- Atenção, pessoal — disse a professora Iyo. — Temos um assunto muito importante para conversar.


Quase que no mesmo instante, o barulho e a agitação habituais das manhãs na sala de aula cessaram. A professora Iyo era uma jovem educadora de temperamento aberto — estava sempre sorrindo e era muito querida por todos por tratar os alunos como amigos, e não apenas como um bando de crianças bagunceiras que ela tinha a obrigação de babar. Então, ver uma professora como ela entrar na sala para a chamada com uma expressão séria e anunciar algo "importante" foi mais do que suficiente para fazer todo mundo calar a boca e prestar atenção.


Tentei imaginar o que poderia ser. Havia uma sobriedade em seu rosto que me dizia que ela não estava prestes a contar que ia se casar, que seria transferida para outra escola ou que outra bituca de cigarro tinha sido encontrada no banheiro masculino. Então, como uma epifania, um pensamento brotou na minha mente — uma única e remota possibilidade que parecia se encaixar perfeitamente com aquela expressão. Uma parte de mim torcia para que eu estivesse certo, enquanto outra quase preferia estar completamente enganada.


- Certo — disse ela, virando-se para a porta da sala. — Pode entrar.


A porta de correr abriu com um estalo, e uma nova estudante entrou na sala.


Atrás de mim, alguém segurou o fôlego. Eu conseguia notar que todos os meus colegas de classe estavam completamente estupefatos. Sendo sincero, eu também não consegui acreditar nos meus olhos a princípio — mas, por incrível que pareça, aos poucos fui aceitando a realidade.


"Pelo visto, não vamos fingir que nada aconteceu, afinal de contas."


Voltando dez dias no tempo.


Era meados de junho. A primavera já tinha ficado para trás há muito tempo, mas o verdadeiro calor do verão só agora começava a dar as suas caras. Saí pela porta da frente no horário de costume e já conseguia sentir o ar abafado do meio da manhã grudar na minha pele enquanto subia na bicicleta e dava as pedaladas iniciais para começar o meu trajeto. Presumi que a chuva da noite passada tivesse algo a ver com o aumento da umidade; o cheiro de poças remanescentes evaporando no asfalto preenchia o ar. Acima, os restos espalhados de nuvens cinzas-escuras, agora murchas e gastas, pontilhavam o céu azul como minúsculas partículas de poeira.


Depois de sair do meu bairro e passar pelas fileiras de prédios de apartamentos idênticos, surgiram hectares e hectares de terras cultivadas. As plantações de arroz submersas balançavam com a brisa suave, suas longas folhas acenando para mim enquanto eu corria pela única pista de asfalto que cortava direto os campos de arrozal. O cheiro forte de lama e pasto invadiu minhas narinas, carregado por cada sopro de vento que roçava meu rosto enquanto eu pedalava.


Tsubakioka era uma cidadezinha de interior esquecida por Deus e sem nenhuma fama. Suas estradas raramente cuidadas quase não recebiam outros motoristas além de idosos — que se identificavam pelo adesivo de trevo de quatro folhas em suas caminhonetes de tamanho reduzido -, e o jornal local raramente trazia outra coisa além de obituários. O centro da cidade, que já fora charmoso, estava fechado e decadente há tanto tempo que quase poderia ser considerado um sítio histórico abandonado. A única construção nova de relevância em anos tinha sido a sede de uma empresa de cuidadores de idosos em domicílio.


Enquanto eu me perguntava distraidamente quanto tempo levaria para não sobrar mais ninguém nesta cidade além de idosos, uma das caminhonetes mencionadas passou voando bem do meu lado e jogou uma quantidade impressionante de água lamacenta e ironia poética na minha direção. Eu me encolhi, mas sem acostamento para desviar, não pude fazer nada além de assistir impotente enquanto a lama respingava por toda a minha bicicleta e pela parte inferior do meu corpo. Em pânico, apertei os manetes de freio o mais rápido que pude.


Vrum!


Avaliei o estrago — toda a perna direita da minha calça estava encharcada da coxa para baixo. Felizmente, não parecia haver muita sujeira que pudesse manchar, mas não tinha como toda aquela água secar naturalmente até eu chegar à escola. Observei o motorista da caminhonete culpada se afastar em alta velocidade, como se fingisse não ter visto nada.


Soltei um suspiro contra a minha vontade — então, atrás de mim, ouvi o guincho dos freios e o som dos pneus raspando contra o asfalto.


Iiirrrr!


Virei-me para ver que outro estudante de bicicleta, usando o mesmo uniforme que o meu, havia parado para observar a minha desgraça. Era um dos meus colegas de classe, Hasumi; ele exibia uma expressão de aflição solidária no rosto enquanto olhava por baixo de sua franja crespa e desgrenhada.


- Cara... Kamiki — disse ele.


- O que foi? — respondi.


- Você está, tipo... ensopado, meu.


- É, obrigado. Eu percebi. Você fala isso como se não tivesse visto a coisa toda acontecer.


Eu me perguntava se ele estava agindo de forma tão incrédula só para me fazer sentir pior. De qualquer forma, eu realmente não estava a fim de entrar no colégio parecendo que tinha mijado nas calças de um jeito espetacular. Esperando ganhar um pouco de tempo extra para secar, optei por empurrar a bicicleta no resto do caminho até a escola. Alguns passos depois, Hasumi aparentemente decidiu fazer o mesmo, pois aproximou sua bicicleta para caminhar ao meu lado.


- Cara, que jeito bosta de começar o dia — disse ele. — Mas foi bem engraçado, preciso admitir.


- Não tem graça nenhuma. Troca de calça comigo se quiser rir. Caramba, eles realmente precisam correr e consertar esses buracos.


- Humpf, qual é. Você sabe que isso não vai acontecer. Tenho certeza de que não mexem nessas estradas desde que a gente estava no ensino fundamental. Eu não alimentaria esperanças se fosse você.


- É, eu sei... É o preço de morar na porra do interior, eu acho.


Não consegui evitar soltar um palavrão para extravasar; eu nunca gostei da minha cidade natal. Nem um pouco. Tsubakioka era o tipo mais sem graça de cidade rural que existia, e nem sequer conseguia se comprometer a ser isso direito. Claro, havia muita terra cultivada, mas também tinha um shopping center por perto, além de um distrito comercial bem decente perto da estação de trem local. De muitas maneiras, no entanto, esse ambiente rural feito pela metade era mais enfadonho do que crescer no meio do nada absoluto. Pelo menos assim, a inconveniência de estar longe da civilização seria compensada pelo ar limpo, paisagens bonitas e uma abundância de natureza da qual eu poderia me orgulhar de viver cercado. Mas Tsubakioka era apenas quilômetros e quilômetros de arrozais e fazendas — bem longe de ser a grande natureza selvagem. A qualidade do ar certamente não era boa, e ainda havia poluição luminosa demais até para aproveitar um céu cheio de estrelas à noite. Era apenas sombrio e monótono, o tipo de lugar que faz a pessoa se sentir azarada e inferior por ter nascido nele. E era por isso que eu pretendia deixar esta cidade para sempre assim que me formasse no ensino médio.


Bem no momento em que encerrei essa revisão mental das muitas queixas que guardava da minha cidade natal, chegamos ao fim da longa estrada entre os campos de arroz, e consegui ver o prédio escolar velho e cinzento logo à frente — a nossa própria Escola de Ensino Médio Tsubakioka.


Hasumi e eu entramos juntos pelo portão principal. Minha calça ainda parecia fria contra a minha pele, mas a umidade pelo menos tinha secado a ponto de não ser mais óbvia. Estava tão abafado dentro do prédio mal ventilado quanto do lado de fora — e a alta concentração de estudantes e o barulho resultante certamente não ajudavam. Praticamente todos eles já tinham mudado para os uniformes de verão de mangas curtas a essa altura.


