The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
7 Capítulo 7
- Ah, que droga... Você está brincando comigo?
Parecia que o nosso inimigo tinha se antecipado a nós mais uma vez. Embora eu tivesse que admitir, achava um pouco cruel da parte de Ushio continuar escolhendo o Sera de propósito em vez de nós. Com certeza ela devia perceber que a Hoshihara estava torcendo de verdade para que nós três pudéssemos ir embora juntos hoje.
"Talvez a minha teoria de que ela está fazendo isso para forçar a Hoshihara a passar um tempo a sós comigo estivesse certa, afinal."
Mas, se esse fosse o caso, o plano dela tinha dado errado. Claro, talvez funcionasse uma ou duas vezes, mas obviamente as coisas ficariam estranhas depois de um tempo se a Ushio simplesmente continuasse se retirando da equação para sempre. Afinal de contas, tinha sido ela quem ajudou a aproximar eu e a Hoshihara no começo, como nossa amiga em comum.
Dito isso, eu também não me sentia no direito de simplesmente marchar até lá e dizer para a Ushio que queria que ela viesse embora com a gente hoje. Não era como se ela não tivesse o direito de escolher com quem passava o seu tempo. Talvez ela estivesse começando a se sentir um pouco desconfortável perto de nós dois, considerando o que sabia sobre os nossos respectivos sentimentos, e os dela... embora esse pensamento trouxesse um nó no estômago.
- E o que a gente faz agora? — perguntei.
- Olha... Eu não acho que tenha muito o que fazer, por mais que eu odeie admitir.
- É, acho que não...
- Talvez a gente devesse ir embora separados daqui para frente?
Essa era exatamente a sugestão que eu estava temendo. Pessoalmente, eu ainda queria aproveitar cada oportunidade para me aproximar dela, mesmo que as coisas estivessem um pouco estranhas agora. Ao mesmo tempo, eu reconhecia que era bem incomum um garoto e uma garota que nem sequer estavam namorando irem embora juntos da escola todo santo dia. E imaginei que a Hoshihara provavelmente estava preocupada com o tipo de suposição que as pessoas fariam sobre nós se as coisas continuassem assim por muito mais tempo.
- Claro, faz sentido — eu disse, me esforçando ao máximo para não deixar meu desapontamento transparecer enquanto concordava com a cabeça. Mais do que tudo, eu não queria causar problemas para ela.
"Bom, pelo menos ainda podemos ir juntos até a entrada", pensei comigo mesmo enquanto passávamos pelos corredores cheios.
- Então, você tem planos para hoje à noite, Kamiki? — ela perguntou.
- Não, infelizmente não — respondi. — A menos que estudar feito um condenado conte, eu acho...
- É, imaginei. Na verdade, eu estava pensando que a gente podia organizar uma sessãozinha de estudos em grupo para você, se achar que ajuda. Quer se encontrar no Joyfull perto da estação de novo, tipo, não sei, umas seis horas?
Bem quando achei que meu humor não podia piorar, ele subiu direto para o sétimo céu. A Hoshihara queria planejar uma sessão de estudos só para mim? O que mais um cara poderia pedir? Mas eu sabia que devia guardar meus verdadeiros sentimentos para mim, então resisti ao impulso de soltar um grito de alegria e, em vez disso, apenas dei um sorriso simpático.
- Ei, sim. Eu agradeceria muito — falei. — Então você vai ser minha tutora?
- O quê? Ah, não, não, não. Você é inteligente demais para eu te ensinar qualquer coisa — ela disse, rindo como se eu tivesse acabado de fazer a pergunta mais ridícula do mundo.
Então qual era o objetivo de ter uma sessão de estudos? Ela rapidamente me esclareceu:
- Sorte a sua que eu também tenho amigos que são muito mais inteligentes do que eu. Você vai estar em boas mãos, não se preocupe.
Ah. Então não seria algo só entre nós dois. Fazia sentido — afinal, não é bem uma sessão de estudos em grupo quando são apenas duas pessoas. Como um balão com um furinho, meu ânimo murchou na hora. Senti-me um idiota por criar expectativas.
- E quem mais você vai convidar para essa sessão de estudos? — perguntei.
- Hahaha, bom, acho que você vai ter que aparecer lá para descobrir, não vai? — a Hoshihara provocou.
Sinceramente, eu não dava a mínima para quem seria; sabia que a energia seria diferente de um encontro a sós de qualquer forma, então não havia nome que ela pudesse dizer que me faria recuperar o entusiasmo àquela altura. Embora eu torcesse para que fosse alguém conhecido, pelo menos. Quando a conversa terminou, já estávamos na entrada da escola.
- Beleza, te vejo hoje à noite então! — a Hoshihara disse com um sorriso enquanto terminava de trocar os sapatos, saindo apressada pelas portas duplas.
Eram seis e três quando cheguei de bicicleta ao restaurante que ela tinha mencionado. Sessão de estudos ou não, eu realmente não achava apropriado aparecer em um encontro pós-escola usando uniforme, então mudei para uma camiseta e calças de sarja. Com a minha bolsa transversal cheia de livros de referência e materiais de escrita no ombro, entrei no restaurante.
- Mesa para um? — perguntou o recepcionista, mas expliquei que estava encontrando algumas pessoas e depois corri os olhos pelo salão para ver se conseguia avistar a Hoshihara em algum lugar.
Ainda era um pouco cedo para o movimento do jantar, mas o lugar estava bem cheio mesmo assim. Muitas das cabines já estavam ocupadas por outros grupos de estudantes da minha idade, e outras por famílias com crianças.
Depois de procurar um pouco, ouvi uma voz me chamando de uma cabine perto dos fundos da área para não fumantes. Era a Hoshihara, virada no assento do corredor enquanto acenava com uma das mãos para me chamar até lá. Ergui a mão de volta e fui em direção à mesa retangular de quatro lugares na janela onde ela estava sentada.
A Hoshihara também tinha mudado para roupas mais casuais; ela usava um cardigã fino por cima de uma regata simples. Percebi que aquela era a primeira vez que a via com qualquer outra roupa que não fosse o uniforme escolar. Parecia quase que eu estava conhecendo um lado diferente dela, o que era legal.
Mas, além disso, meus olhos foram atraídos para as duas garotas sentadas do outro lado da mesa. Aquelas duas ainda usavam os uniformes do Colégio Tsubakioka. Uma delas tinha a pele morena e um corte de cabelo curto, bem masculino, enquanto a outra tinha cabelos pretos, longos e elegantes. Eu conhecia aquelas garotas — eram a Mashima e a Shiina.
- E aí, beleza? Kamiki, certo? Valeu por vir! — disse a primeira.
- Boa noite, Kamiki — disse a segunda.
Eu nunca tinha falado com nenhuma das duas antes, então não pude evitar travar como um sapo encarando uma cobra faminta. Eu deveria saber que ela convidaria uma ou mais de suas amigas, mas eu não estava nem um pouco acostumado a ser o único garoto em um rolê cheio de garotas, então já estava me sentindo bastante fora do meu elemento.
- Sim, er... Olá... — eu disse baixinho, me atrapalhando tanto para cumprimentá-las que até eu tive que rir da minha própria sem-gracice. Eu parecia uma velhinha tímida.
A Hoshihara chegou para o lado e deu tapinhas no assento vazio ao lado dela.
- Aqui! Senta aí!
- É-é, beleza. Obrigado.
