- Desculpa ser uma mala — ela me disse. — Especialmente depois de você ser legal o suficiente para me convidar para caminharmos juntos até em casa.


- Não, tudo bem. Não esquenta com isso. Além do mais, fui eu quem pediu...


- Tudo bem, é. Como eu disse, eu estava planejando te contar algum dia de qualquer forma. — Ushio deu um sorriso de canto. Parecia bem cordial, até genuíno, mas eu sabia que devia ser falso.


- ...Você não precisa forçar a barra, tá legal?


- Não se preocupe. Não estou forçando — ela respondeu. Então, deu alguns passos para a frente. — Ei, Sakuma?


Ela lançou o olhar de volta na minha direção, mas eu honestamente não conseguia dizer se estava olhando para mim ou para algum ponto focal imaginário bem longe, no horizonte.


- Você acha que sou eu quem está errada nessa história? Ou eu deveria simplesmente culpar o...


Ushio parou no meio da frase, soltando um suspiro irônico pelo nariz.


- Desculpa, esquece o que eu disse. Obrigada por caminhar comigo até em casa hoje. Tchauzinho.


Ela subiu na bicicleta, encaixou os pés de meia nos pedais e se afastou. Fiquei ali parado por um tempo, bem no meio daquele cruzamento de três vias, observando-a ir embora.


Eu não conseguia tirar da cabeça aquela expressão triste e solitária no rosto de Ushio quando nos separamos. Fiquei pensando se existia alguma combinação de palavras que eu poderia ter dito para evitar aquele desfecho lamentável. Mesmo depois de chegar em casa, me trocar e desabar na cama, eu ainda não conseguia parar de pensar nisso. Passei provavelmente cerca de uma hora fritando os miolos com isso, mas não consegui pensar em uma única resposta decente. Não que encontrar uma agora mudasse alguma coisa — já era tarde demais para isso. Eu só não conseguia evitar o questionamento. "A Ushio foi a única coisa na minha mente o dia todo", percebi. "Como uma pessoa que eu considerava de um planeta totalmente diferente até pouco tempo atrás passou a ocupar um espaço tão grande no meu cérebro?" Eu realmente não sabia dizer.


Olhei para o teto e soltei um suspiro melancólico — quando, de repente, a porta do meu quarto se abriu de supetão. Era Ayaka, vestida com seu icônico e horroroso agasalho escolar cortesia da Escola de Ensino Fundamental Tsubakioka. Dei um pulo na cama com a intrusão.


- Ei. Me empresta seu dicionário eletrônico — exigiu ela.


- Quantas vezes eu tenho que te falar para não entrar aqui desse jeito? Você realmente precisa aprender a bater antes.


- Não. Não quero.


E por que diabos não? Era pedir demais bater duas ou três vezes antes de entrar? Um dia desses, ela entraria e veria algo que nenhum de nós gostaria que ela visse — eu tinha certeza disso. Pensei em rodar a baiana com ela para tentar deixar o recado claro... mas me contive. Sempre que eu gritava com ela, ela revidava imediatamente e começava a atacar impiedosamente todos os meus pontos fracos, um defeito de cada vez. Com seus olhos amendoados e julgadores e seu cabelo chanel cortado cirurgicamente acima dos ombros, ela era a irmã caçula mais difícil de lidar do mundo. Eu era impotente contra ela.


- Ah, tá, tanto faz. Tenho quase certeza de que está em uma dessas gavetas...


Levantei-me da cama e fui até a minha escrivaninha, abrindo cada gaveta de cima a baixo em busca do meu dicionário eletrônico de bolso.


- ...Ei, Ayaka — falei enquanto revirava as coisas, tomado por uma curiosidade repentina. — O que você faria se um amigo te contasse um segredo muito grande?


- Espera. Desde quando você tem amigos?


- Nossa, essa foi de graça. E nem é o ponto. Estou perguntando o que você faria nessa situação.


- Quero dizer, dependeria do segredo, eu acho. Já achou o dicionário?


- Ei, não me pressiona... Ah, espera.


Bem na hora, meus dedos encontraram o alvo na terceira gaveta do meu gaveteiro debaixo da mesa.


- É esse? Passa para cá — disse Ayaka, estendendo a palma da mão expectante.


Mas eu não entregaria minha única moeda de troca tão facilmente.


- Calma lá. Você precisa responder à minha pergunta primeiro. Daí você ganha o que veio buscar.


- O quê? Não tenho tempo para joguinhos com você.


- Qual é, por favor? — implorei, juntando as mãos.


- Ruuum... — ela resmungou. — Que tipo de segredo estamos falando aqui? Tipo, algo vergonhoso? Ou a pessoa fez alguma besteira?


- Er, acho que é tipo... o tipo de segredo que você não quer que todo mundo saiba?


- Isso não é literalmente todo segredo?


Ela tinha um ponto. Mas em qual categoria o segredo "fui pego vestindo o uniforme escolar da minha irmã caçula" se encaixaria? Hum...


- Talvez um segredo mais vergonhoso, eu acho?


- Bem, então eu provavelmente tentaria tranquilizar a pessoa, tipo, "Ah, não esquenta com isso! Isso acontece com todo mundo de vez em quando!" ou algo do tipo.


- Mmm, não acho que isso seja estritamente verdade neste caso... Não tenho certeza se funcionaria.


- Ah, isso está ficando irritante... Tá. Por que você não conta um dos seus segredos para ela? Daí vocês ficam quites.


- Também não acho que seja uma boa ideia... Ou, espera. Será...?


Eu não tinha certeza, mas antes que tivesse tempo de remoer o assunto, Ayaka arrancou o dicionário eletrônico das minhas mãos.


- Beleza, acho que já te dei o suficiente para trabalhar — disse ela. — Fui.


E com isso, ela se retirou da conversa (e do meu quarto) enquanto eu ficava ali, pensativo com o conselho dela. "Trocar um segredo por outro para ficar 'quite', é? A lógica aí é bem capenga", pensei, "mas pode funcionar."


- Hmmm... Qual segredo eu poderia compartilhar...? — ponderei em voz alta. Lancei um olhar de soslaio para a minha estante — ou, mais especificamente, para o que eu tinha escondido atrás dela.


"Não, eu nunca conseguiria... Isso seria vergonhoso demais... Hummm, mas pensando bem..."


Fiquei hesitante enquanto a balança oscilava na minha mente. Depois de pensar um pouco, decidi me preparar para o pior e encarar de frente. Não era algo que eu estava animado para compartilhar, de jeito nenhum — mas não seria um segredo muito vergonhoso se não fosse assim, seria?


"Tudo bem, sim, tanto faz. Vamos mostrar para ela e acabar logo com isso."


Mas logo quando tomei minha decisão, meu telefone vibrou na escrivaninha. Era uma chamada recebida. Estiquei o braço para pegá-lo, imaginando quem diabos estaria me ligando àquela hora — apenas para ver que era Natsuki.


- O quê?!


Gaguejei de surpresa. Uma ligação de uma garota? Isso era um acontecimento tão raro e inesperado que entrei em pânico. "O-o que eu faço...? Espera, o que estou dizendo?! Só atende o telefone, seu idiota!"


Tremendo, apertei o botão para atender.


- A-alô? — disse.


- Ei! É a Natsuki! Desculpa pela ligação repentina. Você está ocupado agora?


Mesmo pelo telefone, a voz dela era animada e radiante. Senti aquela sensação calorosa no peito novamente, e os cantos dos meus lábios se curvaram em um sorriso bobo.


- Não, de jeito nenhum. Estou totalmente, cem por cento livre, na verdade. Por quê, o que houve?


- Sério? Ufa, graças a Deus. Então, ei — eu terminei de ler aquele livro que você me recomendou! Mas sou meio ruim para escrever meus pensamentos por mensagem, então achei melhor te ligar e contar pelo telefone mesmo!


- O-oh, é? Claro, de qualquer jeito está bom para mim. O que funcionar melhor para vo...


Bem na hora, veio uma batida alta na parede. "Ah, droga. A Ayaka ficou puta." Não querendo arriscar que um "cala a boca" ou "vai se ferrar" fosse captado pelo telefone, saí correndo do meu quarto, desci as escadas, calcei meus chinelos e saí pela porta dos fundos. "Beleza, aqui deve ser seguro."


- Alô? Kamiki, você ainda está aí?


- Sim, estou aqui, desculpa. Só tive que mudar de lugar. Minha irmã caçula fica irritada quando atendo ligações no meu quarto.


- Ah, eu não sabia que você tinha uma irmã! Que legal, haha. Sou filha única, então sempre quis ter irmãos.


- Vai por mim, você não iria querer. Parece que ela não consegue passar um único dia sem me chamar de nojento ou irritante ou algo do tipo.


- Caramba, sério?


