The Long and Winding Road
4 Bridge Over Troubled Water
Notas iniciais
(Final de agosto, início de setembro de 1959)
O verão começava a perder a força, mas ainda resistia nas tardes longas e douradas que faziam a cidade inteira parecer suspensa entre a juventude e algo que ninguém sabia nomear. A varanda dos Swan estava cheia naquela noite. As duas famílias dividiam o espaço como se fossem uma só — cadeiras de madeira alinhadas, copos de limonada suando sobre a mesa, o cheiro de carne assando no quintal misturado ao riso alto de Emmett.
Carlisle conversava com Charlie sobre o hospital da cidade, os dois homens com aquele respeito silencioso que nasce da admiração mútua. Renée ria de algo que Esme comentava, inclinando-se para tocar o braço da amiga com carinho natural. Havia ali uma harmonia doméstica que fazia tudo parecer seguro demais para ser verdade.
No gramado, os jovens ocupavam o espaço com energia desorganizada. Jasper encostado na cerca, Alice sentada com as pernas cruzadas como uma boneca perfeitamente posicionada, Rosalie com postura impecável mesmo ao ar livre. E Bella — sentada diretamente na grama, de calça jeans e camisa clara, o livro aberto sobre os joelhos, completamente indiferente ao fato de estar cercada por cinco rapazes.
— Você vai acabar criando raiz aí — Jacob Black comentou, chutando levemente o pé dela.
— Ótimo — Bella respondeu sem erguer os olhos. — Assim ninguém me move.
James Platt inclinou-se por cima do ombro dela.
— O que é agora? Outro daqueles livros dramáticos?
— Literatura clássica — ela corrigiu, fechando parcialmente o exemplar de Wuthering Heights. — Algo que exige mais do que três neurônios funcionando ao mesmo tempo.
Paul soltou uma gargalhada curta.
— Você fala como se fosse melhor que a gente.
— Eu não falo. Vocês que se sentem assim.
Emmett aproximou-se com passos pesados, arrancando o livro das mãos dela antes que pudesse impedir.
— Vamos descobrir que tipo de coisa minha irmã anda lendo escondido.
— Emmett Swan, devolve isso.
Ele abriu numa página qualquer e começou a ler em voz alta um trecho intenso entre Cathy e Heathcliff, carregado de emoção e desejo implícito. Não havia detalhes explícitos, mas a intensidade da linguagem bastava para deixar todos desconcertados.
Alice levou a mão à boca.
Rosalie arregalou os olhos.
Paul quase engasgou com a própria risada.
— Isabella! — Emmett fechou o livro abruptamente. — Se o pai sonha que você tá lendo isso, ele te coloca num convento.
— É um romance trágico, não um manual de perdição — Bella rebateu, levantando-se e arrancando o livro de volta.
— Fala de desejo — Jacob comentou, com um meio sorriso.
— Desejo é parte da condição humana — Bella respondeu imediatamente. — Inclusive feminina, caso vocês não saibam.
O silêncio caiu por um segundo.
Paul franziu a testa.
— Lá vem você com essas ideias.
— Que ideias? — ela desafiou. — De que mulheres têm direito a escolher? De que podem decidir se querem casar, ter filhos… ou usar anticoncepcional?
James soltou um assobio baixo.
— Isso é papo perigoso.
— Perigoso pra quem? — ela retrucou.
Edward, que até então observava encostado no tronco da árvore, afastou-se e aproximou-se dela.
— Ela não está errada — disse com calma.
Todos olharam para ele.
— Só porque vocês não estão acostumados a ouvir uma mulher falar assim não significa que ela esteja errada.
Bella cruzou os braços, mas havia algo diferente no olhar dela ao encarar Edward — surpresa misturada com gratidão contida.
Antes que a discussão escalasse, Charlie apareceu na varanda.
— Edward, venha aqui um minuto.
O tom não era severo, mas exigia obediência.
Edward subiu os degraus da varanda, postura ereta quase instintiva.
