The Mimosa Confessions (Vol. 1 em Português)
6 Capítulo 6
- Hum... Fala sério.
- O que você quer dizer com isso?
- Nada, só acho meio interessante ver você levando essas coisas tão a sério e tudo mais.
- Eu sempre levo as coisas a sério.
- Hum... Fala sério.
- Beleza, para com isso. Você já está começando a me irritar. — Finquei meus palitinhos em uma das minhas almôndegas.
- Bom, não que isso realmente importe ou algo assim — disse Hasumi. — Mas eu espero que a Tsukinoki consiga se adaptar a essa nova identidade dela de boa e tal. Especialmente com tudo o que vai rolar no outono.
- Quero dizer, não, na verdade importa sim. Mas que tipo de coisas você quer dizer?
- Sabe, os eventos e tal. Tipo o festival cultural ou o festival esportivo.
- Ah, verdade — falei, enfiando a almôndega na boca.
Eles estavam chegando — e então, no inverno, teríamos a nossa viagem de campo da classe. Obviamente, o gênero não importava tanto para o festival cultural, mas com certeza havia eventos no horizonte que eram, pelo menos um pouco, segregados por gênero. Eu me perguntava como a Ushio (ou a coordenação) lidaria com essas situações; era definitivamente complicado.
Bem nessa hora, um estudante homem que eu não reconheci colocou a cabeça para dentro da sala de aula, depois deu um passo para dentro e fez uma varredura mais detalhada pelo ambiente. Ele era alto e esguio, e ostentava um sorriso vagamente convencido no rosto. Ele me pareceu o tipo de cara confiante, mas metido — atraente, e ele sabia disso. Ele tinha uma postura bem madura e descontraída... mas algo naquilo me parecia suspeito. Ele quase passava uma vibe parecida com a de um playboy universitário festeiro ou de um vendedor muito bem-sucedido.
- Quem é aquele cara? — sussurrei para Hasumi, inclinando-me mais perto. — Um veterano?
- O quê, você não sabe? — ele respondeu. — Aquele é o Sera da sala D. Sabe, o cara que se transferiu de Tóquio, lembra?
- Ah, é ele?
Itsuku Sera era um nova-iorquino da capital que havia se transferido para o Colégio Tsubakioka no início do ano letivo. Eu tinha ouvido boatos de que ele se envolveu em uma briga no dia da cerimônia de abertura, então não vinha frequentando muito a escola. Presumi, por causa dessas histórias, que ele seria algum tipo de baderneiro encrenqueiro, mas agora que o via pessoalmente, ele parecia um tipo de cara muito mais tranquilo.
- Aha! Olha ela ali — disse Sera, com os olhos arregalados ao fixar o olhar em um ponto específico. — Ei, você — a gata de cabelo prateado. Tenho um negócio que quero conversar com você. Pode vir comigo um minutinho?
Eu quase deixei cair meus palitinhos. Só havia uma estudante ali no Colégio Tsubakioka com o cabelo daquela cor, e era a Ushio. Será que ele estava chamando a Ushio de "gata" de propósito, ciente da nova identidade dela, ou tinha apenas tirado uma conclusão baseado puramente na aparência? Dado que este era um aluno transferido que (pelo visto) quase nunca vinha à escola, certamente havia a chance de ele nunca ter cruzado com a Ushio antes da transição. A maioria dos meus colegas de classe devia estar se perguntando a mesma coisa, considerando os sussurros animados que começaram a ecoar pela sala.
- Er... Odeio ser o estraga-prazeres, mas a Tsukinoki é um cara, meu chapa — disse um garoto rindo abafado, sentado perto da porta onde Sera estava.
- Espera. Quem é Tsukinoki? — perguntou Sera, olhando confuso para o outro garoto.
- A "gata" de cabelo prateado.
- ...Espera, sério? Aquilo é um homem?
- É.
Sera voltou o olhar para Ushio e a mediu de cima a baixo, incrédulo. Parecia que ele realmente não sabia do histórico dela. Ushio, por sua vez, apenas parecia irritada.
- Posso ajudar? — ela perguntou.
Sera olhou duas vezes, colocando uma mão na testa enquanto encarava o teto. Pelo visto, a voz rouca e marcante dela tinha lhe dito tudo o que ele precisava saber. Ele ficou assim por um tempo antes de, de repente, abaixar o olhar, encarando-a com firmeza, como se tivesse superado alguma barreira mental.
- Bom, tanto faz. Por mim tudo bem — disse ele.
"Como é que é? O que está 'tudo bem', exatamente?"
Sera marchou sala adentro, indo direto até a carteira da Ushio. Hoshihara — que estivera almoçando com a Ushio o tempo todo — observou desconfiada a aproximação dele.
- Errr, Tsukinoki, certo? — disse Sera. — E qual é o seu primeiro nome?
- ...Ushio.
- Beleza, beleza. Então, como eu estava dizendo, Ushio — tenho uma parada importante que quero te falar. Se importa de vir comigo um minutinho?
- Eu estou no meio do almoço agora. Pode esperar até mais tarde?
- Vai ser rapidinho, juro. Vai, por favor? — Sera juntou as mãos, como um pedinte pilantra.
Ushio soltou um suspiro pesado, garantiu a Hoshihara que voltaria logo, então se levantou de seu assento e seguiu Sera para fora da sala de aula. Eu me perguntava o que poderia ser esse "negócio" que ele precisava falar para ela, se era realmente tão importante a ponto de justificar interromper o horário de almoço dela. Talvez ele fosse um fotógrafo profissional e ela tivesse chamado a sua atenção, então ele queria convidá-la para ser modelo no seu próximo ensaio ou algo assim. Dado que o que quer que fosse não parecia depender de sexo ou gênero para ele, essa parecia uma opção viável, e fiquei impressionado comigo mesmo por ter pensado nisso.
Por um minuto ali, eu estava quase certo de que ele planejava chamá-la para sair, mas bastou cerca de dois segundos de reflexão para perceber que não podia ser isso de jeito nenhum. Simplesmente não era realista.
Eu estava completamente enganado.
- O quêeeee?!
Fiquei totalmente boquiaberto — assim como Hoshihara, que caminhava ao meu lado enquanto nós três voltávamos a pé para casa depois da escola naquele dia. Estávamos roendo as unhas a tarde toda para que a Ushio nos contasse o que Sera queria com ela, mas a Ushio simplesmente dizia "conto mais tarde" toda vez que perguntávamos. E só agora, no caminho para casa juntos, a Ushio finalmente soltou a bomba de que tinha recebido uma proposta — ou, para citá-la exatamente: — Então, o Sera me pediu em namoro. — Eu estava em choque.
"Espera um pouco... A Ushio recebeu um pedido para sair? Do Sera? O quê?!"
- V-Você quer dizer que ele te chamou para sair, tipo... para um encontro, especificamente? — pedi a confirmação, e Ushio acenou com a cabeça.
- É — ela respondeu. — Ele disse que quer namorar comigo.
Não havia margem para interpretações erradas, então.
"Espera, não. Ele não pode estar falando sério, pode? Assumindo que o Sera seja um cara hétero comum, então não teria como as intenções dele aqui serem puras e genuínas..." — pensei, mas logo percebi que não podia falar isso. Insinuar que nenhum cara jamais iria querer namorar a Ushio era o mesmo que negar completamente a identidade dela como mulher.
- E-E-E então, o-o que você disse? — Hoshihara perguntou, tentando e falhando em esconder o seu desconcerto.
- Eu disse que aceitaria — Ushio falou calmamente, e Hoshihara e eu nos olhamos de boca aberta, até que ela acrescentou: — Mas só com uma condição.
- E qual é? — Hoshihara e eu perguntamos em uníssono.
- Eu disse que não me importaria de sair com ele se ele conseguir ficar em primeiro lugar do nosso ano nos próximos exames de fim de semestre.
