The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
2 Capítulo 2
- Por que ele estava chorando? — perguntei-me. Parecia razoável presumir que tinha algo a ver com a roupa que estava vestindo — embora eu não conseguisse nem arriscar um palpite do porquê de ele estar vestido de menina naquele momento. Será que ele sempre curtiu se vestir de mulher ou algo assim e simplesmente fez um bom trabalho em esconder isso? Talvez fosse o caso. Mas agora que eu o tinha visto daquele jeito, não podia muito bem fingir que não vi. Eu tinha que dizer alguma coisa.
- U-Ushio...? É você? — perguntei timidamente. — Por que... por que você está vestido assim?
Os olhos dele se arregalaram tanto e tão rápido que pensei que fossem pular das órbitas. Sua boca abria e fechava, mas palavra nenhuma saía. Eu nunca o tinha visto tão atordoado e desconcertado antes.
Ele tentou gaguejar uma desculpa.
- S-Sakuma, não, eu... eu posso explicar, eu só...
A falha em sua voz, que costumava ser calma e rouca, tornou dolorosamente óbvio o quão transtornado ele estava. Ele estava lutando até para juntar uma sequência de palavras e, em pouco tempo, tudo o que saía de sua boca escancarada eram respirações pesadas. A cada tentativa de engatar uma explicação, o intervalo entre os suspiros diminuía, e logo ele estava literalmente arquejando por ar, com o rosto retorcido de agonia enquanto agarrava o próprio peito.
"Meu Deus... Ele está hiperventilando!"
- Ushio! V-você está bem?! — gritei.
Um instante depois, ele se inclinou para a frente — e vomitou. Eu só pude assistir, paralisado, enquanto ele colocava tudo para fora ruidosamente no pavimentado do parque, formando uma grande poça de fluidos e comida semidigerida. Mesmo depois que seu corpo espremeu até a última gota de bile de seu estômago, ele continuou tendo ânsias de vômito por um bom tempo. Quando a purgação finalmente parou, pude ver um fio longo e brilhante de saliva estendendo-se de sua boca até o chão, iluminado pelo poste de luz próximo.
Apesar de ter testemunhado tudo, eu não conseguia acreditar nos meus olhos: meu melhor amigo de infância, um dos caras mais descolados, inteligentes e atraentes da sala, tinha acabado de vomitar as tripas na minha frente enquanto usava um uniforme feminino. Mesmo depois que o vômito parou, não consegui abrir a boca para dizer uma única palavra — principalmente porque eu não tinha a menor ideia de qual seria a coisa certa a se dizer naquela situação. Ushio, por sua vez, apenas continuou com a cabeça baixa e largada por um tempo, como se sua alma tivesse acabado de sair do corpo. Então, após um longo e incômodo silêncio, ele se levantou cambaleando e saiu correndo feito uma bala. Quando passou por mim, consegui vislumbrar de relance o seu rosto. Ele estava chorando de novo.
E assim fui deixado ali, sozinho no parque deserto, com apenas o cantar límpido e ressonante dos insetos noturnos para me fazer companhia. Eu não conseguia afastar a sensação de que, de alguma forma, tinha acabado de cometer um erro terrível sem querer — um erro que eu jamais poderia desfazer.
Assim que cheguei em casa, fui direto deitar de barriga para cima na minha cama. Ainda não parecia real — parecia tão surreal, na verdade, que cheguei a me perguntar se não estava apenas tendo um sonho esquisito. Toda vez que eu pensava no que havia acontecido naquele parque hoje à noite, ficava com um gosto estranho na boca — algo parecido com culpa. Como se tivesse visto algo que não deveria ter visto. Eu sabia que não era bem minha culpa por estar aleatoriamente no mesmo lugar e na mesma hora, mas ainda parecia estranhamente minha responsabilidade, apesar de tudo. Como se, caso eu não tivesse pisado naquele parque hoje, Ushio não teria começado a hiperventilar e não teria que vomitar até as tripas.
Peguei meu celular, abri a agenda de contatos e rolei a tela até a entrada de Ushio Tsukinoki. Parando para pensar, ele foi o primeiríssimo contato que adicionei no meu primeiro ano do ensino médio. Ele simplesmente se aproximou de mim enquanto eu mexia no celular um dia e sugeriu que trocássemos números.
Se eu quisesse muito, poderia mandar uma mensagem para ele agora mesmo e perguntar o que estava acontecendo, ou me oferecer para ouvir se ele precisasse desabafar. Mas eu não sabia se chamar atenção para o assunto era a melhor coisa a se fazer, para começo de conversa. Algo me dizia que Ushio não queria ser visto daquele jeito, em roupas femininas. Sendo assim, talvez fosse melhor apenas esquecer o que presenciei esta noite e nunca mais tocar no assunto.
- É... talvez seja o melhor — resmunguei para o teto. De repente, lembrei-me de algo que havia lido em um livro há muito tempo: "Se um raio cai em uma montanha no meio do nada, e não há ninguém por quilômetros de distância, o trovão faz algum barulho?" A resposta, segundo o livro, era não — porque ninguém ouviu, então aquele som era o mesmo que nunca ter acontecido.
Se não existisse nenhum vestígio de um determinado evento — seja na mídia gravada ou na memória dos vivos -, então era realmente possível fingir que aquilo nunca aconteceu. Era a mesma lógica por trás de frases como "não é traição se você não for pego". Não havia dúvidas na minha mente de que Ushio provavelmente desejava que nosso pequeno encontro desta noite não tivesse ocorrido, então o melhor que eu podia fazer por ele agora era apagar isso completamente da minha memória e torcer para que ele fizesse o mesmo. Assim, nenhum de nós teria que reconhecer o cross-dressing ou o vômito nunca mais.
Portanto, decidi ali mesmo que, quando o visse na escola na segunda-feira, agiria como se tudo estivesse totalmente normal. Não o trataria de forma diferente de jeito nenhum. Ele voltaria a ser um dos caras mais populares da sala, e eu retomaria meu papel de excluído social. Essa era claramente a melhor jogada aqui — tanto para ele quanto para mim.
Minha decisão estava tomada.
Infelizmente, Ushio acabou não indo à escola na segunda-feira. A professora nos disse que ele havia ligado avisando que estava gripado. E embora alguns dos meus colegas de classe tenham expressado preocupação por ele (ou, alternativamente, feito piadas sobre ele ser um frouxo), ninguém mais falava disso quando o segundo período começou. Isso me levou a acreditar que eu era o único na sala que sabia de algo sobre o que eu presumia ser o real motivo de sua ausência. Eu não podia culpá-lo por precisar de um dia de folga para se recuperar de um momento embaraçoso daqueles. Rezei para que fosse apenas isso e que ele entrasse saltitante pela porta da sala amanhã como se nada tivesse acontecido.
Mas Ushio não veio à escola no dia seguinte também.
Nem no dia depois desse.
E nem no dia seguinte... Conforme os dias passavam, mais e mais colegas de classe expressavam preocupação genuína por Ushio — especialmente aqueles que faziam parte do seu círculo íntimo. Todas as manhãs, assim que descobriam que ele estava ausente mais uma vez, começavam a trocar olhares preocupados, perguntando-se em voz alta o que teria acontecido com ele, se talvez ele tivesse pegado algo muito pior do que uma gripe, notando como ele também não estava indo aos treinos de atletismo. Durante uma dessas conversas em grupo, ouvi dizer que ninguém estava conseguindo entrar em contato com Ushio, nem mesmo os seus amigos mais próximos. Pelo visto, eles tentaram visitá-lo em sua casa em pelo menos uma ocasião, mas foram dispensados na porta. Eu não podia culpá-los por estarem apreensivos — até eu estava sem saber o que fazer agora.