- Sim. Às vezes ela até começa a jogar coisas em mim.


- O quê?! Tá, sim, isso parece bem ruim...


Eu estava exagerando um pouco, já que só conseguia me lembrar de isso ter acontecido uma vez recentemente. Eu tinha comido o sorvete dela sem querer, e tudo o que ela jogou foi uma caixa de lenços, então pelo menos ela foi racional o suficiente para escolher algo que não quebraria nem me machucaria.


- Acho que ainda sinto bastante inveja no geral. Porque, tipo, meus pais trabalham fora, sabe? Então sempre que chego da escola, não tem ninguém além de mim por horas. É bem solitário, para ser bem sincera.


Eu conseguia imaginar isso. Eu provavelmente me sentiria bem sozinho em casa também sem a minha irmã, por mais aterrorizante que ela fosse. Fiquei pensando se talvez esses sentimentos de isolamento eram parcialmente culpados por quão aberta e sem reservas Natsuki era ao fazer um esforço para ser amiga de todo mundo.


- Ah, desculpa! Meio que entrei numa vibe deprimente do nada! O que eu estava dizendo mesmo?! Ah, sim, sobre o livro...


Natsuki começou a falar empolgadamente e longamente sobre o romance que eu havia recomendado para ela, O Sonho da Equidna. Eu estivera um pouco preocupado se ela iria gostar, dados alguns de seus aspectos ligeiramente mais complexos, mas parecia que ela tinha gostado bastante. Ela passou por quase todas as cenas do livro em ordem, me dando suas impressões sinceras sobre cada uma. O que realmente me surpreendeu, porém, foi como ela era uma leitora atenta, notando até pequenas coisas como "Aquele era o mesmo colar do início do livro, não era?" ou "Fiquei pensando se ele estava apenas repetindo as palavras do avô dele ali", e pescando todos os elementos de antecipação. Sua análise profunda a fazia parecer uma leitora muito mais ávida do que ela afirmava ser anteriormente.


- Enfim, é! Você deveria me dar algumas outras boas recomendações de livros algum dia! Com certeza vou ler todos!


- Claro, não me importo nem um pouco. Posso fazer uma lista ou algo assim e te mandar por mensagem.


- Incrível, obrigada! Sabe, você é o único com quem consigo conversar sobre esse tipo de coisa, Kamiki...


Eu conseguia notar pelo tom dela que ela não tinha dito aquilo de uma forma particularmente romântica ou sentimental, mas me deixou nas nuvens de qualquer maneira. Com nostalgia, tentei lembrar se havia alguma forma de gravar uma ligação telefônica depois de ela ter acontecido.


- Bem, estou praticamente livre o tempo todo, então sinta-se à vontade para me ligar ou mandar mensagem sempre que quiser — falei. — Porque, quero dizer... você também é a única com quem consigo conversar sobre essas coisas, então...


"Meu Deus." Foi só quando essas palavras estavam saindo da minha boca que percebi o quanto estava passando vergonha, mas a essa altura já era tarde demais para voltar atrás.


- Entendido! Beleza, combinado!


Ufa. Parecia que ela não tinha ouvido a última parte; eu não conseguia imaginá-la como o tipo de garota que deixaria algo assim passar completamente batido. Conforme uma onda de alívio me invadia, ouvi o sino das seis horas da cidade tocando ao longe. Olhei para cima e vi que o céu da tarde acima estava ficando cada minuto mais vermelho.


- Tudo bem, então... Acho que te mando mensagem em breve.


- Legal, sim... Ah, espera aí um segundo.


- Hum?


- Foi só impressão minha ou eu te vi caminhando para casa com a Ushio depois da escola hoje?


Fui totalmente pego de surpresa por essa mudança drástica de assunto.


- Sim, era eu... Por que a pergunta?


- Só curiosidade, eu acho. Nunca vi vocês dois andando juntos antes, só isso.


- É. Nós não nos falamos mais, na verdade, mas acho que eu estava um pouco preocupado com ela... Ah, desculpa — eu deveria esclarecer: a Ushio e eu costumávamos ser melhores amigos.


- Espera, sério?!


Afastei o telefone do ouvido quando a voz dela estourou no pequeno alto-falante. Eu certamente não esperava que ela ficasse tão surpresa.


- Sim, éramos muito próximos antigamente. Quase não nos falamos hoje em dia, por motivos nos quais não vou entrar em detalhes, mas sim... Não pude deixar de me sentir um pouco preocupado, dadas as circunstâncias, então pensei "que se dane" e me ofereci para caminhar com ela.


- Entendi... Nossa, você é um amigo muito bom, Kamiki.


- Não, eu não diria que sou...


- Não, sério! Acho que isso foi muito nobre da sua parte! Honestamente, eu estava meio que no mesmo barco, tipo... Não sabia muito bem como me aproximar da Ushio hoje, mesmo a gente conversando direto antes, então eu só fui na onda. Mas depois que a Arisa meio que descontou nela, me senti supermal já que fui eu quem chamou ela para lá, então simplesmente não tive coragem de tentar falar com ela de novo depois daquilo... Cara, amizades são difíceis.


Essa era uma perspectiva bem inesperada vinda de uma garota que sempre me pareceu uma comunicadora nata; a Natsuki que eu conhecia era querida por todos por sua habilidade fantástica de fazer amizade com qualquer um. Mas parecia que eu precisaria revisar essa impressão, já que até uma garota como ela tinha dificuldades com interações humanas às vezes.


- ...É, eu meio que me senti da mesma forma — sem saber direito como deveria interagir com ela e tudo mais. O negócio é que não falar com alguém só porque você não tem certeza do que fazer, bem... Com certeza é a saída mais fácil de uma situação desconfortável, mas nada vai mudar a partir disso, sabe? E acho que, para mim, senti que não conseguiria viver comigo mesmo se continuasse assistindo a tudo de braços cruzados, então achei que agora era um momento tão bom quanto qualquer outro para esquecer o passado e tentar me reconectar um pouco com ela. — Respirei fundo antes de continuar. — Não que você deva aceitar conselhos de amizade de um cara como eu.


- ...Não, eu agradeço. Como eu disse, você parece ser um amigo muito bom.


- V-você acha? — Era difícil não se sentir bem com um elogio daqueles.


- Sabe, acho que estou me sentindo um pouco melhor em relação às coisas agora, na verdade. Obrigada, Kamiki! Que bom que a gente conversou.


- Imagina, não precisa agradecer. E digo o mesmo — obrigado por compartilhar sua opinião sobre o livro comigo. Gostei muito de ouvir suas impressões.


- Sempre que quiser! Bem, acho que vou ficar de olho na minha caixa de entrada esperando aquelas suas outras recomendações. Falo com você mais tarde, então!


- Sim, falo com você mais tarde.


Depois disso, ela desligou.


Fiquei parado ali por um momento, me espreguiçando sob o lindo crepúsculo âmbar. Não era apenas o céu que parecia mais bonito do que o normal; tudo parecia um pouco mais vivo depois de conversar com Natsuki. Era tudo o que eu queria fazer agora — e uma parte de mim já estava trabalhando duro pensando em coisas que eu poderia contar para ela a seguir. Mas, no fundo, aquela outra voz interna minha ainda estava me alertando para não me apegar demais. Fiquei pensando qual delas eu deveria ouvir. Eu realmente não sabia dizer, mas, por enquanto, não queria pensar demais. Por hora, eu só queria relaxar sob aquela sensação boa e aproveitar enquanto durasse.


- Beleza. Vamos voltar para dentro.


Eu precisava escolher alguns livros para recomendar para Natsuki. Também precisava pegar aquele segredinho que eu estava planejando compartilhar com Ushio amanhã.


- No dia seguinte, saí de casa mais cedo do que o habitual. O céu estava limpo e azul enquanto eu pedalava pela cidade em direção ao Colégio Tsubakioka. Depois de entrar e colocar meus sapatos de interior, dei uma espiada no armário de sapatos da Ushio — vazio. Ainda não tinha chegado. Fiquei de um lado da entrada, encostado na parede, esperando. Tinha algo que eu queria entregar a ela. E então, esperei.


A entrada principal ainda estava bastante silenciosa àquela hora, mas em mais uns dez minutos, uma verdadeira horda de estudantes entraria em massa por aquelas portas duplas, e, assim que as comportas se abrissem, seria difícil até ouvir os próprios pensamentos. Eu torcia muito para que a Ushio chegasse antes do tumulto — mas depois de cinco minutos, depois dez, ela ainda não tinha aparecido. Mesmo depois que a correria inicial diminuiu, não havia sinal dela. Normalmente, ela já estaria se acomodando na sala de aula a essa hora. Fiquei pensando se ter saído da equipe de atletismo tinha desregulado o horário de sono dela.


- Ei, o que está fazendo?