Primeiro lugar de todo o ano. Eu não sabia como era o desempenho acadêmico do Sera, então não sabia se aquilo era uma barreira alta ou baixa para alcançar. Mas o fato de ela não ter recusado de cara significava que a Ushio estava mantendo a opção de namorar o Sera aberta em sua mente, pelo menos até certo ponto.
- E... como você se sente sobre isso? — Hoshihara perguntou timidamente.
- Sobre o quê? — perguntou Ushio.
- Sabe... Sair com o Sera.
Ushio ponderou por um momento.
- Não tenho certeza, honestamente. Mas conseguir o primeiro lugar em todo o nosso ano não é uma tarefa fácil. Acho que só pensei que, se ele realmente se esforçar e estudar bastante para chegar lá, isso diria muito sobre o quão sério ele está falando comigo. Então, eu não me importaria de sair com ele, nesse caso.
- Entendi...
Hoshihara não parecia satisfeita com essa resposta — e eu com certeza conseguia me identificar. Ela provavelmente tinha sentimentos ainda mais conflitantes sobre isso do que eu, sendo alguém que também tinha uma quedinha pela própria Ushio.
- Você sequer sabe alguma coisa sobre ele, Ushio? — perguntei, percebendo que era possível que ela soubesse quem ele era, mesmo que ele obviamente soubesse muito pouco sobre ela.
- Não. Só que ele é o aluno novo transferido de Tóquio. Nunca tinha falado com ele antes, já que ele aparentemente não vem muito à escola. Ah, mas isso me lembra — nós na verdade trocamos olhares esta manhã antes das aulas. Não trocamos nenhuma palavra nem nada, mas de acordo com o Sera, foi aí que ele se apaixonou por mim.
- Então ele alega que foi amor à primeira vista, basicamente?
- Parece que sim.
- Hum.
Pensei sobre isso por um tempo. Aquele cara aparentemente tinha se apaixonado pela Ushio antes de trocarem uma única palavra — antes mesmo de ele saber o nome ou o histórico dela. E mesmo depois de descobrir mais, esses sentimentos não mudaram. De certa forma, eu tinha que admirar a sinceridade dele ali. Mesmo que ele parecesse bem fútil e superficial no geral, talvez ele realmente fosse uma pessoa genuína por dentro. Para a Ushio, ele poderia até ser o tipo perfeito de cara — alguém para quem o sexo biológico nem sequer entrava na equação. Nesse caso, talvez eu devesse até torcer por ele. Ele com certeza é mais maduro e adequado para sair com ela do que eu, isso é certeza. E provavelmente mais do que a Hoshihara, aliás.
Ainda assim, por alguma razão, algo não me cheirava bem naquela situação. Eu só não conseguia apontar o dedo exatamente para o quê. Depois de nos despedirmos da Hoshihara no cruzamento, a Ushio e eu continuamos andando mais um pouco antes de seguirmos caminhos diferentes. Subi na minha bicicleta e pedalei em direção a casa. No fim das contas, a Ushio parecia bem plena em relação a toda aquela história do Sera, enquanto a Hoshihara parecia tudo menos isso. Eu me encontrava em algum lugar no meio do caminho.
Quando eu estava a apenas uns cinco metros da minha porta, meu celular vibrou. Não era só uma mensagem de texto — era uma ligação. Pisquei no freio e tirei o aparelho do bolso; era a Hoshihara ligando. Fiquei me perguntando o que ela poderia querer tão cedo depois de termos nos despedido naquela tarde. Com o coração acelerado, atendi o telefone. Por alguma razão, eu achava ligações muito mais estressantes do que conversar pessoalmente.
- A-Alô? — falei.
- Oi, sou eu. Desculpa ligar do nada. É que eu meio que queria conversar com você sobre uma coisa... Estava me perguntando se você teria tempo para a gente se encontrar agora?
- Ah, sim! Claro — respondi sem pensar duas vezes.
Se bobear, eu estava tão entusiasmado que quase a cortei no meio da frase.
- Que bom, obrigada! Pode me encontrar na frente da Estação Tsubakioka, então? Vou ficar esperando do lado de fora!
- Beleza, combinado. Estou indo para lá.
- Legal, te vejo daqui a pouco!
E com isso, ela desligou. Deslizei o celular de volta para o bolso e soltei um suspiro enquanto meus batimentos cardíacos acelerados voltavam ao ritmo normal. Ela "queria conversar comigo sobre uma coisa", pelo visto — e por mais feliz que eu estivesse por ter um tempo a sós com ela, eu não estava com um pressentimento muito bom sobre o assunto. Eu teria adorado estar completamente enganado e descobrir que ela só queria rasgar elogios sobre algum livro aleatório que eu tinha recomendado, mas o meu estômago me dizia que eu não teria tanta sorte.
Levei cerca de dez minutos de bicicleta para chegar ao ponto de encontro. A área ao redor da Estação Tsubakioka costumava ficar praticamente deserta no meio da tarde, mas no momento estava lotada de estudantes do ensino fundamental e médio voltando para casa no pico pós-aula. Fiquei observando enquanto eles saíam em massa pela catraca, iam em direção ao bicicletário e montavam em suas magrelas para ir embora. Debaixo da pequena torre do relógio externo da estação, avistei a Hoshihara montada na sua própria bicicleta, apoiando os cotovelos no guidão enquanto mexia distraidamente no celular. Empurrei minha bicicleta até lá para cumprimentá-la.
- Ei, Hoshihara — chamei, e ela rapidamente ergueu os olhos.
- Ah, Kamiki-kun! — Ela me deu um sorriso alegre. — Obrigada por vir. Nossa, você chegou rápido.
- É, sem problemas. Eu moro bem perto daqui.
Resisti à tentação de me derreter todo na presença dela. Por mais que eu adorasse a ideia de a gente se encontrar depois da escola em público, aquilo não era um encontro. Tive que me lembrar disso várias vezes para não perder a postura, com medo de que provavelmente não teríamos o tipo de conversa que eu gostaria.
- Bom, acho que não adianta nada ficar só parada aqui! — disse ela. — Por que a gente não vai sentar em uma lanchonete ou algo assim?
- Claro, por mim tudo bem.
Ela saiu pedalando na sua bicicleta, e eu fui logo atrás. Em apenas alguns minutos, chegamos ao Joyfull local, não muito longe da estação. O restaurante familiar estava razoavelmente cheio por dentro, e até avistei alguns outros alunos do Colégio Tsubakioka — embora nenhum do nosso ano. Depois de sermos acomodados pelo recepcionista na área para não fumantes, nós dois pedimos refrigerante de máquina para começar. Eu peguei uma cola, e a Hoshihara pediu uma soda de melão. Só depois que as nossas bebidas foram trazidas é que ela mergulhou direto no assunto em questão.
- Então, sim, como eu meio que mencionei pelo telefone... — a Hoshihara começou timidamente, olhando fixamente para a mesa. Acenei com a cabeça para que ela continuasse. — Bem, eu só queria conversar com você sobre o Sera-kun, basicamente.
- Ah? — perguntei, um pouco pego de surpresa. Eu estava esperando que fosse mais sobre a Ushio.
- É. Sabe, diante de toda aquela revelação sobre ele ter pedido a Ushio-chan em namoro e tudo mais... Para ser sincera, quando ela tocou no assunto primeiro, eu fiquei um pouco, errr... — A Hoshihara deu uma rápida olhada para mim. Eu não tinha certeza do que aquele olhar deveria transmitir, mas foi fofo para caralho. Depois de um tempo, ela concluiu o pensamento a contragosto. — Acho que eu só não me sinto nem um pouco confortável com a ideia de os dois namorarem, é só isso que estou tentando dizer.
- Certo. Eu entendo totalmente, ainda mais com você tendo sentimentos bem confusos em relação à própria Ushio.
- B-Bem, sim, quero dizer, isso faz parte! Mas na verdade... essa não é a razão principal de eu estar trazendo isso para você.
"Não é? Então qual é? E para que todo esse suspense?"
A Hoshihara limpou a garganta antes de continuar.