Será que eu devia mandar uma mensagem? Ligar para ele? Passar na casa dele?
Eu estava preocupado com ele, obviamente. Quando imaginava a possibilidade de ele simplesmente largar a escola e nunca mais dar as caras por aqui, meu estômago afundava. Comecei a me culpar por ter saído de casa para dar uma caminhada naquela noite.
Mas os dias iam e vinham, e eu continuava sem a menor ideia do que fazer a respeito.
Até que finalmente, quase no final de junho, depois de Ushio estar ausente por mais de dez dias, a professora Iyo abriu o nosso período de orientação matinal anunciando que havia "algo muito importante" sobre o qual precisávamos conversar.
- Pode entrar — disse a professora Iyo.
Sua voz ecoou na sala de aula silenciosa. Todos os meus colegas de classe seguraram o fôlego enquanto assistiam à porta de correr ranger ao se abrir — e então um novo estudante entrou.
A sala de aula virou um burburinho imediato. De todos os cantos surgiram gritos confusos de "Hã?" e "Sério, que porra é...?!", enquanto alguns alunos olhavam fixamente em choque com os olhos arregalados, outros franziam as sobrancelhas e faziam caretas de absoluto desgosto, e outros ainda sorriam sem graça, como se não tivessem certeza se aquilo era para ser uma piada. Do meu assento no fundo da sala, eu conseguia ver todas as variadas reações que a entrada desse estudante estava provocando — mas só eu sabia, no fundo, o que esperar antes mesmo de a pessoa passar pela porta. Ainda assim, não pude deixar de engolir em seco e encarar em surpresa e mudez como todo o resto deles.
O estudante que agora estava de pé no tablado do professor era Ushio Tsukinoki.
Só que hoje, ele estava vestindo o uniforme feminino padrão do Colégio Tsubakioka.
Para ser completamente sincero, com sua pele clara e físico esguio, a roupa na verdade parecia bem natural nele — muito mais do que o uniforme desajeitado que ele estava vestindo no parque naquela noite. Meus olhos foram naturalmente atraídos para o par de meias-calças pretas elegantes que se estendiam sob a saia. Considerando que ele já era um rapaz bem bonito, eu realmente poderia tê-lo confundido com uma garota se não soubesse da verdade.
Obviamente, meus colegas de classe e eu sabíamos da verdade. Afinal de contas, ele se trocava com o resto de nós, os garotos, antes da aula de educação física, e fazia parte do time masculino de atletismo. Parecia que eu não era o único que se sentia bastante desorientado com a cena, sem saber como reagir. Mas no fim, foi o próprio Ushio quem quebrou o silêncio constrangedor:
- Sinto muito por não responder a nenhuma de suas mensagens ou ligações enquanto estive fora — começou ele, sem expressão e em tom monótono, como se estivesse recitando um discurso que havia ensaiado com antecedência. Ao contrário de sua aparência, sua voz continuava a mesma. — Tenho certeza de que isso provavelmente será um choque para todos vocês, mas a verdade é que venho questionando meu gênero há muito tempo. E na semana passada, conversei sobre isso com a minha família e decidi que vou tentar viver a minha vida como uma garota de agora em diante. Espero que todos vocês entendam e me aceitem, apesar de tudo.
Assim que Ushio terminou de falar, um silêncio desconfortável caiu sobre a sala de aula mais uma vez. Eventualmente, um dos caras sentados perto da frente da sala (que estava sempre falando pelos cotovelos e dizendo idiotices) levantou a mão.
- Er, então tipo... Isso significa que você na verdade era uma menina esse tempo todo? — perguntou ele. — Eu devia estar te chamando de Ushiozinha em vez de Ushio? Mal aí, cara.
Essa pergunta infantilmente insincera quebrou o silêncio e arrancou algumas risadinhas leves da plateia do fundão.
Ushio franziu levemente a testa, mas tentou dar uma resposta genuína.
- ... Claro, você pode interpretar dessa forma se quiser. Mas não, não sou tão exigente com termos de tratamento. Pode continuar me chamando do jeito normal se preferir.
- Beleza, mas e se você precisar dar uma mijada? Vai simplesmente usar o banheiro das meninas a partir de agora?
- Bem, er...
Ushio hesitou com isso, então desajeitadamente mordeu o lábio e baixou o olhar enquanto outro garoto na sala abria a boca para fazer uma pergunta em uma voz despreocupada e letárgica.
- Então, cara, tipo... Você está só de zoeira com a gente, né? Porque, tipo, sem ofensa, mas está começando a ficar um pouquiiiiinho desconfortável aqui dentro, então está meio difícil de saber. Tipo, eu respeito a dedicação à piada e tudo mais, mas fala sério, cara. — O garoto se virou para os colegas de classe em busca de apoio. — Eu não sou o único que quase caiu nessa, sou?
- É, me pegou totalmente de surpresa também.
- Que nada, eu sabia que era brincadeira desde o início.
- Mas ficou estranhamente bom nele, hein.
Um por um, os garotos ao redor do primeiro orador juntaram suas vozes ao coro de comentaristas sobre a transformação inesperada de Ushio — e todos eles pareciam estar dizendo a mesma coisa: "Beleza, muito engraçado. Mas você já pode parar com a palhaçada." Não havia malícia perceptível na atitude deles; se tanto, parecia que estavam tentando dar a Ushio uma saída fácil. Como se estivessem tentando impedir o garoto mais popular da sala de se envergonhar ainda mais.
Ushio balançou a cabeça.
- Não é uma piada — disse ele em uma voz firme, porém baixa. Isso deixou seus amigos sem palavras, e o silêncio desceu sobre a sala de novo. — Não é uma piada mesmo. — Ele repetiu, devagar e com certeza, sua expressão compenetrada. O ar na sala parecia ter congelado.
Eu conseguia ouvir a aula sendo dada na sala ao lado.
- Muito bem, pessoal! Acho que podemos encerrar por aqui! — disse a professora Iyo — que estava observando tudo atentamente dos bastidores -, batendo palmas duas vezes enquanto retomava o seu posto. — Pode ir se sentar, então, Ushio! Eu tenho uma aula para dar aqui. Espero que estejam todos prontos para o teste de ideogramas hoje!
Apesar de seu tom alegre, isso claramente serviu como um lembrete indesejado, já que meus colegas de classe todos resmungaram e de má vontade puxaram seus livros de japonês. Ushio fez uma leve reverência para a professora Iyo e depois caminhou até sua carteira. Parecia a calmaria repentina antes de uma tempestade.
Assim que o primeiro período acabou, uma quantidade considerável de colegas de classe correu até Ushio, lotando a mesa dele. Eles o bombardearam com todo tipo de perguntas presunçosas e descaradas: Ele mesmo tinha comprado aquele uniforme? Ele sempre quis ser uma garota? Estava usando calcinha agora mesmo? Ushio, claramente um pouco desconfortável, a maior parte do tempo apenas desconversava com respostas vagas e evasivas.
- Ei, cara. Tempos estranhos esses em que vivemos, né? — alguém disse para mim. Eu me virei para ver Hasumi, que estava de pé ao lado da minha carteira enquanto observava o alvoroço ao redor de Ushio.
- É, nem me fale — respondi. — Ainda não consigo acreditar também.
- Quer dizer que você nunca viu nenhum indício desse tipo de coisa no passado?
- Não, nenhum. Quero dizer, ele sempre teve traços faciais um pouco femininos, e me lembro de achar que ele parecia meio menininha até quando era criança... Mas não, ele sempre foi um garoto na minha cabeça e sempre se apresentou assim na escola e tudo mais.
- Nenhuma chance de ele ter sido secretamente uma menina o tempo todo e você só não sabia?
- Não, cara. Claro que não... Bem, eu acho que não.