Sentei-me ao lado dela na cabine conforme instruído. Parecia que as três já tinham pegado bebidas na máquina de autoatendimento antes de eu chegar, a julgar pelos copos vazios na frente de cada garota. Presumi que a Mashima e a Shiina ainda estavam de uniforme porque tinham acabado de sair de suas atividades extracurriculares (softbol e fanfarra, respectivamente) e vieram direto para cá. Eu sabia que, apesar de ser época de exames, muitos dos times esportivos também estavam treinando pesado para os regionais, e os clubes de música tinham competições de bandas chegando. Sinceramente, me senti um pouco mal por a Hoshihara ter arrastado as duas para cá só por causa disso em uma época tão corrida do ano.
Mas enquanto eu estava ali sentado, tentando ao máximo processar a situação e as circunstâncias delas, ouvi um risinho do outro lado da mesa — a Mashima estava rindo de mim.
- Caramba, Kamiki — ela disse. — Não precisa ficar tão tenso. Relaxa um pouco, por que não? Mas acho que eu entendo. Quer dizer, quem não ficaria um pouco nervoso sentado aqui cercado por um monte de garotas bonitas, sabe? Estou certa ou estou certa?
- O quê...? Não, eu só estava, er...
Enquanto eu gaguejava procurando as palavras, a Shiina cutucou a Mashima com o cotovelo.
- Ei, para com isso. Não viemos aqui para fazer piada. Temos negócios importantes para discutir hoje.
- Tá, tá... Tanto faz — disse a Mashima, dando de ombros.
- Negócios importantes? Eu pensei que a gente ia só ter uma sessão de estudos em grupo.
Antes que eu pudesse abrir a boca para perguntar sobre essa escolha peculiar de palavras, a Shiina se virou para falar comigo primeiro.
- A Natsuki nos explicou a situação por cima. Ela te pediu para tirar a nota mais alta do nosso ano para que o Sera não consiga, correto? Então você tem estudado como se a sua vida dependesse disso.
- É, mais ou menos — respondi.
Parecia que a Hoshihara tinha dado uma explicação honesta a elas. Embora eu presumisse que ela tivesse deixado de fora a parte sobre os seus próprios sentimentos pela Ushio.
- Diga-me, Kamiki — continuou a Shiina. — O que você acha da ideia de a Tsukinoki e o Sera namorarem?
A forma polida como ela falava fazia com que parecesse mais uma adulta sensata discutindo sobre a juventude do que alguém conversando sobre seus próprios colegas de classe.
- Como assim? — perguntei, me fazendo de desentendido. — Eu não tenho uma opinião muito forte. Estou fazendo isso mais como um favor para a Hoshihara...
- Então você está apenas fazendo o que te mandaram? — A Shiina estreitou os olhos. — Isso me parece uma justificativa terrivelmente superficial para interferir na vida amorosa de dois seres humanos autônomos, se quer saber a minha opinião.
Isso me pegou de surpresa; eu não esperava que aquilo fosse se transformar em um interrogatório sobre os meus motivos, mas eu não podia negar que minhas razões para não querer que os dois começassem a namorar eram bem rasas. Olhei para a Hoshihara, esperando algum tipo de luz sobre como responder, e ela felizmente me lançou uma corda de salvação.
- Não pressiona ele tanto assim, Shii-chan — disse ela, com um sorriso sem jeito. — Fui eu que enfiei ele nisso...
- Desculpe, Natsuki — disse a Shiina. — Mas eu preciso ter certeza de que ele realmente tem a força de vontade para vencer aqui. Eu não posso ensinar alguém que não consegue nem pensar por si mesmo.
- Ah, qual é... Não é para tanto, né?
Enquanto a Hoshihara protestava, a Mashima tomou um gole barulhento com o canudo em seu copo vazio.
- Sabe, Shiina — disse ela -, acho que você bem que podia pegar mais leve com ele nessa. Quero dizer, pelo menos o cara está de acordo e com boa vontade, não está?
- Você fica fora disso, Marine — disse a Shiina.
- Tá booom.
- Cof, cof. — A Shiina limpou a garganta. — Insisto, eu só quero saber o que você pensa sobre tudo isso, Kamiki. Pelo que você nos disse até agora, não parece que você seja uma pessoa que demonstre muita atitude como indivíduo. E para ser brutalmente honesta, não sei se me sinto confortável ajudando alguém que eu não consigo decifrar de jeito nenhum.
Ela tinha deixado sua posição abundantemente clara — e, sinceramente, achei que era um argumento bem justo. Embora ela e eu fôssemos da mesma classe, eu tinha quase certeza de que aquela era a primeira vez que realmente nos falávamos. Mesmo com a Hoshihara garantindo por mim, eu conseguia entender perfeitamente alguém não querer oferecer aulas particulares de graça para uma pessoa que não conhecia.
Dito isso... parecia que ela estava falando comigo de cima para baixo um pouco demais, dado que nem tinha sido eu quem solicitou os serviços dela. Obviamente, eu não ia dizer isso em voz alta. E eu ainda estava grato a ela por tirar um tempo do seu dia após o ensaio da banda, bem na semana de exames, para ajudar, então achei que poderia dar a ela uma resposta mais honesta, contanto que mantivesse os detalhes no mínimo.
- Bom... eu não confio muito no Sera — falei. — Acho que ele é bem esquisito, para falar a verdade. Mesmo assim, às vezes me pergunto se namorar um cara como ele não seria uma boa experiência para a Ushio de certa forma... Então fico meio em cima do muro se sou completamente contra eles saírem. Mas já que a Hoshihara me pediu para fazer isso, estou optando por ficar do lado da desaprovação... acho que dá para dizer assim.
Tentei o meu melhor para explicar meus pensamentos de forma eloquente, embora hesitante. Mas pareceu que a minha resposta não agradou a Shiina, pois ela franziu a testa.
- Isso é um pouco indeciso, não acha? — perguntou ela.
- Talvez. Mas é a verdade. Qual é a sua visão sobre tudo isso, então?
Ela parou por um momento para refletir.
- Pessoalmente, eu não via problema nenhum em os dois saírem, em tese.
- Peraí, o quê?! — exclamou a Hoshihara. — V-você não via...?
- É claro que eu também não sou a maior fã do Sera, mas acredito que os sentimentos dele pela Tsukinoki são legítimos. Se não fossem, ele não estaria indo visitá-la na sala só para conversar em todas as oportunidades ao longo do dia. E, bem... dado que ambos são do mesmo sexo biológico, e como o Sera reagiu a essa informação, acho que podemos descartar a possibilidade de que as intenções dele sejam puramente físicas.
- Não sei não... — intrometeu-se a Mashima. — Acho que você pode estar tirando uma conclusão precipitada aí.
- Bom, vamos presumir que não sejam, por enquanto. Essa é a impressão que eu tenho, e embora eu também perceba que a Tsukinoki está mantendo o Sera à distância no momento, também consigo enxergar um futuro no qual ela baixa a guarda e o aceita, por assim dizer. E pensei que, se isso acontecesse, eu honestamente conseguiria ver os dois formando um belo casal. Mas quando a Natsuki me pediu ajuda com isso e explicou o que sentia, minha opinião mudou. Ela nunca tinha vindo falar comigo antes para confessar que estava com um pressentimento ruim sobre alguém, então quero confiar na intuição dela — mesmo que os motivos sejam um pouco vagos — e oferecer a ajuda que eu puder. Mas também sei que a Natsuki pode ser um pouco influenciável, ou até manipulada às vezes... por isso eu planejava reservar minha decisão final até avaliar o seu caráter primeiro, como a outra pessoa com quem ela estava planejando essa intervenção secreta. Pronto, essa é a minha visão.
- ...Mas que porra? — eu disse, me sentindo bastante insultado.