- Eu ouvi algumas coisas sobre o Sera-kun — disse ela. — E não são coisas boas.
- Estamos falando de, tipo... reputação? Coisas sobre o caráter dele?
A Hoshihara assentiu. Fiquei pensando se ela estava se referindo à história dele ter se envolvido em uma briga no primeiríssimo dia de aula.
- Na verdade, no dia em que ele se transferiu... — disse ela, como se estivesse lendo a minha mente. — Bem, você lembra como cada um de nós teve que se apresentar para o resto da classe depois da cerimônia de abertura naquele primeiro dia, certo? Pelo visto, eles fizeram a mesma coisa lá na sala D, e ouvi dizer que a apresentação do Sera-kun meio que causou um climão.
- Ah, foi por isso que ele se meteu em encrenca naquele dia?
- Espera. Você já sabe disso?
- Não, só ouvi dizer que ele tinha entrado em uma briga, só isso. Desculpa. Pode continuar.
Hoshihara deu um gole na sua soda de melão.
- Não foi uma briga feia com socos e tudo mais, em si, mas pelo visto ele falou como se estivesse procurando por uma. Disse algumas coisas bem ofensivas, tentando provocar as pessoas e tal — só causando uma péssima primeira impressão e depois agindo como se não tivesse feito nada de errado. E isso só jogou mais lenha na fogueira, eu acho.
- Caramba. O que diabos ele disse afinal?
A Hoshihara hesitou um momento antes de responder.
- Tipo: "Nossa, com certeza não tem nada além de caipiras ignorantes e subdesenvolvidos por aqui, né? Acho que é o esperado quando se cresce no meio do mato"... Coisas desse tipo. Deu para entender a ideia.
- Ah, nossa... Caraca, beleza.
Eu não podia rebater a afirmação de que a maioria das pessoas por aqui era meio sem cultura. Pô, eu concordava totalmente. Mas o resto do que ele disse era bem indefensável; eu não conhecia muita gente pacifista o suficiente para engolir aquilo calado. Ele mereceu absolutamente ser colocado no seu devido lugar por causa disso.
- É, isso é bem feio, com certeza — falei.
- E não é só isso também — disse a Hoshihara. — Pessoalmente, estou muito mais incomodada com os boatos que ouvi sobre ele ser, errr... Bem, um galinha, basicamente. Dizem que ele pede para sair com praticamente qualquer garota que chame a atenção dele, só para tentar a sorte.
- Credo...
Eu geralmente não era de acreditar em boatos sem um pé atrás, mas tinha que admitir que essa história batia com o perfil. E agora que ela mencionava, aquele sorriso convencido no rosto dele no almoço tinha bem aquela vibe clássica de "galinha". Além disso, eu tinha a impressão de que os caras da cidade grande tinham muito mais chances de ser "playboys" que ficavam de rolo com um monte de parceiras diferentes do que o pessoal daqui de dentro.
"Tá, não. Agora sou eu que estou sendo preconceituoso."
Era extremamente mesquinho julgar o caráter de uma pessoa com base puramente em fofocas, sem falar de onde ela cresceu. Esse era exatamente o tipo de mente fechada que eu detestava em tantas pessoas de quem estive cercado a vida inteira, vivendo aqui no interior. Eu não queria ser um deles. Dei um gole longo e demorado na minha cola e tentei espantar esses pensamentos da cabeça.
- Obviamente, eu sei que são só boatos — a Hoshihara continuou, com uma expressão pensativa. — Não posso afirmar que sei quem o Sera-kun realmente é como pessoa... e mesmo assim, eu ainda não quero ele namorando a nossa amiga. Acho que isso me torna meio que uma pessoa ruim, né?
- O quê? Não, de jeito nenhum. — Parecia que ela estava lutando com o mesmo conflito interno que eu — não querendo julgar rápido demais, mas incapaz de largar todos os preconceitos completamente. — Sinceramente, o fato de você conseguir fazer essa autoanálise já te torna uma pessoa melhor do que a maioria, na minha opinião. E não tem nada de errado em ser protetora com uma boa amiga ou não querer ver ela envolvida com alguém que tem uma fama ruim.
- ...Você acha?
- De jeito nenhum. E além disso, acho que não temos motivo para nos preocupar. Como o Ushio disse, ficar em primeiro lugar em toda a série não é moleza.
- Mas eu ouvi dizer que o Sera é realmente muito inteligente, né...
- Espera. Sério?
- É. Uma amiga minha da turma D me contou que ele passou no exame de admissão para se transferir para cá sem nem estudar. Pelo que parece, ele até se gabou disso uma vez.
- B-bom, caramba.
- Além disso, lembra das provas semestrais que tivemos em maio? Ela me disse que ele tirou nota máxima em japonês e em Inglês. Mas acho que ele saiu mais cedo naquele dia, então acabou ficando com uma classificação bem mediana na série mesmo assim.
Eu não sabia o quão difíceis eram os exames de transferência, mas com certeza sabia o quão impressionante era tirar nota máxima em duas provas semestrais diferentes. Português, especialmente, era notoriamente difícil de acertar tudo — até eu, que sou boa de mais nessa matéria, só tirei 92. Com essas conquistas, não me surpreenderia se o Sera achasse que o desafio do Ushio está bem ao seu alcance. Acho que a única pergunta que fica é: o quanto ele realmente quer namorar ela, afinal?
- Ai, o que vamos fazer? — Hoshihara suspirou, deixando os ombros caírem.
- E-ei, calma aí. Não precisa ficar tão pra baixo. Não é como se estivesse escrito na pedra que ele vai ficar em primeiro lugar, não é mesmo? Quem disse que não pode ser você ou eu? Aí ele não teria escolha a não ser desistir.
Eu tinha dito isso só para animar um pouco, mas a cara da Hoshihara se iluminou como se eu tivesse acabado de ter a melhor ideia de todos os tempos. Os olhos dela brilharam quando ela se inclinou sobre a mesa na minha direção.
- Você tem toda a razão! — disse ela. — Uma de nós só precisa ficar em primeiro lugar na série! Aí não teremos com o que nos preocupar!
- E-espera aí, devagar, garota. Você não estava ouvindo? Não é pouca coisa superar literalmente todos os outros alunos da nossa série.
- Mas se a gente se concentrar e estudar muito...!
- Talvez se tivéssemos mais de uma semana, sim. Você lembra qual foi a sua classificação nas provas finais do semestre passado?
Essa pergunta, pelo jeito, foi o suficiente para fazer a Hoshihara voltar à realidade. Ela parou de se inclinar com tanta empolgação, sentou-se direito na cadeira e baixou a cabeça.
- Fiquei em 176º — confessou.
Caramba. Foi pior do que eu esperava. Tinha pouco mais de 200 alunos na segunda série do ensino médio.
- E você? — perguntou ela.
- Eu? Eu fiquei... acho que 23º, se não me engano?
- Nossa, isso é ótimo! Você consegue sim!
Ela bateu as duas mãos na mesa, e os olhos dela brilharam de novo, com ainda mais força. Essa conversa estava sendo uma montanha-russa de emoções para ela. E ela não estava errada: era, no mínimo, uma possibilidade. Eu sempre fui um aluno bem dedicado durante o ensino médio, principalmente porque estava determinado a entrar em uma faculdade boa e sair de Tsubakioka de vez. Mas mesmo assim...
- Não sei não — falei. — Ficar em primeiro lugar vai ser bem difícil. Nunca cheguei nem perto dos dez primeiros.
- Eu faço tudo o que puder para ajudar! Vamos lá, você tem que conseguir! Não só por mim, mas pela Ushio também! Por favor, por favor, por favor?!
- Não sei, cara...
- Se você ficar em primeiro, eu faço qualquer coisa que você pedir!
- Hein?
- Diz só o que eu tenho que fazer! Eu me entrego de corpo e alma!
- Hein?!