- Espera, então você não tem certeza afinal?
Pensando bem, eu não tinha recebido tecnicamente uma confirmação visual de um jeito ou de outro. Mesmo quando dormíamos na casa um do outro quando éramos crianças, nós tomávamos banho separados, e Ushio sempre ficava de fora nos dias de piscina na época do ensino fundamental. Se bem me lembrava, ele era dispensado de participar devido a uma condição crônica de pele ou algo assim, então eu nunca o tinha visto em trajes de banho.
"E-espera um minuto. E se ele realmente foi uma garota em segredo esse tempo todo?"
Mas então me lembrei, não — nós costumávamos ir ao banheiro juntos no início do ensino fundamental, e eu jurava me lembrar de algumas vezes em que ficamos lado a lado usando os mictórios juntos. Não que eu tivesse espiado por cima da divisória nem nada, mas aquilo obviamente não seria possível, para começo de conversa, se ele tivesse nascido do sexo oposto... certo?
"Que ótimo... Agora estou duvidando das minhas próprias memórias."
- É, você deve estar certo — disse Hasumi. — Ele com certeza é um cara.
- O que te dá tanta certeza? — perguntei.
- Quero dizer, pensa bem, cara. Não é como se fossem deixar ele competir nas regionais e tudo mais se estivesse falsificando o gênero, deixariam?
Ah. Verdade, bom ponto. Dado que existiam diferenças inevitáveis em termos de força física média entre os sexos, faria sentido que times de esportes não mistos tivessem processos e regulamentos em vigor para evitar que as pessoas mantivessem seu sexo biológico em segredo. Além disso, eu sabia que os uniformes de atletismo eram geralmente bem colados ao corpo, então não seria fácil de esconder de qualquer forma.
- Entendi... É — falei. — Então acho que dá para dizer que ele — ou ela, melhor dizendo — é um garoto por fora, mas uma garota por dentro.
- É. Mas tenho que dizer — meio que tudo faz sentido para mim agora.
- Espera, hã? O que você quer dizer com isso?
Essa afirmação me pegou de surpresa.
- Pensa por um segundo, cara. Não parece um pouco estranho que um cara como o Tsukinoki, que sempre foi super popular com as garotas, nunca tenha tido uma namorada? Isso me faz pensar se ele já não estava planejando essa mudança há muito tempo.
-"Ah, é... Entendo o que você quer dizer..."-
Tive que admitir que estava bastante impressionado com as inferências lógicas que Hasumi estava fazendo; primeiro aquela coisa sobre campeonatos regionais de atletismo, e agora isso. Ele tinha um ponto. Por mais atraente e popular que Ushio fosse, eu nunca tinha ouvido um sussurro sobre qualquer drama amoroso envolvendo ele. Sempre assumi que era simplesmente porque ele tinha padrões ridiculamente altos, ou porque estava de olho em alguém específico que não estava interessada, mas era possível que ele simplesmente não tivesse interesse algum em mulheres para começar. Não que ser uma garota significasse que alguém só pudesse se atrair por meninos, é claro, mas certamente era uma explicação razoável.
Eu lancei um olhar para Ushio, que ainda estava sendo bombardeado com perguntas como uma celebridade numa coletiva de imprensa e começando a parecer exausto com tudo aquilo.
-Vou tentar viver minha vida como uma garota de agora em diante.
As palavras de Ushio ecoaram pelo meu cérebro como uma gravação em repetição. Lembrei-me do olhar nos olhos dele-dela enquanto estava lá em cima no pódio; havia uma coragem neles que parecia mais profunda do que simples determinação. Ela não era mais a bagunça soluçante e inconsolável que eu tinha visto no parque naquela noite. Eu me perguntei o que teria inspirado essa nova determinação.
-Tudo bem, mas que porra está acontecendo aqui?!
Um grito irritado irrompeu de alguém próximo, e meu coração quase pulou para fora do peito. Ushio e eu-e a turma inteira, na verdade-viramos nossos olhares para a porta, onde um garoto alto, de pele morena escura, estava. Pelo que me lembrava, seu nome era Fusuke Noi, e ele era membro do time de atletismo. Eu só sabia disso porque me lembrava de tê-lo visto no palco com Ushio durante uma assembleia escolar, recebendo algum tipo de prêmio. Ele entrou na sala de aula e foi até a mesa de Ushio.
-Ei, Ushio. Você está só vagabundeando agora, ou o quê?!
O garoto estava fervendo. Meus colegas e eu segurávamos nossas línguas e observávamos a discussão se desenrolar com apreensão.
-Não foi minha intenção, não -disse Ushio com calma, permanecendo sentada enquanto olhava para Noi, que a encarava com raiva.
-Então por que diabos você não tem vindo aos treinos, hein? Porque aparentemente aquela história de que você pegou gripe foi uma grande mentira. Temos as eliminatórias regionais chegando, sabia... Você simplesmente não liga pra isso?
-Eu já saí do time.
-Como é?
Murmúrios se espalharam pela sala de aula. Claramente não era só Noi que estava surpreso ao saber que Ushio, que tinha ido para os regionais ainda no primeiro ano, tinha saído do time de atletismo. Até um cara como eu, que não sabia praticamente nada sobre etiqueta de times esportivos, reconhecia o quanto isso era grave. Um atleta de sucesso desistindo do time no meio do ensino médio era equivalente a arrancar uma das maiores conquistas da adolescência-sem falar de todo o status social e respeito que isso trazia-e jogar todo aquele tempo e esforço no lixo.
Obviamente, Ushio sabia o que estava fazendo. Ela olhou para Noi com uma expressão genuinamente arrependida no rosto.
-Me desculpe por não ter falado com você antes -disse ela-. Mas já tomei minha decisão. Entreguei meu pedido de desligamento logo de manhã. Agora é tarde demais para mudar de ideia.
-Tá bom, agora você só está tentando me irritar.
Noi pegou Ushio pelo colarinho e a puxou para fora da cadeira. A garota sentada na mesa ao lado soltou um grito, e um dos caras se levantou rapidamente para intervir, mas Ushio ergueu a mão casualmente para ele recuar. Havia uma calma na expressão de Ushio enquanto encarava Noi-como se ela estivesse resignada ao seu destino.
-Pode me bater se quiser, Fusuke.
-...Vou te perguntar só mais uma coisa -disse Noi-. E quero uma resposta honesta. Ouvi algo sobre você dizer que queria ser uma garota de agora em diante? Foi piada, ou é verdade? E você realmente saiu do time de atletismo?
A turma inteira estava em suspense. Dava para cortar a tensão com uma faca.
Então veio a resposta de Ushio.
-Sim. É verdade. E saí.
-Tá bem. Acho que terminamos aqui, então -disse Noi, soltando seu aperto.
Ushio sentou-se suavemente de volta e alisou seu colarinho amassado.
-Acho que estava errado sobre você -disse Noi enquanto virava as costas para Ushio, saindo calmamente da sala de aula. Por um breve período depois disso, ninguém disse uma palavra.
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No meio da segunda aula, tive uma pequena realização. Parecia que não apenas a professora Iyo, mas todos os membros do corpo docente tinham sido avisados com antecedência sobre a intenção de Ushio de viver como uma garota de agora em diante. Se não tivessem, certamente teriam dito algo pelo menos quando a viram usando aquele uniforme hoje-mas nenhum deles pestanejou.
Meu melhor palpite era que Ushio e sua família tinham avisado a escola com antecedência, e os professores tinham sido notificados para não comentarem sobre o assunto. Nossa, isso sim é estar completamente preparado. Ushio certamente parecia séria em fazer essa transição.
-Cara, eu realmente não entendo, porém...