Eu achava que tinha aceitado um convite para uma sessão de estudos, não para uma entrevista de emprego. Sem contar que:
- Em que isso te faz diferente de mim? Você me chama de indeciso por deixar a opinião da Hoshihara sobre o Sera influenciar meus próprios pensamentos mais detalhados sobre ele, me empurrando em uma direção, mas você na verdade apoiava o relacionamento deles e depois deu uma guinada de cento e oitenta graus baseada puramente nesse "pressentimento" dela... Isso é quase pior, se quer saber.
- Ela e eu somos amigas próximas e colegas de classe desde o primeiro ano. Então eu consegui perceber o quão importante isso era para ela, em comparação com tudo o que já vi dela antes. Ao contrário de você, eu realmente me importo com as minhas amigas.
Esse último comentário passou dos limites. Eu estava oficialmente pronto para estourar.
- Ah, você se importa, é? — falei. — Sabe, isso é muita hipocrisia vindo da garota que ficou sentada ali olhando para o teto enquanto a Nishizono fazia bullying com outro membro do seu chamado "grupo de amigas" por semanas. Mas olha só — o sujo falando do mal lavado, eu acho.
A expressão esnobe e imperturbável da Shiina finalmente se cobriu de sangue, e ela cravou os olhos em mim com um olhar mais afiado do que qualquer faca. Imediatamente, me arrependi das minhas palavras.
"Merda, isso foi longe demais, não foi?"
É melhor eu pedir desculpas, pensei comigo mesmo — mas, bem quando eu ia fazer isso, senti uma ponta de dúvida se realmente deveria.
Embora eu tivesse cuspido palavras bem duras agora há pouco, eu também sabia que aquela crítica a ela era totalmente merecida. Eu ainda conseguia visualizá-la sentada ali, mordendo os lábios sem jeito enquanto a Nishizono ridicularizava a Ushio como se ela não passasse de uma atração de circo... e esse pensamento ainda me enfurecia de verdade.
Mesmo assim, aquela não era a hora de criar atrito com ela. A Hoshihara tinha chamado a Shiina ali explicitamente para o meu benefício, e eu era quem precisava de ajuda. Então, mais uma vez, abri a boca para pedir desculpas — quando, do nada, a Mashima pescou um cubo de gelo de seu copo e (por alguma razão que eu não conseguia compreender) esticou o braço e o jogou direto nas costas da Shiina, por dentro da roupa.
- Aiiiii! — a Shiina gritou em desespero enquanto tentava em vão se contorcer para se livrar da sensação desconfortável.
Essa postura com as costas arqueadas acabou realçando o peito dela de uma forma que me senti obrigado a desviar o olhar por uma questão de decência — embora não sem antes ficar ali sentado em um transe confuso por um segundo ou dois. Depois de lutar bastante naquela posição para remover o invasor gelado, ela acertou um soco no ombro da Mashima com o punho tremendo.
- Sua... sua idiota, Marine! Estamos tendo uma discussão séria aqui! Deixe suas pegadinhas estúpidas para outra hora!
Mas a Mashima simplesmente soltou uma risada com um sorriso maldoso, totalmente sem remorso.
- Ah, qual é o problema? Só achei que o clima estava ficando meio quente e pensei que uma ajudinha para esfriar os ânimos viria bem, só isso.
Em seguida, ela apertou o botão de chamar o garçom embutido na mesa. A Shiina continuou dando uma bronca nela até o exato momento em que o garçom chegou, ponto em que ela relutantemente segurou a língua.
- Me vê uma porção extra grande de batata frita — disse a Mashima. — Ah, e você quer pedir alguma coisa, Kamiki?
- Ah, er, sim... Eu só vou querer um refrigerante do refil, obrigado.
O garçom repetiu os nossos pedidos para nós e depois voltou para a cozinha.
- Sério, Marine? — disse a Shiina. — Primeiro você descarrila completamente a nossa discussão, e depois simplesmente pede uma porção enorme de batata frita do nada...?
- Sim, sim, já te ouvi. Você bem que podia parar de ser tão careta a qualquer hora dessas. Além do mais, o Kamiki está no mesmo time que a gente, não está? Não precisa ser tão ranzinza com ele só porque você é superprotetora.
- Como é que é? Eu não sou "ranzinza"...
- Ah, é sim! Eu vi o quanto você ficou em choque quando a Nakki veio te pedir ajuda para dar aulas para ele! Você ficou tipo: "Espera. Desde quando ela é tão amiga desse cara que eu mal conheço?". Confia em mim, estava escrito na sua cara!
- N-não, eu só estava... — A Shiina não conseguia manter o contato visual. Parecia que a Mashima tinha acertado na mosca.
- Bom, não que eu não entenda como você se sente, é claro. Mas agora, vamos apenas tentar cooperar por causa da Nakki, beleza?
A Shiina mordeu o lábio de frustração, mas acabou assentindo a contragosto. Fiquei bastante tocado com aquela demonstração de amizade, apesar de claramente ser o único fora de lugar ali no grupo. A Mashima tinha conseguido dissipar a tensão hostil da nossa discussão em um piscar de olhos. Talvez ela fosse uma pessoa mais atenta e atenciosa do que a sua postura relaxada e desleixada me fazia acreditar.
- Ah, e Kamiki — disse a Mashima, encarando-me com uma expressão séria. — Eu já te digo agora que a Shiina se sente muito mal por ter ficado só assistindo de fora durante toda aquela situação com a Ushio. Então, será que dá para não ficar jogando isso na cara dela? Para falar a verdade, eu mesma me sinto bem mal por causa disso.
- É, tudo bem — eu disse, virando-me para a Shiina. — E, er... desculpa. Eu não devia ter perdido a cabeça daquele jeito. Vacilo meu.
- ...Tudo bem — disse a Shiina. — Fui eu que levei para o lado pessoal, afinal. Acho que também te devo desculpas.
A Shiina e eu tínhamos oficializado uma trégua sem jeito. A Hoshihara soltou um suspiro de alívio, e a Mashima abriu um sorriso largo.
- Então, Kamiki! — disse a última. — Você pediu aquele refrigerante do refil... por que não vai lá pegar alguma coisa para você na máquina de bebidas?
- É. Acho que eu deveria...
- Ah, eu vou com você! — disse a Hoshihara, acompanhando-me com seu copo vazio em mãos assim que me levantei da cabine.
Fomos juntos até a máquina de bebidas e, assim que chegamos lá, a Hoshihara soltou mais um suspiro longo e pesado.
- Nossa, vocês realmente me deixaram pisando em ovos lá trás — disse ela. — Por um minuto, achei mesmo que vocês dois iam sair no soco.
- Desculpa por isso, é... Não sei como as coisas teriam terminado se a Mashima não tivesse intervindo para acalmar os ânimos.
- É, a Marine é uma pessoa de ouro. Tem um ótimo tato para resolver conflitos... acho que ser vice-capitã do time feminino de softbol tem algo a ver com isso. Além disso, ela conhece a Shii-chan desde que eram pequenas.
- Ah, caramba. Quem diria.
Isso certamente explicava por que as duas pareciam tão inseparáveis. Enchi meu copo com Coca-Cola na máquina de refrigerante, e a Hoshihara se serviu de suco de maçã. Nós dois voltamos para a nossa cabine — onde agora havia duas pastas plásticas misteriosas sobre a mesa. Deixei a Hoshihara deslizar primeiro para o banco antes de me sentar ao lado dela.
- O que é isso? — perguntei.
- Ah, isso...? — disse a Mashima, tirando os papéis de dentro de uma das pastas plásticas. — Isso, meu amigo, é um conjunto com as questões reais da prova do ano passado. Um veterano conhecido meu me deixou pegar emprestado.
- Caramba, que massa!