Todos pareciam estar com um pouco de pressa, talvez porque o sinal para o período da chamada da manhã estava prestes a tocar. Eu precisava me apressar e ir para a sala também. Mas quando me dirigi aos armários de sapatos da Turma 2-A, avistei um garoto de cabelos claros bem conhecido e soltei um som audível de desgosto. Tomando cuidado para não ser notado por esse estudante em particular, estiquei a mão discretamente para pegar meus sapatos de usar dentro da escola — apenas para assistir impotente, em desespero, enquanto ambos escorregavam das minhas mãos e caíam barulhentamente no chão. O garoto olhou instantaneamente na minha direção, e nossos olhos se cruzaram.


Plact!


- Bom dia, Sakuma — disse ele, sua voz rouca ecoando nos meus ouvidos enquanto me cumprimentava com um sorriso tão legal e revigorante que era capaz de dissipar até mesmo essa umidade sufocante.


Este era Ushio Tsukinoki, um estudante meio japonês e meio russo considerado um dos garotos mais bonitos da escola (embora mais no estilo de um garoto bonito e delicado do que no estilo de um galã musculoso). Ele com certeza tinha a aparência necessária para ser modelo ou ator, se não tivesse tido o azar de nascer em uma cidadezinha de interior como esta. Além de tudo, ele era o atleta estrela da equipe de atletismo da escola, bom o suficiente para competir em torneios regionais maiores, e um estudante excepcional para completar. Sob todos os aspectos, ele era a própria imagem de um estudante de ensino médio ideal — e talvez o mais impressionante de tudo, nenhuma dessas coisas parecia fazê-lo ser convencido. Ele era um garoto humilde e de boa índole, amigável com todo mundo.


Pessoalmente, eu não gostava muito de ficar perto dele.


- A-ah, oi — eu disse. — Bom dia.


- Espera aí. Sua calça parece um pouco molhada... Você levou um tombo feio no caminho para cá ou algo assim?


- Não, eu só fui atingido pelos respingos de algum motorista idiota de caminhonete passando por uma poça...


- Ah, nossa. Isso é bem chato. Por que você não troca pela sua calça de educação física, então? Você vai pegar um resfriado se não tirar isso.


- Obrigado, mas eu vou ficar bem. Vai secar logo.


- Tem certeza? Bem, se você está dizendo.


Por cima do ombro de Ushio, consegui ver uma garota no meio do corredor acenando na nossa direção geral. Com seu cabelo loiro oxigenado preso em duas longas chiquinhas e sua saia curta o bastante para irritar alguns membros da diretoria, ela com certeza se destacava na multidão.


- O que você está fazendo, Ushio?! Anda logo — a gente vai se atrasar! — gritou ela. Esta era Arisa Nishizono, uma garota bastante chamativa que aparentemente achava que o código de vestimenta da escola era mera sugestão, a julgar pelo quão pouco ela o seguia. Eu também não gostava muito de ficar perto dela, embora por razões totalmente diferentes.


- Certo, já estou indo! — Ushio gritou de volta, e então se virou para mim. — Bem, Sakuma... Acho que a gente se fala mais tarde, então.


Ele correu pelo corredor em direção a Arisa, e os dois seguiram para se juntar a alguns outros estudantes que aparentemente também estavam esperando por Ushio. Observei em silêncio por um momento enquanto todos riam e batiam um papo descontraído a caminho da aula.


- Então, ei — Kamiki — disse uma voz atrás de mim. Assustado, virei-me rapidamente para ver que era apenas Hasumi, que tinha acabado de terminar de calçar seus sapatos internos. — Corrija-me se eu estiver errado, cara, mas você e o Tsukinoki não se conhecem desde, tipo... muito tempo atrás?


- Quero dizer, sim... Nós éramos bem próximos antigamente. O que tem isso?


- Ah, nada não. Só achei maneiro ver que vocês ainda são tão bons amigos, só isso. Quer dizer, vocês são tipo dois gêneros totalmente diferentes de pessoa agora, sabe?


- Gêneros? Que porra isso deveria significar? E a gente não é mais tão próximo assim, para sua informação... Sendo sincero, eu meio que não suporto ficar perto dele.


- É mesmo? Por que isso?


- Não é nada contra ele, eu só... sei lá. É que toda vez que falo com ele, me sinto um baita perdedor em comparação...


- Caramba. Isso aí é um belo de um complexo que você tem, meu caro. Eu daria uma olhada nisso se fosse você — a menos que queira ser um solitário pelo resto da vida, é claro.


- Ah, cala a boca. Você também não é nenhuma borboleta social.


- Não, mas eu tenho mais amigos que você, pelo menos.


Urgh. Ele estava certo sobre isso. Eu sabia que Hasumi tinha um número decente de amigos no clube de tênis de mesa da escola (que, eu presumia, eram os garotos de outras turmas com quem eu frequentemente o via almoçando). Eu, por outro lado, não estava envolvido em nenhuma atividade extracurricular, então não tinha argumentos para dar uma resposta afiada.


- Bem, não que eu não entenda o seu lado, para ser justo — acrescentou Hasumi, jogando gentilmente um osso para a minha dignidade. — Quer dizer, eu provavelmente me sentiria um perdedor também se fosse comparado ao Tsukinoki o tempo todo. Aquele cara é tão talentoso que sinto que ele deve ser de outro planeta ou algo assim.


- Não é? — eu disse. — É, vai por mim... se você tivesse sido amigo dele a vida inteira, garanto que seria mais solidário com o meu sofrimento.


Com nossos sapatos internos calçados, Hasumi e eu fomos para a Sala 2-A.


- Muito bem, pessoal! Vamos todos nos sentar agora.


Com isso, a professora Iyo assumiu seu lugar no púlpito sobre a plataforma elevada, e o período da chamada da manhã começou. Como sempre, ela vestia uma calça social feminina elegante, uma camisa de botões bem alinhada sem um único amassado à vista e seu longo cabelo preto preso atrás. Ela era a própria imagem do profissionalismo — e seus dentes perfeitos e sorriso radiante só serviam para completar o conjunto.


- Certo, temos alguns avisos de rotina para começar o dia. Em primeiro lugar, parece que houve um aumento nítido no número de alunos visitando a enfermaria devido a problemas estomacais. A umidade nesta época do ano pode ser parcialmente culpada, já que faz a comida estragar mais rápido, então aqueles de vocês que trazem o próprio almoço devem ficar extra vigilantes. Felizmente, assim como muitos de vocês, eu compro meu almoço na cantina da escola, então não preciso me preocupar com isso. Ah, mas não porque eu tenha preguiça de fazer meu próprio almoço em casa, vejam bem! Eu só...


Enquanto eu deixava as palavras da professora Iyo entrarem por um ouvido e saírem pelo outro, lancei um olhar de soslaio para Ushio, que estava sentado ereto e ouvindo atentamente o joguinho de conversa da nossa professora — ao contrário da maior parte da classe (eu inclusive), que estava curvada e presente apenas em corpo. Olhando para ele agora, destacando-se dos demais com sua postura elegante, ele realmente transmitia um estranho ar de superioridade — quase como se fosse de um planeta totalmente diferente, como Hasumi havia dito.


Observando-o agora, era difícil acreditar que tínhamos sido tão bons amigos até o ensino fundamental. Melhores amigos, poder-se-ia dizer. Nós saíamos praticamente todo dia, passávamos a noite na casa um do outro e tudo mais. Na época, eu naturalmente presumia que seríamos amigos para a vida toda.


Mas as coisas não saíram dessa forma.


Depois que entramos no ensino fundamental dois, comecei a evitar Ushio ativamente. Ele era o atleta estrela sempre popular e bonitão. E então havia eu: apenas um garoto tímido, de aparência comum e sem nenhuma habilidade real de que se orgulhar. Quanto mais velhos ficávamos, mais a disparidade em nossos respectivos talentos — ou a falta deles — ficava clara. Consequentemente, comecei a me sentir envergonhado pelo simples fato de ser visto perto dele. Essa não foi a única razão pela qual comecei a evitar Ushio, no entanto. Isso só começou de verdade após um incidente específico durante o nosso segundo ano do ensino fundamental dois.