- Opa! — exclamei, assustado com a proximidade daquela saudação repentina — mas era apenas o Hasumi. Ele sempre foi assustadoramente bom em chegar de mansinho nas pessoas, eu já tinha reparado. — Caramba, não me assusta assim... E não é nada demais. Só estou esperando a Ushio.


- O quê, a Tsukinoki de novo? Caramba, isso não combina nada com você.


- É, pois é. De qualquer forma, ela não está aparecendo. Será que perdeu a hora?


- ...Eu não ficaria esperando sentado se fosse você, cara.


Ele fez essa previsão sinistra como se não fosse nada. Franzi a testa.


- E o que exatamente você quer dizer com isso? — perguntei.


- Quero dizer que todo mundo está tratando a coitada como se ela tivesse uma doença contagiosa. Especialmente depois daqueles encontros desagradáveis com a Noi e a Nishizono ontem. Se aquilo acontecesse comigo, pode apostar que eu não teria a menor vontade de vir à escola no dia seguinte. Ou nunca mais.


- Ah, qual é... Não diz uma coisa dessas...


Por mais que eu quisesse acreditar que ele estava errado, o comentário do Hasumi não era sem lógica. Na verdade, parecia a explicação mais provável. Todas aquelas interações negativas de ontem certamente deviam ter cobrado o seu preço no estado mental da Ushio. Eu mesmo tinha visto indícios disso, já que provavelmente foi a única razão pela qual presenciei aquele raro momento de vulnerabilidade dela durante a nossa caminhada para casa ontem. Até aquela conversa terminou em um tom bem desconfortável. Se eu fosse a Ushio, provavelmente estaria deprimido demais para dar as caras na escola.


- Enfim, só estou especulando. Você deve saber melhor do que eu, imagino, já que vocês dois são amigos e tudo mais. Se quiser continuar esperando a Tsukinoki, vai em frente.


- É, quer dizer, esse era o plano... Pelo menos até o sinal da primeira aula tocar.


Dito isso, eu estava começando a ficar um pouco ansioso. Não que a Ushio ficar em casa fizesse diferença para mim, por assim dizer, mas eu me sentiria muito mal se ela parasse de vir à escola por mais um longo período. Cogitei fazer uma ligação para ver como ela estava — e foi bem nessa hora que a Natsuki entrou no prédio. Ela rapidamente nos avistou e veio trotando.


- Olha só se não são o Kamiki e o Hasumi! Bom dia, meninos!


Ela nos cumprimentou com seu sorriso alegre e contagiante. Não pude evitar abrir um sorriso também.


- É, oi. Bom dia.


- Bom dia, Hoshihara — disse Hasumi.


- Ai, caramba! — disse Natsuki, olhando para o relógio na parede ali perto. — Desculpa, eu não fiz a lição de casa de matemática ontem à noite, então ia tentar dar uma adiantada antes do sinal tocar! Vejo vocês lá em cima, então! Tchau!


Houve quase um "vapt" audível enquanto ela disparava escada acima, deixando apenas uma fragrância sutilmente doce em seu rastro. A aula de matemática era o primeiro período de hoje; fiquei pensando se havia alguma chance de ela terminar a tarefa a tempo.


- Beleza, cara — disse Hasumi. — Acho que vou subindo também.


- Claro, sem problemas. — Observei enquanto ele subia as escadas também.


Olhei para o relógio; faltavam menos de cinco minutos para o início do horário do orientador. Sabia que provavelmente deveria ir andando também. Afinal de contas, não é como se eu tivesse que entregar esse meu segredo vergonhoso para a Ushio logo pela manhã — no pior dos cenários, eu sempre poderia passar na casa dela no caminho de volta da escola.


E assim, percebendo que provavelmente era uma causa perdida, me virei e comecei a andar em direção à escada. Naquele exato momento, vislumbrei um cabelo loiro-platinado na minha visão periférica. Ah, graças a Deus. Fiquei aliviado ao ver que ela tinha, sim, vindo à escola hoje. Além do mais, ela ainda estava usando o uniforme feminino, apesar de todos os olhares estranhos, tratamento cruel e o isolamento geral que vinham junto com essa decisão. Ela claramente não tinha a intenção de se desviar desse novo caminho que escolhera na vida, independentemente de como as pessoas pudessem julgá-la. Não pude deixar de admirar a firmeza em seus passos enquanto ela passava direto por todos.


Fui na direção dela e dei um aceno discreto. Ela pareceu um pouco surpresa ao me ver, mas trocou de sapatos e caminhou até mim da mesma forma.


- Bom dia — disse ela. — O que houve? Esperando alguém?


Ela parecia um pouquinho abatida. Havia olheiras sutis sob seus olhos, e sua voz estava pesada de cansaço. Presumi que ela ainda estivesse sentindo a exaustão de ontem.


- Sim — respondi. — Estava esperando você aparecer, na verdade. Tenho uma coisa para você.


- Para mim?


Assenti, enfiei a mão na mochila e puxei uma pilha grossa de mais de cem folhas de papel tamanho A4. Entreguei para a Ushio.


- O que é isso?


- Um romance amador que escrevi na época do ensino fundamental.


- Um romance? — disse ela, perplexa, olhando para o manuscrito que agora segurava nas mãos. — Er, tá bom, deixa eu ver... Crônicas de Ragna...


- Ei, ei, ei! Não precisa ler em voz alta. Só enfia na mochila por enquanto e você lê em casa. Bem, não que você precise ler, obviamente.


- Ahn... Desculpa?


- Vamos, vamos conversando enquanto andamos. Vamos nos atrasar para a aula.


Nós dois começamos a andar em direção às escadas em um ritmo acelerado.


- Por que está me dando isso do nada? Está querendo uma avaliação ou algo assim?


- Não, honestamente, eu nem quero ouvir a sua opinião. É tipo... muito ruim...


- Então por que me entregou? — perguntou ela novamente, claramente um pouco confusa.


Achei que seria melhor apenas dizer a verdade. — Porque é algo que guardo em segredo há muito tempo.


- Entendi... Por que isso?


- Bem, eu nunca contei isso para ninguém antes, mas por um tempo eu queria muito ser escritor quando crescesse. Tanto que escrevi um livro inteiro no ensino fundamental e mandei para um concurso de novos talentos. Mas não passei nem da fase preliminar, e o feedback que recebi da banca de jurados foi bem cruel. Depois disso, não conseguia ver a minha própria escrita como nada além de lixo total, e fiquei com muita vergonha de um dia ter achado que tinha o que era preciso para ser autor... Por isso nunca contei para ninguém.


Ushio assentiu de leve, pensativa.


- Ontem — continuei -, você me contou algo bem pessoal sobre si mesma. Algo que presumo que você nunca quis ter que contar para ninguém. Achei que talvez pudesse amenizar um pouco essa vergonha te contando um segredo vergonhoso meu, e esse romance foi a primeira coisa que me veio à mente. Agora estamos quites, de certa forma.


Tudo aquilo tinha sido ideia da Ayaka, na verdade — embora, agora que pensava a respeito, percebesse que havia um pequeno problema com esse plano: o que diabos a Ushio ganhava com essa informação? O que importava para ela se eu tinha tentado e falhado em ser escritor? O que ela deveria dizer além de um "Ah, tá"? E mais do que tudo: em que universo entregar a ela algo que até eu admitia ser um lixo absoluto nos deixava "quites" em qualquer sentido da palavra? Se mudasse alguma coisa, provavelmente parecia que eu estava apenas usando ela como uma lata de lixo para despejar algumas bagagens emocionais antigas. "Maravilha. Agora estou amarelando. Será que ela vai ficar chateada comigo por causa disso...?" Dei uma olhada de lado para avaliar a expressão dela, e ela soltou um suspiro exausto.


- O seu cérebro funciona de umas maneiras bem interessantes às vezes, Sakuma.


- Ahn... Devo levar isso como um elogio?


- Uh-huh. Não sei como você consegue ouvir uma história como a que te contei ontem e imediatamente pensar: "Nossa, isso é quase tão vergonhoso quanto aquele romance terrível que escrevi uma vez!" Isso é bem divertido.


- Er, desculpa. Eu não estava tentando, tipo... diminuir o que aconteceu com você.


- Eu sei. Não estou chateada nem nada, não se preocupe. Só estou me sentindo meio boba por levar as coisas tão a sério. — Ela deu um sorrisinho terno. — Obrigada, Sakuma. Vou fazer questão de ler o seu romance com muita atenção.


- É, ah, claro. Quero dizer, não precisa de tanta atenção assim, obviamente...


Será que o meu plano tinha dado certo no fim das contas? Parecia que talvez sim; pelo menos arrancou um sorriso da Ushio. Se ajudou a animá-la nem que fosse um pouquinho, presumi que já estava bom o suficiente — não dava para pedir muito mais. Curiosamente, parecia que um peso tinha sido tirado das minhas costas também.


