Bella voltou do funeral improvisado como quem atravessa um nevoeiro espesso demais para distinguir formas ou sons. A bandeira dobrada estava agora sobre a cômoda, ocupando um espaço que jamais deveria existir ali, e a casa — sempre cheia demais de vozes, crianças e passos — parecia suspensa num silêncio quase artificial, como se o mundo estivesse prendendo a respiração por respeito ou por pena. Anthony dormia no quarto ao lado, exausto de chorar sem entender completamente o que perdera, e as mulheres haviam insistido em ficar até que Bella se deitasse, mas ela não se deitou. Não de verdade. Apenas caminhou até o quarto e fechou a porta atrás de si, como se aquele gesto simples pudesse conter a devastação.

A cama estava impecável.

O lado de Edward permanecia exatamente como ele deixara antes de partir: o travesseiro alinhado, o lençol esticado sem uma única dobra fora do lugar. A cabeceira exibia a fotografia da família — ela sentada no jardim com Anthony no colo, Edward atrás deles, as mãos apoiadas nos ombros dela, o sorriso torto que sempre surgia quando tentava parecer sério demais. Ao lado da foto, o terço que Esme lhe dera antes da segunda partida, o relógio de pulso que Carlisle lhe presenteara ao concluir a faculdade de medicina, tudo organizado com a precisão quase obsessiva que o caracterizava. Edward sempre fora metódico, como se pudesse controlar o mundo ao seu redor através da ordem dos objetos.

O violão descansava encostado na janela, as cordas silenciosas, mas ainda tensas, como se aguardassem os dedos dele para despertar novamente. Ele costumava sentar-se ali nas noites quentes, cantarolando baixinho para ela enquanto Anthony adormecia no berço, a voz grave preenchendo o quarto com promessas simples demais para o tamanho da vida que enfrentavam.

Bella aproximou-se da cama e sentou-se no lado dela, encarando o espaço vazio ao lado. Estendeu a mão e tocou o travesseiro dele, pressionando-o como se ainda pudesse encontrar calor ali. O ar parecia pesado demais para entrar nos pulmões. Ela respirou fundo, fechou os olhos, mas o sono não veio. Não viria.

Depois de longos minutos que se estenderam como horas, ela se levantou e caminhou até o armário. Abriu as portas devagar, quase pedindo permissão. As roupas estavam alinhadas por cor, por tecido, por ocasião. As camisas sociais à esquerda, as casuais ao centro, os casacos pendurados com espaçamento idêntico entre um e outro. Bella passou os dedos pelos tecidos até parar em uma camisa azul clara. Era a que ele usara no dia em que ela lhe contara sobre a segunda gravidez. Lembrava-se da maneira como as mãos dele tremeram levemente antes de segurá-la pela cintura e rir, um riso incrédulo e emocionado ao mesmo tempo.

Ela levou a camisa ao rosto e aspirou o perfume que já começava a se dissipar. Fechou os olhos. Por um segundo doloroso, quase conseguiu fingir que ele estava apenas atrasado.

Mas o silêncio respondeu.

Bella ergueu-se nas pontas dos pés e alcançou a parte superior do armário, puxando a primeira caixa de madeira onde guardava as cartas. Sentou-se no chão, a barriga pesando contra as coxas, e abriu a tampa com cuidado reverente. Ali estava o passado, organizado em envelopes amarelados pelo tempo, amarrados com fita azul.

Pegou a mais antiga.

20 de junho de 1959.

Ela reconheceria a própria caligrafia em qualquer lugar — firme demais, quase desafiadora.

Ao abrir o envelope, o quarto desapareceu.

E o verão voltou...


O dia estava quente demais para qualquer atividade que exigisse esforço, mas a cidade parecia pulsar com a energia despreocupada da juventude. Era aniversário de dezoito anos de Edward Cullen, e a notícia correra entre os amigos como se fosse um evento nacional. Dezoito anos significavam muitas coisas: liberdade parcial, responsabilidade iminente, e para Bella, um medo silencioso que ela ainda não sabia nomear completamente.