Havia uma garota de quem eu gostava na época, alguém de quem eu tinha ficado bem próximo, na verdade. Ela estava sempre vindo conversar comigo entre as aulas, e nós até caminhávamos juntos para casa depois da escola às vezes. Depois de um tempo, me senti bastante confiante de que ela gostava de mim também, então engoli o choro e confessei meus sentimentos a ela.


- Sinto muito... Você é muito fofo, mas o Tsukinoki é quem eu... eu...


Ela nem precisou terminar a frase. Eu soube bem ali e naquele momento o que ela estava tentando dizer — e por que tinha feito um esforço para se aproximar de mim em primeiro lugar. Dizem que o amor pode deixar uma pessoa cega e, embora eu sempre achasse que isso era apenas um daqueles mantras superficiais e antiquados que os mais velhos adoravam ditar para a geração mais jovem para parecerem mais sábios e experientes, certamente foi verdade neste caso. Se eu tivesse sido mais racional, teria percebido muito, muito antes pelo jeito como ela estava sempre perguntando sobre quais programas de TV o Ushio gostava de assistir, quais videogames ele já tinha, e coisas do tipo. Depois de chegar em casa naquela noite, não consegui fazer nada além de me afundar na minha própria miséria; aquela tinha sido a primeira vez na minha vida que eu tentei convidar alguém para sair, então o choque e a decepção da rejeição doeram ainda mais.


Daquele dia em diante, não apenas eu (obviamente) nunca mais falei com aquela garota, mas também me vi tendo uma dificuldade enorme para conversar com o Ushio — ou até mesmo para olhá-lo nos olhos. Claro, eu sabia que ele não tinha feito nada de errado. A garota também não tinha a intenção de me machucar, mesmo que tivesse segundas intenções. O único que realmente tinha me traído era eu mesmo — ao me iludir pensando que tinha uma chance -, e isso era o que mais doía. Sem nenhum outro culpado para culpar, tudo o que pude fazer foi cair cada vez mais fundo em um poço espiral de auto-aversão. Comecei a recusar o Ushio toda santa vez que ele me convidava para sair, ou para fazer dupla na aula de educação física, ou para fazer trabalhos em grupo. Não demorou muito depois disso para ele começar a passar muito mais tempo com seus amigos mais barulhentos e extrovertidos, enquanto eu me tornei aquele garoto que ficava sentado em um canto da sala de aula lendo livros o tempo todo.


Como não havia muitas escolas de ensino médio na nossa região, não foi surpresa que acabamos nos candidatando e passando para a mesma. Mesmo assim, nada mudou de verdade. Ele ainda era o garoto mais popular da sala, enquanto eu era apenas um figurante — Aluno Aleatório Número Um. Isso me servia perfeitamente, no entanto; pelo menos agora eu sabia como ficar na minha.


Um detalhe meio aleatório, mas ouvi dizer que a garota que me rejeitou acabou convidando o Ushio para sair apenas alguns dias depois, apenas para levar um fora imediato ela mesma. Essa revelação cutucou um pouco a ferida, mas logo deixei de me importar. Ela e eu nunca mais trocamos uma única palavra após o dia em que a convidei para sair, então eu não tinha ideia do que ela estava fazendo agora ou mesmo para qual escola de ensino médio ela estava indo, para falar a verdade.


- ...e é por isso que você definitivamente nunca vai querer pegar uma infecção alimentar por causa de frango, se puder evitar... Espera aí. Acabei de perceber — a Natsuki não está aqui conosco hoje?


Essa interrupção repentina no falatório da professora Iyo me trouxe de volta aos meus sentidos. Desviei meu olhar de Ushio para a carteira de Hoshihara, apenas para descobrir que ela estava de fato desocupada. No momento em que a professora Iyo se perguntava em voz alta se talvez ela estivesse apenas atrasada, a porta da sala de aula se abriu de par em par, e mais uma estudante entrou correndo.


- Ufa! Cheguei bem a tempo!


Seu cabelo levemente cacheado balançou suavemente com a mudança de impulso enquanto ela parava bruscamente. Esta era a suposta ausente, uma tal de Natsuki Hoshihara, e parecia que ela tinha corrido o caminho todo até aqui, a julgar por sua respiração pesada.


Depois de recuperar o fôlego por um momento, ela se virou para a professora Iyo e ofereceu um sorrisinho sem graça.


- Bom dia, professora Iyo! — disse ela.


- Sim, bom dia — respondeu a professora Iyo. — Que bom que pôde se juntar a nós. Quase tive que te dar uma advertência por atraso. Você dormiu demais ou algo assim?


- É, então, a parada é que eu na verdade tirei um cochilo no trem e acabei perdendo a minha estação... Foi uma surpresa bem divertida de se acordar, deixa eu te falar.


- "Divertida" provavelmente não é a palavra que eu usaria para descrever isso. Vamos lá, Natsuki. Você precisa ser um pouco mais cuidadosa do que isso.


- Pode deixar, desculpa!


Com isso, Hoshihara marchou até a mesa dela enquanto os nossos colegas de classe davam risadinhas ao fundo. Assim como Ushio, ela era uma das garotas mais populares da sala. Enquanto ele era mais do tipo líder nato, sempre puxando o resto da turma para segui-lo, ela funcionava mais como o alívio cômico amado por todos, de quem a galera sempre ria e zoava de vez em quando. Ela era meio avoada, é verdade, mas uma fofa do mesmo jeito. Tinha um milhão de amigos e um dom natural para arrancar sorrisos das pessoas. Para um completo excluído social como eu, no entanto, era como se ela existisse em um universo totalmente diferente. Na verdade, até onde eu conseguia me lembrar, nós dois nunca tínhamos trocado nem sequer um simples "bom dia".


Mal Hoshihara chegou ao seu assento, a professora Iyo percebeu que o sinal estava prestes a tocar e se desdobrou para encerrar a nossa aula de orientação matinal o mais rápido possível.


Com o primeiro período do dia encerrado, tínhamos apenas alguns minutos para chegar à sala de ciências antes do início da aula de química do segundo período. Ao meu redor, meus colegas de classe juntavam seus livros didáticos e materiais de escrita, levantando-se de suas mesas um por um. Bem quando eu começava a me preparar para sair também, não pude deixar de ouvir uma conversa de um grupo de cinco ou seis estudantes tagarelas que estavam bem no meio da sala.


- Ah, puta que pariu. Esqueci meu livro em casa de novo — disse a garota no centro do grupo. Com certeza era Nishizono e ela estava, como de costume, mais do que feliz em deixar seu descontentamento bem claro.


Enquanto ela estalava a língua com irritação, Hoshihara ofereceu uma solução com um sorriso nervoso.


- S-bem, nós estamos no mesmo grupo, então você pode ler pelo meu!


- Sério? Ahhh, valeu, Natsuki! Você salvou a minha vida!


Hoshihara coçou a bochecha envergonhada, caminhou até a mesa dela, abaixou-se e deu uma olhada lá dentro. Ela esticou o braço e puxou seus livros um por um, mas nenhum deles era o livro de química que eu presumia que ela estivesse procurando. Por fim, ela levantou a cabeça e soltou uma risadinha sem graça.


- Er, desculpa... Parece que eu esqueci o meu também... Rá, rá, rá.


- Sua idiota — disse Nishizono, revirando os olhos. Por uma vez na vida, não consegui conter um sorriso diante do deboche dela; o timing cômico tinha sido perfeito demais.


- Caramba, parece que temos duas cabeças de vento com a gente hoje — brincou um dos garotos do grupo, jogando lenha na fogueira de propósito. — Cara, essa foi boa demais.


- Com licença, como é que é? — Nishizono rebateu com um olhar fulminante. — Não estou vendo onde está a graça aqui.