O sinal tocou bem quando chegamos à sala de aula, então a Ushio e eu corremos para os nossos lugares.


A situação na sala naquele dia não foi nem um pouco diferente do dia anterior. Nenhum dos outros alunos se atrevia a falar com a Ushio, e ela não fazia menção de sair do seu isolamento. Fora uma única vez em que o professor a chamou, o que a forçou a falar por um momento, era quase como se ela nem estivesse ali. Pensei em falar com ela algumas vezes nos intervalos entre as aulas, mas nunca cheguei a ir adiante. Tentar fazer isso ali no meio da sala significaria me sujeitar aos olhares julgadores de todos os meus colegas, e, como alguém que geralmente tentava passar o mais despercebido possível, eu era extremamente relutante em chamar atenção para mim daquela forma. Não que eu tivesse qualquer obrigação de falar com ela, obviamente — eu só me sentia meio insensível e inquieto vendo ela sentada ali em silêncio, totalmente sozinha.


Essa ansiedade se arrastou por toda a manhã até a hora do almoço, quando eu estava limpando a minha escrivaninha e, por acaso, vi Natsuki se levantar com seu bentô e caminhar até onde Ushio estava sentada. Ela estava mesmo planejando convidá-la para almoçar juntas de novo, mesmo depois de as coisas terem ficado tão hostis no dia anterior? Essa era a Natsuki, afinal. Eu não conseguia evitar admirá-la por isso — mesmo que me fizesse sentir bem patético em comparação. No entanto, no momento em que Natsuki chegou à mesa de Ushio e ergueu seu almoço, as coisas imediatamente tomaram um rumo pior.


- Ei! — disse ela. — Se você quiser, pode vir...


- Natsuki — uma voz fria e insensível interrompeu.


Era Nishizono. Natsuki se virou cautelosamente para encará-la onde estava de pé perto da porta, cercada por várias outras garotas, incluindo Mashima e Shiina. Todas elas desviavam o olhar de forma desconfortável. Se Nishizono percebia ou não que Natsuki estava no meio de uma conversa com Ushio, eu tinha quase certeza de que ela não se importava.


- Nós íamos comer no refeitório hoje — continuou Nishizono. — Você vem, certo?


Seu tom era calmo, mas impositivo — como se estivesse fazendo uma afirmação, não uma pergunta, e não aceitaria um não como resposta. Natsuki olhou de relance entre ela e Ushio algumas vezes. Vendo isso, Ushio apontou levemente em direção à porta com o queixo, como se dissesse: "Vá comer com suas amigas". Por um momento, pude ver Natsuki apertar seu bentô com ansiedade. Mas então, como se quisesse espantar a hesitação, ela se virou para encarar Nishizono de frente.


- Eu acho que vou... f-ficar e almoçar aqui hoje, na verdade. Eh-heh-heh... — Sua risada soou extremamente forçada. Uma das sobrancelhas de Nishizono contraiu-se quase imperceptivelmente diante daquela leve resistência. Presumivelmente, ela não esperava ser recusada. Seus olhos se estreitaram e ela encarou Natsuki com os olhos cerrados.


- Tudo bem. Faça como quiser, então — disse ela, e saiu da sala de aula.


Eu estava esperando que ela explodisse um pouco mais, mas ela na verdade tinha desistido com bastante facilidade. E, no entanto, havia algo de sinistro naquele recuo que era ainda mais aterrorizante do que a sua combatividade habitual. Parecia que Natsuki também sentia isso; ela ainda parecia bastante tensa ao se sentar em frente a Ushio.


- Tem certeza disso? — Ushio perguntou a ela, preocupada.


- Absoluta! Está tudo bem! — Natsuki respondeu alegremente, embora eu pudesse notar que ela estava apenas tentando se mostrar forte. Mesmo depois que as duas começaram a comer, ela permaneceu visivelmente abalada. Ficar do lado de Ushio poderia muito bem colocar Natsuki em rota de colisão com Nishizono. Se realmente chegasse a esse ponto... o que eu deveria fazer? Ou, mais especificamente, havia alguma coisa que eu pudesse fazer?


Assim que as aulas terminaram pelo dia, a tensão na sala de aula diminuiu bastante. Enquanto me preparava para ir para casa, lancei um olhar de soslaio para Ushio — e, como ela estava fazendo o mesmo comigo, nossos olhos se cruzaram. Ela rapidamente desviou o olhar, enfiou os livros na mochila, levantou-se e saiu da sala de aula.


"Acho que não vamos caminhar juntos até em casa hoje."


Senti uma mistura estranha de decepção e alívio com isso. Pendurei minha mochila relativamente vazia no ombro e saí silenciosamente da sala. Quando desci para a entrada principal do prédio, encontrei Ushio encostada na parede, exatamente como eu estivera esta manhã. Huh. Achei que ela já teria ido para casa a essa hora.


Sentindo que seria estranho passar direto e fingir não notar a presença dela, chamei:


- E aí?


Ushio olhou, com o rosto tenso.


- Ahn, nada. Não esquenta.


- Ah. Bem, tudo bem então.


- ...Vou para casa.


Ela me deu as costas e, antes mesmo que eu pudesse me perguntar o que diabos estava acontecendo, caiu a ficha: ela estava me esperando, não estava?


- Ushio! — chamei, e ela se virou de volta. O convite explícito ainda parecia desajeitado na minha língua, mas juntei as palavras de qualquer forma. — Você... quer caminhar até em casa juntas? Se não tiver outros planos, quero dizer.


Os olhos de Ushio se arregalaram brevemente, mas ela assentiu com firmeza.


- Ah, tudo bem. Sim, parece uma boa para mim.


Não tinha certeza se ela estava apenas se fazendo de difícil ou o quê, mas certamente parecia que eu tinha sido obrigado a tomar a iniciativa apenas para que ela não precisasse admitir nada abertamente. Seja o que for, nós dois nos direcionamos para os armários de sapatos, trocamos de volta para os sapatos de rua e nos preparamos para sair pela entrada principal.


- Esperem! — alguém gritou atrás de nós.


Eu me virei para ver que era Natsuki. Será que um de nós esqueceu algo na sala de aula? Ela está vindo entregar?


Ela correu até nós, ainda com os sapatos de interior, e fez uma proposta tímida:


- Ei, hum... Vocês se importam se eu caminhar até em casa com vocês também?


"Espera, sério?!" Quase gritei. Imaginem só — um cara como eu, caminhando para casa com uma garota como ela. Fiz o meu melhor para conter minha euforia e agir com naturalidade.


- C-claro. Quanto mais gente, melhor. Certo, Ushio?


- Com certeza. O tempo sempre voa quando você está por perto, Natsuki.


O rosto de Natsuki se iluminou como um fogo de artifício — ela era extremamente fácil de ler.


- Beleza, então vamos! — disse ela, e caminhou para o lado de fora para se juntar a nós, ainda com os sapatos de interior. Até esses momentos meio avoados dela eram extremamente adoráveis para mim agora. "Meu Deus", percebi. "Estou caidinho, não estou?"


Nós três caminhamos lado a lado, com Natsuki no meio, pela mesma estrada estreita entre os campos de arroz que Ushio e eu havíamos pegado ontem. Natsuki morava um pouco mais longe, então ela geralmente pegava o trem até a estação mais próxima da nossa escola e depois ia de bicicleta pelo resto do caminho. Esse era um trajeto bastante comum para os alunos do Colégio Tsubakioka, já que não ficava muito perto de nenhuma estação, e Natsuki prontamente lamentou o quanto isso era inconveniente.


- A propósito — disse ela, mudando de assunto -, ouvi dizer que vocês dois são amigos há bastante tempo?


- Somos, sim. — Assenti, depois me virei para Ushio. — Provavelmente desde, o quê — o ensino fundamental I, eu diria?


- Não, antes disso — disse Ushio. — Tenho quase certeza de que nos conhecemos no jardim de infância. Mas foi só no ensino fundamental I que começamos a andar juntos de verdade.


- Caramba... — Natsuki parecia impressionada. — Então vocês se conhecem há mais de uma década, não é? Como vocês eram na época do ensino fundamental?


Essa era uma pergunta bem ampla. Tentei o meu melhor para vasculhar minhas memórias.


- Mmm... Não acho que eu era tão diferente de como sou agora, honestamente — eu disse. — Apenas um garoto comum e sem graça, na verdade.


- Ahn? — Ushio olhou para mim de queixo caído, incrédula. — Isso não é verdade de jeito nenhum. Você era tipo o líder do nosso grupinho de bando de arruaceiros naquela época.


- Espera, eu era?


- Sim. Você arrumava briga com valentões ou subia escondido no telhado da escola e levava bronca do professor... Você realmente se destacava na multidão. Não se lembra de nada disso?