— Senhor Swan.
Charlie apoiou as mãos na cintura, analisando-o.
— O que você quer com a minha filha?
Edward não hesitou.
— Quero namorá-la oficialmente.
Renée parou no meio da conversa com Esme. Carlisle ergueu levemente as sobrancelhas.
Charlie manteve o silêncio por alguns segundos.
— Você entende que Isabella não é… simples?
— Entendo — Edward respondeu. — É exatamente por isso.
Charlie o observou com mais atenção. Havia ali firmeza, mas também respeito.
— Traga todos de volta antes da meia-noite quando forem ao cinema — disse, tirando dinheiro do bolso. — E mantenha as coisas… apropriadas.
Emmett, que ouvira metade da conversa da escada, gritou:
— Pai, manda a Bella ir de calça!
O comentário ecoou pelo quintal.
Charlie virou-se para a filha.
— Vá de calça, Isabella.
— O quê? — Alice perguntou, chocada.
Rosalie piscou, confusa.
— É para proteger o Edward safadinho aqui — Emmett completou, apontando para o amigo e caindo na gargalhada.
O riso se espalhou imediatamente. Até Jasper deixou escapar um sorriso discreto.
Bella colocou as mãos na cintura.
— Eu sempre uso calça.
— Exatamente — Emmett rebateu, piscando para Edward. — Segurança máxima.
Edward ficou vermelho, mas não desviou o olhar dela.
— Eu não preciso de proteção contra ele — Bella declarou.
— Eu sei — Edward respondeu, baixo o suficiente para que só ela ouvisse.
—
No dia seguinte, as garotas caminharam pela rua principal. Alice e Rosalie entraram na loja de vestidos, comparando tecidos e cortes. Bella entrou com elas, observou por alguns minutos e saiu com um embrulho diferente nas mãos.
— Outro livro? — Jacob perguntou quando a viu.
— Claro.
Dessa vez ninguém criticou.
Emmett apenas deu de ombros.
— Pelo menos ela é consistente.
Sentaram-se no gramado antes de ir ao cinema quando Jacob lançou a pergunta:
— Qual o sonho de vocês?
Emmett respondeu primeiro.
— Ser militar como o pai. Casar com a Rose. Ter nove filhos.
— Nove não — Rosalie retrucou. — No máximo três.
Risos.
— Quero ser advogado — Jasper disse. — E eu e Alice queremos muitos filhos também.
Alice confirmou com entusiasmo.
— Engenharia — Paul disse. — Dinheiro. Casa grande. Uma esposa em casa.
— Administração — James completou. — E diversão à noite.
Bella revirou os olhos de forma dramática.
— Vocês são previsíveis.
— E você, Cullen? — Jacob provocou.
— Médico — Edward respondeu. — Vida estável. Igual meus pais.
Então todos olharam para Bella.
Ela demorou alguns segundos.
— Quero estudar literatura. Escrever livros. Conhecer o mundo. Morar em Londres. Talvez ser vizinha dos The Beatles.
O rebuliço foi imediato.
— Londres? — Paul quase caiu para trás.
Charlie, que se aproximava, ouviu a última parte.
— Isso é fantasia.
— Não. É plano — Bella respondeu.
Edward apenas a observava como se ela tivesse acabado de revelar um segredo precioso.
—
No cinema, as luzes se apagaram lentamente.
Bella sentou-se ao lado de Edward, consciente da proximidade, do braço dele roçando o dela.
No meio do filme, ele sussurrou:
— Você realmente iria embora?
— Se fosse preciso.
Ele segurou a mão dela.
— Então eu iria com você.
Ela virou o rosto, surpresa.
— Você não precisa seguir meus sonhos.
— Eu quero.
Na escuridão, ele inclinou-se e a beijou. Não foi impulsivo. Foi decidido.
Como se estivesse escolhendo.
E naquela noite, entre risadas, provocações e promessas sussurradas, o amor deles deixou de ser apenas juvenil.
Passou a ser intenção.
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