- É-é verdade, você tem razão. M-mal aí — o garoto disse, recuando instantaneamente diante do tom afiado dela. Eu não podia culpá-lo por dar para trás. A personalidade desnecessariamente hostil dela era um dos principais motivos pelos quais eu sempre tentava manter distância.


Ela não era grandona nem alta como um valentão comum — na verdade, era um pouco mais baixa até que Hoshihara -, mas do ponto de vista da intimidade, era facilmente a pessoa mais assustadora da sala. Enquanto eu olhava ao redor para ver como o resto dos meus colegas de classe se encolhia em suas mesas para não atrair a fúria dela, Ushio — que estava assistindo a tudo em silêncio ao fundo — entrou em ação.


- Beleza, que tal o seguinte: vocês duas podem ler pelo meu hoje — disse ele. — A gente vai ter que mudar as carteiras de lugar um pouquinho, mas isso não deve ser problema, né?


As duas garotas abriram um grande sorriso com a sugestão.


- Esse é o nosso Ushio! Sabia que podia contar com você! — disse Nishizono.


- Nossa, valeu, Ushio! — disse Hoshihara.


- É, é. Só tentem não esquecer de novo, beleza? — Ushio provocou, e as duas garotas responderam em coro um "Tudo beeem" (embora o tom não passasse muita firmeza).


Assistindo àquela pequena interação acontecer, senti um desconforto estranho crescer no meu peito, e me levantei da cadeira na tentativa de espantar aquela sensação. Peguei meu estojo, enfiei ele e meu livro de química debaixo do braço e saí prontamente da sala. "Se ao menos eu pudesse ser como eles", pensei comigo mesmo, enquanto uma onda melancólica de inveja arrepiava meu peito. Quando olhava para Ushio, sempre cercado de amigos e bajulado pelas garotas, e depois olhava para mim, indo sozinho para a sala de ciências feito um solitário, eu não conseguia deixar de me perguntar quando essa disparidade entre ele e eu tinha começado, apesar de termos sido tão bons amigos quando éramos crianças. Talvez fosse alguma incapacidade inata ou uma falha da minha parte em não conseguir acompanhar o ritmo. Sabia que era inútil ficar analisando as coisas em retrospectiva daquele jeito, então tentei afastar esse fluxo negativo de pensamentos.


Naquele exato momento, um estudante saiu correndo da porta de uma sala de aula pela qual eu estava passando e trombou bem no meu ombro. Antes que eu pudesse sequer dizer "Opa", meu estojo de alumínio escorregou de debaixo do meu braço e espalhou todo o seu conteúdo pelo chão do corredor com um barulho metálico alto e estridente.


- Opa, mal aí! — disse o causador do atropelamento antes de disparar corredor abaixo, deixando-me de joelhos para recolher todas as minhas canetas, réguas e tudo mais sozinho.


- Não pede desculpa se não vai ajudar... — resmunguei baixinho. Eu poderia até ter dito isso na cara dele, mas o sujeito já estava longe àquela altura.


Aquilo era o cúmulo da humilhação: eu ali, de mãos e joelhos no chão, juntando material escolar como se fossem moedas perdidas, enquanto todo mundo no corredor esticava o pescoço para fofocar a caminho da próxima aula. Cada risada que eu ouvia ecoando pelo corredor parecia direcionada a mim, e meu rosto ferveu de raiva.


"Que merda. Isso é um saco." Estiquei o braço para pegar uma borracha que tinha rolado a alguns passos de distância na minha frente, mas outra pessoa a pegou antes que eu conseguisse alcançar. Levantei a cabeça para ver quem tinha sido mais rápido: Ushio, parado bem ali em cima de mim, com seu próprio estojo e o livro de química debaixo do braço direito.


- Aqui, eu ajudo — disse ele.


- O-obrigado, te devo uma — respondi.


Ushio abaixou-se na minha frente e começou a recolher algumas das minhas canetas fujonas. Olhei de relance para ele e vi uma expressão totalmente descompromissada em seu rosto — como se aquilo fosse a coisa mais normal do mundo para ele, nem um pouco embaraçosa. Ele provavelmente continuaria pleno e centrado mesmo se tivesse sido ele a derrubar o estojo por todo o chão. Ele era simplesmente um cara legal a esse ponto — tanto que eu honestamente me sentia mal por fazê-lo perder tempo comigo.


- Você não devia ir atrás da Nishizono e da Hoshihara? — perguntei, incapaz de suportar o silêncio desconfortável.


- Hum? Como assim? — ele respondeu.


- Quero dizer, você acabou de oferecer para sentar e dividir o seu livro com elas, não foi?


- Ah, sim. Não, é que a Arisa está no plantão do dia hoje, então ela tem que esperar todo mundo sair para trancar a sala. A Natsuki ficou lá esperando com ela também.


- Ah... Entendi...


- Aqui está.


Ushio me entregou a borracha e as canetas que tinha ajudado a recolher, e eu as guardei de volta no meu estojo, agradecido. Tudo parecia estar de volta no lugar.


- Valeu pela ajuda. Agradeço mesmo — eu disse, girando prontamente nos calcanhares para ir embora. Mas não dei nem dois passos antes de Ushio me chamar.


- Ei, e-espera aí! — disse ele. — Nós estamos indo para o mesmo lugar, sabe... Você não precisa andar até lá totalmente sozinho.


Aquela era uma observação justa. Mesmo que eu me sentisse um pouco sem jeito andando lado a lado pelo corredor com o Ushio, eu me sentiria mal em recusar o convite depois de ele ter feito de tudo para me ajudar em uma situação tão vergonhosa.


- Bom ponto — eu disse. — Beleza, vamos lá.


Ushio assentiu com entusiasmo, e nós dois seguimos em direção à sala de ciências. Não pude deixar de me sentir um pouco tenso o caminho todo, mas felizmente consegui levar o papo furado inevitável de forma bem tranquila (principalmente porque Ushio falava o tempo todo, então não exigia de mim nada além das respostas mais simples possíveis).


- Mas é sério, acho que a Misao começou a entrar na fase da adolescência rebelde um pouco — disse ele enquanto subíamos as escadas. — Parece que ela anda bem mais temperamental ultimamente.


Misao era a irmã mais nova de Ushio. Ela estaria no último ano do ensino fundamental dois agora, se bem me lembrava. Em minhas lembranças, ela sempre tinha sido uma garotinha educada — bem delicada, de pele bem clara. Ela jogava e brincava muito com o Ushio e comigo quando éramos mais novos, mas eu não a via já fazia um bom tempo. Eu estava me perguntando como ela estaria ultimamente e esperava que estivesse bem.


- Fica sempre gritando comigo para eu andar logo e tomar banho para ela poder... Sakuma? Você está ouvindo?


Opa. Acho que acabei me perdendo nos meus pensamentos por um segundo ali.


- Er, sim, desculpa. Você estava falando da Misao. É, eu não consigo imaginar ela como uma adolescente rebelde de jeito nenhum, para ser bem sincero.


- Sério? Bom, acho que ela se comporta muito bem perto dos outros. Mas é sério, não — quando estamos em casa, ela com certeza não hesita em bater de frente e falar as verdades na sua cara.


- Caramba. Eu nunca imaginaria.


- Quer ir lá em casa dar um oi um dia desses? Você é sempre bem-vindo.


- Hã?! — Olhei espantado para Ushio enquanto continuávamos caminhando, mas ele não parecia estar brincando. — Ah, não, não, que isso... Tudo bem. Quero dizer, ela provavelmente está ocupada estudando para os exames de admissão do ensino médio, né? Não quero atrapalhar.


- Tenho certeza de que ela não se importaria nem um pouco.


- V-você acha...?


Eu estava realmente lutando para entender como reagir àquele convite em particular. Eu não estava acostumado a ser convidado para a casa das pessoas hoje em dia, mas talvez para alguém com tantos amigos quanto o Ushio, esses convites casuais fossem algo natural.