- Ahhh, acho que agora que você mencionou, lembro um pouco...


Essa lembrança do passado era um pouco vergonhosa, na verdade — embora, para ser justo, eu só tenha entrado em uma discussão verbal com um valentão uma única vez, e a única razão pela qual consegui "subir escondido" no telhado da escola foi que a porta estava destrancada. Não era como se eu fosse um grande delinquente ou algo assim.


- Você mudou bastante, Sakuma... Embora ainda seja o mesmo em muitos aspectos, também — disse Ushio com uma expressão serena e humilde.


- Hrm, entendi — disse Natsuki. Inclinando a cabeça com curiosidade, ela insistiu: — Como você era no ensino fundamental, Ushio?


- Se serve de consolo, eu era a sem graça e quieta. Não era muito forte mentalmente nem fisicamente, então chorava por qualquer bobeira.


Disso, eu me lembrava. A antiga Ushio era bem mais mansa do que acabou se tornando, com essa transição provavelmente começando por volta da quarta ou quinta série.


- Nossa, é... Não consigo nem imaginar isso, só de saber como você é hoje em dia — disse Hoshihara.


- Bem, sinceramente, fico feliz que não consiga — respondeu Ushio, sorrindo com timidez. — Eu me esforcei muito e dediquei bastante tempo para me transformar na pessoa que sou agora.


- Hã... Eu não fazia ideia...


Eu também me surpreendi ao ouvir isso — por alguma razão, sempre tive a impressão de que Ushio era naturalmente carismática -, mas fazia certo sentido quando eu pensava em como ela era uma criança quieta e falava baixo antigamente. Me perguntei por que tinha chegado a essa conclusão, talvez fosse mais fácil, tanto pela simplicidade quanto pela minha própria autoestima, atribuir tudo ao talento nato.


- ...Então, tem uma coisa que eu fiquei meio curiosa desde ontem — disse Hoshihara, com o rosto ficando visivelmente sério. Ela ficou em silêncio por um momento, depois respirou fundo e perguntou: — Você vai tentar começar a falar mais como uma garota também a partir de agora? Tipo, usar um tom de voz mais agudo e tal? Ou vai continuar com sua voz normal?


Eu a encarei sem reação. Ela estava certa — eu não tinha prestado atenção nisso, já que não era incomum garotas terem vozes mais graves, mas era algo que Ushio poderia considerar mudar se realmente estivesse determinada a deixar para trás o máximo possível de seu eu antigo e fazer uma reformulação completa de identidade.


- ...Parece meio indeciso, não acha? — disse Ushio, com uma expressão azeda e pensativa no rosto.


- Ah, não estou dizendo que você precisa mudar nem nada! Nem que deveria! O que for mais natural para você é a escolha certa, eu diria — só estava curiosa, é só isso...


Enquanto Hoshihara voltava atrás, Ushio apenas balançou a cabeça suavemente e vestiu uma expressão calma e gentil.


- Bem — disse ela -, eu acho que minha voz é um pouco grave e rouca demais para eu começar a usar um tom mais agudo de repente. Soaria meio estranho, acho. Eu tentei fazer alguns exercícios vocais por um tempo para ver se conseguia mudar minha voz, mas não estava funcionando muito bem... Tudo bem, porém. Eu só decidi focar mais dessa energia na minha aparência.


Ela sorriu, mas não era muito convincente. Hoshihara a olhou com preocupação e então disse:


- Bem, não que isso importe! Tem muitas dubladoras amadas com vozes tão graves ou mais que a sua, Ushio-kun! Então, não acho que soa estranho. Mas... — Ela fez uma pausa. — Acho que a verdadeira questão é: o que você preferiria?


Ushio franziu os lábios com essa pergunta, aparentemente desconfortável. A conversa estagnou, e nós três ficamos em silêncio por um tempo. Hoshihara e eu esperamos pacientemente pela resposta de Ushio; não parecia o tipo de pergunta que ficaria sem resposta para sempre, mesmo que levasse um tempo para ela se decidir. Eventualmente, Ushio pareceu se resignar à honestidade.


- Há uma parte de mim que quer tentar isso, sim — confessou. — Mas não me sinto pronta para me comprometer com isso ainda. Estou um pouco assustada com... mudar rápido demais, se é que isso faz sentido.


- Entendi — disse Hoshihara baixinho.


Eu conseguia entender a hesitação de Ushio; provavelmente exigiu muita força mental só para ter coragem de usar roupas femininas. Pensar em mudar outro aspecto importante de sua identidade além desse — seu modo de falar e tom de voz — provavelmente era algo estressante. Tentei pensar em uma sugestão razoável ou conselho para tranquilizá-la um pouco, mas Hoshihara foi mais rápida.


- Certo, então que tal isso?! — Hoshihara ergueu a voz com animação, talvez tentando afastar a atmosfera sombria. — E se você começasse a usar uma voz mais feminina e tal só perto da gente?! Assim você teria a chance de se acostumar em um ambiente confortável, e começaria a soar naturalmente muito mais feminina antes que perceba! Aposto qualquer coisa!


Seu rosto se iluminou como se tivesse acabado de ter o maior insight do mundo. Eu certamente não teria objeções a essa ideia — mas a verdadeira questão era se Ushio topava.


- Bem... Certo, tudo bem. Talvez eu tente isso — Ushio estava claramente hesitante, mas assentiu feliz com a ideia, independentemente disso.


- Ótimo, ótimo! — disse Hoshihara, sorrindo de orelha a orelha. — Certo então, por que você não tenta agora mesmo?!


- O quê, agora?


- Sim! — Hoshihara assentiu enfaticamente, mas eu não pude deixar de sentir que era repentino demais para ser confortável, e com certeza...


- E-ei, gente... — Ushio gaguejou, com a voz falhando enquanto tentava experimentar esse novo tom mais agudo enquanto Hoshihara a observava com olhos animados e solidários. Mas então: — É, desculpa. Acho que vou ficar com minha voz normal por enquanto.


Hoshihara soltou uma série de pedidos de desculpas.


- E-entendi, certo! É, não, foi mal! Não quis te forçar a nada!


- É, sem pressa — intervim, tentando aliviar a pressão. — Fique à vontade para ir no seu próprio ritmo.


- I-isso! É, exatamente! — disse Hoshihara, assentindo repetidamente.


Ushio sorriu radiantemente, aparentemente concordando. Assim que a conversa se encerrou de forma agradável, chegamos à encruzilhada no final do caminho pelos campos de arroz (apenas algumas dezenas de metros da interseção de três vias onde Ushio e eu nos separamos).


Hoshihara parou.


- Certo, tenho que ir por aqui para chegar na estação — disse, virando-se para sorrir para nós mais uma vez. — Foi muito divertido conversar com vocês hoje! Vamos andar para casa juntos de novo amanhã, certo?


Por um décimo de segundo, fiquei em êxtase. Que sequência de palavras maravilhosa: "Vamos andar para casa juntos de novo amanhã."


- Sim, claro — disse eu. — Foi muito divertido, com certeza.


- Até mais, Natsuki — disse Ushio.


- Certo, tchau, gente! — Hoshihara pulou no banco da bicicleta e se impulsionou contra o asfalto... antes de prontamente fazer um retorno e voltar. O que seria agora? — Ah, sim, eu esqueci completamente! Desculpa, só mais uma coisa — posso pedir um favor...?


Um favor? Ushio e eu nos olhamos.


Hoshihara saltou da bicicleta, virou-se para Ushio e disse:


- Na verdade, eu estava pensando, hum... Você se importa se eu te chamar de Ushio-chan a partir de agora em vez de Ushio?


Por um instante, Ushio pareceu atônita. Então soltou uma risada e assentiu.


- Claro — disse ela. — Pode me chamar do que quiser.


- Viva! Certo então... Ushio-chan. Ha ha, nossa, isso parece tão legal! Tudo bem, tchau de verdade agora, Ushio-chan. E você também, Kamiki!


Com isso, ela girou de volta e foi para casa. Parecia que um peso tinha sido tirado dos meus ombros — como se aquela atmosfera estranha e sombria de quando Ushio e eu nos separamos ontem tivesse sido nada mais que um produto da minha imaginação. Mal podia esperar para nós três andarmos para casa juntos novamente.


- Hum, acho que é melhor a gente ir também — disse eu, seguindo em frente.


Mas Ushio não me seguiu. Imaginando o porquê, parei novamente e me virei. Ela estava parada ali, imóvel, me encarando.


- O que, hum... O que você acharia se eu começasse a falar mais como uma garota, Sakuma? — perguntou abruptamente. Seu rosto estava sério. Eu podia dizer que minha resposta aqui era importante.