Ela realmente disse o que eu estou pensando? Qualquer coisa que eu pedir? Se entregar de corpo e alma? De repente, uma imagem da Hoshihara passou pela minha cabeça — rosto vermelho de vergonha, mexendo timidamente na gravata para afrouxá-la enquanto dizia que era o mínimo que podia fazer por todo o esforço que eu tinha feito, e então...
Eu já sabia o que tinha que fazer.
- Está bem — falei. — Ficarei em primeiro, custe o que custar.
- Aêê! — Hoshihara comemorou, erguendo os dois braços para o alto.
Na mesma hora, me arrependi de ter caído tão fácil no papo dela. Queria bater a cabeça, que estava cheia de ideias absurdas, na mesa.
Lá fora, o sol já começava a descer no horizonte oeste.
- Vamos estudar até cair! — disse Hoshihara. Ela subiu na bicicleta, acenou para mim e nos despedimos do lado de fora da lanchonete. Esperei até ela desaparecer virando a esquina, depois pedalei na direção oposta.
- Nossa, e agora o que eu faço?
Resmunguei enquanto descia a calçada. Não que houvesse muito o que fazer, a não ser enfiar o máximo de matéria possível na cabeça durante a semana que viria. Eu já estava tendo dificuldade para estudar ultimamente, porque minha mente vivia ocupada com a Ushio. E agora provavelmente vou perder ainda mais sono. Ótimo. Exatamente o que eu precisava. Soltei um suspiro de desânimo.
Bom, não é grande coisa. Mesmo que não fique em primeiro lugar, não vai ter nenhuma punição terrível esperando por mim. Posso só dar o meu melhor, e se por acaso der certo, pelo jeito vou ganhar algum favor da Hoshihara. Pensando assim, até que fica meio motivador. Certo. Vamos nessa.
Parei no semáforo e coloquei os pés no chão. Nesse instante, senti o celular vibrar. Tirei-o do bolso e olhei a tela — uma mensagem nova da minha irmã, Ayaka. Apenas seis letras: "iogurte". Pelo jeito, ela não percebeu que já passamos da era dos telegramas e que não precisa ser tão econômica nas palavras. Mas a conheço bem o suficiente para entender que isso é um pedido para eu trazer iogurte para casa; já estou acostumado a ser o faz-tudo dela de vez em quando. É bem irritante, mas sei que ignorar a mensagem só vai me trazer mais dor de cabeça depois, então me conformei em passar em uma loja de conveniência perto de casa antes de voltar. Só preciso me certificar de que ela não vai dar um jeito de não me reembolsar.
Virei a bicicleta, lamentando o quanto sou facilmente manipulado pela minha irmã mais nova. Sabia que a loja de conveniência mais próxima — e que exigiria o menor desvio — era a que ficava ao lado da Estação Tsubakioka. Fui até lá, estacionei a bicicleta e caminhei contra o fluxo de trabalhadores voltando para casa. Quando finalmente cheguei à loja, comprei um pote de iogurte natural.
Missão cumprida, saí da loja — e foi aí que vi um rosto conhecido. Era um garoto alto, vestindo o uniforme da Escola Secundária Tsubakioka: o Sera, ironicamente. Ao lado dele estava uma garota de outra escola, com o cabelo preso em tranças. Pensei que fossem apenas amigos, pelo jeito que riam e pareciam se dar bem. Mas então a conversa deles parou, e o Sera pôs os braços ao redor dos ombros da garota. E antes que eu tivesse tempo de processar o que estava acontecendo...
Ele beijou a garota na boca, com toda a naturalidade do mundo, como se não fosse nada demais.
Fiquei boquiaberto. E fiquei furioso. Como alguém pode ser tão sem vergonha a ponto de ficar se agarrando em um lugar público cheio de gente? E espera aí. O Sera não tinha acabado de convidar a Ushio para sair hoje mais cedo? Vi a garota se afastar dele, depois sair correndo, ainda atordoada, pela catraca da estação. O Sera, por sua vez, começou a caminhar na minha direção com um sorriso de satisfação estampado no rosto. Por um instante, pensei que ele tivesse me visto espiando, e meu coração deu um salto — mas ele passou direto por mim e entrou na loja de conveniência, sem fazer a menor ideia de que eu estava ali. Ufa. Foi por pouco. Mas pensando bem, provavelmente ele nem sabe que sou colega da Ushio.
Mesmo assim, eu sabia o que tinha acabado de ver. As palavras da Hoshihara ecoaram na minha cabeça: "Dizem que ele convida para sair praticamente qualquer garota que chame a atenção dele."
Pelo jeito, os rumores de que ele é um galanteador são verdadeiros. Mas enquanto eu ficava ali parado, sem conseguir me mover diante dessa descoberta perturbadora, o Sera saiu da loja de conveniência de novo.
- Ah, oi... Você aí — chamei ele quando ele começou a se afastar da estação. Pelo jeito, ele ouviu e percebeu que eu estava falando com ele, pois parou imediatamente e virou-se de supetão.
- Hm? Precisa de algo? — perguntou ele.
- É... não exatamente, mas...
- Espera aí. Você estuda na Escola Secundária Tsubakioka, não é? Não me diga... somos da mesma turma?
- Não. Não, na verdade não somos.
O Sera abriu um sorriso simpático e me olhou de cima a baixo — não de forma desconfiada, só com curiosidade pura. Achei melhor ir direto ao ponto e perguntar a ele sem enrolação.
- Quem era aquela garota ali agora? — perguntei.
- Ah, você viu? — disse ele. — Bom, usa a cabeça, cara. Quem você acha que ela era, se eu estava beijando ela?
- Sua... sua namorada?
- Acertou. Ela é um ano mais nova que a gente, por sinal. Bem bonita. Muito ingênua.
Ele falou com uma satisfação evidente sobre esse relacionamento. Não senti nem um pingo de culpa na voz dele. Normalmente, eu já teria desistido da conversa nesse ponto, mas como ele não parecia desconfiar nem um pouco das minhas intenções, resolvi tentar perguntar mais um pouco.
- Então você está namorando ela — falei -, mas mesmo assim convidou a Ushio para sair?
- Ah, você sabia disso? Droga. A notícia corre rápido.
- Bom, não é isso... a Ushio é só minha amiga, só isso.
- É mesmo? Bom, respondendo à sua pergunta: sim. Convidei a Ushio para sair, e estou namorando a outra garota também.
Fiquei um pouco desconcertado com a atitude tão despreocupada dele. Qualquer um pensaria que ele ficaria mais abalado ao ser pego fazendo algo desonesto — mas o jeito indiferente como ele respondia fazia com que eu me sentisse como se estivesse errado na história toda.
- Então, espera... Você não tem realmente a intenção de namorar a Ushio, é isso? — perguntei.
- Claro que tenho — disse o Sera. — Quer dizer, confesso que fiquei um pouco surpreso quando descobri que ela na verdade é um cara, mas pensei: "bem, deve ser interessante experimentar isso". Tudo para novas experiências — não me importo de testar coisas novas. Claro que ela colocou uma condição que eu tenho que cumprir, mas não deve ser nada difícil.
Ficar em primeiro lugar em toda a série nas provas finais não parecia "nada difícil" para ele? Não sabia se ele era apenas muito confiante ou o quê. Talvez os rumores de que ele é um aluno brilhante sejam verdadeiros mesmo.
Espera aí. Não é disso que se trata.
- Então vamos entender direito — falei. — Você já está namorando uma garota de outra escola, mas... quer namorar a Ushio também? Como isso não é traição?
- Ah, não. É sim — disse ele. — Mas e daí, não é mesmo?
- Acho que muita gente se importaria. Isso é simplesmente deslealdade.
- Deslealdade, ele diz! — Ele berrou a palavra como se fosse a coisa mais engraçada do mundo. Os lábios dele se curvaram em um sorriso de deboche enquanto ele tentava segurar uma risada.
- O que tem de tão engraçado? — perguntei.