- Bom, e eu tenho quase certeza de que esta escola é a primeira opção dela de qualquer forma, então você provavelmente vai acabar vendo ela pelo campus ano que vem, querendo ou não — acrescentou ele.


- É, pois é... Tomara que ela passe.


- Com certeza — Ushio disse, assentindo com a cabeça.


Nós já estávamos quase chegando à sala de ciências; não dava nem três minutos de caminhada a partir da nossa sala de aula, mas hoje o trajeto pareceu bem mais longo do que o normal. Bem quando estávamos a um pulo da porta, dois garotos da nossa turma — ambos membros do que eu consideraria a "galera descolada" — surgiram no corredor, e um deles olhou na nossa direção.


- Opa, e aí — chamou ele. — Olha você aí, Ushio. Bora, a gente está indo lá na máquina de vendas.


Conforme os dois garotos se aproximavam, Ushio parou onde estava para esperá-los. Dei mais alguns passos e depois olhei para trás, por cima do ombro.


- Beleza. A gente se fala mais tarde então — eu disse, e Ushio franziu a testa.


- Espera, por que você não vem também?


- Não, que isso, tudo bem. Eu me sentiria meio deslocado colando com esses caras, sem ofensa.


- Mas...


- É sério, está de boa. Não esquenta com isso.


Acenei me despedindo de Ushio antes que ele pudesse falar mais alguma coisa e rumei em direção à sala de ciências em um ritmo acelerado. Na metade do corredor, passei pelos dois garotos que tinham chamado o Ushio, mas nenhum deles se virou para me olhar. Era como se apenas o Ushio existisse na percepção deles — como se eu nem estivesse ali. Embora isso definitivamente não ajudasse em nada o meu complexo de inferioridade, no fim das contas não me incomodou tanto assim. Além do mais, era o melhor a se fazer; Ushio provavelmente não queria ser visto andando com um fracassado como eu, então, se pensasse bem, eu estava fazendo um favor a ele.


As aulas do dia tinham terminado. O relógio marcava 16h quando o nosso professor de matemática cruzou a porta, e imediatamente várias vozes ecoaram pela sala de aula — alguns lamentando o fato de terem que ficar mais duas horas para as atividades dos clubes, outros animados procurando saber se alguém estava a fim de ir ao karaokê hoje à noite. E então tinha eu. Eu não tinha planos nem responsabilidades para o resto do dia, então tudo o que precisava fazer era juntar minhas coisas e ir para casa. Conforme saía da sala e descia pelo corredor, passei por vários grupos de estudantes, todos vestidos com uniformes esportivos ou agasalhos de treino.


O Colégio Tsubakioka era considerado uma das escolas mais competitivas da nossa região no que dizia respeito a equipes esportivas. Era mais conhecido por seu time de atletismo altamente consagrado, mas as equipes de beisebol e vôlei também não ficavam atrás. Todo ano eles se saíam muito bem na etapa regional. Dito isso, eu nunca tive muito interesse em me envolver em nenhuma atividade extracurricular. Eu fiz parte do time de tênis no ensino fundamental por um tempo, mas odiava de verdade a hierarquia interna da equipe e a competitividade inerente daquilo tudo, então caí fora depois do meu primeiro ano. Essa experiência azedou tanto o meu interesse por atividades extracurriculares que mesmo agora, no meu segundo ano do ensino médio, eu ainda não tinha dado uma chance a nenhum outro clube ou equipe esportiva.


Desci as escadas e fui em direção à entrada principal da escola, onde encontrei todos os outros alunos sem clube se reunindo para ir embora. Assim que troquei de calçado para os meus sapatos de rua, fui até o bicicletário para pegar a minha magrela. Fiquei frustrado ao notar que o sol forte de verão ainda não tinha começado a dar trégua, apesar de já ser quatro da tarde.


Caminhei pelo perímetro do prédio até o bicicletário, montei na bike e comecei a pedalar preguiçosamente para fora do campus. Passando pelo portão principal, joguei uma marcha mais pesada e cortei caminho através daquela brisa abafada e morna. Pedalei pela cidade até que o sinal vermelho em um cruzamento de quatro vias me forçou a parar. Olhei ao redor distraidamente enquanto esperava o semáforo abrir.


Enquanto observava um bando de morcegos com cara de impacientes circulando sobre os campos de arroz, tive um estalo repentino — e senti meu estômago afundar. Apalpei o bolso direito, depois o esquerdo, mas ambos estavam vazios. Eu tinha deixado meu celular na minha mesa, lá na escola.


- Ah, cara... Maravilha, era só o que me faltava...


Desabei contra o guidão, derrotado. Eu já tinha me afastado um bocado do campus também. Hoje realmente não era o meu dia de sorte (mesmo que eu só pudesse culpar a minha própria negligência desta vez). Mas não tinha jeito; eu teria que voltar. Era sexta-feira, então não haveria aula amanhã, e eu realmente não queria ficar sem celular até segunda-feira. Só me restava engolir o choro e dar meia-volta com a bicicleta.


Caminhei sozinho pelo corredor vazio. Estava um pouco escuro nessa parte da escola a essa hora do dia, já que bem menos luz natural alcançava essa distância vinda das janelas externas. Já estava quase dando cinco horas, então eu provavelmente era a única pessoa restante no terreno da escola que não estava envolvida em atividades extracurriculares. Os corredores estavam silenciosos; se eu prestasse bem atenção, conseguia ouvir o time de futebol gritando uns com os outros e o time de kendo soltando seus gritos de treino rotineiros — mas até essas vozes altas pareciam abafadas e distantes, como se tivessem sido filtradas por uma membrana grossa e isolante antes de chegarem aos meus ouvidos.


Subi a escadaria e segui pelo corredor até a Sala 2-A. A porta ainda estava entreaberta, e o sol que entrava pelas janelas da sala se projetava para fora, formando uma sombra retangular de luz no chão do corredor. Protegendo meus olhos daquele brilho intenso, entrei na sala e fui direto para a minha mesa.


Antes que eu pudesse chegar lá, percebi que não era, de fato, o único ali dentro. Havia uma garota sentada em uma carteira perto da janela — ninguém menos que Natsuki Hoshihara, apoiando a cabeça contra a parede e olhando para fora com uma expressão vazia, quase melancólica no rosto. Com a cabeça inclinada, dava para ver a parte de trás do seu pescoço exposta, enquanto seus cachos com permanente caíam desleixadamente para o lado. A luz brilhava através do seu cabelo, fazendo-o praticamente cintilar sob o sol do final da tarde. Não pude deixar de ficar impressionado com a visão inesperada daquela garota sempre tão animada parecendo tão pensativa e sombria; era algo quase inimaginável para mim. Mas eu não teria muito tempo para contemplar, pois logo ela notou a minha presença (embora um pouco tarde).


- U-UAAAAARGH?!


Ela deu um salto de vários centímetros na cadeira e soltou um grito agudo. Foi uma reação tão exagerada que eu acabei soltando um grito de susto também.


- D-desculpa! — exclamei, correndo para me explicar. — Não queria te assustar! Eu só não tinha percebido que você estava aqui dentro, e aí quando eu notei, achei que seria meio estranho falar alguma coisa, e... É. Mal aí.


- Ufa, você me deu um baita susto... — disse ela, soltando um suspiro de alívio. — Eu literalmente nem tinha percebido que tinha mais alguém aqui. Caramba, é... Que belo efeito sonoro eu acabei de fazer agora há pouco, não foi? Rá, rá, rá...


Ela não parecia brava, felizmente. Se tanto, parecia um pouco envergonhada.


- Então, o que te traz por aqui, Kamiki? — perguntou ela.


Isso me pegou um pouco de surpresa; eu certamente não esperava que ela lembrasse do meu nome.


- Esqueci meu celular. Só voltei para pegar, só isso.


- Ahhh, entendi. É, não dá para passar o fim de semana sem ele.