Ela tinha dezessete.

Usava calças jeans de cintura alta e uma camisa branca de mangas dobradas, enquanto as outras garotas insistiam em vestidos rodados e cinturas marcadas. O cabelo castanho estava preso em um rabo de cavalo despretensioso, e um livro descansava aberto sobre o colo enquanto ela fingia ler na varanda da frente. Fingir, porque a cada poucos segundos seus olhos escapavam para a casa em frente.

Edward atravessava o jardim com Emmett e Jasper, rindo alto demais de alguma piada interna. Emmett gesticulava exageradamente, quase tropeçando nos próprios pés, enquanto Edward balançava a cabeça, sorrindo daquele jeito que sempre fazia o estômago de Bella apertar de maneira irritante.

— Você vai continuar fingindo que não está olhando? — Alice apareceu ao lado dela, girando o próprio vestido com leveza.

— Estou lendo — Bella respondeu sem levantar os olhos.

— Claro que está. Pela décima vez na mesma página.

Bella bufou e fechou o livro com força controlada.

— Ele é só o melhor amigo do meu irmão.

— Ele é apaixonado por você desde que tinha doze anos — Alice rebateu, sorrindo com malícia suave. — A cidade inteira sabe disso.

Bella levantou-se, atravessando a rua antes que pudesse reconsiderar. Cada passo parecia uma decisão tomada tarde demais.

Os rapazes interromperam a conversa ao vê-la aproximar-se. Emmett abriu um sorriso largo.

— Vejam só, a intelectual resolveu sair da biblioteca.

Jacob Black e Paul Lahote riram ao fundo, enquanto James Platt inclinava-se contra o capô do carro, avaliando-a com aquele olhar típico dos garotos da época, como se fosse um prêmio a ser conquistado.

— Feliz aniversário, Edward — Bella disse, mantendo o queixo erguido.

Ele ficou subitamente sério, como se aquele simples cumprimento fosse mais importante do que qualquer festa.

— Obrigado, Bella.

Havia algo diferente naquele olhar. Não era apenas admiração juvenil. Era expectativa.

Mais tarde, quando o sol começava a descer no horizonte e os amigos se dispersavam para organizar a pequena celebração improvisada no quintal dos Cullen, Bella chamou Edward para o lado da casa, longe das risadas.

Ela lhe entregou o envelope.

— É só… uma carta — explicou, evitando encará-lo diretamente.

Edward abriu ali mesmo, os olhos correndo pelas linhas escritas com cuidado excessivo. O silêncio entre eles tornou-se denso, carregado de algo que nenhum dos dois fingia mais ignorar.

— Você escreveu que me ama — ele disse finalmente, a voz mais baixa.

Bella sentiu o coração bater no pescoço.

— Escrevi.

— Você nunca diz isso.

— Talvez eu estivesse esperando você fazer dezoito anos para levar a sério.

Ele deu um passo à frente.

— Eu sempre levei você a sério.

O vento soprou entre eles, levantando uma mecha do cabelo dela. Bella manteve o queixo erguido, mas os olhos brilhavam com vulnerabilidade que só ele parecia perceber.

— Eu quero o mundo, Edward — ela disse, quase como um aviso. — Quero escrever. Quero sair daqui. Não quero ser só… esposa de alguém.

Ele não hesitou.

— Então eu vou ao seu lado. Onde quer que seja.

Foi ali, sob o céu alaranjado de junho de 1959, que o primeiro beijo deles aconteceu — desajeitado, urgente, jovem demais e sincero demais para caber no futuro que os aguardava.

Eles ainda não sabiam.

Que em poucos anos trocariam discussões sobre The Beatles e The Rolling Stones por silêncios pesados.

Que a palavra “convocação” destruiria o verão.

Que promessas feitas com dezoito anos seriam testadas pelo fogo.

Mas naquela noite, enquanto Edward encostava a testa na dela e murmurava que passaria o resto da vida tentando ser digno da carta que recebera, tudo o que existia era o presente.

E o presente era amor.

E o amor, naquela idade, parecia suficiente para vencer qualquer guerra.