The Long and Winding Road
3 Blowin’ in the Wind
O jardim dos Swan estava iluminado por pequenas lâmpadas penduradas entre as árvores, projetando círculos dourados sobre a grama recém-cortada. O verão de 1959 parecia ter decidido que nunca acabaria, espalhando calor e cheiro de terra úmida enquanto o rádio portátil de Emmett tocava sucessos que todos fingiam saber a letra inteira. Risadas ecoavam pelo quintal, misturadas ao som desafinado do violão que Edward tentava manter em harmonia enquanto Jasper discutia acordes e Jacob Black reclamava que ninguém ali realmente sabia tocar direito.
Bella estava sentada no chão, encostada no tronco da velha macieira, usando calças jeans dobradas na barra e uma camisa clara com as mangas arregaçadas até os cotovelos. O livro aberto em seu colo destoava completamente da cena juvenil ao redor. Enquanto as outras garotas da cidade comentavam sobre penteados e vestidos rodados, ela estava mergulhada em Wuthering Heights, completamente absorta.
— Você está lendo isso de novo? — James Platt perguntou, aproximando-se com um sorriso enviesado, inclinando-se sobre o ombro dela para tentar enxergar a página.
— Não “de novo”. Ainda — Bella respondeu sem levantar os olhos.
Jacob sentou-se do outro lado, arrancando uma folha de grama e girando-a entre os dedos.
— É aquele livro depressivo do cara que ama a mulher do outro, não é?
— É sobre paixão, obsessão, natureza humana — Bella corrigiu, fechando o livro parcialmente para marcar a página. — Mas imagino que isso seja complexo demais para você entender.
Paul Lahote soltou uma risada curta.
— Olha só, a senhorita intelectual nos insultando outra vez.
James inclinou-se ainda mais, quase invadindo o espaço pessoal dela.
— Eu prefiro histórias mais… animadas.
— Eu também — Jacob acrescentou, piscando.
Bella ergueu o queixo.
— O problema é que vocês confundem animado com superficial.
Emmett, que até então estava distraído discutindo algo com Jasper, percebeu a roda formada ao redor da irmã e caminhou até lá com passos largos demais.
— O que está acontecendo aqui?
Sem aviso, ele arrancou o livro das mãos de Bella.
— Ei!
— Vamos ver o que minha irmã anda lendo — anunciou ele teatralmente, abrindo numa página aleatória.
Bella levantou-se num impulso, mas já era tarde.
Emmett começou a ler em voz alta um trecho intenso entre Cathy e Heathcliff, carregado de emoção e desejo, mas sem detalhes explícitos — apenas a força crua da entrega entre os personagens. O silêncio foi imediato. Rosalie levou a mão à boca, Alice arregalou os olhos, e até Edward parou de tocar.
— “Se tudo o mais perecesse, e ele permanecesse, eu ainda continuaria a existir…” — Emmett interrompeu a leitura abruptamente, os olhos se arregalando. — Bella!
Ela cruzou os braços.
— É literatura.
— Isso é praticamente indecente! — ele retrucou, fechando o livro com força. — Se o pai sonhar que você está lendo isso, ele mata você. E depois me mata por deixar.
— É sobre sentimentos humanos, Emmett — Bella rebateu. — Amor não é só flores e pedido de casamento. Existe desejo. Existe escolha.
Paul franziu a testa.
— Escolha? Mulher não tem que escolher essas coisas. Isso é… errado.
Bella virou-se para ele, os olhos brilhando de irritação genuína.
— Errado é fingir que mulheres não têm os mesmos desejos que homens. Errado é achar que só vocês podem falar sobre isso.
Jacob balançou a cabeça.
— Você fala como se fosse revolucionária.
— Talvez eu seja — ela respondeu, firme. — Já ouviu falar em anticoncepcional? Está começando a ser discutido. Mulheres podem decidir quando querem ter filhos.
O choque foi coletivo.
— Isso é absurdo — Paul disparou. — Mulher foi feita para casar e ter filhos.
— Mulher foi feita para ser humana — Bella rebateu imediatamente.
O clima tornou-se elétrico. Emmett coçou a nuca, desconfortável.
— Bells, você vai arrumar problema falando assim.
— Então que arrume.
Foi quando Edward finalmente se levantou, deixando o violão de lado.
Ele caminhou até ela devagar, mas havia firmeza no olhar.
— Ela não está errada — disse, simples.
Todos olharam para ele.
— Vocês falam como se ela fosse estranha por pensar — continuou. — Eu acho que é exatamente isso que faz dela diferente.
James ergueu as sobrancelhas.
— Você gosta é do desafio.
Edward não sorriu.
— Eu gosto dela.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que qualquer piada anterior.
Antes que alguém pudesse responder, a porta da frente da casa abriu-se com um rangido familiar.
Charlie Swan surgiu na varanda, ainda com o uniforme parcialmente desalinhado do dia de trabalho, a postura rígida mesmo fora de serviço. O olhar dele percorreu o quintal rapidamente — os rapazes espalhados, as risadas cessando, a música baixa demais.
Então viu Bella.
Sentada no meio dos homens.
De calça.
Livro na mão.
Enquanto Alice e Rosalie estavam próximas à mesa, ambas de vestido claro e postura delicada.
— Isabella — a voz dele cortou o ar.
Ela se levantou lentamente.
— Pai.
Ele desceu os degraus da varanda com passos firmes.
— O que é isso?
— Estamos conversando.
— Sentada no chão, no meio de cinco rapazes?
— Eu consigo me defender — respondeu ela, firme.
Charlie passou a mão pelo rosto.
— Ficar com a cara nesses livros não é futuro. Alice já está noiva. Rosalie também. Você precisa começar a pensar na sua vida.
— Eu estou pensando — Bella retrucou.
— Pensando não enche casa de comida. Mulher precisa de estabilidade.
O olhar dela endureceu.
— Eu não quero ser só estabilidade para alguém.
Charlie respirou fundo, a frustração evidente.
— Do jeito que vai, você vai ficar para titia.
O comentário pairou no ar como um desafio.
Foi então que Jasper, encostado na cerca, cruzou os braços e soltou com naturalidade inesperada:
— Se dependesse apenas do Edward, isso nunca aconteceria.
Todos olharam para Edward.
E ele não desviou.
Pela primeira vez naquela noite, Bella sentiu que não estava sozinha na própria rebeldia.
E enquanto o verão seguia quente e imprudente ao redor deles, algo silencioso se firmava: o mundo podia tentar moldá-la.
Mas ela não seria moldada sem lutar.
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