Eu estava agora pensando em voz alta, embora num sussurro que supunha que ninguém poderia ouvir. Parecia um desperdício para mim que alguém que-como garoto-tinha sido abençoado com cérebro, charme e boa aparência, sem falar no talento atlético e popularidade com as garotas, se tornasse uma garota. Mas eu sabia que para Ushio, nada disso provavelmente importava nem um pouco em comparação.
-É, eu só não entendo, acho -murmurei novamente.
-Hm? O que foi isso, Kamiki-kun? Esse está muito difícil pra você?
Ah, merda! De alguma forma, meu professor de inglês tinha ouvido meus devaneios lá do outro lado da sala de aula. Eu estava tão alto assim sem perceber? Caramba.
-N-não, desculpe -disse eu-. Não ligue pra mim. Estou bem.
-Tem certeza? Bem, tudo bem então.
Alguns dos meus colegas se viraram e me lançaram olhares confusos. V-vamos lá, Sakuma. Se controle, seu idiota. Eu realmente precisava prestar mais atenção. Não era só inglês; eu também não tinha conseguido absorver nenhum conteúdo da aula de japonês do primeiro período. A menos que eu quisesse reprovar nas próximas provas do bimestre, precisava parar de pensar em coisas desnecessárias e focar na aula do momento. Algo me ocorreu então: a próxima aula era educação física.
Depois que o sinal tocou e o professor de inglês saiu da sala de aula, observei Ushio cuidadosamente pelo canto do olho. Na nossa escola, os garotos se trocavam aqui na sala, enquanto as garotas iam para o vestiário. Mais da metade das minhas colegas já tinha saído. Eu me perguntei o que Ushio faria.
Realisticamente falando, eu supunha que ela ainda se trocaria com os garotos, pelo menos por enquanto. Ao mesmo tempo, se ela realmente queria viver como uma garota, provavelmente gostaria de se trocar com as outras garotas... não? Aparentemente, eu não era o único curioso para ver o que ela faria, já que notei vários outros colegas lançando olhares furtivos para Ushio enquanto conversavam entre amigos. No final, Ushio se levantou e, com seu agasalho escolar debaixo de um braço, saiu da sala de aula.
-Espera, sério? -murmurou alguém, e eu estava pensando exatamente a mesma coisa. Alguns dos caras, muitos dos quais estavam apenas meio trocados, colocaram a cabeça para fora da porta. Eu me juntei ao grupo.
No entanto, Ushio andou pelo corredor na direção oposta ao vestiário feminino, passou pela escada e então entrou na sala multiuso próxima-um espaço vazio que ninguém, menino ou menina, estava usando no momento. Esse serviria como o vestiário pessoal de Ushio, aparentemente.
Vendo isso, os outros caras ao meu redor suspiraram-alguns com alívio, outros com decepção-e fizeram alguns comentários previsivelmente desrespeitosos enquanto voltavam a se trocar ali mesmo. Percebendo que tinha caído na armadilha de ser um bisbilhoteiro igual a eles, senti um pouco de nojo de mim mesmo e prontamente me retirei da multidão de curiosos. Ao voltar para minha cadeira, ouvi uma conversa próxima.
-Então ei -disse um dos caras-. Você acha que ele está falando sério, ou o quê?
-Só pode estar, cara -disse outro-. Não tem como ele ir tão longe pra uma piada de uma vez só.
-É, acho que sim... Além disso, todos os professores sabiam. Não consigo acreditar.
-Quer dizer, eu sempre achei que ele agia meio feminino, pra ser justo... Não posso dizer que estou tão surpreso em descobrir que ele gosta de se vestir de mulher.
-É, também. Falando nisso-você acha que isso significa que ele gosta de caras também, ou não?
-O quê? Não, qual é, cara. Cai na real.
-Bem, mas pensa bem, cara. Ele disse que vem questionando o gênero dele por muito tempo, certo? Tipo, ele acha que é uma mulher por dentro. Então, não faria sentido que ele provavelmente também se sente atraído por homens?
-Acho que, agora que você mencionou... Então como você acha que ele deve ter se sentido se trocando aqui com um monte de caras semi-nus até agora?
-Provavelmente achou que era o cara mais sortudo do mundo.
-Deve ser isso, sim.
Como se fosse, seus idiotas. Eu queria tampar os ouvidos para bloquear a conversa estúpida deles, mas não o fiz. Por mais tolo e desprezível que fosse o raciocínio deles, eu não conseguia evitar de ouvir. Era como aquela sensação que você tem quando vê algo realmente horrível, mas não consegue desviar o olhar-mesmo quando sabe que só vai te deixar de mau humor. Ouvir eles ridicularizarem Ushio me encheu de indignação justa e nojo de mim mesmo por não me levantar e dizer nada, mas também aquela estranha sensação de alívio que você sente ao ouvir pessoas falarem mal de alguém que não é você. Essa estranha névoa de emoções confusas se expandiu lentamente, inchando até que todo o meu peito estivesse cheio de uma nuvem negra de desconforto.
-Mas se ele gostasse de caras, acho que isso faria dele um você-sabe-o-quê.
-Não, não sei o quê. Qual é, fala a palavra, cara.
-Ah, por favor. Como se você não soubesse o que quero dizer. Faria dele um tra-
Finalmente, a razão venceu. Eu me levantei, peguei minhas roupas de ginástica e saí da sala de aula furiosamente. De lá, fui para o ginásio sozinho. Todas essas pessoas são desprezíveis-será que elas acham que ainda estão no ensino fundamental, ou o quê? Enquanto resmungava internamente, lembrei-me de um incidente de muitos anos atrás.
Aconteceu quando eu estava na segunda ou terceira série. No caminho para minha escola primária todos os dias, eu passava por uma casa velha, deteriorada e de um andar, onde dois homens mais velhos moravam juntos. Pelo que me lembrava, um deles tinha cabelos ralos, e o outro era ligeiramente gordo. Os dois sempre estavam no quintal fazendo ginástica radial todas as manhãs enquanto íamos para a escola, e, como tal, eles acabaram ganhando uma certa reputação entre as crianças do meu bairro-mas não uma boa. Aqui em Tsubakioka, eles foram rotulados como párias-desviantes sexuais, até.
Os adultos da cidade todos nos avisavam para ficarmos longe deles, então as crianças ou desviavam o olhar ou apontavam e riam. Essa era a norma para nós, caipiras de interior, e na época, eu nunca sequer questionei isso. Sempre que ouvia histórias sobre os garotos mais velhos ficando corajosos e jogando latas vazias no jardim deles ou sujando as janelas com ovos, minha única reação era de um vago e temeroso espanto.
Aqueles homens já tinham se mudado há muito tempo, ao que parecia, mas a casa velha e maltrapilha ainda permanecia. E agora, eu já tinha idade suficiente para entender que eles certamente não eram "desviantes" de forma alguma-eles simplesmente tinham tido o azar de escolher viver no que tinha que ser uma das comunidades mais preconceituosas e menos inclusivas do país, rápida em julgar qualquer um que fosse ligeiramente diferente deles mesmos. Não que todos aqui fossem idiotas completos, e eu também não me considerava algum santo puro de mente aberta... Mas eu sabia quem eram os verdadeiros vilões aqui, e não eram aqueles dois homens, nem era Ushio. Era esta maldita cidade, esta comunidade atrasada pra caralho.
Na aula de educação física daquele dia, os meninos jogaram vôlei e as meninas jogaram badminton. A Ushio não participou de nenhum dos dois. Embora tivesse se trocado e colocado o uniforme de educação física, ela simplesmente ficou sentada na lateral da quadra, preenchendo silenciosamente algum tipo de papelada. De vez em quando, eu lançava um olhar de relance na direção dela, mas em nenhum momento a peguei olhando para cima.