Eu a observei novamente. Seu cabelo curto, louro-prateado, parecia macio como seda o suficiente para que seus dedos passassem direto por ele, não importa o quão bruscamente você tentasse bagunçá-lo. Suas pálpebras duplas eram delineadas por longos cílios. Mesmo que ela não estivesse usando saia e meia-calça, se eu a visse como uma estranha e alguém me dissesse que ela era uma garota, provavelmente acreditaria. Francamente, eu não achava que soaria estranho se ela começasse a usar padrões de fala e maneirismos mais femininos.


- Eu acho que seria totalmente de boa — disse eu, falando com franqueza.


- Entendi... Certo, obrigada. Er, desculpa pela pergunta estranha — disse Ushio, subitamente tímida. Seu sorriso doce era feminino o suficiente para me fazer esquecer que ela já foi um garoto.


---


Era agora a manhã do terceiro dia de aula de Ushio desde sua transição para ser uma garota. O céu estava limpo e azul; antes de sair de casa de manhã, ouvi o meteorologista na TV afirmar que a chance de chuva era zero por cento. Como alguém que ia para escola de bicicleta, essa era uma previsão sempre bem-vinda. Quando cheguei à escola, faltavam apenas uns dez minutos para o início da primeira aula. Isso era um pouco mais tarde que o normal para mim, por causa de alguns sinais vermelhos azarados seguidos.


Enquanto subia as escadas e andava pelo corredor, notei que um pequeno grupo de alunos de outras turmas se reunira em volta da porta da Sala 2-A. Eles espiaram para dentro e cochichavam entre si em vozes baixas. Tive um mau pressentimento sobre isso. Apertei o passo e entrei na sala pela porta dos fundos, onde descobri que quase todos os meus colegas de classe estavam olhando fixamente para algo perto da frente da sala. Acompanhei o olhar coletivo até seu ponto focal mútuo — e então vi.


- Mas o que...?


No quadro-negro estavam escritas algumas palavras escolhidas em letras gigantes.


USHIO TSUKINOKI É UMA PUTA

PERVERTIDA


---


VILÃ


---


Fiquei sem palavras. Um arrepio agudo percorreu minha nuca, e meu corpo começou a tremer de raiva e confusão. Quem diabos escreveu isso?


Olhei pela sala e avistei Hoshihara parecendo prestes a chorar. Quando nossos olhos se encontraram, ela mordeu o lábio e olhou para o chão. Todos os outros colegas ou estavam sussurrando com os amigos ou se esforçando para conter o riso. Eu não suportava olhar para eles. Simplesmente avaliar suas expressões não me ajudaria a encontrar os culpados de qualquer maneira.


Felizmente, Ushio ainda não havia chegado à classe — eu precisava fazer algo sobre isso antes que ela chegasse. Mas o quê? Minhas pernas bambearam. Calma, Sakuma. Para começar, eu precisava apagar essa pichação mal-intencionada do quadro-negro.


Coloquei minha mochila no meu lugar, respirei fundo para reunir minha determinação e então irrompi pelo corredor entre as carteiras em direção ao fundo da sala. Mas, na metade do caminho, alguém esticou a perna para fora de debaixo da carteira e, sem tempo para reagir, tropecei nela e caí no chão de mãos e joelhos.


- Ai!


- Nossa, perdedor. Presta atenção onde pisa da próxima vez.


Ainda de quatro, me virei para olhar para quem havia me dirigido a palavra: uma garota de saia curta e cabelo loiro descolorido. Arisa Nishizono me olhava de cima com divertimento, apoiando os cotovelos na mesa e as bochechas nas mãos. É, diz a garota que me fez tropeçar, quase disse, mas parei assim que as palavras chegaram ao topo da garganta. Por que Nishizono se daria ao trabalho de me mirar? Será que ela estava tentando me impedir de apagar a pichação?


Espera aí. Voltei mentalmente ao que aconteceu dois dias antes — aquele encontro desconfortável no almoço em que Nishizono bateu de frente com Ushio. Ainda me lembrava daquele olhar odioso em seus olhos.


Levantei-me e a encarei.


- Espera aí — disse eu. — Aquela escrita no quadro-negro... Não me diga...


- Não te diga o quê? — disse Nishizono. — Você está tentando dizer que acha que fui eu? Porque não fui. Não faça acusações quando não tem um pingo de evidência.


- Ah, é? Então por que você me fez tropeçar agora?


- Só estava me alongando porque senti vontade. Você é quem não estava prestando atenção e tropeçou. Por que está tão sentido com isso?


Não acreditei por um segundo que seu timing tinha sido puramente coincidência. Eu sabia que ela tinha tentado me fazer tropeçar — mas ela estava certa de que eu não tinha provas. E enquanto eu ficava ali, incapaz de fazer uma réplica decente, os lábios de Nishizono se curvaram em um sorrisinho torto. Como se tivesse acabado de ter uma ideia verdadeiramente diabólica.


- Espera. Vocês dois estão, tipo, pegando agora?


- Hã, o quê?


- Você andou para casa com a Ushio da escola ontem, não foi? E anteontem... Qual é, não precisa esconder. Você tem um crushzinho nele, não tem?


Uma risadinha surgiu de algum lugar da sala. As vozes sussurrantes rangiam nos meus tímpanos. Todo o sangue do meu corpo subiu para minha cabeça.


- Cala a boca! Claro que não! — gritei, mais alto do que esperava.


Por um instante, o rosto de Nishizono ficou rígido. Então ela imediatamente voltou a me encarar com olhos penetrantes. Enquanto ambos permanecíamos ali, nos encarando, meu olhar foi atraído por algum movimento perto da porta da sala. Com o foco quebrado, virei-me para olhar — e vi que era Ushio. Há quanto tempo ela está parada ali? E mais importante, ela ouviu tudo aquilo?


Ela caminhou até o pódio do professor, pegou o apagador de quadro-negro e limpou os insultos rabiscados em giz. Deixando Nishizono para trás, corri para o fundo da sala também. Mas Ushio continuou esfregando, recusando-se a sequer olhar na minha direção. Ela estava tremendo um pouco, e sua palidez era preocupante.


- Aqui, Ushio — disse eu. — Deixa eu ajudar.


- ...Tudo bem.


- Hã?


- Você não precisa ajudar. E não fale mais comigo.


Fiquei sem palavras. Arrassado. De todas as coisas que eu poderia esperar sair da boca dela, essa certamente não era uma delas. E assim, incapaz de ajudar, mas envergonhado demais para voltar ao meu lugar com a cabeça baixa, apenas fiquei ali no pódio, esperando Ushio terminar de apagar a pichação. Quando todo o quadro-negro ficou limpo, ela jogou o apagador de lado como se fosse lixo e voltou ao seu lugar. Finalmente, o sinal tocou, e a professora Iyo entrou na sala. Ela olhou para mim, parado ali no pódio, e franziu a testa com perplexidade.


- Aconteceu alguma coisa?


Nem um único aluno — nem eu nem Ushio — contou à professora sobre as palavras cruéis que tinham sido escritas no quadro-negro naquela manhã. Mas eu não conseguia parar de pensar no que tinha acontecido. Mesmo depois que a aula começou, eu não conseguia absorver nenhuma parte da lição. As palavras apenas deslizavam pela superfície do meu cérebro, sem nunca se fixarem na memória. Todos os meus recursos mentais estavam sendo canalizados para decifrar a intenção por trás do que Ushio tinha dito.


Agora que eu tivera uma chance de recuperar um pouco a compostura, sentia que pelo menos tinha uma ideia do porquê dela ter me dito para não falar mais com ela. Provavelmente não era porque ela realmente me achava insuportável. Na verdade, era mais provável que ela estivesse tentando olhar por mim, e estava tentando colocar uma distância entre nós dois para que eu não fosse pego no fogo cruzado da ira de Nishizono também. Ushio não me odiava de verdade nem nada parecido, então eu não precisava levar suas palavras ao pé da letra. Tentei com todas as minhas forças me convencer de que era só isso.


- Cara, a Ushio ficou de fora da educação física de novo hoje.


- Será que eu também seria dispensado se começasse a usar um uniforme feminino?


- Talvez valha a pena tentar, sinceramente.


- Tô brincando, cara. Não seria visto morto com uma roupa daquelas.


- Pergunta séria: você namoraria alguém assim?


- Ah, nem ferrando, cara. De jeito nenhum.


- É, também não. Ainda é um cara por baixo, mesmo que ele até que se passe...


Como um relógio, toda vez que havia um intervalo entre as aulas, eu tinha a garantia de ouvir pelo menos uma conversa ofensiva às custas de Ushio. Eu esperava que elas diminuíssem um pouco depois do primeiro dia, mas se dependesse de mim, parecia que estavam até aumentando de frequência hoje. Talvez a escrita no quadro-negro esta manhã tivesse colocado na cabeça de todos que era perfeitamente aceitável zoar ela, e que não haveria consequências nenhumas. No entanto, mesmo hoje, Hoshihara ainda fez questão de convidar Ushio para almoçar juntas. Ela era realmente bem mais madura que o resto de nós.