- Desculpa, desculpa. Só acho interessante, é isso. Mas sabe, se eu gosto das duas da mesma forma, e tenho tempo para as duas, qual é o problema contigo? Desde que você não saia falando por aí, elas nunca vão descobrir que não são as únicas. Vou me esforçar ao máximo para garantir que elas nunca se machuquem, e vou fazer com que as duas se sintam igualmente especiais. Ainda assim acha que é traição? Eu, sinceramente, não tenho tanta certeza.
Isso era pura falácia. Mas na hora não tive um bom argumento para rebater. Talvez se tivesse mais tempo para pensar, conseguisse apontar o erro lógico daquilo, mas agora eu estava furioso e chocado demais para pensar em uma resposta na hora. E enquanto eu ficava ali tentando achar palavras, o Sera pareceu se cansar de esperar uma resposta e soltou um suspiro longo e preguiçoso.
- Bom, vou indo — disse ele. — Até
- É... tá bom... — respondi, mas ele já tinha começado a se afastar da estação, como se não esperasse nenhuma resposta coerente da minha parte. Enquanto o via ir embora sem se importar com nada, senti um sentimento amargo e repugnante crescer dentro de mim. "Nossa, que raio tem esse cara...?"
Eu certamente nunca tinha tido o desprazer de interagir com ninguém igual a ele antes. E, no entanto, não senti má vontade nem arrogância na sua atitude descuidada. Era como se eu estivesse lidando com uma criança cuja visão de mundo era tão simples quanto estranha — e completamente indecifrável. Não conseguia entender absolutamente nada sobre ele.
Mas uma coisa eu sabia com certeza.
Ele e eu não nos daríamos bem.
Soltei um bocejo longo, vítima da falta de sono, enquanto caminhava para a aula na manhã seguinte. Quando cheguei em casa na noite anterior, guardei o iogurte na geladeira e fui atrás da Ayaka para receber o dinheiro de volta por ter feito o trabalho sujo dela. Depois, elaborei um cronograma básico de estudos para a semana que antecederia as provas finais e mergulhei de cabeça nos livros. Consegui cumprir a meta de estudos da noite, mas tive que ficar acordado muito mais tempo do que planejava para terminar. E isso foi só o primeiro dia. Tinha a sensação de que essa não seria uma semana muito agradável para mim.
Entrei na Turma 2-A. Ushio Tsukinoki ainda não tinha chegado à escola, mas Hoshihara Natsuki já estava lá, batendo papo cedo com Mashima e Shiina. Achei isso um pouco incomum, já que as duas eram membros fiéis do grupo de Nishizono e tinham — pelo menos até recentemente — ficado do lado da líder, mantendo certa distância de Hoshihara. Mas agora estavam ali, rindo como se fossem grandes amigas de novo. Pareceu-me menos que elas tivessem realmente precisado "fazer as pazes" e mais que simplesmente não havia motivo para se preocupar com disputas de grupos agora que Nishizono estava suspensa. Pessoalmente, não me importava, desde que Hoshihara estivesse se divertindo.
Fui até o meu lugar, pensando em tentar dormir mais um pouco antes do primeiro período começar — mas justo quando ia deitar a cabeça sobre a carteira, vi Ushio entrar na sala pelo canto dos olhos. E, por algum motivo inexplicável, Sera Itsuku estava bem ao lado dela. Os dois entraram na sala de aula como se fossem uma dupla. Levantei a cabeça por instinto; Sera não era da Turma A, então o que diabos ele estava fazendo aqui? E por que estava com Ushio?
- Então eu estava passando pelos canais locais, sabe? — disse Sera, como se estivesse no meio de uma história. — E estavam passando reprises de Kiteretsu, o Supergênio, imagine só! Não consegui acreditar no que meus olhos viam!
- Eles não passam mais esses desenhos na TV em Tóquio? — perguntou Ushio.
- O quê, tá brincando? Nem pensar! Eu literalmente gritei com a TV: "O que é isso, os anos 80?!" Não conseguia crer.
- Hum... Bom, não sei não. Acho que é um desenho bem legal, pelo menos.
Espera. Eles estão conversando normalmente, como amigos?
É verdade que Ushio não parecia muito interessada, mas também não estava sendo grossa ou ignorando ele. Pelo menos estava respondendo. Mesmo depois de chegar à sua carteira e se sentar, continuava acenando com a cabeça ao que Sera falava, enquanto ele permanecia parado ao seu lado. Todos os outros na sala olhavam para aquele convidado inesperado com desconfiança, mas ele parecia totalmente indiferente aos olhares de julgamento e continuava falando alto e animado. Até que uma única garota teve coragem de falar com os dois: Hoshihara. Havia inquietação nos seus passos lentos e hesitantes ao se aproximar.
- B-bom dia — disse ela. — E oi para você também, Sera...
- Bom dia, Natsuki — disse Ushio.
- Então você é a Natsuki, né? — disse Sera. — Prazer. Sou o Sera Itsuku — escrito com os caracteres que significam "ternura", "mundo" e "bondade". Pode lembrar como "o amor terno que trará o bem ao mundo", tá bom? Prazer em conhecer.
O rosto de Hoshihara se contraiu enquanto forçava um sorriso e respondia educadamente, embora a cautela e a repulsa fossem óbvias na sua voz.
- Vocês dois parecem se dar muito bem — continuou ela. — Confesso que estou um pouco surpresa. Nem sequer tinha visto você falar com a Ushio até...
- Espera, você chama ela de Ushio?! — interrompeu Sera. — Nossa, que legal! Talvez eu deva chamar ela assim também.
Vi o sorriso de Hoshihara ficar cada vez mais forçado. Ushio soltou uma risada sem graça e balançou a cabeça.
- Não, tudo bem. Você pode me chamar só de Ushio mesmo.
- Espera, por quê? Ah, não me diga: está com vergonha?
- Se você me chamasse assim, ia parecer que está tirando sarro de mim.
- Ha ha! Qual é, sabe que não é isso! Mas acho que se você insiste, não me importo de chamar só de Ushio também.
A expressão de Hoshihara suavizou um pouco, parecendo aliviada.
- Ahá ha... Nossa, Sera. Você não conheceu a Ushio ontem mesmo? É impressionante que já estejam se tratando pelo primeiro nome. Acho que estão indo rápido demais, se quer saber!
- Bom, é — disse Sera. — Afinal, ela já prometeu que vai sair comigo.
Hoshihara ficou paralisada, assim como o resto de nós. Foi como se o som de um disco arranhando o ar tivesse tomado conta. Toda a conversa matinal na sala desapareceu — antes que os sussurros e fofocas voltassem em alvoroço.
- Espera aí. Eles estão namorando?!
- Ele acabou de dizer que estão saindo?
- Calma aí, quem está namorando?
- A Ushio Tsukinoki e o Sera, imagine só?
Pareceu que até Ushio não pôde ignorar essa afirmação tão chamativa, pois olhou para cima em direção a Sera com um olhar afiado como navalha.
- Não fale como se já estivesse tudo resolvido — avisou ela.
- Claro, primeiro tenho que tirar a maior nota nas provas finais — disse Sera. — Não se preocupe, eu sei. Para a sua sorte, sou um aluno muito bom. Pode ter certeza de que vou conseguir.
- Eu não estava... — Ushio começou, mas foi interrompida pelo sinal de aviso.
- Epa, olha a hora. Acho que tenho que voltar para a minha sala. Até mais, Ushio.
Com isso, Sera saiu caminhando com arrogância da sala de aula, como uma estrela de cinema se afastando da explosão provocada pela bomba de drama que ele mesmo tinha acabado de soltar. Com certeza, o burburinho e as especulações só aumentaram depois que ele foi embora. Ushio levou a mão à testa como se estivesse sofrendo de uma enxaqueca, e Hoshihara ficou ali parada, atônita. E eu... senti um arrepio. Sera acabara de deixar claro para toda a nossa turma a sua intenção de conquistar Ushio e que não fazia a menor questão de esconder isso de ninguém.