Quando a aula acabou, mal houve tempo para voltar à sala de aula e se trocar antes que o intervalo terminasse. Então, após uma aula de matemática de quarto período que, felizmente, não teve grandes acontecimentos, o sinal tocou e a hora do almoço chegou. Na maioria dos dias, isso também servia de deixa para que cinco ou seis de nossos colegas de classe se levantassem imediatamente de suas cadeiras e se reunissem ao redor da mesa da Ushio, mas hoje ninguém chegou nem perto. Dava para notar, pela atmosfera geral da sala, que todos tinham decidido tratá-la como uma leprosa. Era uma sensação estranha; nem duas semanas atrás, a ideia de a Ushio passar uma hora de almoço inteira sozinha seria impensável para mim.
- Você ainda está pensando no Tsukinoki, não está? — disse o Hasumi, enquanto trazia o almoço dele. Ele pegou emprestada a cadeira da mesa da frente para se sentar de frente para mim.
- É que é meio difícil não pensar, dadas as circunstâncias... — admiti.
- É, belos amigos aqueles caras são, né? Abandonando a coitada no exato instante em que sentem qualquer perigo de serem vistos como esquisitos ou cafonas. — A voz dele transbordava desdém enquanto abria sua marmita e pegava os hashis.
Ele estava certo, é claro. Eu quis balançar a cabeça em concordância, mas então percebi que eu tecnicamente me qualificava como um "amigo" que tinha abandonado a Ushio também, e muito antes de qualquer uma dessas outras crianças fazer o mesmo. Eu não tinha o direito de julgá-los, e essa era uma pílula difícil de engolir. Esperando tirar o gosto amargo da boca, estiquei o braço para pegar meu próprio almoço. Mas, bem naquele momento, uma estudante solitária realmente se levantou e caminhou até a mesa da Ushio.
- Olha, Hasumi — eu disse. — Pelo jeito a Ushio tem uma boa amiga, afinal.
O Hasumi parou no meio de uma mordida e se virou bruscamente para ver o que eu tinha visto: a Hoshihara de pé junto à mesa da Ushio.
- Ei, quer vir almoçar na nossa mesa? — a Hoshihara perguntou com um sorriso meigo, segurando sua marmita — que estava embrulhada em um lenço de tecido fofo e estampado. Depois de toda a zombaria que a Ushio tinha sofrido hoje, aquela era uma visão reconfortante, e aqueceu meu coração. Aquela era a Hoshihara: sempre disposta a ser amiga de quem precisasse, independentemente do que os outros pudessem pensar. Eu admirava genuinamente aquela gentileza sem distinção dela.
- Tudo bem... Acho que vou aceitar o convite, sim — Ushio respondeu, parecendo agradavelmente surpresa enquanto se levantava da cadeira com a marmita na mão.
E assim, após seguir a Hoshihara pela sala de aula, a Ushio se sentou na chamada mesa de almoço (que na verdade eram apenas quatro carteiras juntadas), onde outras três meninas já estavam sentadas: a Arisa Nishizono, uma menina de cabelo curto e pele clara chamada Rin Mashima, e uma menina de cabelo comprido e postura fria chamada Shiina. Juntas, elas eram as quatro integrantes principais do ilustre grupo da Nishizono. Enquanto a Ushio tirava com cuidado a tampa de sua marmita, a Mashima foi a primeira a se dirigir a ela.
- Então, ei, ouvi dizer que você saiu da equipe de atletismo. É verdade? — ela perguntou, apontando para a Ushio com o pão de melão meio comido que segurava em uma das mãos.
Pelo visto, esse ainda era um assunto um pouco delicado para a Ushio, já que a expressão dela ficou ligeiramente rígida.
- ...Sim, eu saí.
- Bom, você definitivamente deveria entrar para o time feminino de softball, então. Sinto que você seria nossa rebatedora substituta, tipo, logo de cara.
Os olhos da Ushio se arregalaram. Eu também fiquei bastante surpreso com aquilo. Não tinha ideia de que a Mashima era uma pessoa tão descontraída e de mente aberta. De repente, me senti mal por ter preconceitos sobre ela baseados apenas na sua proximidade com a Nishizono até agora.
- Ah, espera — ela continuou. — Acho que talvez não deixassem você jogar em torneios oficiais, né? Não sei. Quero dizer, não é como se a gente passasse por exames físicos detalhados, então provavelmente daria para te encaixar de fininho, eu acho...?
- Marine. Relaxa — disse a Shiina, interrompendo a amiga antes que ela se empolgasse demais. (Marine era um apelido, por sinal — sobrenome Mashima, primeiro nome Rin. Eu achava bem fofo e esperto.)
- O quêêê? Ah, qual é. Você sabe que a Ushio seria um talento natural. Caramba, ela costumava competir em todo tipo de corrida de velocidade nos eventos de atletismo, não era? É, sério — ela seria uma máquina de roubar bases!
A Ushio soltou uma risadinha com isso, embora claramente se sentisse um pouco sem jeito.
- Eu agradeço o carinho... mas acho que não vou praticar nenhum esporte daqui para frente, desculpa.
- Ah, que pena.
- De qualquer forma — a Shiina intrometeu-se. — Corrija-me se eu estiver errada, mas você está usando um pouco de maquiagem, Ushio?
- Ah, sim... Minha madrasta disse que eu provavelmente deveria, então deixei ela passar só um pouquinho.
- Ei, não tem nada de errado nisso. Não ficou nada mal em você. Nem o uniforme, para ser sincera.
- Nééé?! — a Hoshihara intrometeu-se, com a boca cheia de arroz. — Eu tava penshandu a meshma coisha!
- Nakki, por favor — a Mashima a repreendeu. — Você está cuspindo para todo lado.
A Hoshihara cedeu e deu um grande gole em sua garrafa plástica de chá. Assisti ao pomo de adão dela se mover enquanto ela engolia o líquido, e então ela afastou a boca da garrafa dos lábios e soltou um suspiro de satisfação.
- Mas a Shii-chan está certa! — a Hoshihara continuou. — Quero dizer, você é superfina, tem uma pele perfeita — realmente é um visual muito bom para você, Ushio! Caramba, você fica melhor de saia do que eu, honestamente!
- Ha ha... Obrigada — disse a Ushio. — Embora eu definitivamente não iria tão longe.
- Não, estou falando sério! Eu sou só uma garota comum qualquer perto de você!
Apesar de a Hoshihara estar exagerando um pouco nos elogios, a Ushio pareceu bastante tocada pelo sentimento, a julgar pela forma como sua expressão suavizou. Embora o conteúdo real da conversa fosse um pouco incomum, eu tinha que admitir que, de onde eu estava sentado, realmente parecia um grupo de quatro garotas bonitas e comuns do ensino médio sentadas juntas e jogando conversa fora de maneira leve durante o almoço. Era uma cena pacífica, bonita de se ver — um momento reconfortante de fatias da vida cotidiana.
Não pude deixar de pensar: "Nossa. Talvez eu estivesse errado. Talvez ela seja aceita afinal de contas."
Depois de como o período da manhã com o professor foi ruim, seguido pelo encontro tenso com os colegas, eu estava um pouco preocupado de que aquela tensão desconfortável no ar seria o novo normal. Parecia que talvez eu estivesse pensando demais. Afinal, se até as meninas mais populares da sala estavam dispostas a aceitá-la, então com certeza todos os outros também estariam em breve-
- Não acha, Arisa? — a Hoshihara continuou. — Não acha que ela está ótima?!