Aquilo vinha muito a calhar. A minha vida inteira, eu fui do tipo que estudava sozinho em casa sem nenhuma ajuda externa, então nunca tinha pensado em pedir provas de anos anteriores. Aquilo era um recurso valiosíssimo para um lobo solitário como eu.
Em seguida, a Shiina tirou alguns papéis da outra pasta plástica.
- E estes são alguns exercícios de preparação para o exame final que consegui no cursinho — disse ela. — São apenas cópias, então você também pode levá-los para casa.
Nossa. Achei interessante pensar que ela tinha se dado ao trabalho de preparar aquilo com antecedência, considerando o quanto estava me pressionando um minuto atrás. Mas eu não podia reclamar.
- Obrigado — eu disse. — Eu realmente devo uma a vocês.
- Não é grande coisa, sério — respondeu a Shiina. — Apenas certifique-se de fazer bom uso deles.
Concordei com a cabeça. Sinceramente, fiquei um pouco comovido; não esperava que nenhuma das duas fosse tão longe só para me ajudar. Isso só mostrava o quanto elas valorizavam a Hoshihara como amiga — e, como resultado, eu não tinha desculpa para falhar agora. Eu precisava ficar em primeiro lugar no nosso ano, custasse o que custasse. Aceitei agradecido as pastas plásticas que continham as duas contribuições. Enquanto eu estava ali, dando uma olhada rápida nas questões da prova anterior, o garçom trouxe as batatas fritas que a Mashima tinha pedido.
- Fiquem à vontade para pegar, pessoal — disse ela. — Imagino que você ainda não jantou, né, Kamiki? Manda bala.
- Ah, não... Não jantei, na verdade. Obrigado, com licença...
Peguei os palitinhos do suporte ao lado da mesa e peguei uma batata frita. Coloquei-a na boca e, imediatamente, aquela mistura irresistível de sal e óleo de fritura estimulou minha língua. Era o sabor inconfundível de uma batata frita bem feita — daquelas que sempre te fazem querer pegar mais.
A Mashima me dirigiu um olhar desconfiado.
- Espera aí. Você é o tipo de pessoa que come batata palha com palitinho também?
- Hã? Não. Quem faz isso?
- Então por que diabos você está usando isso nas batatas fritas, hein? Qual é, não seja fresco! Só cai de boca com as mãos mesmo, feito um bicho!
- É que eu só não queria deixar nenhuma mancha de gordura nas folhas de exercícios...
- Ah, é por isso?! Caramba. E eu aqui pensando que você era só um maníaco por limpeza!
A Mashima começou a gargalhar, aparentemente se divertindo bastante.
- Você deveria tentar seguir o exemplo dele, Marine — disse a Shiina, olhando de soslaio para ela. — Aquele último volume de mangá que te emprestei estava cheio de migalhas nas páginas quando você me devolveu.
- Espera, sério? Mas eu tomei o maior cuidado para não comer igual a uma porca.
- Bom, para começo de conversa, você não deveria comer petiscos enquanto lê os livros dos outros. Sorte a sua que eu não sou o tipo de pessoa que faz drama por causa de coisas assim...
- Tá boooom. Entendi o recado... — a Mashima disse, com um tom nada convincente.
A Hoshihara riu daquela pequena troca de farpas, e eu não pude deixar de abrir um sorriso também. Qualquer tensão desconfortável entre nós quatro tinha sumido completamente àquela altura. Na verdade, eu até me sentia bem confortável sentado ali com aquele grupo de garotas agora. Pensando bem, talvez isso fosse o esperado; eu tinha certeza de que a maioria dos caras da minha idade ficaria bem feliz de se encontrar em uma situação como aquela.
Bem quando eu estava refletindo sobre a minha sorte, ouvi uma voz soltar um:
- Eita!
Vinha de algum lugar atrás de mim. Olhei por cima do ombro e vi uma garota vestindo um short curto e uma blusa ombro a ombro parada no meio do restaurante. O visual chamativo era completado por um boné estiloso encaixado de lado sobre duas marias-chiquinhas loiras platinadas.
Era a Arisa Nishizono.
Meu rosto estancou de choque, como se alguém tivesse acabado de jogar um balde de água fria na minha cabeça.
- Que porra ele está fazendo aqui? — a Nishizono perguntou, com uma expressão de puro nojo estampada no rosto. Pelo menos o sentimento era mútuo.
- Ah, oi! Até que enfim você apareceu! — disse a Hoshihara, virando-se e erguendo-se um pouco no assento para cumprimentar a Nishizono. — Nós já começamos! Vem para cá e pega um lugar!
- Quê?! — a Nishizono e eu soltamos em uníssono.
Espera, ela tinha sido convidada para cá? Desde quando ela e a Hoshihara tinham feito as pazes?
A Nishizono torceu o rosto em repulsa e apontou para mim.
- Natsuki... Não me diga que ele é o cara que você quer que eu dê aulas — disse ela.
- Acertou em cheio! — disse a Hoshihara.
- Beleza, tchau.
- O quê?! N-não, espera!
Quando Nishizono Arisa virou-se para ir embora, Hoshihara Natsuki correu para impedi-la — passando por mim antes mesmo que eu pudesse me mexer para deixá-la sair da cabine. Enquanto ela se espremeu por cima das minhas pernas, fiquei bem ciente da sua proximidade: a maciez da parte de trás das suas coxas roçando os meus joelhos, a sua fragrância doce fazendo cócegas no meu nariz — e tudo o que consegui fazer foi ficar tenso e recuar o máximo possível no assento estofado para deixá-la passar. Depois de conseguir sair, ela segurou Nishizono pelos ombros.
- Espera, Arisa! Pelo menos me ouça! — gritou Hoshihara alto — e de repente, todos os olhos do restaurante estavam voltados para as duas. Parecendo não querer fazer uma cena, Nishizono cedeu e pediu que Shiina se deslocasse um pouco para o lado, depois sentou-se ao seu lado. O espaço parecia bem apertado daquele lado da cabine, mas não dava para saber se a expressão emburrada no rosto de Nishizono era por causa do desconforto ou se era simplesmente o seu jeito normal de ser. Shiina tentava ser atenciosa e ocupar o mínimo de espaço possível, enquanto Mashima continuava comendo batatas fritas e rindo sem graça. Por fim, Hoshihara sentou-se de volta ao meu lado, parecendo satisfeita por Nishizono não ter fugido.
- Certo. Então, é o seguinte... — Hoshihara passou a explicar a Nishizono de forma resumida tudo o que tinha acontecido ultimamente: Sera convidando Ushio para sair. Ushio aceitando, com a condição de que ele ficasse em primeiro lugar na nossa série nas provas finais. Hoshihara e eu tramando para que eu ficasse em primeiro lugar no lugar dele, para evitar que isso acontecesse.
Mas essa explicação longa não convenceu Nishizono nem um pouco.
- E aí? — disse ela de forma direta, impaciente.
- Ah, bom... — Hoshihara forçou um sorriso. — Achei que se alguém soubesse como estudar para uma prova importante, seria você — então se pudéssemos contar com a sua ajuda, com certeza teríamos grandes chances de dar certo...
Era óbvio que Hoshihara estava lisonjeando-a, mas havia motivo para isso. Às vezes, a gente acaba esquecendo que, apesar da aparência ríspida, Nishizono era na verdade uma das melhores alunas da escola. Mas mesmo que ela tivesse algum método de estudo secreto que garantisse que eu tirasse nota máxima nas provas, isso era um erro de julgamento claro da parte de Hoshihara. Ela tinha escolhido a garota errada. Tinha a sensação de que Nishizono não estaria muito disposta a me ajudar depois do incidente na sala de aula, dias atrás, que resultou na sua suspensão.