Assenti concordando e depois fui até a minha mesa — assento do meio, na fileira do fundo. Enfiei a mão lá dentro e meus dedos tocaram em algo duro e retangular — não era o celular que eu estava procurando, mas sim um romance que eu estava lendo. Decidi que o levaria para casa também para terminar de ler no fim de semana e o coloquei em cima da mesa. Vendo isso, Hoshihara se levantou e caminhou na minha direção.


- Que livro é esse? — perguntou ela.


Mais uma leve surpresa — eu não esperava que ela tivesse qualquer interesse em livros -, mas retirei a capa protetora de papel que tinha colocado nele e mostrei a capa de qualquer forma.


- Ah, sim... — eu disse. — É uma série bem popular, na verdade. Já está sendo publicada faz um tempo. É...


- Ah, olha só! Do Homem e da Lua! Que bom gosto!


Bom, caramba. Essa era a terceira surpresa seguida. Eu não esperava de jeito nenhum que ela já conhecesse a obra. Do Homem e da Lua era uma série popular de romances de fantasia, e eu estava atualmente lendo o terceiro livro. Ambientada em um mundo alternativo, era a história de um garoto e uma garota de reinos rivais que naufragam juntos em uma ilha deserta e precisam aprender a deixar de lado suas diferenças para sobreviver, aproximando-se lentamente ao longo da série. Embora fosse repleta de lore e construção de mundo complexas, a leitura era incrivelmente fluida, e eu tinha o hábito de comprar cada volume novo assim que era lançado.


- Eu também ando lendo esses livros — disse Hoshihara. — São muito bons, né?


- É, com certeza. Nossa, eu nunca imaginaria você como uma leitora, Hoshihara.


- Ei! Você está dizendo que me acha burra ou algo do tipo?!


Foi só depois que ela fez um bico com os lábios e colocou o rosto bem perto do meu que percebi que tinha dito algo potencialmente bem ofensivo. Em pânico, apressei-me em pedir desculpas — embora, para ser bem sincero, fosse a proximidade repentina dela que estava me fazendo suar mais do que qualquer outra coisa.


- M-mal aí, eu não quis dizer isso como um julgamento da sua inteligência nem nada do tipo. Só que não parece o tipo de coisa em que uma garota como você estaria interessada... Quer dizer, er...!


Merda. Algo me dizia que eu só estava piorando as coisas agora. E dito e feito, Hoshihara se inclinou ainda mais perto e me encarou de baixo para cima. Enquanto sentia um suor frio escorrer pelo meu pescoço, tentei desesperadamente bolar alguma explicação possível que pudesse me desenterrar daquela cova que eu mesmo tinha cavado, mas então...


- Bom, você não está errado, eu acho — disse ela, afastando-se. — Eu sei que provavelmente não tenho a cara de uma leitora comum — e eu nem me chamaria de uma, para falar a verdade. Quero dizer, eu leio um monte de mangás, mas é só isso... Enfim, é que no ensino fundamental eu escrevi uma resenha de livro sobre Do Homem e da Lua, na verdade. Só escolhi aleatoriamente porque era uma das opções disponíveis. Não estava nem um pouco interessada quando peguei o livro pela primeira vez, mas acabei amando de verdade, por incrível que pareça... É, tipo, a única série de livros que eu tento acompanhar.


Aham. Isso faz sentido... Eu acho. Era uma baita coincidência, então, o fato de eu estar lendo justamente uma das poucas séries de romances de que ela se considerava fã. Ao mesmo tempo, se ela gostava tanto daqueles livros, eu não conseguia deixar de sentir que ela estava perdendo muita coisa por não expandir seus horizontes além de uma única série.


- Por que você não tenta ler alguns outros livros, então? — perguntei.


- Hã? — disse ela.


- O autor tem outro romance que é muito bom também, sabe? Se chama O Sonho da Equidna — é outro que meio que usa a guerra como tema central, só que é um volume único, uma história fechada, ao contrário de Do Homem e da Lua. Tem uma pegada mais voltada para a ficção científica em vez de fantasia pura, então não tenho certeza se faz o seu estilo, mas é por aí. Também tem alguns trechos meio filosóficos que eu acho que foram escritos de um jeito bem legal e fácil de digerir, além de umas pitadas de humor negro aqui e ali que ajudam bastante a quebrar o clima pesado. Então não é de forma alguma uma leitura arrastada ou estressante, é mais como...


A essa altura, percebi que estava tagarelando a mil por hora, o que me deixou extremamente sem graça. Dei um puxão de orelha mental em mim mesmo por ter me empolgado tanto; com certeza aquilo devia estar parecendo só um papo furado de um nerd insuportável para ela.


Mas ela quebrou as minhas expectativas mais uma vez: seus olhos brilharam, faiscando de curiosidade.


- Caramba, Kamiki! Você daria um ótimo... tipo, crítico de livros ou algo assim!


- V-você acha...? — gaguejei, aliviado por saber que não tinha parecido um esquisitão. Pelo contrário, ela parecia bem interessada.


- Sim! Quero dizer, eu também estava querendo ler mais. Só que tem tanta coisa por aí para escolher, sabe...? Ah, olha só! Tive uma ideia!


Hoshihara puxou seu celular de abrir do bolso e o abriu com um estalo.


- Aqui, vamos trocar contato! Assim você pode me passar outras recomendações de livros que tiver!


Nossa. Eu nem conseguia me lembrar da última vez que tinha trocado contato com alguém. Provavelmente dava para contar em uma só mão o número de vezes que tinham me pedido isso em toda a minha vida no ensino médio.


- T-tudo bem, claro. Pode ser — eu disse, tentando ao máximo disfarçar o meu nervosismo, para não revelar o quanto aquilo era algo raro de acontecer comigo. Enfiei a mão na mesa de novo e, desta vez, achei o que queria de primeira. Puxei meu celular, abri, fui clicando até o menu de contatos e...


- Errr... Como é que faz aquela parada de transferência de dados por infravermelho mesmo? — perguntei.


- O quê, você não sabe?


- É que eu esqueci, só isso. Eu realmente não costumo passar o meu número para as pessoas com frequência, desculpa.


- Nossa, sério? Mas então... como é que você faz amigos?


Acredite em mim, eu adoraria saber. Eu me faço essa pergunta todos os dias.


- Rá, rá. É, sei lá, na verdade... — eu disse, rindo para disfarçar. — Acho que eu só não tenho tantos amigos assim para começo de conversa, rá, rá...


Foi só depois que essas palavras saíram da minha boca que percebi que provavelmente não deveria ter dito isso. Chamar a mim mesmo de fracassado daquela forma indireta fazia parecer que eu estava mendigando um tapinha nas costas, o que sem dúvida colocava a Hoshihara em uma situação meio desconfortável por ser alguém que mal me conhecia. No entanto, ela só soltou um "hum" rápido e sem compromisso e esticou a mão para pegar o meu celular.


- Aqui, deixa eu ver rapidinho.


- É-é, tá bom — eu disse, entregando o aparelho. Hoshihara começou a clicar e digitar com toda aquela agilidade nos polegares que se espera de uma garota popular do ensino médio.


- Prontinho, tudo certo!


Ela me devolveu o celular e eu olhei para a tela, vendo que um novo item tinha sido adicionado à minha lista de contatos minguada:


Natsuki Hoshihara


Estava escrito ali com uma fonte simples e sem detalhes, como qualquer outro nome da lista, mas havia algo naquela combinação específica de letras que a fazia quase brilhar na tela. Quando levantei os olhos de novo, vi a dona daquele nome sorrindo para mim com uma expressão doce e totalmente desarmada.


- Parece que você acabou de ganhar mais uma amiga! Parabéns, Kamiki!


Hoshihara bateu palminhas de leve duas vezes para comemorar a ocasião.