Sempre que a via se aproximar de Ushio, eu não conseguia evitar sentir um pouco de culpa — e era quase o suficiente para me frustrar a ponto de tentar fazer algo parecido. Mas quando eu pensava nas palavras de Ushio naquela manhã, eu murchava diante da ideia de ser rejeitado ou de ouvir novamente que era para deixá-la em paz.


Eu não podia continuar assim.


...Vou falar algo depois da aula, pensei comigo mesmo. Assim que as aulas terminassem, eu a convidaria para ir para casa juntos de novo. Tudo o que eu queria era esquecer a pichação desta manhã e ter uma conversa agradável e descontraída com ela no caminho de volta. Eu estava quase certo de que era isso que Ushio secretamente queria também.


Essa certeza logo estouraria como um balão. No momento em que o sinal final tocou, Ushio saiu correndo da sala de aula mais rápido do que qualquer um. Eu tinha uma suspeita de que ela estava tentando garantir que eu não tivesse a chance de falar com ela. Ainda assim, a segui, imaginando se talvez ela estivesse apenas planejando me esperar lá embaixo, na entrada principal, como tinha feito no dia anterior — mas até essa pequena fagulha de esperança foi destruída, pois ela já tinha ido embora quando cheguei lá, e seus sapatos de interior já estavam no seu cubículo.


- Cara, por que ela tá fugindo? — resmunguei.


Será que ela realmente tinha passado a me detestar da noite para o dia? O pensamento me encheu de uma confusa mistura de raiva e pavor. Como ela podia me tratar assim logo depois que eu saí da minha zona de conforto para confiar a ela aquele meu romance horrorosamente constrangedor? Parecia uma mudança de tom bastante insensível, para ser honesto.


Que seja. Vou só ir para casa sozinho. Mas justo quando eu ia trocar de volta para meus sapatos de rua, Hoshihara veio correndo pelo corredor atrás de mim.


- E-espera, cadê a Ushio-chan? — ela perguntou. Achei um tanto interessante que ela já estivesse usando Ushio-chan consistentemente, mesmo quando Ushio não estava por perto.


- Já foi — disse eu, balançando a cabeça. — Não consegui alcançá-la a tempo.


- Ah, nossa... Droga. — O rosto de Hoshihara caiu. Eu tinha que admitir, ao ver como ela parecia genuinamente abatida por tê-la perdido, não pude evitar que aquela velha inveja de Ushio erguesse sua cabeça feia.


- Vamos deixar ela quieta. Ela provavelmente não está com vontade de falar com ninguém agora.


- É, você provavelmente tem razão...


Hoshihara arrastou os pés até os cubículos de sapatos, parecendo mais abatida que um filhote de cachorro molhado. Ela trocou os sapatos de interior pelos seus mocassins e bateu cada calcanhar no chão algumas vezes para ajustar os tornozelos. Então ela olhou para mim.


- Você não vai embora ainda? — perguntou.


- Hã? — eu disse, momentaneamente confuso. — Ah, não, uh... Vou sim. Um instante.


Troquei os sapatos e segui Hoshihara até o estacionamento de bicicletas. Depois de pegar nossas respectivas bicicletas, as empurramos pelo guidão para fora do campus.


O sol quente batia na pequena estrada pelos campos de arroz. Nós três tínhamos pegado essa estrada para casa juntos ontem, mas hoje Hoshihara e eu a percorremos sozinhos. Não pude evitar imaginar se ela só tinha se contentado em ir para casa comigo para não parecer rude por me deixar para trás. Era difícil para mim saber o que se passava pela cabeça dela naquele momento, o que diminuía a empolgação do que de outra forma teria sido um cenário de sonho. Na verdade, parecia extremamente constrangedor. Hoshihara só ficava olhando para o chão sem dizer uma palavra. Por um longo tempo, apenas o suave clique das nossas correntes de bicicleta girando preenchia o silêncio entre nós.


Eventualmente, comecei a sentir um mal-estar no estômago.


- Escuta, hum... — comecei, incapaz de suportar o silêncio por mais um momento. — Não se preocupe com a Ushio. Tenho certeza de que não é que ela não queria ir para casa conosco nem nada. Acho que todo mundo só precisa de um tempo sozinho de vez em quando. E ela teve uma manhã bem difícil hoje, então não a culpo. Mas ela vai ficar bem — nós três podemos ir para casa juntos amanhã de novo, eu prometo.


Hoshihara assentiu fracamente. Foi a resposta mínima possível.


- Então, ei — como você acha que foi naquele teste do outro dia? — perguntei, recusando-me a desistir. — Aquele que fizemos em Japonês Moderno, quero dizer. Eu, sinceramente, estou me sentindo bem confiante. Parece que quando você lê livros por prazer suficientes, suas habilidades linguísticas naturalmente melhoram, sabe o que quero dizer...?


Ela nem sequer me reconheceu com um aceno desta vez.


Cara, que que há? Por favor, só diga alguma coisa logo... Ou será que eu fiz alguma besteira? Talvez quando ela disse: "Você não vai embora ainda?" ela estava apenas perguntando educadamente se eu estava ficando por algum motivo, e não oferecendo ir para casa juntos. Será que interpretei errado? Ah, droga. Ótimo, agora estou ficando todo autoconsciente... Cara, este tem que ser o caminho de casa mais longo de todos os tempos. Além disso, por que estamos andando? Por que não estamos pedalando? Deveríamos estar. Mas é tarde demais para eu sugerir isso agora — ela vai pensar que estou dizendo que quero ir embora e acabar logo com isso. Por outro lado, isso é tecnicamente a verdade.


Enquanto eu estava quebrando a cabeça para encontrar algum tópico de conversa possível para quebrar o silêncio, ouvi um pequeno som de fungada ao meu lado. Olhei e fiz um duplo take. Hoshihara estava chorando.


- Uau! Ei, uh... O-o-que foi? Você está bem? — perguntei, gaguejando.


- Desculpa... — ela disse, enxugando as lágrimas. — Eu estava só pensando naquilo de novo.


- Você quer dizer... aquela escrita no quadro-negro?


Ela assentiu. — Quando entrei na sala e vi tudo aquilo escrito, sabia que deveria apagar — mas não consegui criar coragem, então não fiz nada... Só fiquei parada olhando. Aposto que a Ushio-chan está chateada comigo... Ela provavelmente deseja que eu tivesse defendido ela e apagado, mas é boa demais para dizer alguma coisa.


- Quer dizer... isso é possível, eu acho. Mas eu diria que você está fazendo um bom trabalho sendo amiga dela no geral. Quer dizer, você sempre se esforça para ser atenciosa com ela e almoçar com ela e tal...


- Eu diria que, no começo, eu estava fazendo aquelas coisas para ser atenciosa com ela, sim. Mas agora é um pouco diferente.


- Ahn?


- Bem, desde que eu recusei o convite da Arisa para almoçar ontem, ela nem fala mais comigo... Eu provavelmente acabaria almoçando completamente sozinha se não comesse com a Ushio. Nesse sentido, agora também estou passando um tempo com ela por mim mesma.


Eu não tinha percebido que a Hoshihara também estava sendo rejeitada pelos outros — talvez por estar preocupado demais pensando na Ushio. Não que eu não tivesse sentido um clima geral de confronto e discórdia entre a Hoshihara e a Nishizono desde ontem, mas não achei que ela estivesse sendo ativamente ignorada. Aquilo devia ser uma sensação horrível.


- Bem... Eu ainda acho que você merece crédito por ficar do lado da Ushio e defendê-la. A maioria das pessoas não arriscaria a própria reputação pelo bem de outra pessoa. Tenho certeza de que a Ushio vê isso.


- Não sei não...


- Confie em mim, você está falando com o cara que costumava ser o melhor amigo dela. Eu garanto que ela valoriza muito isso — eu disse, abrindo um sorriso convencido para ela. Isso, finalmente, conseguiu arrancar o mais leve dos sorrisos da Hoshihara.


- ...Obrigada. Você é muito fofo, Kamiki.


- Que nada. Eu não sou nada comparado a você.


- Caramba, por acaso é o Dia de Elogiar a Natsuki?! Você vai me fazer ficar vermelha, ha ha!


Ela começou a abanar o rosto com uma das mãos, e consegui ver as pontas bem vermelhas das suas orelhas por entre as mechas de cabelo que balançavam. Quase soltei um suspiro nostálgico de alívio; cheguei a ficar meio enjoado de tanto constrangimento por um minuto, mas agora estávamos nos dando bem. Eu quase quis me agarrar àquela oportunidade e levá-la até a sua conclusão lógica.