- Olha, Natsuki — disse Nishizono. — Sei que te deixei de lado por um tempo, e me sinto mal por isso. Foi por isso que aceitei quando você ligou ontem pedindo minha ajuda com isso. Mas isso é muito mais do que eu concordei em fazer. Por que diabos você pediu para eu dar aula para ele, logo ele?
Ela bateu os dedos na mesa, como se exigisse uma resposta.
- Bom, porque você tem as melhores notas entre todas as minhas amigas... — explicou Hoshihara, com receio. — E achei que talvez fosse uma boa desculpa para vocês dois fazerem as pazes...
- Com licença? — disse Nishizono, parecendo bastante chocada com a sugestão. — Tenho certeza de que é preciso ser amigo de alguém primeiro para poder "fazer as pazes" com essa pessoa. Não faz sentido eu me envolver com esse fracassado com quem não tenho nada em comum, e não vou pedir desculpa nem tentar ser sua amiga só porque tivemos uma discussão acalorada.
- Mas...
- Nenhuma desculpa. Não sei o que esperava, mas não vou me desculpar, não importa o que diga. Além disso, por que diabos você é tão amiga desse cara de repente? Isso já está me intrigando há um tempo. Com certeza nunca tinha falado nele até algumas semanas atrás, isso é fato.
Hoshihara lançou-me um olhar rápido, depois virou-se de novo para Nishizono.
- Kamiki é um garoto muito legal. Posso falar com ele sobre absolutamente tudo.
- Ah, é mesmo...? Você é um garoto muito legal, né? — disse Nishizono, voltando a atenção para mim. — Então com certeza não está fazendo esse favor apenas para deixar Natsuki devendo a você, para que ela se sinta obrigada a dizer sim quando você a convidar para sair depois, não é mesmo?
- C-claro que não. Não seja ridícula — falei, torcendo para que ela não percebesse que meu coração deu um salto. Ela não estava totalmente errada, por mais que eu tentasse negar.
- Ha, é claro. Vocês, meninos, só querem uma coisa. Fingem que fazem as coisas por ela apenas por bondade no coração, quando na realidade só estão pensando com a cabeça de baixo. Garanto que ele já está imaginando você sem roupa agora mesmo, Natsuki.
- É o que você pensa!
Como diabos ela consegue dizer coisas tão grosseiras com a maior cara de pau...? Droga. Senti o rosto esquentar. Olhei com cautela para Hoshihara — e nossos olhares se cruzaram. Na mesma hora, ela desviou o olhar, curvou-se sobre a mesa e baixou a cabeça, praticamente tentando ficar menor. Que droga. Parecia que Nishizono estava fazendo de tudo para deixar a situação esquisita entre nós.
- Sabe de uma coisa... você é uma tremenda de uma sem noção — falei. — Depois de todas aquelas coisas horríveis que fez na escola, ainda não sente nem um pingo de remorso, não é mesmo?
- Ah, não? Nem um pouco, não — respondeu Nishizono. — Quer dizer, acho que às vezes exagerei um pouco, mas não me arrependo de nada do que disse. Porque não falei nada de errado.
Agora ela estava pedindo mesmo para levar. De onde diabos vinha toda essa presunção e arrogância injustificadas? Já estava muito mais do que irritado; acima de tudo, estava chocado. Mas não ia simplesmente recuar e tentar ser o mais maduro. Isso não era como quando as coisas esquentaram com a Shiina antes; essa garota precisava ser colocada no seu lugar antes que a cabeça dela inchasse ainda mais.
- Ah, é mesmo? — falei. — Então você realmente acha que tinha razão em chamar Ushio de aberração nojenta e todas aquelas outras coisas horríveis que disse a ela?
- Eu só estava falando o que penso — retrucou Nishizono. — O que posso fazer? Sou uma pessoa honesta. Se algo me parece moralmente repugnante, eu falo a verdade nua e crua.
- Isso não é desculpa para soltar insultos e palavras que machucam. Se não gosta de algo, pode simplesmente ignorar.
- É difícil ignorar algo quando somos obrigados a sentar na mesma sala de aula com isso. E o que há de errado em deixar uma pessoa saber que algo que ela escolhe fazer me causa repulsa? Não estou a insultando por algo que ela não pode mudar, como dizer que é muito baixa ou que tem uma cara feia pra caramba. Pode ser um amor duro, mas Ushio precisa ouvir isso. Só estou pensando no bem dela.
- Ah, pare de mentir. Você não liga nem um pouco para ela e sabe disso. Tudo o que quer é tentar assustá-la de volta para ser a pessoa que você gostaria que ela fosse, usando agressão verbal.
- Ei, ei, ei! Acalmem-se, vocês dois! — interferiu Mashima.
- Vamos, pessoal — disse Shiina. — Vamos todos respirar fundo e se acalmar. Arisa, por que não pede algo para beber?
- Vocês duas não se metam nisso — ordenou Nishizono, como se estivesse dando uma ordem. Mashima e Shiina recuaram, deixando a mesa para ela enquanto ela se inclinava no assento, com os braços cruzados, aproximando o rosto pouco a pouco do meu. Havia uma frieza estranha nos seus olhos. — Então deixa eu adivinhar — você acha que está pensando no bem de Ushio, não é? Dizendo apenas o que ela quer ouvir? Isso não vai ajudar ela em nada a longo prazo, sabe. Quer dizer, você faz ideia de quem é a verdadeira Ushio?
- ...O que está querendo dizer? — perguntei, caindo na armadilha.
- Ushio era tão popular quanto qualquer garoto poderia desejar ser. Garotas se aproximavam dela sem que ela precisasse fazer força, e pode ter certeza de que não havia uma garota na escola que diria não se ela resolvesse convidar para sair. Se tivesse continuado sendo um garoto, teria tudo de bom — a vida toda já estava garantida. Uma vida boa. Mas no momento em que decidiu ser uma garota, jogou todas essas bênçãos e privilégios pela janela. E tudo o que a espera agora se continuar por esse caminho é uma vida de dificuldades e sofrimento, onde todos vão se afastar dela e rir por ser uma aberração. E você vem me dizer que quer isso para ela?
Não pude evitar estremecer um pouco diante da intensidade do seu olhar. Engoli em seco.
- Essa "vida boa" que você descreve seria apenas agonia para Ushio. Só quero para ela o que ela quer para si mesma, porque respeito a sua livre vontade como indivíduo, não importa o que os outros digam.
- Não me venha com esse papo de cartaz de autoajuda — disse Nishizono. — A única coisa que você "respeita" é essa imagem que criou de si mesmo, de ser um grande amigo da Ushio dizendo que ela está certa e que tudo bem, quando qualquer um com um cérebro funcionando percebe que isso é só uma fase da qual ela precisa sair. E acho hilário que fale em "livre vontade como indivíduo" como se isso fosse algo absoluto, quando as pessoas mudam de ideia o tempo todo! Ela só está assim há algumas semanas! Pelo que sabe, no momento em que conhecer uma garota muito bonita, ou precisar sair e arrumar um emprego no mundo real, pode se arrepender imediatamente de ter deixado de ser um garoto e perceber que essa não foi a decisão certa. Espere só para ver.
- Bom... sim, as pessoas mudam de ideia e se arrependem das suas decisões de vez em quando. Mas isso faz parte da vida. Provavelmente, mesmo que ela voltasse a ser um garoto, também acabaria se arrependendo disso mais cedo ou mais tarde. Obviamente, não dá para saber de quais escolhas vamos nos arrepender daqui a alguns anos até que aconteça.