- É... S-sim, o-obrigado — eu disse, gaguejando todo sem jeito. Fosse por timidez generalizada ou pura vergonha, senti minhas bochechas queimarem e uma sensação calorosa e confusa brotar no meu peito. Desviei o olhar na esperança de que ela não percebesse o meu embaraço, mas felizmente ela não notou ou foi educada demais para comentar. Em vez disso, ela caminhou de volta para a própria mesa e pegou a mochila. Então, passando os braços pelas alças enquanto ia em direção à porta, ela se virou mais uma vez para se despedir.


- Beleza, acho que vou indo para casa então — disse ela. — Até mais.


- É, até mais... — respondi, repetindo as palavras dela sem nem pensar.


A sala de aula ficou silenciosa mais uma vez. Mesmo muito tempo depois de Hoshihara ter ido embora, aquela sensação estranha e calorosa no meu peito se recusava a passar. Na verdade, eu conseguia sentir meu pulso acelerar ainda mais, até que, por fim, meu coração estava batendo tão forte e rápido que eu quase conseguia ouvi-lo. Não conseguia tirar o sorriso da Hoshihara da cabeça; todas as palavras que tínhamos trocado continuavam passando e repassando na minha mente em looping. Conforme caía a ficha de que ela e eu realmente tínhamos encontrado algo em comum, e de que o número dela estava agora são e salvo no meu celular, a temperatura do meu corpo continuava a subir. Eu poderia falar com ela de novo a hora que quisesse — e esse pensamento enviou um arrepio paralisante de pura euforia correndo por todo o meu corpo, da ponta dos pés à cabeça. Minha mente estava girando com pensamentos, e cada um deles era sobre ela. Me deu uma vontade louca de gritar o mais alto que pudesse, sem motivo nenhum.


Meu Deus.


Apertei o peito em vão, esperando que isso pudesse acalmar meu coração disparado. Aquela era uma sensação que eu conhecia; já tinha sentido antes, mesmo que apenas uma vez. Em outro canto do prédio, a banda de música da escola começou a tocar — uma melodia de orquestra imponente que parecia o começo de uma grande aventura. Do lado de fora, dava para ouvir os gritos e incentivos do time de beisebol da escola chegando ao ápice, antes de silenciarem por um breve instante — e então veio o barulho característico do metal colidindo com a bola.


Eu tinha quase certeza de que tinha acabado de me apaixonar.


O caminho inteiro para casa pareceu que eu estava voando contra o vento — pedalando de pé o tempo todo, sem encostar no banco nem uma única vez. Assim que cheguei, fui direto para o meu quarto e praticamente mergulhei na cama. Meu coração ainda estava uma perfeita escola de samba. Puxei o celular do bolso e abri a agenda de contatos. Vendo o nome "Natsuki Hoshihara" encaixado ali entre os outros, senti um sorriso bobo surgir no meu rosto, e meu corpo inteiro estremeceu de euforia.


"Parabéns, Kamiki!"


A voz dela ainda ecoava nos meus ouvidos enquanto o seu sorriso radiante passava pela minha mente. Afundando a cabeça no travesseiro, soltei um gritinho e comecei a espernear alegremente contra o colchão, fazendo a estrutura da cama ranger alto. Nem isso adiantou para me acalmar e, sem outra válvula de escape para aquela empolgação contida, comecei a andar em círculos pelo quarto. Não demorou muito para que viessem batidas violentas na parede do cômodo ao lado.


- Dá para calar a boca e morrer logo?! — veio a voz irritada da minha irmã, Ayaka. Embora eu achasse um pouco pesado uma garota no segundo ano do ensino fundamental me desejar a morte só por causa de um barulho de nada, concordei que precisava me acalmar — então sentei na beira da cama e respirei fundo, uma vez atrás da outra, até que finalmente senti que tinha recuperado a postura.


Hoshihara... Natsuki Hoshihara. Uma garota alegre e cheia de energia com quem eu só dividia a mesma sala desde o início do segundo ano. Até hoje, eu só pensava nela como mais uma garota bonitinha e animada, mas agora que tinha finalmente conversado com ela cara a cara, vi que os meus preconceitos claramente não faziam justiça a quem ela era. Havia algo irresistivelmente encantador naqueles sorrisos bobos e sem jeito dela e nas suas reações exageradas. Como eu não tinha percebido o quanto tudo isso era atraente, considerando que estávamos na mesma sala há meses? Eu estava genuinamente ansioso para ir à escola. Quem diria.


Ah, espera aí. É verdade. Ficou combinado de eu mandar uma mensagem para ela com algumas recomendações de livros, não foi? Ela disse que não era muito de ler, então acho que devo tentar escolher coisas com menos páginas, caso ela não goste, ou...


Dei um soco na minha própria testa.


- Não... Calma, seu idiota — eu disse, esfregando a testa enquanto balançava a cabeça.


Ela só tinha me passado o contato dela. Por que eu estava me precipitando tanto? Claro, aquilo podia ser um grande evento para mim, mas eu era realmente burro a ponto de achar que era grande coisa para uma garota popular como ela? Eu não tinha aprendido nada com o que aconteceu da última vez, no ensino fundamental?


Claramente eu estava deixando meus sentimentos me cegarem diante da realidade da situação de novo — vendo apenas o que queria ver nela, e interpretando suas palavras e ações da forma que trouxesse o significado mais positivo para mim. Eu precisava começar a pensar de forma racional. Objetiva.


Quer dizer, pensa bem — ela era uma garota bonita, extremamente simpática e muito doce. Eu realmente achava que era o primeiro cara na escola inteira a notar isso? Com certeza havia um monte de outros caras de olho na Hoshihara. Não que eu já tivesse ouvido falar de algum drama de relacionamento envolvendo ela, mas com certeza não me surpreenderia descobrir que ela tinha namorado. Mesmo se não tivesse, era totalmente possível que ela já tivesse um racha por algum outro cara, exatamente como a garota por quem me apaixonei no ensino fundamental.


Eu já tinha esquecido as lições que aquela presepada me ensinou? Nunca confunda gentileza ou um sorriso doce com afeto; todo mundo sempre tem seus próprios interesses e objetivos — e, geralmente, a longo prazo, você não faz parte deles.


...Beleza. Podia sentir meu bom senso voltando ao lugar. Por enquanto, a melhor estratégia era jogar seguro — presumir que ela apenas tinha ficado empolgada pelo fato de eu estar lendo os livros favoritos dela, e que só tinha compartilhado o contato porque se deixou levar pelo momento. Sob hipótese alguma eu deveria interpretar aquele gesto como algo a mais — ou, Deus me livre, me empolgar e tentar chamá-la para sair. Jurei para mim mesmo, ali e naquele exato momento, que não cometeria o mesmo erro duas vezes.


Mas bem quando eu finalmente começava a recuperar a compostura, senti meu celular vibrar de onde eu o tinha deixado em cima da cama. Peguei o aparelho e o abri, descobrindo que tinha uma nova mensagem. Era da Hoshihara.


Ei, só queria avisar que passei na livraria e comprei aquele livro que você recomendou — O Sonho da Equidna! Pode ser que eu demore um pouco para terminar, porque sou meio devagar para ler, mas com certeza te falo o que achei quando terminar!


A mensagem veio acompanhada de uma foto de uma mão segurando a capa do tal livro, tirada no que parecia ser o quarto dela. Não dava para acreditar. Ela realmente tinha saído e comprado o livro no mesmíssimo dia em que eu o recomendei?! Aquele meu estado emocional de antes voltou com tudo, com força total. Já era, o controle foi para o espaço. Pulei de barriga de volta na cama e comecei a bater as pernas contra o colchão com ainda mais força.


Bem na hora, veio outra pancada na parede.


- Vê se morre!


Eu ainda achava aquilo um pouco de exagero.