Percebi que tinha esquecido de uma integrante muito importante do grupo: a Arisa Nishizono, provavelmente a estudante mais temida de toda a nossa sala, seja entre meninos ou meninas. Dominadora, arrogante e extremamente competitiva para completar. Além do mais, ela tinha as habilidades necessárias para bancar sua personalidade autoconfiante demais. Apesar de seu cabelo descolorido, dos cochilos constantes durante as aulas e da falta de vontade de seguir ordens, até os professores não conseguiam pegar muito no pé dela, já que ela era uma das alunas com as melhores notas de toda a nossa série. Embora fosse frequentemente ofuscada pela Ushio nesse aspecto, as conquistas acadêmicas dela não eram de se jogar fora.
Será que a rainha cheia de si da sala aceitaria a nova identidade da Ushio sem problemas? Isso ainda estava para ser visto e, até sabermos com certeza, era difícil afirmar que o pior realmente tinha passado. Mas agora que a Hoshihara tinha jogado a bola para o campo da Nishizono, eu só podia observar a última com uma expectativa ansiosa enquanto seus hashis paravam e ela olhava calmamente de cima de sua refeição.
- Hum? Desculpa, o que foi? — ela perguntou. — Eu não estava prestando atenção.
- Ah, presta atenção, quer quer?! — disse a Hoshihara. — Nós estávamos falando sobre como a Ushio está ótima no uniforme novo. Não está?
- Ah, sim... A Ushio.
A Nishizono olhou para a Ushio com olhos quase duvidosos, como se a estivesse avaliando. A conversa que vinha fluindo desde que a Ushio se juntara ao grupo parou abruptamente enquanto as outras quatro esperavam para ouvir a resposta da Nishizono. Então, após uma pausa desconfortavelmente longa, ela finalmente veio:
- É, até que ficou bom.
A Hoshihara abriu um sorriso de orelha a orelha. Até os lábios da Ushio esboçaram o mais leve dos sorrisos — evidentemente, ouvir aquilo foi um alívio.
- Viu, eu sabia que você ia concordar! — disse a Hoshihara.
- Mas, tipo, a Ushio também é muito bonita no geral, então isso não me surpreende — a Nishizono continuou. — Honestamente, se você caprichasse um pouco mais na maquiagem, acho que ficaria ainda melhor.
- Ah, sim! Devíamos tentar isso! — a Hoshihara concordou.
- E acho que eu sugeriria algumas roupas diferentes também... Algo um pouco menos colado ao corpo para que seu físico natural não se destaque tanto.
- Ah, entendi... É, não dá para fazer muita coisa sobre isso com os uniformes escolares, mas essa é uma ideia muito boa para roupas casuais, eu diria! Nossa, você está realmente pensando bem nisso!
- Ei, Ushio. Me conta uma coisa.
- Hum? O que foi? — a Ushio perguntou para a indiferente Nishizono.
- Quanto tempo até você largar essa palhaçada de se vestir de mulher?
A expressão radiante da Hoshihara congelou no ato. A tensão repentina era palpável; eu conseguia senti-la no ar. O sorriso suave desapareceu do rosto da Ushio.
- ...Eu não vou largar — disse ela.
- Por que não?
- Porque decidi que é quem eu quero ser daqui para frente.
- O que isso sequer significa? Você foi um menino a vida inteira, não foi? E não é como se isso tivesse sido um problema antes, então por que não continuar assim?
- Porque eu não consigo. E era um problema — eu só não percebia. Eu estive vivendo a minha vida do jeito errado esse tempo todo. Mas agora eu quero vivê-la do jeito certo.
- Certo? Você chama isso de "certo"? Fingir ser uma menina presa no corpo de um menino ou algo assim? Porque, para mim, isso soa o mais objetivamente "errado" que algo pode ser.
- Você simplesmente não-
- Não venha dizer que eu não entendo. Eu estou certa, e você sabe disso. E eu não estou dizendo que você nunca possa usar roupas de menina, para constar. Se você quiser colocar uma saia e uma meia-calça de vez em quando, vá em frente. Mas você só deveria fazer esse tipo de coisa de brincadeira, ou na privacidade da sua própria casa. Não saia andando pela cidade vestida assim, pelo amor de Deus — ninguém quer ver isso. Quero dizer, se enxerga. Não consegue ver o quão sem jeito você está deixando as coisas para todo mundo? Você foi um menino a vida inteira, e agora espera que todos nós paremos tudo para te tratar como uma menina? Isso é só egoísmo. E irresponsabilidade.
A Nishizono fez uma pausa para soltar um suspiro curto e decepcionado, e então relaxou sua expressão — como um pai tentando explicar calmamente para um filho por que o que ele fez foi errado.
- Então, por favor — ela continuou -, faça um favor a todos nós e volte a ser o antigo você até amanhã. Se você arrastar isso por dias, as pessoas vão começar a achar que você está falando sério sobre isso. E você não gostaria que todo mundo ficasse te olhando torto por onde quer que você vá, gostaria? Só larga isso, tá bom? Para agora enquanto você ainda pode fingir que era só uma piada.
-Arisa -disse Ushio, dirigindo-se à outra garota pelo nome com uma voz mais baixa e monótona que o normal. Ela fixou Nishizono com um olhar firme que poderia muito bem ter passado por um glare. -A velha Ushio Tsukinoki não existe mais. Então me faça um favor e esqueça ele.
Assim que Nishizono ouviu aquelas palavras, você podia quase ver os tons avermelhados de repulsa e ressentimento pintarem seu rosto. Ela agora olhava para Ushio como se estivesse encarando uma pilha nojenta de lixo, ou sua inimiga mortal.
-Certo, tenho que ir. Isso está me dando nojo agora -disse Nishizono, pegando seu almoço enquanto se levantava da cadeira. -Ah, e eu só estava sendo educada quando disse que você ficava bem nisso. Não pense que eu realmente quis dizer aquilo ou algo assim.
E assim, depois de cuspir um último insulto, Nishizono virou as costas e sentou-se em outra mesa com um outro grupo de garotas, onde imediatamente se juntou à conversa como se nada tivesse acontecido. A turma retomou as risadas e conversas habituais do horário de almoço; apenas ao redor da mesa de Ushio um constrangimento sombrio permanecia no ar.
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As aulas haviam terminado para o dia, o que significava que a escola não estava mais em sessão. Eu espiei Ushio recolhendo silenciosamente suas coisas para ir para casa, o que fazia sentido. Agora que ela havia saído do time de atletismo, não havia motivo para ela ficar depois da escola. Desta vez, nem uma única pessoa se atreveu a oferecer-se para acompanhá-la para casa.
Refleti sobre o que havia acontecido apenas algumas horas antes.
Pouco depois de Nishizono se desculpar durante o almoço, Hoshihara lutou bravamente para reanimar a conversa e animar as coisas novamente. Mas seus esforços foram em vão, e a tensão constrangedora pairou sobre a mesa deles até o sinal tocar. Então, assim que a quinta aula terminou, nem mesmo Hoshihara tentou se aproximar de Ushio durante o intervalo. O garoto mais popular da turma havia se tornado oficialmente um solitário. Quando tentei imaginar como Ushio devia estar se sentindo com tudo aquilo, só conseguia sentir dor -como se meu estômago estivesse sendo amarrado em nós. Ela nem tinha feito nada para merecer esse tratamento. Certamente, eu conseguia entender como uma mudança tão drástica poderia levar um tempo para se acostumar, mas ninguém tinha o direito de julgar Ushio por quem ela era -muito menos ridicularizá-la.
...Droga. Estou ficando irritado de novo.
Não era com meus colegas que eu estava com raiva neste momento, no entanto. Eu estava principalmente frustrado comigo mesmo por ser covarde demais para estender a mão a Ushio ou sequer dizer uma palavra. Claro, eu sentia pena dela por dentro, mas isso não passava de compaixão barata se eu não estivesse disposto a agir de acordo.