- Mas geralmente dá para ter uma boa noção, não é mesmo? Tipo, é óbvio para todos que a vida da Ushio vai ser muito mais difícil se continuar no caminho que está seguindo — o mesmo vale para qualquer um que leve um estilo de vida diferente daquele em que a nossa sociedade foi construída. E vamos ser sinceros aqui: é muito mais fácil mudar de ideia do que mudar o seu sexo biológico. Então mesmo que não se identifique completamente com o tal "sexo designado no nascimento", acho muito mais inteligente e saudável tentar ajustar a sua mente para combinar com o corpo em que nasceu, em vez de tentar mudá-lo. Especialmente quando se é alguém como a Ushio, que foi abençoada com todos os talentos e beleza que um garoto poderia querer. Ou o quê — está me dizendo que tem certeza absoluta de que ela nunca vai mudar de ideia sobre querer ser uma garota no futuro? Pode dizer isso com toda a certeza?
Fiquei sem saber o que responder. Mesmo sentado, parecia que estava em pé sobre chão instável. Senti o suor aparecer nas minhas palmas. As vozes ao meu redor pareciam ficar cada vez mais altas, e não sabia mais quanto tempo conseguiria aguentar. E só agora as chamas da indignação realmente acenderam nos olhos de Nishizono.
- Se não tem resposta para isso — disse ela -, então nos faça um favor e cale a boca de uma vez por todas, seu hipócrita do caramba.
- Arisa — interferiu Hoshihara.
Nishizono virou o olhar devagar para ela, a hostilidade ainda brilhando forte nos seus olhos.
- O que foi, Natsuki?
-Entendemos, está bem? — disse Hoshihara, mantendo o olhar firmemente fixo em Nishizono, apesar do tremor em seu corpo. — Você não precisa começar a lançar insultos ao Kamiki-kun...
O mais leve traço de decepção se espalhou pelo rosto de Nishizono.
- Você realmente concorda com esse idiota, não é, Natsuki?
- Não me entenda mal, eu entendo o seu ponto de vista. Eu realmente acho que é bem inteligente pensar no longo prazo também — não que eu esperasse menos de você. Mas neste caso... acho que você só precisa perceber que essa decisão foi fruto de muita reflexão e consideração por parte da Ushio-chan, e exigiu muita coragem dela... então eu não acho que nenhum de nós tenha o direito de dizer que sabemos o que é melhor para ela mais do que ela mesma. E, bem... acho que é algo incrível começar a trabalhar para se tornar a versão de si mesmo que você realmente quer ser. Quero apoiá-la nisso.
Um silêncio pesado pairou sobre a mesa por um bom tempo depois disso.
Nishizono nem piscou — apenas manteve seu olhar gelado firmemente fixo em Hoshihara, como se estivesse segurando uma faca contra a garganta da outra garota. No entanto, Hoshihara se recusou a desviar o olhar. Ela apenas ficou ali sentada, ereta e rígida como uma tábua, talvez preparada para suportar a dor.
Foi Nishizono quem quebrou o silêncio primeiro.
- ...Entendo — disse ela.
Então, como se devolvesse a faca à bainha, ela baixou o olhar e se levantou do assento. Sem expressão, virou-se para encarar Hoshihara.
- Você é minha amiga, Natsuki, então não direi mais do que já disse. Mas você, Kamiki...
Esta foi a primeira vez que Nishizono pronunciou meu nome.
Ela me olhou com olhos severos e impassíveis e disse:
- Eu nunca vou aprovar o que você está fazendo. Ponto final.
E com isso, ela virou as costas para mim e foi embora. Somente quando a porta do restaurante se fechou atrás dela é que Hoshihara soltou um suspiro ofegante, como se tivesse acabado de emergir de um mergulho em águas profundas.
- Nossa, que medo... — disse ela, soltando um suspiro de alívio enquanto a parte superior do corpo desabava sobre a mesa. Mashima e Shiina pareciam igualmente exaustas agora que a tensão pura da presença de Nishizono finalmente havia se dissipado. Eu não as culpava; por alguns instantes, eu também estava achando bem difícil respirar. Mashima se recostou no banco, enquanto Shiina massageava as têmporas.
A tempestade em meu coração ainda não havia diminuído. As palavras de Nishizono reverberavam dentro do meu crânio — e mesmo que ela já tivesse saído do local há muito tempo, meu corpo ainda se sentia em modo de luta ou fuga e se recusava a se acalmar, apesar de não haver ameaça alguma à vista.
Hoshihara olhou para mim.
- Você está bem, Kamiki-kun? — perguntou. — Você não parece muito bem.
- Ah, desculpe. Estou bem — disse eu, saindo do transe. — E obrigado por ter me defendido ali, a propósito. Agradeço muito.
- Ora, nem fala nisso. E, hum... tente não levar nada que a Arisa disse muito para o lado pessoal, tá? Ela é meio assim mesmo.
- Sim, eu sei... Obrigado — acenei com a cabeça, mas, para ser sincero, estava achando muito difícil me livrar daquilo. Parecia que o próprio cerne do meu ser balançava instavelmente — como um dente prestes a se soltar e cair. Parece que Hoshihara percebeu isso, pois me olhou com preocupação.
- Ela definitivamente tem seus próprios pensamentos e sentimentos sobre as coisas, e eles simplesmente acabaram colidindo com os nossos desta vez. Eu não acho que nada do que você disse agora foi errado ou questionável de forma alguma. Eu realmente não me preocuparia com isso se fosse você.
Essa garantia aliviou um pouco o peso em meu coração. Mas então não pude deixar de me perguntar se ela estava apenas me dizendo o que eu queria ouvir, como Nishizono disse que eu fazia com Ushio, e isso tornava difícil aceitar as palavras de Hoshihara pelo valor nominal.
- Mas nossa, tenho que dizer — foi bem legal da sua parte enfrentar a Arisa no modo malvada total dela — disse Mashima, exibindo um sorriso tímido. Supus que ela também estava apenas tentando me fazer sentir melhor. — E é, como a Nakki disse, eu não me preocuparia tanto se o que você está fazendo é certo ou errado. Quer dizer, qual é aquela coisa que aprendemos na aula de economia outro dia? A mão invisível? Sabe, aquela coisa sobre como todos se beneficiam quando as pessoas agem em seu próprio interesse. Então é, acho que você deveria apenas se concentrar em fazer o que quer fazer. Tenho certeza de que isso será melhor para a Ushio e provavelmente para o resto de nós também. Estou certa ou estou certa? — Ela se virou para Shiina em busca de validação. — Hm? Ah, sim... Concordo.
- Qual é o problema? Você não parece muito convencida.
- Não, não é isso, eu só... — Shiina olhou para mim, depois para Hoshihara — e então baixou os olhos para a mesa. — Eu estava pensando sobre o quão obstinada a Arisa é. Sempre que ela decide algo, é como se estivesse pronta para morrer naquela trincheira. Não cede um centímetro, independentemente do que alguém diga. E, para ser sincera, admiro um pouco essa determinação dela. Obviamente, não endosso totalmente o ponto de vista dela nem nada disso, e ainda vou ajudar o Kamiki-kun com isso... Mas acho que não devemos simplesmente ignorar o que ela estava dizendo também. Havia alguma validade naquilo.
- Sim, claro — respondi com um aceno de cabeça autocrítico. Sabia que Hoshihara e Mashima provavelmente concordavam com o que Shiina estava dizendo também, mesmo que não admitissem abertamente. Elas deviam reconhecer que havia uma linha de raciocínio sólida no argumento de Nishizono, concordassem ou não com ele.
De repente, eu não queria mais nada além de me deitar bem ali, na cabine — e não apenas porque isso significaria descansar a cabeça no colo de Hoshihara. Não havia segundas intenções por trás disso; eu estava simplesmente tomado pelo cansaço. Aquilo tinha sido uma quantidade enorme de estímulo mental e debate ideológico em um período muito curto de tempo, e meu cérebro parecia estar superaquecendo só para processar tudo.