Hoshihara e eu trocamos mais algumas mensagens depois disso, mas logo a conversa chegou a um fim natural. Fiquei impressionado com quanta energia mental era necessária só para redigir uma mensagem decente — e como era agonizante ter que esperar por uma resposta! Houve várias vezes em que, enquanto eu ficava contando cada minuto e cada segundo entre as réplicas, pensava em uma resposta mais inteligente ou em uma forma melhor de expressar as coisas, e me remoía por só ter pensado naquilo tarde demais. Mesmo assim, eu não podia reclamar; estava tão radiante que minhas mãos ainda tremiam de emoção muito tempo depois de enviar minha última resposta. A coisa estava tão feia que a Ayaka reparou nisso na hora do jantar, perguntando por que eu estava "sorrindo que nem um tarado". Mas ela sempre dizia coisas desse tipo sobre mim, então nem dei bola.


Embora já passasse das oito da noite, aquela onda de euforia ainda não tinha baixado. Me peguei inquieto, incapaz de ficar sentado ou de me acalmar. Por isso, preocupado em levar outra bronca da Ayaka se começasse a andar de um lado para o outro pela casa, decidi que seria melhor sair para caminhar. Avisei meus pais que ia dar uma voltinha, calcei os sapatos e saí para respirar um ar fresco.


A rua estava fresca e agradável àquela hora da noite, bem longe da umidade abafada da tarde. Uma brisa suave e constante soprava pelas ruas, e o som dos insetos de verão ecoava nos meus ouvidos. Comecei a andar — primeiro pelo meu bairro, depois ao longo da rodovia, antes de virar e caminhar até o grande rio, e finalmente descer pela margem elevada.


Lembrei-me de quando a várzea do rio era um lugar perfeito para ver vaga-lumes quando eu era mais novo — embora agora tivesse se transformado em um ponto perfeito para descarte ilegal de lixo. Grandes pedaços de móveis e eletrodomésticos velhos poluíam a beira do rio, e não havia nem sinal de vaga-lumes. E, no entanto, eu tinha que admitir que havia uma certa arte moderna nas bicicletas enferrujadas, nas antigas televisões de tubo quebradas e nos sofás tomados pelo mato — tudo deixado ali para apodrecer e se deteriorar sob as estrelas.


Olhei para o céu; era uma noite de lua quarto-crescente, embora brilhante o suficiente para que eu pudesse distinguir os contornos da metade escura também. As estrelas estavam lá, brilhando por trás de um véu fino de nuvens passageiras. Era uma noite bonita para uma caminhada — e a brisa fresca contra o meu rosto era o bastante para me dar vontade de apertar o passo naturalmente. Antes que eu percebesse, já estava terrivelmente longe de casa. Peguei meu celular para checar a hora e vi que já passava bem das nove.


"Está ficando tarde", pensei. "É melhor eu começar a voltar para casa."


- ...Hum?


Bem quando eu estava prestes a dar meia-volta, ouvi um barulho estranho vindo de algum lugar por perto. Parecia alguém soluçando, quase — uma sequência de respirações curtas e ofegantes com intervalos de silêncio consideravelmente mais longos entre elas.


Parei e olhei ao redor. Logo abaixo do barranco, do lado que voltava para a rodovia, havia uma pracinha. E nessa praça, avistei a silhueta de alguém sentado em um dos bancos. Estava de costas para mim e de cabeça baixa, então eu não conseguia ver seu rosto — embora pudesse notar, graças a um poste de luz próximo, que a pessoa vestia um uniforme escolar feminino padrão. Provavelmente uma garota da minha idade, então.


A essa altura, achei que já tinha uma boa ideia do que era aquele som. Ela devia estar passando por um momento bem difícil, senão por que estaria ali chorando sozinha em um banco no escuro? Ao mesmo tempo, aquela certamente não parecia o tipo de situação em que a ajuda de um passante aleatório como eu fosse necessária, muito menos desejada, e a última coisa que eu queria era fazê-la pensar que eu era algum tipo de sujeito suspeito oferecendo ajuda com segundas intenções. O melhor a fazer, pelo visto, era ignorá-la e voltar para casa... Mas por alguma razão, não consegui.


Olhando mais de perto, vi que o uniforme estilo marinheiro parecia ser o mesmo do Colégio Tsubakioka — a escola onde Ayaka estudava e também a minha antiga escola. Esse pensamento me fez sentir um estranho sentimento de afinidade por ela e, embora soubesse que não era meu dever como ex-aluno cuidar de cada estudante que veio depois de mim, de repente me vi curioso para saber qual era o problema e querendo ajudar.


Após mais alguns momentos de hesitação, desci o barranco e fui em direção à praça. Dei a volta pela entrada e finalmente consegui ver a garota de frente — embora ela ainda estivesse com o rosto escondido nas mãos, de modo que eu não conseguia decifrar sua expressão. Mas uma coisa me chamou a atenção imediatamente: o seu cabelo de cor vibrante.


Talvez fosse apenas a luz do poste da praça pregando peças em mim, mas quase parecia o tipo de loiro claro, naturalmente translúcido, que costuma indicar ascendência estrangeira. Assumindo que fosse esse o caso, então só poderia ser -


"Não. Isso nem faz sentido", pensei, rindo de mim mesmo.


Aos poucos, me aproximei mais um pouco. A cada passo, diminuía a distância entre mim e o banco, e aos poucos fui conseguindo ver melhor a garota — até que notei algo estranho em suas roupas. Estavam mal ajustadas, como se ela estivesse usando um uniforme vários tamanhos menor do que o dela. O tecido parecia extremamente esticado nos ombros, e a barra da blusa era tão curta que dava para ver a barriga do umbigo para baixo. E, por alguma razão, ela não estava usando sapatos e nem meias. Dava a entender que ela tinha caminhado até ali descalça.


Quanto mais perto eu chegava, mais meu coração disparava de novo, embora aquele não fosse o frio na barriga agradável que eu sentira antes. Era algo mais desconfortável — aquele tipo de sensação incômoda e ansiosa que a gente sente no início quando se depara com algo totalmente diferente de tudo o que já conheceu. Algo que você não consegue entender direito. E, no entanto, eu não podia simplesmente ir embora agora. Eu precisava ter certeza.


A cerca de dois, talvez três metros de distância do banco, a sola do meu sapato raspou alto contra o chão — e a pessoa sentada no banco ergueu a cabeça num sobressalto. Enquanto o movimento brusco fazia os conhecidos fios loiro-acinzentados voarem para os lados em um corte chanel e depois caírem de volta no lugar, percebi que não dava mais para fingir demência. Porque eu, sem sombra de dúvidas, sabia exatamente quem era aquela pessoa.


- ...Ushio?


Afinal de contas, nós já fomos melhores amigos.


Ushio tinha nascido com um cabelo loiro-platinado natural, que herdou de sua mãe russa — e era tão claro que chegava a ser quase transparente. Pelo que eu sabia, ele era a única pessoa em toda Tsubakioka com um cabelo daqueles. A mãe dele tinha falecido quando estávamos no ensino fundamental, e sua irmã mais nova, Misao, herdou o cabelo preto e grosso do pai. Obviamente, com a combinação certa de descolorante e tinta, imaginei que qualquer um poderia alcançar a cor de cabelo do Ushio artificialmente, então eu não quis tirar conclusões precipitadas de início — mas agora que eu tinha visto o seu rosto, podia dizer sem um pingo de dúvida que a pessoa sentada na minha frente era, de fato, meu velho amigo Ushio.


Ushio olhou para mim como um cervo paralisado pelo farol de um carro: assustado, mas incapaz de se mover ou de emitir um som. Ele apenas ficou ali tremendo, com sua pele já pálida agora parecendo branca como uma folha de papel. Dava para notar pelo vermelho inchado ao redor dos olhos que ele realmente esteve chorando as pitangas. Agora, suas íris cinza-arósia simplesmente me encaravam de volta, vacilantes em descrença.



Notas finais
Queria muito que está light novel fosse publicada no Brasil infelizmente acho que nao irá ser então fiz um tradução de fan com ia espero que tenha gostado deste inicio.