Eu tinha que admitir que senti um leve receio com essa ideia. Não devia ele ter um pouco mais de consideração antes de fazer uma cena dessas, dadas as circunstâncias de Ushio? Ela não era uma garota qualquer — droga, mais da metade dos nossos colegas ainda parecia enxergá-la e tratá-la como um menino. E aí vinha esse forasteiro da cidade, com seu andar convencido, tentando namorá-la e não fazendo segredo disso, apesar da atenção negativa que certamente iria atrair de todos ao redor. Será que ele não se importava nem um pouco com o que as pessoas pensariam de cada um dos dois? Com certeza ele seria o assunto de toda a turma na hora do almoço, e não tinha dúvidas de que iriam rir e julgá-lo toda vez que o vissem andando pelos corredores.
Na verdade, pensando melhor... seria possível que eu fosse quem estava com a visão errada aqui? Afinal, não era como se Sera estivesse agindo assim por ódio ou preconceito em relação a Ushio, à sua identidade ou ao seu jeito de viver. Ele simplesmente se apaixonou à primeira vista, como ele mesmo disse, e a convidou para sair. Nada mais parecia pesar para ele. É verdade que ele era um cara bem leviano no geral, mas pelo menos a estava aceitando como ela realmente é. Não devia eu deixar de lado os meus preconceitos e dar o crédito a ele por ter maturidade quanto a isso?
Mas então lembrei que não: ele já estava namorando uma garota de outra escola. Eu simplesmente não conseguia aprovar alguém que planejava de propósito trair, independentemente das circunstâncias. Claro, ele tinha dito que gostava das duas "igualmente", mas essa era uma desculpa muito fraca que, na minha opinião, não colava. Qualquer traidor poderia dizer isso.
Então, afinal de contas, seria Sera quem estava errado? Ou seria eu?
O sinal da chamada matinal tocou antes que eu conseguisse resolver esse dilema. A partir daí, em cada intervalo, Sera aparecia na nossa sala para conversar com Ushio e depois saía quando o sinal de aviso tocava — e assim sucessivamente. Ele até apareceu na hora do almoço, com a lancheira balançando descuidadamente em uma das mãos, e comeu com Ushio na sua carteira. Hoshihara estava lá também, é claro, mas não participava da conversa — ou melhor, Sera falava tanto e tão depressa com Ushio que ela não conseguia nem mesmo abrir a boca. Ela ficava ali sentada, com uma expressão carrancuda do começo ao fim.
Eu tinha razão sobre Sera se tornar alvo de chacotas por causa da sua investida aberta a Ushio. Toda vez que ele entrava na sala, pelo menos alguns risinhos surgiam entre os meus colegas. O que eu não esperava, porém, era que Sera aceitasse tudo isso sem o menor sinal de raiva, desânimo ou vergonha. Na verdade, ele até fazia questão de interagir com quem ria dele, de um jeito brincalhão e simpático, tentando transformar a situação de forma que saísse por cima.
Por exemplo, quando alguém dizia "Dois homens, cara... Isso é nojento", ele respondia: "Ei, não fale mal sem antes experimentar, amigo". Quando outro falava "Pode fingir o quanto quiser, mano — ela nunca vai ter o que você está procurando", ele fingia não entender e dizia: "Desculpa? O que é isso que você está falando? Por que não explica direito para mim?".
Apesar de ter feito algumas observações que me deixaram um pouco enojado, ele estava se saindo o melhor possível, dadas as circunstâncias. Quando chegou a hora do almoço, ele praticamente já tinha se tornado um membro honorário da Turma A. Seu bom humor e personalidade conquistaram a simpatia da maioria dos meus colegas com uma velocidade impressionante; mesmo que a ausência de Nishizono provavelmente tivesse ajudado para que ele fosse aceito tão rápido, com certeza já não havia ninguém falando mal dele. Era quase assustador para mim que ele tivesse conseguido essa reviravolta social tão grande em apenas meio dia. Com certeza, quando as aulas acabaram, ele apareceu mais uma vez.
- Ei, Ushio — disse ele. — Vamos embora, tá?
Ele se dirigiu a ela justo quando nós três — Ushio, Hoshihara e eu — estávamos saindo da sala de aula. Mas parecia que Sera só tinha olhos para Ushio, pois chamou apenas por ela.
- Você poderia me mostrar rapidamente como chegar à estação? — perguntou ele. — Ainda não conheço direito por aqui.
Hoshihara franziu o rosto, visivelmente irritada.
- Err... Você não deveria estar gastando seu tempo estudando para aquelas provas em vez de sair para se divertir depois da aula?
- Caramba, sério? Você é bem certinha, não é, Natsuki?
- Não, eu não diria isso... Só acho que talvez você não esteja sendo muito atenciosa com a Ushio... Não acha? — Hoshihara sinalizou para Ushio com os olhos. Ela estava claramente tentando dar uma saída fácil para a amiga.
- Eu não me importo, de verdade — disse Ushio, pelo visto bem disposta a aceitar o convite de Sera. O queixo de Hoshihara praticamente caiu no chão.
- T-tudo bem, então eu vou também! — disse ela, mudando de estratégia.
- Não, tudo bem. Você devia ir para casa com o Sakuma. — Ushio olhou para mim. Será que ela estava tentando me fazer um favor? Obviamente ela sabia que eu tinha uma queda pela Hoshihara. Talvez estivesse fazendo isso para nos dar um tempo a sós. Se fosse o caso, eu agradecia a consideração, mas, honestamente, preferia que ela simplesmente viesse para casa com a gente.
- Vamos logo, Ushio — disse Sera, arrastando-a pelo braço. — Vamos de uma vez.
- Até mais, pessoal — disse Ushio, descendo as escadas com Sera e deixando Hoshihara e eu parados sem jeito do lado fora da sala de aula. Lentamente, me virei para o lado dela.
- Bem, err... Vamos indo, então?
- Uauuu! Que diabos foi aquilo?!
Estávamos voltando para casa pelo mesmo caminho de sempre quando Hoshihara soltou esse grito mortal de amargura e lamento. Gotas de suor começaram a surgir na minha pele enquanto empurrávamos nossas bicicletas sob o sol quente de verão.
- Olha — ela continuou -, não vou criticar o cara por querer passar tanto tempo com ela. Eles podem ser amigos o quanto quiserem! Fico feliz por eles! Mas ele está querendo monopolizar a Ushio só para ele, eu sei disso! Quer dizer, ele não viu a gente ali?! Ele não percebe que ela tem outros amigos que também querem passar tempo com ela?!
- É, eu te entendo — eu disse, coçando a cabeça sem jeito enquanto tentava acalmá-la. — Mas fala sério — não deixa ele te irritar assim.
- O quê, você não está nem um pouco incomodado com isso, Kamiki?
- Bom...
Sinceramente, eu não tinha certeza. Eu não gostava muito do Sera, mas não conseguia definir exatamente o que sentia sobre ele tentar se aproximar da Ushio, partindo do princípio de que ela estava de acordo com isso.
- Pois eu com certeza estou! — disse Hoshihara. — Nós não podemos deixar os dois começarem a namorar, isso é fato! Ele está fazendo o meu medidor de caras estranhos explodir no limite!
- Ah, você tem um desses? — Não pude deixar de rir dessa expressão abstrata.
Hoshihara soltou um suspiro; parecia que desabafar tinha ajudado ela a se acalmar um pouco.
- Enfim, é isso. É por isso que precisamos que você fique em primeiro lugar, para que ele não consiga!
Ah. E agora nós demos uma volta completa, direto para onde começamos.
- É, claro. Pode deixar comigo — eu disse. — Não prometo nada, mas vou dar o meu melhor.
Até eu conseguia ouvir a óbvia falta de confiança na minha voz. Eu me perguntava quanto tempo extra de estudo conseguiria encaixar de verdade na minha rotina sem ter um esgotamento mental.
- Desculpa por tudo isso — Hoshihara disse de repente.
- Hã? Como assim? — perguntei.
- Quero dizer, só estou jogando toda a pressão para cima de você aqui, sabe?
- É verdade, sim.