Agora que pensava nisso, me perguntava se talvez eu fosse parcialmente culpado pela transição súbita e inesperada de Ushio. Talvez nosso encontro no parque naquela noite a tenha forçado a agir. Se eu não a tivesse visto daquele jeito, talvez ela tivesse tomado seu tempo e encontrado uma maneira mais confortável e menos dramática de revelar esse segredo a todos. Obviamente, isso era pura conjectura da minha parte -mas assumindo que fosse mesmo uma pequena possibilidade, eu sentia que tinha a obrigação de compensá-la de alguma forma.
Me levantei, pendurei minha mochila no pescoço e fui até onde Ushio estava sentada. Ela percebeu que eu estava chegando antes que eu alcançasse sua mesa -assim como o resto dos alunos que ainda estavam na sala de aula. Todos os olhos estavam em mim enquanto eu ficava ali na frente de sua carteira, resistindo à vontade de desistir. Tentei esboçar o sorriso mais natural que consegui.
-Ei, então, uh... Se você quiser, a-a gente podia... Quer dizer, q-quer andar para casa juntos?
Eu era extremamente pouco acostumado a fazer esse tipo de convite casual, então tropecei nas palavras. Ushio piscou algumas vezes, confusa -mas então seu rosto relaxou num sorriso suave, e ela assentiu.
-Claro -disse ela. -Vamos para casa.
Com a mochila no ombro, Ushio se levantou da cadeira, e nós dois saímos da sala juntos. Eu podia sentir todos os olhos do prédio nos observando enquanto saíamos -mas nem pensei em olhar para trás. O ar lá fora carregava traços de umidade, como era típico de junho. Ushio e eu andamos lado a lado, empurrando nossas bicicletas pela estreita estrada pavimentada que cortava os arrozais. Este era um caminho mais estreito e sinuoso do que a reta que costumávamos pegar para ir à escola, mas muito mais agradável para voltar para casa com companhia, pois raramente passavam carros para interromper a conversa.
Enquanto caminhávamos, eu lançava olhares furtivos para Ushio pelo canto do olho. Ela tinha pálpebras duplas e um nariz bem delineado. Seus cabelos loiro-prateados balançavam suavemente a cada passo. Seus longos cílios apontavam para baixo enquanto ela mantinha os olhos fixos no chão. Ao baixar um pouco o olhar, não pude deixar de parar por um instante na ligeira protuberância de seu pomo de Adão -talvez a única parte de sua aparência atual que eu achava difícil ver como algo além de masculino, mas isso era culpa da velha biologia. Ainda assim, ela tinha uma pele extremamente clara, e suas meias pretas acentuavam as curvas naturais de suas pernas de tal forma que eu quase me sentia tentado a chamar aquilo de atraente.
Para alguém que só recentemente se tornara mulher, ela realmente parecia a parte.
-...Você está encarando com bastante intensidade, Sakuma -disse ela.
-Hã? Ah! M-minha culpa! -pedi desculpas, atrapalhado. O constrangimento surgiu em meu peito quando ela me pegou avaliando-a descaradamente -especialmente porque ela provavelmente podia deduzir que eu a estava avaliando de forma rude do ponto de vista da feminilidade.
-Você acha que eu pareço estranha, não acha? -perguntou ela ansiosamente, baixando o olhar.
-Não, de jeito nenhum! -disse eu. -Você poderia facilmente passar por uma garota, se me perguntar. Tipo, sério, não parece estranho de forma alguma -eu falo sério.
-S-sério? Bem, se você diz...
Uma onda de alívio me atingiu. Depois do seu dia sendo julgada por praticamente todas as crianças da escola, eu não queria piorar as coisas para ela.
-Você teve um dia difícil, hein? -disse eu. -Que pena que você teve que passar por tudo isso no seu primeiro dia de volta...
-É... Foi bem cansativo, sendo sincera. Nem me senti tão exausta daquela vez que corri uma maratona.
-Bem, pelo menos você vai conseguir dormir bem esta noite.
Ushio riu fracamente. Esta era a primeira vez em anos que eu a ouvia baixar a fachada e admitir estar qualquer coisa menos que perfeitamente bem. Supus que isso era um testemunho do quão brutal foi o dia que ela teve, o que só me fez sentir pior por ela.
-Descanse pelo resto do dia, certo?
-Sim, é o que vou fazer -respondeu ela, assentindo.
Então veio uma pausa na conversa.
Involuntariamente, uma imagem de Ushio sentada naquele banco do parque dez dias atrás surgiu no fundo da minha mente. Eu me perguntava o que tinha acontecido naquela noite; eu vinha me perguntando isso há uma semana e meia. Mas não me permitiria perguntar nem agora, porque no fundo, eu ainda achava que o melhor curso de ação era que nós dois simplesmente esquecêssemos isso.
Enquanto eu procurava internamente por outro tópico de conversa, olhei através dos arrozais. Vi uma garça-cinza andar lenta e suavemente pela lama, bicando insetos aqui e ali enquanto passava. Eventualmente, ela esticou suas largas asas e voou. Ao vê-la partir, avistei duas esteiras de vapor pairando no céu azul lá em cima.
-Faz muito tempo que não andamos para casa juntos assim -disse eu, sem realmente pensar nas palavras que escapavam da minha boca.
-Com certeza faz -disse Ushio, erguendo o olhar para encarar a distância. -Eu nem me lembro quando paramos, exatamente. Em algum momento no ensino fundamental II, foi?
-Sim. Porque estávamos em times esportivos diferentes, por um lado... Mas, além disso, sim, meio que deixamos outras coisas atrapalharem também.
Esse "outras coisas" era tudo culpa minha, é claro, e eu me senti bastante culpado por pintar minha mesquinharia como uma falha mútua de ambas as partes. Mas Ushio não pareceu se importar.
-As coisas mudaram muito nos últimos anos... -observou ela suavemente. -Sinceramente, meio que gostaria de ter ficado no ensino fundamental para sempre.
-Sério? Eu, mal posso esperar para me formar no ensino médio e cair fora desta cidade atrasada.
-Sim, você vem dizendo isso desde que éramos pequenos.
-Quer dizer, pode me culpar? Esta cidade é só uma grande prisão afundando lentamente num arrozal imenso. Fique por perto tempo demais, e você vai ser arrastado para a lama como o resto desses sugadores de lama do pântano.
-Ha ha. Que tipo de metáfora é essa?
Foi bom ouvi-la rir, mesmo que eu só tivesse dito aquilo meio em tom de brincadeira.
Conforme nos aproximávamos do final da estrada, um complexo de apartamentos surgiu à vista. Lá fora, cinco ou seis garotas que pareciam ser estudantes da Escola Fundamental II Tsubakioka tagarelavam alegremente. Quando Ushio viu isso, sua expressão se nublou novamente, e ela soltou um pequeno suspiro.
-O que foi? -perguntei.
-O que você quer dizer? -respondeu ela, assustada.
-Quero dizer, você acabou de suspirar como se tivesse algo em mente.
-Ah, você ouviu isso...? Desculpe. Só me lembrou da minha irmã, acho.
-Aconteceu alguma coisa entre vocês duas?
-Sim, ela está se recusando a falar comigo ultimamente.
Uau, sério? Eu achei difícil imaginar esse comportamento vindo de Misao, mas, então novamente, Ushio tinha mencionado que ela estava passando por uma fase rebelde de adolescente... Eu me perguntava se a transição de Ushio tinha algo a ver com isso.
-Você... se importa se eu perguntar por quê?
Por um breve instante, eu poderia jurar que vi algo cruzar o rosto de Ushio. Mas o momento passou rápido demais para que eu pudesse afirmar com certeza.
-Claro. Quer dizer, não é um assunto divertido para mim, mas eu estava pensando que provavelmente te contaria eventualmente de qualquer forma.
-Espera. Você estava?
-Sim. É sobre o que aconteceu há dez dias.
