Notas iniciais
Oiie gente! Tudo bem? Escrevi essa fic durante o final de semana e espero que vocês gostem <3

Era 15 de março de 1971, e a casa dos Cullen estava cheia de vozes femininas tentando soar normais demais para um tempo que nunca era verdadeiramente normal. A primavera começava a insinuar-se pelas janelas abertas, trazendo um vento suave que fazia as cortinas dançarem com delicadeza quase ofensiva diante da tensão constante que pairava sobre qualquer lar americano desde que a Guerra do Vietnã passara a engolir maridos, filhos e pais sem devolver todos de volta. Isabella Cullen , que ainda odiava quando a chamavam assim, estava deitada no sofá da sala, com uma manta leve sobre as pernas e uma expressão de impaciência contida que denunciava o quanto detestava estar ali, imóvel, dependente, vigiada. A gravidez era de risco, o médico fora claro, e Carlisle escrevera em uma das últimas cartas que, se pudesse, estaria ao lado dela fiscalizando cada passo. Mas ele não estava. Nenhum deles estava. Edward, Jasper e o próprio Carlisle permaneciam do outro lado do mundo, e a ausência deles era um móvel pesado no centro da casa, algo que todas contornavam, mas nunca conseguiam ignorar completamente.

Renée movimentava-se na cozinha com eficiência nervosa, mexendo panelas que não precisavam ser mexidas, como se o barulho do metal contra o fogão pudesse calar pensamentos indesejados. Alice, meticulosa como sempre, ajeitava almofadas já alinhadas, recolhia brinquedos que Anthony espalhava minutos depois, e sorria com uma doçura que parecia esforço físico. Esme estava sentada no tapete da sala, segurando o pequeno Anthony, de quatro anos, no colo, enquanto a pequena Audrey, filha de Alice, de 5 anos, brincava com bonecas barbies aos seus pés. Rosalie permanecia numa poltrona próxima à janela, embalando alternadamente os gêmeos recém-nascidos contra o peito, murmurando canções quase inaudíveis que falavam de ninar e esperar. Era um retrato doméstico de mulheres sustentando a retaguarda de uma guerra que nunca haviam escolhido, mas que lhes cobrava tudo.

Bella suspirou, tentando erguer-se um pouco, e imediatamente quatro olhares a repreenderam com o mesmo gesto silencioso.

— Eu não estou inválida — murmurou ela, passando a mão pela barriga já evidente, sentindo o peso do segundo filho crescer dentro de si como uma promessa e um medo simultâneos.

— E não está — respondeu Alice, aproximando-se para ajeitar a manta outra vez, o toque leve demais, como se Bella fosse feita de vidro. — Só está protegendo o que é mais importante agora.

Bella virou o rosto, encarando o teto. Proteger. A palavra sempre vinha carregada demais. Edward também usara aquela palavra quando a deixara pela primeira vez, anos antes, dizendo que não era mais o homem que ela merecia depois de retornar quebrado da guerra. Proteger. Ela quase riu, mas o som morreu antes de nascer. Ele tinha prometido que, daquela vez, seria diferente. Tinha prometido que voltaria. Tinha prometido que não a deixaria enfrentar o mundo sozinha de novo.

A campainha tocou.

Não foi um toque longo ou insistente. Foi um som simples, direto, cortando a casa ao meio como uma lâmina invisível. Todas pararam. Até Anthony levantou a cabeça, como se percebesse que algo naquele som não combinava com o resto do dia.

Renée apareceu na porta da cozinha, enxugando as mãos no avental.

— Eu atendo — disse, mas sua voz saiu mais baixa do que pretendia.

Bella sentiu primeiro o frio. Um arrepio que começou na base da coluna e subiu devagar, espalhando-se pelos ombros, alcançando a nuca. Ela conhecia aquele frio. Tinha sentido algo parecido dois anos antes, quando dois homens de uniforme vieram falar sobre Charlie. A memória não era apenas lembrança; era física. Seu coração começou a bater alto demais, rápido demais, e o ar pareceu rarear na sala.

A porta se abriu.

Houve um murmúrio formal. Vozes masculinas. O som pesado de passos entrando na casa.

Bella tentou sentar-se, ignorando a pontada incômoda no baixo-ventre.

— Bella, não — sussurrou Esme, mas já era tarde.

Os dois militares surgiram na entrada da sala. Uniformes impecáveis. Postura rígida. Entre eles, uma pequena caixa de madeira escura e uma bandeira americana cuidadosamente dobrada em triângulo perfeito. A imagem não era desconhecida; era parte de um ritual cruel que o país aprendera a repetir com precisão assustadora.

— Senhora Isabella Cullen? — perguntou o mais alto, a voz treinada para firmeza e compaixão medida.

O nome ecoou como algo estranho. Isabella. Só Edward a chamava assim quando queria provocá-la ou quando estava sério demais.