- Nossa, caramba! Essa foi rápida! Você podia pelo menos fingir que queria negar!
Essa foi a primeira vez que me peguei ficando um pouco irritado com a Hoshihara. Nós dois sabíamos que eu seria o único a fazer a maior parte do trabalho, se eu fosse realmente tentar o primeiro lugar do nosso ano. Mas eu tinha concordado em fazer isso sabendo disso, então obviamente não ia reclamar. Além do mais, ela já tinha prometido fazer algo por mim em troca se eu conseguisse, então não era como se eu não tivesse meus próprios motivos para isso, mesmo que não fossem exatamente os mais nobres.
Hoshihara abaixou a cabeça de novo, parecendo totalmente desanimada.
- Sabe, mas é sério. Eu realmente não quero que os dois comecem a namorar. Tem alguma coisa no Sera que simplesmente... Não sei. Me dá uma sensação muito ruim.
- Você quer dizer como um tipo de nojo visceral, ou...?
- Isso parece uma forma meio dura de falar, mas... Hum, não sei como explicar. — Hoshihara resmungou enquanto pensava no assunto. Então, depois de um tempo, ela disse: — Bem, você sabe aquela coisa que fazem com melancias?
- M-melancias? Você vai ter que ser um pouco mais específica.
- Sabe como é — tipo, você dá uns tapinhas ou bate nelas, e escuta o som que faz, certo? Com base nesse som, dá para saber direitinho se vai ser uma melancia boa ou não. Entende o que quero dizer?
- É, acho que já ouvi falar disso... Mas o que tem a ver?
- Eu sinto que dá para fazer mais ou menos a mesma coisa com as pessoas, de certa forma. Tipo, você pode "dar um tapinha" nelas com palavras, ou perguntas diretas, ou o que for. Com base no "som", ou na reação que você recebe de volta, geralmente dá para ter uma noção muito boa da personalidade delas.
Eu não tinha certeza de por que ela precisava da analogia da melancia — parecia bem intuitivo dizer que dava para avaliar a bondade de uma pessoa com base nas interações com ela -, mas eu entendia mais ou menos onde ela queria chegar.
- Mas veja bem, quando se trata do Sera — ela continuou -, eu sinto que não importa onde você tente dar o tapinha, parece sempre que o som que volta vem de uma parte totalmente diferente da melancia — ou, tipo, de uma caixinha de som escondida ali do lado da barraca de frutas, se é que isso faz sentido. E dá uma sensação um pouco perturbadora, tipo... Desculpa, eu nem sei mais para onde estou indo com essa conversa.
- Não, acho que entendi o que você quis dizer — eu disse. — É como se não desse para decifrar o cara, não importa o que você faça, basicamente. É um pouco sinistro.
- É, é bem por aí. E não sei você, mas eu não gosto nem um pouco desse tipo de gente.
Embora eu não conhecesse a personalidade da Hoshihara perfeitamente, sentia que era bem raro ela expressar aversão aberta por outra pessoa. Levei aquilo como um sinal de quantos alertas vermelhos ela tinha visto nele.
- Por que você não fala isso para a Ushio, então? — perguntei. — Tenho certeza de que, se você explicasse o que sente em relação a ele, ela tentaria ficar mais esperta também.
- O quê? Sem chance, eu nunca conseguiria. Quero dizer, talvez se ele fosse uma pessoa obviamente ruim, mas, neste caso, é mais uma coisa de ele não ter batido com o meu santo.
- Mas você está falando disso comigo agora.
- Bem, sim, porque você é... Não sei. Você é tipo uma das únicas pessoas em quem posso desabafar, eu acho.
Agora, sim, eu tinha ficado genuinamente feliz em ouvir aquilo. Senti que aquilo me colocava pelo menos um degrau acima de um amigo comum na mente dela. Comemorei mentalmente com um soco no ar.
- Mas enfim, voltando ao assunto: como estão indo os estudos até agora?
Ah. Eu tinha um pressentimento de que ela estaria curiosa sobre isso.
- Ah, sim — eu disse. — Estão indo bem até agora, eu acho. Mas parece que não sobrou tempo suficiente para cobrir tudo o que preciso estudar.
- Tem alguma coisa com que você esteja realmente sofrendo? Tipo, a sua pior matéria ou algo assim?
- Se eu tivesse que escolher, acho que não sou muito bom em matemática, talvez? Sou definitivamente mais da área de humanas, então sempre tive mais dificuldade com matemática e ciências.
- Entendi, beleza. Mais alguma coisa além de matemática?
- Hum, provavelmente qualquer coisa que seja só muita decoreba de, tipo... datas, fatos e tudo mais. Mas sei que não tem muito o que fazer para esse tipo de matéria, a não ser tentar engolir os livros até decorar tudo direitinho.
- Ok, entendi — disse Hoshihara, acenando com a cabeça sabiamente. — Vou dar uma olhada e ver o que posso fazer para ajudar. Se qualquer outra coisa começar a te dar dor de cabeça, é só me avisar. Quero te dar uma força do jeito que eu puder.
- Obrigado. Eu agradeço de verdade.
Eu me perguntei o quanto ela queria dizer com aquela afirmação tão aberta, mas eu certamente não seria um tarado de perguntar "Espera. Do jeito que puder?" ou algo assim. De qualquer forma, amanhã era sábado e eu não tinha planos — então achei melhor passar o fim de semana inteiro estudando.
A segunda-feira chegou antes que eu percebesse. O fim de semana realmente passou no que pareceu um piscar de olhos. Embora eu não tivesse feito nada além de estudar, não me senti tão satisfeito com o meu progresso. Passei praticamente todo o meu tempo enfiando termos de inglês e história mundial na minha cabeça, mas mal tinha aberto o livro de matemática. Eu sabia que, para conseguir o primeiro lugar do nosso ano, teria que tirar pelo menos 90% em todas as matérias — mas algo me dizia que, nesse ritmo, não importava o quanto eu estudasse, uma média de 80 era provavelmente o meu limite máximo. O que ainda poderia me colocar entre os dez primeiros, talvez, mas com certeza longe do número um.
As provas de fim de semestre começavam na quinta-feira, ou seja, daqui a três dias. Elas continuariam pela sexta-feira e pelo sábado também. Então, depois de um fim de semana de um único dia no domingo, voltaríamos à nossa estrutura normal de aulas por um tempo. Quando recebêssemos os testes de volta, estaríamos cara a cara com as férias de verão. Restavam apenas alguns dias de estudos exaustivos, então eu só tinha que aguentar firme e fazer valer a pena.
Entrei pela entrada principal do Colégio Tsubakioka e rapidamente avistei Ushio de pé em frente ao seu armário de sapatos (o cabelo de cor brilhante dela a tornava fácil de ser identificada na multidão). Ela estava sozinha hoje, felizmente.
Fiquei observando enquanto ela se abaixava para pegar os sapatos de rua depois de tirá-los e, após se levantar, colocou uma mecha solta de cabelo atrás da orelha com um dedo. Não pude deixar de ficar impressionado com o quão feminina ela parecia em todo esse processo — e também em como era estranho que existissem maneirismos estereotipados de gênero até nas menores coisas, como a forma de tirar os sapatos. Eu não conseguia me lembrar, exatamente, se era assim que a Ushio sempre tirava os sapatos ou se era uma mudança deliberada que ela tinha feito em seu comportamento agora que estava vivendo abertamente sua vida como uma garota. E enquanto eu estava ali contemplando aquilo, ela notou a minha presença e se virou para mim com um grande sorriso.
- Ah, Sakuma — disse ela. — Bom dia.
- Opa — respondi.
Caminhei até os armários, troquei de sapatos rapidamente e nós dois fomos juntos em direção à sala do 2º A.
- Você não dormiu muito bem ontem à noite? — Ushio perguntou de repente.
- Hein? — eu disse. — Por que a pergunta?
- Bem, para começo de conversa, você está com olheiras profundas.
- Ah... Desculpa, é. Fiquei acordado até bem tarde estudando ontem à noite.