Então, do nada, Hoshihara bateu as palmas das mãos — instantaneamente trazendo todo o grupo de volta à atenção e nos tirando da névoa coletiva. Nós três olhamos para ela.
- Certo, vamos começar a sessão de estudos!
A partir daí, finalmente começamos nosso objetivo original da noite: me ajudar a estudar para as provas que se aproximavam. O processo foi bem básico no geral: sempre que eu encontrava algo que não entendia muito bem, eu falava, e as outras três faziam o possível para me explicar. Shiina ajudava principalmente com qualquer coisa relacionada à matemática. Seu estilo de instrução era um pouco duro para o meu gosto, mas ela ainda fez um bom trabalho em me ajudar a eliminar quaisquer incertezas que eu encontrava. Mashima, por sua vez, me disse mais ou menos quais questões e conceitos eu deveria esperar em cada uma das provas — aparentemente, ela conseguia prever esse tipo de coisa com uma precisão impressionante com base nas personalidades dos professores das respectivas matérias, além de pequenas dicas que eles davam durante as aulas. Houve, reconhecidamente, alguns pequenos problemas e desentendimentos ao longo desse processo, mas no final, saí da sessão de estudos sentindo que ela tinha sido altamente proveitosa.
Combinamos de encerrar a noite poucos minutos antes das oito. Depois de acertar a conta e sair do restaurante, nós quatro seguimos caminhos diferentes. Peguei minha bicicleta e pedalei em direção a casa. Já estava completamente escuro lá fora.
Mesmo depois de sair da lanchonete, as palavras de Nishizono continuaram ecoando em minha mente, como uma música irritante ou jingle de comercial que havia escapado pelos meus ouvidos e se alojado em meu cérebro. Quanto mais eu ouvia seus argumentos em repetição, mais sentia que para cada um que era fundamentalmente sólido, havia outro que não passava de egoísmo e irracionalidade. Onde eu realmente me posicionava em tudo isso? Quem era eu? Hoshihara, Mashima, Shiina e Nishizono — cada uma tinha seus próprios pontos de vista e opiniões claramente formadas. E então havia eu, suspenso em um limbo — emaranhado nos fios da minha própria indecisão. O pensamento me fazia sentir patético e envergonhado.
Lembrei-me das palavras de Mashima: "Acho que você deveria apenas se concentrar em fazer o que quer fazer."
O que eu queria fazer. Mas o que eu queria para mim, no fim das contas? E o que eu realmente esperava obter com isso? Enquanto contemplava essas questões pedalando, um garoto e uma garota mais ou menos da minha idade vieram caminhando pela calçada em minha direção — de braços dados, conversando animadamente. Supus que fossem um casal. O garoto usava o uniforme da Tsubakioka High, enquanto a garota estava com roupas comuns. Só quando estava a poucos metros deles percebi que era o Sera — e uma garota que eu não reconhecia.
Poucos momentos depois de passar por eles, acionei os freios e olhei por cima do ombro. Meus olhos não me haviam enganado: aquela estatura alta e desengonçada e o cabelo um pouco mais comprido que o normal — era definitivamente o Sera. Então quem era essa nova garota com quem ele estava? Ela com certeza não era a mesma garota que eu o tinha visto beijar perto da estação algum tempo atrás. Aquela garota tinha tranças compridas, e o cabelo desta mal chegava aos ombros.
Uma apreensão inquietante preencheu meu peito, seguida por um senso de dever — a necessidade de discernir exatamente qual era a relação de Sera com aquela garota. Não consegui conter minha curiosidade, então saltei da bicicleta e a empurrei a pé enquanto os seguia à distância. Parecia que eles não desconfiavam de nada, pois nenhum dos dois virou para trás para me olhar sequer uma vez. Eventualmente, eles entraram na Estação Tsubakioka, então estacionei minha bicicleta no acostamento da estrada e os segui. Tecnicamente, não era um lugar aceitável para estacionar a bicicleta, mas sabia que provavelmente os perderia de vista no tempo que levasse para ir até o bicicletário.
Apesar de o horário de pico da noite já ter passado, ainda havia bastante gente passando pela catraca. O casal parou em frente a ela e se viraram um para o outro. A conversa deles cessou, e eles simplesmente se olharam em silêncio por um momento. Havia uma atmosfera diferente entre eles em comparação com todos ao redor — como se estivessem em um pequeno bolsão da realidade isolado do resto do mundo, bem no meio da multidão.
Fui tomado por uma forte sensação de déjà vu. E, claro...
Sera se inclinou e beijou a garota, bem na boca. Desta vez, foi um beijo apaixonado — durando nada menos que dez segundos.
Quando ele finalmente se afastou, a garota tinha uma expressão atordoada no rosto. Ela sorriu enquanto cambaleava pela catraca em passos instáveis. Sera se virou e voltou caminhando na minha direção, com o mesmo sorriso raso de sempre estampado no rosto. Conforme ele se aproximava, nossos olhos se encontraram por um instante — mas ele rapidamente desviou o olhar como se eu fosse um completo estranho e passou direto por mim.
- Ei — chamei atrás dele. Mas Sera nem se virou. Então o persegui e estendi a mão para agarrá-lo pelo ombro e puxá-lo de volta. Finalmente, ele se virou — ou mais especificamente, eu o virei.
- E aí? — respondeu ele, ainda se recusando a abandonar o sorriso. Ele não parecia estar usando-o apenas para rir da situação como mecanismo de defesa, nem parecia estar divertido ou intimidado por essa demonstração repentina de assertividade minha. Meu melhor palpite era que, para Sera, esse sorriso era uma espécie de cara de pôquer.
- Você se importa de me dizer o que foi aquilo? — perguntei.
- Desculpe? Não sei do que você está falando.
- Você beijou aquela garota agora há pouco, não beijou?
- É. Beijei — admitiu ele prontamente. — E daí?
Pelo tom de sua voz, nem parecia que ele estava sendo desafiador; era mais como se ele genuinamente não visse qual era o problema.
- Você já não está namorando outra garota? — disse eu. — E você já não convidou a Ushio para sair, além disso?
- Quer dizer, é... Espera, como você sabe- ah! — Os olhos de Sera se arregalaram um pouco. — Certooo, você é aquele garoto com quem conversei do lado de fora da loja de conveniência. Heh. Que coincidência encontrar você aqui de novo. Por alguma razão inexplicável, ele curvou os lábios em um sorriso alegre.
- Largue de fingir — retruquei. — Você não vai conseguir sair dessa com um sorriso. Você está realmente tentando namorar a Ushio ou não? No começo, achei que você só estava traindo ela, mas agora vejo que está traindo três... Ou, quem sabe — você provavelmente tem ainda mais namoradas, não tem? Até onde vai essa toca de coelho, hein? Alguma delas sabe sobre as outras?
- Er, é, então acho que posso explicar se você quiser. Mas por que não encontramos um café ou algo assim para sentar primeiro? Podemos relaxar, certo?
- Apenas me responda logo.
Foi só neste momento que percebi o quão irritado eu estava agora. Eu não ia me sentar e dividir uma mesa com esse babaca. Meus instintos me diziam que se eu cedesse sequer um centímetro do alto moral para ele, ele tentaria tomar um quilômetro.
- Mas você está meio que fazendo uma cena agora, amigão — disse Sera. — Além disso, estamos bloqueando o trânsito, então há uma boa chance de um funcionário da estação interromper nossa conversa e mandar a gente vazar de qualquer jeito. E você não ia querer isso, ia?