Bella levantou-se completamente agora, apesar dos protestos abafados ao redor. Sentiu as pernas vacilarem, mas permaneceu em pé. Ela precisava estar de pé.

— Sou eu — respondeu, e a própria voz lhe pareceu distante, como se viesse de outra mulher.

O segundo militar deu um passo à frente, segurando a bandeira com mais cuidado do que se seguraria um recém-nascido.

— Em nome do Presidente dos Estados Unidos e de uma nação agradecida, lamentamos informar que seu marido, o soldado Edward Cullen, morreu em combate no dia 3 de março de 1971, durante uma ofensiva na província de Quảng Trị. O corpo não pôde ser recuperado devido à intensidade do incêndio causado por explosivos. Ele foi declarado morto em serviço à pátria.

As palavras não chegaram todas de uma vez. Vieram fragmentadas. Morrer. Combate. Incêndio. Corpo não recuperado.

Sem corpo.

Sem Edward.

Bella piscou, esperando que o mundo voltasse ao lugar, que alguém risse e dissesse que havia sido um engano grotesco. Mas ninguém riu. O silêncio da sala tornou-se denso, quebrado apenas pelo choro repentino de um dos gêmeos de Rosalie.

— Não — Bella sussurrou primeiro, quase educadamente, como se estivesse corrigindo um erro trivial. — Não… isso não está certo.

Ela deu um passo à frente, aproximando-se dos homens, os olhos fixos na bandeira dobrada.

— Ele prometeu — continuou, a voz ganhando força desesperada. — Ele prometeu que voltaria. Ele prometeu que não faria isso comigo de novo.

Renée levou a mão à boca, as lágrimas já escorrendo sem controle. Esme fechou os olhos por um segundo longo demais, como se o coração tivesse parado ali dentro. Alice começou a chorar em silêncio, o rosto enterrado no ombro de Jasper ausente apenas na memória.

— Senhora Cullen — o militar tentou, mas Bella ergueu a mão, interrompendo-o.

— Não me chame assim como se fosse oficial. Ele não é um comunicado. Ele é meu marido — a voz quebrou na última palavra. — Ele é o pai do meu filho.

Anthony, alheio ao significado, correu até as pernas da mãe e abraçou-as, olhando curioso para os homens de uniforme. Bella sentiu o toque pequeno e quente, e aquilo a partiu de um jeito diferente.

Ela levou a mão ao peito, tentando puxar ar, mas o ar não vinha. O mundo girou, as bordas da visão escurecendo.

— Ele não pode estar morto — repetiu, agora mais fraco. — Não sem… não sem eu vê-lo. Não sem eu tocar nele. Não sem…

A palavra final nunca saiu. Suas pernas cederam, e antes que atingisse o chão, Rosalie e Esme a seguraram. A bandeira ainda estava ali, imóvel, perfeita, como se a perfeição da dobra pudesse compensar o caos que ela representava.

Bella começou a chorar então. Não era um choro contido ou digno. Era um som cru, rasgado, que vinha do fundo do peito, como se cada lágrima arrancasse um pedaço dela. Ela chorava pelo menino que discutia Beatles com Emmett, pelo jovem que a pedira em namoro pela décima vez até que ela finalmente cedesse, pelo homem que segurara sua mão na estação de trem prometendo voltar, pelo marido que a beijara na testa antes de partir pela segunda vez, jurando que aquela seria a última.

Ela chorava porque não havia corpo.

Porque não havia despedida.

Porque ele tinha prometido.

E promessas feitas sob céus de verão não deveriam morrer em incêndios distantes.

Anthony começou a chorar também, assustado com o som da mãe. Esme o pegou no colo, embalando-o enquanto lágrimas silenciosas caíam sobre os cabelos do neto. A casa inteira parecia respirar em soluços.

Os militares permaneceram por mais alguns segundos, entregaram a bandeira às mãos trêmulas de Renée e a caixa a Rosalie, murmuraram condolências formais e se retiraram, deixando atrás de si um vazio que parecia ocupar cada centímetro da sala.

Bella ficou ali, ajoelhada, as mãos apoiadas no chão, os cabelos caindo sobre o rosto, o corpo sacudido por lágrimas que não tinham fim. Dentro dela, o bebê se moveu, um lembrete cruel de que a vida insistia em continuar mesmo quando tudo parecia ter acabado.

Naquela tarde de março, a casa dos Cullen aprendeu novamente que algumas guerras não terminam quando os tiros cessam.

Elas continuam ecoando dentro das pessoas que ficam.

E, para Bella, Edward Cullen não era apenas um nome anunciado em voz solene.

Era o amor que lhe prometeram de volta.

Era o homem que jurou sobreviver.

Era o futuro que agora lhe entregavam dobrado em forma de bandeira.