A Hoshihara parou de repente, então eu parei também. Olhei bem nos olhos dela.


- O que houve? — perguntei, tentando decifrar sua expressão. O rosto dela estava corado enquanto se voltava para mim, parecendo querer me fazer algum tipo de apelo.


- Bem... Kamiki? Posso falar com você sobre uma coisa? — ela perguntou.


- C-claro, o que é? — Pude sentir meu coração vacilar no peito. Por algum motivo, tive aquela sensação de aperto de novo.


- Tudo bem, mas eu só quero começar dizendo que, bem... Eu gostaria que você guardasse isso só entre nós dois.


- S-sim, claro. Sem problemas.


A saliva se acumulou na minha boca. Nervoso, engoli em seco, bem no momento em que uma brisa forte soprou do leste. As folhas verdes das plantações de arroz recém-plantadas balançavam preguiçosamente em seus canteiros alagados. Quando o vento diminuiu, a Hoshihara respirou fundo e disse:


- Eu costumava ter uma queda muito grande pelo Ushio.


Meu pressentimento estava totalmente certo. De repente, foi como se eu pudesse sentir minha consciência despencando em um abismo sem fim, deixando meu corpo parado ali, vazio na calçada. A realidade ficava cada vez mais distante a cada segundo, enquanto minha mente caía mais e mais fundo. Preparei-me para que ela se despedaçasse em um milhão de pedaços — mas não se despedaçou. Pouco antes de cair totalmente no desespero, recuperei o equilíbrio em um fiapo de esperança.


- Você... costumava? — arrisquei dizer.


- Sim, por muito tempo. Basicamente até o dia em que ela anunciou a transição... M-m-mas tenho quase certeza de que esses sentimentos eram unilaterais.


O rosto dela agora estava vermelho como um pimentão enquanto baixava o olhar. Eu quase conseguia ver fumaça saindo da cabeça dela.


- E quanto a agora?


- Agora, eu... não tenho certeza — disse ela.


- Não tem certeza? Não tem certeza, significando... o quê, exatamente?


- Ahhh... Droga, como é que eu explico isso...?


Os olhos dela desviavam para a esquerda e para a direita enquanto lutava para encontrar as palavras. E quando finalmente abriu a boca para falar, ela cambaleou, como se tivesse sido atingida por uma tontura repentina.


- E-ei, você está bem? — perguntei.


- Desculpa, é que... está calor demais hoje...


Olhando mais de perto, pude ver que a pele dela estava coberta por uma fina camada de suor. Algumas mechas da sua franja grudavam na testa. Provavelmente era só o fato de estar ali parada sob o sol quente sem nenhuma sombra por tanto tempo que a fez se sentir tonta — embora o assunto também não devesse estar ajudando.


- Vamos procurar um lugar para nos refrescarmos — eu disse.


- Tudo bem...


Subi na minha bicicleta, e a Hoshihara fez o mesmo, sem muita energia.

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"Sentimentos unilaterais, é...?"


Disforcei um suspiro e comecei a pedalar.


Se andássemos de bicicleta por cerca de quinze minutos, conseguiríamos chegar ao centro comercial nos arredores da estação — praticamente o único lugar na cidade onde havia muitas lanchonetes e restaurantes de fast-food para escolher. Mas dado o estado atual da Hoshihara, eu queria tirá-la do sol o mais rápido possível, então, em vez disso, fomos para a área de compras do centro, que era consideravelmente mais perto. Depois de passar por uma fachada fechada atrás da outra, todas sofrendo uma perda severa de clientes devido à abertura do shopping center AEON nas proximidades, deparamo-nos com um café aconchegante.


O sino da porta tocou quando entramos, e pegamos uma mesa pequena no canto mais afastado. Sentamo-nos de frente um para o outro e pedimos bebidas. O rosto da Hoshihara ainda estava bem vermelho, mas o suor tinha diminuído. Eventualmente, uma simpática senhora idosa com a postura encurvada trouxe meu café gelado e o suco de laranja da Hoshihara. Ela bebeu metade do copo de um gole só, depois soltou um suspiro alto de satisfação.


- Sentindo-se um pouco melhor agora? — perguntei, e ela sorriu se desculpando.


- Ah, sim... Desculpa por aquilo. Fiquei um pouco tonta.


- Tudo bem. De qualquer forma, sobre o que você estava dizendo antes...


- Ah, sim. Acho que vou te contar a história toda.


Coloquei um pouco de leite e calda de açúcar no meu café gelado, depois mexi a bebida com o canudo. Balancei a cabeça para indicar que estava pronto e ouvindo.


- Tudo bem — ela começou. — Só para constar, vou chamá-lo de Ushio e me referir a ele como um menino ao falar dos meus sentimentos pela pessoa que eu conhecia naquela época, mas sim... Como eu estava te dizendo antes, eu tinha uma quedinha pelo Ushio... Palavra-chave "tinha". Mas quer dizer, ele sempre foi muito popular com todas as garotas da escola, então eu sabia que não tinha muita chance, estatisticamente falando. Eu tentei ao máximo esquecer ele.


O gelo no meu copo estalou e tilintou.


- Então, quando o Ushio — ou a Ushio, melhor dizendo — anunciou que planejava viver a vida como uma garota de agora em diante, acho que fiquei... meio aliviada, sabe? Tipo, que bom, agora eu tenho a desculpa perfeita para deixar esses sentimentos para lá. Mas aí, quando comecei a conversar mais e mais com ela, eu simplesmente... não sei, meio que senti como se... Ai, isso é muito difícil de dizer.


Tomei um gole do meu café gelado.


- Acho que só sinto uma vontade enorme de, tipo... dar um abraço bem apertado nela.


O café desceu pelo caminho errado na minha garganta, e eu engasguei. Peguei desesperadamente um guardanapo e o bati contra a boca enquanto quase tossia os pulmões para fora.


- V-você está bem?!


Tossi mais algumas vezes e tentei limpar a garganta.


- Cof, cof! Então, err... Você está dizendo que ainda sente algo por ela? — perguntei.


- Hum, não sei quanto a isso...


- Bem, quando você diz que quer abraçá-la, você quer dizer no mesmo sentido em que iria querer abraçar um cara de quem gosta? Ou, tipo, como uma das suas amigas?


- Olha, eu não sei, tá bom?! É por isso que estou tentando pedir o seu conselho aqui!


Eu tinha que admitir, não era nada legal levar bronca da garota de quem você gosta quando já estava sendo forçado a ouvi-la falar sobre seus sentimentos não correspondidos por outra pessoa. Ainda assim, era difícil dizer não para a Hoshihara, então cruzei os braços e fiz o meu melhor para refletir sobre aquele enigma dela da forma mais sincera que pude.


Ela disse que queria abraçar a Ushio. Significava que aquele era um desejo ativo que sentia. Mas que emoções ou situações levariam alguém a querer abraçar outra pessoa? Puramente por desejo carnal? Não, não podia ser isso — não no caso da Hoshihara, de qualquer forma. Ou assim eu queria acreditar. Mas que outros motivos existiriam? Querer acarinhar algo inocente e precioso, como um bebê ou um animal pequeno e indefeso? O que isso poderia implicar?


- Tudo bem, isso é apenas uma hipótese — eu disse -, mas acho possível que o que você está sentindo seja um instinto maternal, ou algum desejo natural semelhante de protegê-la.


- Instinto maternal...?


- Isso. No sentido de que você sente pena da Ushio e da forma como ela está sendo tratada, e tudo o que quer fazer é mantê-la a salvo do resto do mundo.


- E isso... é diferente de amor, você acha?


- Ai. Essa é uma pergunta difícil.


Minha inclinação egoísta era dizer que sim, que era puramente o produto da sua natureza empática nata e, portanto, não tinha nada a ver com amor romântico. Se isso fosse verdade, significaria que ela não tinha mais sentimentos pela Ushio, e eu não precisaria me preocupar em disputar o afeto dela. Mas a culpa que senti ao pensar em dizer isso puramente para o meu próprio benefício me forçou a balançar a cabeça e dar de ombros.


- Acho que você é a única que pode responder a isso.


- Hum... — Ela ficou olhando para a mesa por um tempo, perdida em pensamentos. — Tudo bem. Acho que vou pensar mais um pouco sobre isso, então.


- Parece um bom plano. Nada de bom vem de apressar as coisas só para encontrar uma resolução um pouco mais rápido, eu diria.


Aquele foi um conselho bastante profundo, se é que eu mesmo podia dizer. Eu ainda tinha cerca de um terço do meu café gelado, no entanto, então achei melhor sondar um pouco mais fundo os sentimentos dela pela Ushio.


- Então, o que fez você se apaixonar pelo Ushio para começo de conversa?