- Nossa. Desde quando você é do tipo que estuda para as provas?
- É, eu não sou, é só que, sabe... Não tenho conseguido me concentrar muito durante as aulas ultimamente. Achei melhor compensar estudando no meu tempo livre.
- Não diga... Hum. Interessante.
Obviamente, eu não ia admitir que estava estudando especificamente para frustrar o Sera, tentando ficar em primeiro lugar no nosso ano. Eu sabia que isso só levaria a uma discussão muito mais delicada e, já que a Hoshihara não se sentia confortável em expressar sua desaprovação sobre o Sera para a Ushio, achei que era melhor eu ficar de boca fechada também.
- A propósito, como foram as coisas na sexta-feira? — ela perguntou. — Você e a Natsuki tiveram a chance de conversar no caminho para casa?
- Ah, sim. Foi tudo bem, eu diria. Não foi estranho nem nada.
- Legal, legal. Bem, fico feliz por você — disse ela, balançando a cabeça com satisfação. — E quanto a você? Sei que você e o Sera foram em direção à estação.
- É. A gente só meio que andou por aí por um tempo antes de finalmente decidir ir a um café. Sentamos e pedimos alguns doces, e depois fomos para casa de lá.
"Parece muito com um encontro", pensei. Imaginei Ushio e Sera andando lado a lado pela rua no centro da cidade. Para um observador de fora, eles deviam parecer um casal de adolescentes perfeitamente comum e atraente. Talvez até uma combinação muito boa, julgando apenas pela aparência.
- Que tipo de vibe você sente do Sera, afinal? — perguntei.
- O que você quer dizer com "vibe"?
- Tipo, se ele é uma pessoa boa, uma pessoa ruim, e por aí vai.
Ushio coçou o queixo e contemplou aquilo enquanto subíamos as escadas. Só quando chegamos ao patamar do segundo andar é que ela levantou a cabeça, tendo decidido sua resposta.
- Eu diria que ele é um cara bem esquisito. Mas de um jeito interessante, eu acho — disse ela. Essa não era a avaliação mais fácil de eu interpretar, mas talvez ela mesma ainda não tivesse decifrado muito bem o caráter dele. Olhando para a frente no corredor, ela continuou com indiferença: — Às vezes, quando a gente conversa, sinto que estou falando com uma criança pequena, e outras vezes, parece que ele é muito mais maduro. Ele não é tão preto no branco quanto as outras pessoas. Não acho que dê para categorizá-lo realmente como "bom" ou "ruim", por si só. E ainda assim...
- E ainda assim? — ecoei.
A expressão de Ushio ficou nublada por um momento — e então ela me lançou um olhar.
- Acho que seria uma boa ideia você ficar longe dele, Sakuma — disse ela, com o tom solene.
- Espera. O que você quer di...
- Ushio! — gritou uma voz atrás de nós, me cortando antes que eu pudesse terminar a frase. Eu nem precisei me virar para saber quem era.
Ótimo, falando no diabo. Sera correu até o nosso lado e jogou um braço ao redor dos ombros da Ushio. Ela rapidamente rejeitou aquele contato físico indesejado.
- Para — disse ela, esquivando-se dele. — Já está quente o suficiente por si só.
- Ah, não seja assim — disse Sera. — Uma demonstraçãozinha pública de afeto não vai te matar!
- Não dá para andar com você pendurado em mim. Afasta para lá.
- Ah, fala sério! Você sabe que adora!
- Não, já disse que não. Para de se apoiar em mim. Você é pesado.
"Cara, é cedo demais para isso", foi tudo o que consegui pensar no meu estado de privação de sono. Ao mesmo tempo, algo nessa situação estava causando uma sensação estranha, quase como uma estática, espalhando-se pelo meu peito — uma nuvem turva de emoções conflitantes que eu só conseguia definir como um "baixo astral". Eu não tinha certeza se era a demonstração pública de afeto descontraída (correspondida ou não) que me repelia, ou se estava irritado com o Sera por nem sequer reconhecer a minha existência, ou se talvez, secretamente, eu quisesse fazer parte daquela relação estranha e desajeitada por algum motivo e me sentia deixado de fora... Mas, de qualquer forma, não era um sentimento que eu gostava.
Apertei o passo, deixando os dois para trás enquanto caminhava apressado pelo resto do caminho até a sala de aula, larguei a minha mochila na minha mesa, sentei e puxei o meu livro de inglês. Eu tinha coisas melhores para fazer com o meu tempo livre, e qualquer momento que não estivesse estudando era um momento desperdiçado.
Eventualmente, Ushio e Sera entraram na sala e foram recebidos com provocações divertidas do fundão — como "Olha só quem voltou!" ou "Nossa, ele realmente não desiste, né?" -, junto com algumas risadas abafadas aqui e ali. Mas, a essa altura, parecia mais uma brincadeira sincera de sitcom do que um sinal real de que Sera não era bem-vindo ali. Na verdade, quando Ushio se sentou em sua mesa, um dos garotos da sala se aproximou da dupla para cumprimentá-los com uma piada amigável.
- Caramba, vocês dois parecem estar se dando bem mesmo — disse ele. — Sabe, Sera, nesse ritmo, acho que você devia simplesmente se transferir para o 2º A de uma vez por todas.
- Olha, ei! Não é uma má ideia — disse Sera. — Vou tentar falar com o professor sobre isso.
- Opa! Ouviu isso, Ushio? Agora você vai poder ficar de olho nele e ver o quanto ele está disposto a se comprometer, hein?!
- Err, não, obrigada. Acho que estou feliz com as coisas do jeito que estão agora — disse Ushio.
Fiquei um pouco surpreso com essa troca de palavras, principalmente porque servia para mostrar o quão rápido e profundamente o Sera tinha se integrado com praticamente todo mundo do 2º A, apesar de ter sido inicialmente tratado como um esquisito pelo seu interesse na Ushio. Até a Ushio estava sendo incluída ativamente nessas pequenas conversas agora — e lidando super bem com elas, mandando suas próprias piadas, eu achei -, o que era um grande passo à frente em comparação com o isolamento que ela vinha enfrentando antes. Claro, alguns dos garotos da sala estendiam a mão para ela de vez em quando antes, mas, no geral, ainda parecia que ela era tratada como uma excluída até agora. E, no fim das contas, bastou a influência de um cara como o Sera para fazer todo mundo começar a interagir com ela como um ser humano legítimo de novo. Uma parte de mim sentia que, se os dois realmente acabassem namorando depois de toda essa preparação, Ushio poderia até recuperar a popularidade que tinha entre os nossos colegas antes da transição.
E ainda assim, algo em toda essa situação ainda não me cheirava bem. Provavelmente era otimismo demais achar que ela se tornaria a garota mais popular da sala de novo como resultado disso — mas o simples pensamento de que isso pudesse acontecer me enchia de emoções bem conflitantes, para ser totalmente honesto. E sim, eu sabia que não eram os meus sentimentos que importavam aqui, desde que a Ushio estivesse feliz, mas eu não conseguia evitar.
"Ah... Eu não entendo, cara. Com o que diabos eu estou tão preocupado?"
O resto do dia escolar foi quase sem novidades, e as aulas finalmente terminaram. Hoshihara guardou suas coisas rapidamente e foi até a mesa da Ushio — talvez na esperança de conseguir um compromisso para irem embora juntas antes que o Sera aparecesse. Mas, para a minha surpresa, as duas trocaram apenas algumas poucas palavras antes de a Ushio se levantar e sair da sala de aula sozinha. Hoshihara simplesmente ficou de cabeça baixa por um tempo, desanimada, e depois saiu arrastando os pés da sala. Juntei as minhas coisas e corri atrás dela.
- Ei, o que aconteceu? — chamei por ela no corredor.
- Ah... Oi, Kamiki — disse ela, ainda parecendo bem deprimida enquanto se virava para mim. — Parece que a Ushio já tem planos de ir para casa com o Sera hoje...
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