava dizer a ele de qualquer forma.
- E aí, Sakuma. Natsuki. Como vocês dois se saíram nas provas? — perguntou ele.
- Eu, pessoalmente, não fui muito bem... — disse Hoshihara, encolhendo os ombros. — Mas o Kamiki foi muito bem! Ele ficou em primeiro lugar em toda a nossa série!
Ela falou da minha vitória com tanto orgulho que parecia que tinha sido uma conquista dela mesma. Mas agradeci por ela dar a notícia por mim, já que não sou exatamente a pessoa mais vaidosa do mundo. Também sabia que me sentiria um pouco envergonhado tendo que tocar nesse assunto, mesmo com o cara que eu tinha me esforçado tanto para vencer. Especialmente porque esperava que ele ficasse pelo menos um pouco ressentido com isso, dadas as circunstâncias — mas parecia que até essa grande derrota não foi suficiente para abalar a cara de pau do Sera.
- Uauuu! — disse ele. — Nossa, que doideira. Se soubesse que você era um aluno tão bom, teria pedido para você me dar aulas antes! Heh heh...
Mais uma vez, ele desafiou completamente a minha compreensão e as minhas expectativas, batendo no meu ombro como se estivesse parabenizando um bom amigo. Isso me deixou bem confuso. Eu realmente ainda não fazia ideia do que se passava na cabeça desse cara.
- Ei, Sera — falei.
- Sim? — respondeu ele.
- Só queria pedir desculpas por ter te chamado de nojento outro dia.
Era o "algo" que eu queria dizer a ele. Claro que isso não significava que eu aprovasse a sua vida amorosa nada convencional — eu ainda achava bem estranho ter várias namoradas ao mesmo tempo, e pessoalmente não aprovava que ele tentasse conquistar a Ushio além disso. Mas foi errado da minha parte insinuar que ele era alguma aberração ou negar a sua humanidade só por causa das nossas diferenças. Foi por isso que senti necessidade de pedir desculpas. Era a coisa certa a fazer, pura e simplesmente.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!- Desculpa...? Quando foi isso? — perguntou Sera, mantendo o sorriso enquanto inclinava a cabeça com curiosidade. Parecia que ele realmente não lembrava daquela conversa — o que eu conseguia acreditar, já que se passaram alguns dias desde então. Eu vinha adiando o pedido de desculpas o máximo possível. De qualquer forma, foi mais ou menos a reação que eu esperava.
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