Quase fiz um duplo olhar. Ela realmente ia me contar o que tinha acontecido naquela noite? Eu estava evitando o assunto de propósito por consideração a ela... mas de forma alguma isso havia diminuído minha curiosidade. Segurei a respiração e esperei por mais; Ushio diminuiu o passo, um sinal de que isso ia ser uma história bem longa.
-Tudo começou depois que cheguei em casa do treino naquele dia.
Quando entrei pela porta da frente, acho que era por volta das sete da noite, e Misao era a única em casa. Meu pai sempre chega muito tarde do trabalho, então não me importei muito com isso, mas era estranho que Yuki-san não estivesse por perto naquela hora. Então perguntei à minha irmã onde Yuki-san estava -ah, certo, desculpa. Essa é minha madrasta, a propósito. Sim, aquela com quem meu pai se casou de novo quando estávamos no fundamental II.
De qualquer forma, quando perguntei à Misao, ela me disse para olhar na escrivaninha, e vi que havia um bilhete lá -aquele que mencionei antes. Era de Yuki-san, apenas dizendo que ela chegaria tarde naquela noite porque tinha que sair para beber com colegas de trabalho, e que o jantar já estava na geladeira, então poderíamos esquentar quando ficássemos com fome... Acho que ela só veio para casa para fazer o jantar, e depois saiu de novo. Então pensei, tudo bem, vou só tomar um banho, o que fiz. Quando voltei, vi que Misao tinha trocado de roupa e estava se preparando para sair.
Perguntei aonde ela ia, e ela disse que estava indo ao restaurante próximo para uma sessão de estudo com amigos. Naquela altura, acho que era por volta das oito da noite -bem tarde para uma garota do fundamental II ficar andando sozinha pela cidade, então eu disse que talvez ela devesse estudar sozinha em casa esta noite. Mas ela não estava nem aí.
-"Ah, cala a boca. Volto antes das dez. Não se preocupe com isso" -ela disse, e então saiu correndo pela porta. Eu sei -não parece nada com ela, não é? Especialmente com o quão doce ela sempre foi comigo quando éramos mais jovens... Mas sim, como eu disse, acho que ela está só passando por uma fase rebelde.
Depois disso, fiquei sozinha em casa. Comi o jantar, fiz alguns alongamentos, e então não tinha mais nada para fazer. Sem lição de casa, então só assisti TV por um tempo. E enquanto estava meio que mudando de canal, vi uma reportagem especial sobre algumas escolas de ensino médio muito legais de todo o país. E então teve uma parte em que uma garota estava, tipo... tocando violão com seu uniforme escolar, cantando uma música de anime. E por alguma razão, eu não sei... Fiquei muito triste assistindo aquilo, pensando tipo: o que faz ela tão diferente de mim, sabe? Quer dizer, a resposta é "muitas coisas", obviamente, mas ainda assim me deixou muito pra baixo.
Então tive um pensamento. Ou mais como um impulso, acho que deveria dizer. Eu queria ver se um uniforme escolar feminino ficaria bem em mim.
Nunca tinha sentido tal vontade antes, e era difícil resistir. Corri escada acima, com o coração batendo loucamente, e entrei no quarto da minha irmã pela primeira vez em não sei quantos anos. O uniforme dela estava pendurado na parede, então nem precisei procurar.
Por um momento, fiquei meio que encarando ele. Meu bom senso tentou me convencer a desistir. Mas então a balança pendeu para o outro lado, e eu estiquei a mão e o tirei do cabide. Era bem pequeno em mim... mas ainda consegui vesti-lo. Até consegui prender o gancho da saia e tudo. Não coloquei o lenço, no entanto, já que não sabia como amarrá-lo.
De qualquer forma, então me olhei no espelho, e sinceramente pensei: "Ei, isso não está nada mal." Acho que tive uma onda de adrenalina ou dopamina ou algum tipo de substância química cerebral por causa disso -e isso meio que me fez sentir corajosa o suficiente para querer ver como eu ficaria com um par de meias-calças também. Olhando para trás, provavelmente não estava pensando com clareza a esse ponto, mas pelo menos ainda sabia que não deveria ficar revirando a gaveta da minha irmã. Ela provavelmente não iria gostar que eu olhasse lá... mas então de novo, ela provavelmente também não iria gostar que eu entrasse no quarto dela escondido e vestisse o uniforme dela, então acho que sou meio hipócrita nisso.
Depois de pensar um pouco, tinha certeza de que me lembrava de ter visto um par de meias-calças dela na sala, recém-lavadas e dobradas da lavanderia. Então saí do quarto, desci as escadas e -ah, certo. Não sei se você se lembra tão bem da disposição da minha casa, mas a escada para o segundo andar fica, tipo, bem ao lado da entrada da casa, então você tem que passar por ali para chegar à sala de estar vindo de cima.
Mas é, então, uh... Misao chegou em casa.
Fui pega completamente de surpresa. Não tinha nem trinta minutos que ela tinha saído de casa. Por cerca de um minuto, nós duas ficamos paradas, congeladas, incapazes de dizer uma palavra. Eventualmente, ela disse algo como "Que diabos? Por que você está vestindo meu uniforme?" E eu não tinha explicação para dar a ela. Nenhuma desculpa possível que justificasse vestir a roupa da minha irmã mais nova. Então eu meio que fiquei ali em silêncio, até que eventualmente Misao ficou, bem... Digamos que bastante indignada. E ela continuou -não sei onde no mundo ela aprendeu a desferir abusos verbais tão devastadores, mas eu tive dificuldade em acreditar nas palavras que saíam da boca dela.
E então eu simplesmente... fugi, acho. Bem pela porta da frente, sem nem colocar os sapatos. Enquanto continuava correndo, comecei a me sentir ainda mais miserável, o que só me fez correr mais rápido... e não parei até chegar àquele parque. E você já sabe o que aconteceu lá, é claro.
Mas de qualquer forma, depois disso, fui para casa, e tanto meu pai quanto Yuki-san estavam lá, e tivemos uma pequena reunião de família de emergência. Conversamos sobre muitas coisas, decidimos o que fazer daqui para frente, e concordamos que eu deveria tirar um tempo da escola. E, bem... Misao não fala nem me reconhece desde então. Embora ela certamente me dê olhares feios de vez em quando. Não que eu a culpe, já que tudo é culpa minha...
Então é. História longa, acho, mas é mais ou menos isso.
Ushio suspirou e fez uma pausa para recuperar o fôlego. Enquanto isso, minha cabeça estava girando com todos os tipos de pensamentos. Eu estava mentalmente preparado para que fosse algo bem pesado... mas foi honestamente pior do que eu esperava, e não sabia como reagir. Definitivamente não podia deixar que ela percebesse isso, no entanto. Supus que ela só estava revelando tudo isso a mim com tanta franqueza porque queria lidar com o que tinha acontecido e deixar tudo no passado, em vez de continuar remoendo. Talvez ela até esperasse que eu desse uma risada, vai saber.
Mas eu não ri. No final, tudo o que consegui dizer foi "Nossa, isso pareceu difícil" e nada mais. Parecia que não havia nada que eu pudesse dizer que não soasse como um consolo barato ou superficial. Ainda me senti compelido a dizer algo mais significativo, e então fiquei ali, com a boca meio aberta como um idiota, tentando e falhando em pensar em uma resposta melhor.
-Ah, droga -disse Ushio com uma risada autodepreciativa. -Bem, isso é péssimo. Aqui pensei que falar sobre isso pudesse me fazer sentir melhor, mas acho que pode ter piorado as coisas.
Ela parou, e eu percebi que já estávamos na parte residencial da cidade. Esta encruzilhada de três vias era onde o caminho dela para casa se separava do meu.
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