Eu não gostei, mas ele tinha um ponto. Estava preocupado em causar um distúrbio público — mas também não queria fazer exatamente o que esse cara dizia. Então dividi a diferença e apontei para um banco próximo, ao lado da bilheteria. Sera assentiu, então caminhou até lá e se sentou. Ele cruzou as pernas e empilhou as mãos sobre um dos joelhos. Ele ainda estava agindo com total indiferença em relação a tudo isso. Eu não me juntei a ele no banco, optando em vez disso por ficar diretamente na frente dele, olhando para baixo.
- Bem? — disse eu. — Estou esperando.
- Desculpe, o que você perguntou mesmo? Se eu realmente quero namorar a Ushio ou não? — disse Sera, olhando para mim de baixo. — Bem, é. Claro que quero. Meio constrangedor ter que ficar repetindo isso, mas eu realmente, realmente gosto dela, está bem?
- Mas você sente isso por muitas garotas, pelo visto.
- Claro. Eu amo aquela garota que você viu agora há pouco, e aquela outra garota que você me viu com um tempo atrás, tanto quanto amo a Ushio. Se não amasse, não estaria namorando com elas ainda. Tipo, óbvio, né? Realmente não vejo nada de estranho nisso.
A atitude despreocupada dele começou a me irritar novamente.
- E eu não vejo como você pode achar que isso é perfeitamente normal — disse-lhe. — Você não pode simplesmente namorar várias garotas ao mesmo tempo e esperar que eu acredite que você... a-ama todas igualmente, está bem? Não é sustentável — uma hora algo vai ter que ceder. Além disso, sei que você só convidou a Ushio para sair por impulso. Quem garante que você não vai decidir terminar com ela tão rápido? Se você só quer usá-la por um tempo, e depois partir o coração dela, deveria apenas retirar sua pequena confissão e deixá-la em paz.
- Você realmente se importa muito com a Ushio, hein? — disse Sera. — Se eu não soubesse melhor, pensaria que você é o tutor legal dela ou algo assim.
- Nós somos apenas amigos. E a conheço há muito tempo.
As sobrancelhas de Sera se ergueram com isso.
- Ah, agora entendi — disse ele. — Você deve ser o Sakuma, certo? É, a Ushio me falou sobre você. Disse que você era um belo pestinha no ensino fundamental, heh.
- Isso não tem nada a ver com o que estamos falando agora. Agora me diga: qual vai ser?
- Desculpe, mas não vou retirar nada — disse Sera, de forma decisiva. — Pra mim, parece que talvez você tenha se aprisionado na mentalidade monogâmica clássica que diz que todo mundo só pode amar uma pessoa de cada vez. E é por isso que você se recusa a aceitar que alguém possa estar apaixonado por múltiplas pessoas, como eu estou. Estou certo?
- Por quem ou por quantas pessoas você desenvolve sentimentos é problema seu — disse eu. — Quando se trata de realmente namorar com elas, aí é outra história. Quer dizer, imagina se a Ushio descobrisse que você está namorando várias outras garotas além dela... Eu acho que não preciso explicar como ela se sentiria em relação a isso.
- Mas veja bem, eu-
- E não me venha com alguma bobagem sobre como você "vai fazer questão de que ela nunca descubra" ou algo assim. Já te peguei em flagrante com outras duas garotas, então esse não é exatamente um argumento convincente.
- Não, deixa eu terminar. Eu estava dizendo que ela já sabe — porque eu contei a ela.
- ...Como assim? — Meus olhos se arregalaram.
- É como você disse — eu meio que tive a sensação de que ela descobriria mais cedo ou mais tarde, então decidi simplesmente contar a ela ontem. Contei que estava namorando outras mulheres também, expliquei a situação e perguntei se ela tinha algum problema com isso. Ela disse que agradeceu minha honestidade e que estava totalmente de boa com isso. E que nosso pequeno acordo de ela sair comigo se eu ficar em primeiro lugar da nossa série nas provas ainda está de pé.
Senti tontura.
- Você está mentindo.
- Não, é a verdade. Não acredita em mim? Por que eu não ligo para ela agora mesmo e a gente pergunta? Ou, quem sabe, você mesmo pode ligar, se realmente quiser.
Seu modo de falar e o sorriso presunçoso em seu rosto eram tão suspeitos quanto possível — mas algo me dizia que ele estava falando a verdade. E pensando logicamente, parecia bastante inútil para ele se dar ao trabalho de mentir sobre algo que eu poderia desmentir tão facilmente. Mesmo assim, eu não queria acreditar. Meu cérebro rejeitava essa explicação, e meus ouvidos se recusavam a ouvi-la.
- Bem, mesmo assim... ainda não está certo — disse eu. — Mesmo que ela saiba e tenha te dado permissão, ainda é infidelidade, do ponto de vista moral — e isso não é aceitável.
Sera soltou uma risada.
- Não aceitável para quem? Para você? Achei que você tinha dito que vocês dois eram apenas amigos? Que direito você tem de dizer o que é ou não aceitável quando se trata dos relacionamentos dela? Agora sim, isso é o que eu chamo de estranho.
- É, e quanto às outras garotas com quem você está namorando, hein? Algo me diz que você ainda não explicou tudo isso para elas.
- Não, com certeza não expliquei. Mas isso literalmente não tem nada a ver com você. Ora, eu diria que até no caso da Ushio, nosso relacionamento não é da sua conta. Só estou sentado aqui explicando isso para você agora como um simples gesto de boa fé, já que você é amigo dela.
- Gesto de boa fé? O-Ouve só, você... — Minha voz tremeu. Minha boca estava seca, e minha língua parecia dormente — eu não conseguia formular as palavras direito.
- Bem, eu entendo seu ponto de vista, para ser justo — continuou Sera. — Palavras como "infidelidade" e "traição" não têm conotações muito boas em nossa sociedade. Mas se você me perguntar, essa é a parte mais estranha de todas. Tipo, somos ensinados desde muito jovens que devemos tentar fazer o maior número possível de amigos, e que é uma virtude se dar bem com todo mundo e amar o próximo e tal. No entanto, assim que você começa a falar sobre namoro e casamento, aquele enorme grupo de pessoas de repente tem que ser reduzido a apenas uma pessoa. E mesmo que você não consiga se decidir e acabe se apaixonando por duas ou mais pessoas que todas consentem plenamente com isso, sempre haverá pessoas como você que aparecem e tentam julgar, agindo como se fosse algo moralmente errado de se sentir culpado. Isso é bem ridículo, se você me perguntar. Sou apenas um romântico de nova era, honestamente — preso vivendo em um mundo que se recusa a aceitar meu estilo de vida como válido.
- ...Romântico, o caralho. Seu argumento é tão raso quanto sua personalidade. Não tem como você me convencer de que está realmente a-amando três pessoas ao mesmo tempo, sem que nenhuma delas nunca saia perdendo.
- Não sei o que mais te dizer, amigão. Não é como se houvesse alguma maneira de eu provar para você o quanto as amo individualmente, sabe? Quer dizer, você me viu com a Ushio na escola, certo? Então tenho certeza de que reconhece o quanto de esforço estou disposto a colocar em um relacionamento.
- Isso é só porque... você está tentando conquistá-la para que ela goste de você.
- É, e daí? Não vejo nada de errado nisso. Você se esforça para conquistar alguém através de interações positivas contínuas, esperando receber uma quantidade correspondente de afeto em troca. É uma troca perfeitamente justa, perfeitamente saudável. Todo mundo ganha, e não machuca ninguém — exceto talvez caras como você, que estão apenas com ciúmes do sucesso alheio.
- Não! Pode acreditar, eu nunca teria ciúmes de um cara como você. Eu só me importo muito com a Ushio, só isso...
Fale com o autor