The Long and Winding Road
15 In My Life
Os dias seguintes foram difíceis de explicar.
Bella aprendia lentamente que a dor do luto não era uma ferida aberta o tempo todo. Havia momentos em que ela conseguia respirar normalmente, falar com as crianças, organizar a casa e até sorrir quando Anthony tentava tocar o violão antigo do pai. Mas existiam outros instantes — silenciosos, pesados e inesperados — em que algo dentro dela simplesmente parava de funcionar, como se a mente tivesse decidido que continuar vivendo era uma tarefa cansativa demais para ser suportada.
Renée ficava ao lado da filha quase o tempo inteiro.
Esme também.
As duas mulheres tentavam oferecer apoio de formas diferentes. Renée sugeria mudanças, viagens, um novo começo em outro país. Londres surgia novamente como possibilidade.
— Você é jovem, Bella — dizia a mãe. — Ainda tem uma vida inteira pela frente.
Mas Bella balançava a cabeça.
— Cada canto dessa casa tem Edward.
Esme compreendia melhor que qualquer pessoa.
Ela sabia que o amor não desaparece quando alguém morre. Ele apenas muda de forma e continua respirando dentro das memórias.
—
Anthony começou a passar cada vez mais tempo perto do violão que pertencera a Edward.
O menino tinha apenas quatro anos, mas havia algo nele que lembrava profundamente o pai, a forma silenciosa de observar o mundo antes de falar, a curiosidade calma, a atenção aos detalhes.
Numa tarde, Anthony estava sentado no tapete da sala, tentando dedilhar as cordas com os pequenos dedos.
Bella observava da escada.
O som era desajeitado, infantil, mas extremamente precioso.
Ela se aproximou devagar.
— Está tentando tocar, meu amor?
— Quero aprender como o papai.
A pergunta que veio depois partiu o coração de Bella lentamente.
— Mamãe… o papai vai voltar?
Bella sentiu a garganta fechar.
Ela se ajoelhou diante do filho e segurou o rosto pequeno dele com as duas mãos.
— O papai está trabalhando em um lugar muito longe — disse com voz suave.
— Ele está cuidando de pessoas especiais.
Anthony inclinou a cabeça.
— Podemos ir visitar ele?
O silêncio que se seguiu foi quase doloroso.
Bella respirou fundo antes de responder:
— Um dia, nós vamos nos reencontrar.
Ela fez uma pausa.
— Edward está bem. Ele está com o vovô Charlie e está cuidando de vocês mesmo de longe.
O menino olhou para ela com confusão infantil, incapaz de compreender completamente aquelas palavras.
Bella sorriu com tristeza.
— Vou te dar algo.
Ela foi até o quarto e voltou com o violão de Edward.
Anthony segurou o instrumento como se fosse algo sagrado.
Bella começou a contar histórias da juventude do pai , das tardes de verão quando Edward tocava violão para ela na varanda, das discussões sobre música, da primeira vez que cantaram juntos na praia de La Push.
— Um dia, na praia de La Push — contou ela —Seu pai cantou In My Life para mim.
Anthony ouviu em silêncio.
—
Mais tarde, Emmett foi conversar com Bella.
Os dois ficaram observando Anthony no chão da sala tentando imitar os acordes que havia visto o pai fazer.
O silêncio entre os irmãos era confortável, mas carregado de memórias.
— Você lembra daquele verão antes da guerra? — Emmett perguntou.
Bella assentiu.
— A praia de La Push, contei hoje isso para o Anthony...
— Edward tocando para nós.
Bella sorriu levemente.
— Ele cantou Beatles e Rolling Stones até Rosalie reclamar que a areia estava entrando no vestido dela.
Emmett riu, mas o som veio acompanhado de uma dor profunda.
Depois o rosto dele ficou sério.
— Jasper me contou.
Bella virou lentamente.
— O quê?
— Que Edward foi no lugar dele naquela missão.
O silêncio que se seguiu foi denso.
Bella respirou fundo.
E então algo mudou dentro dela.
A tristeza que havia dominado seus primeiros meses de luto começou a dar espaço para algo diferente.
Raiva.
Inconformação.
— Eu fiquei muito puta com Edward — disse Bella, a voz baixa, controlada, mas carregada de emoção. — Ele era médico. Não precisava ter feito aquilo.
Os olhos dela ficaram úmidos.
— Ele não precisava morrer.
A voz que saiu depois era quase um sussurro.
— Eu ainda não consigo acreditar que ele morreu.
Emmett colocou a mão no ombro da irmã.
— Eu também não consigo.
—
Alice chegou alguns minutos depois com a pequena Audrey.
Ela havia ouvido parte da conversa, mas ficou em silêncio ao perceber a dor que ainda habitava o coração da irmã.
Bella não falou nada.
Porque naquele estágio do luto, a tristeza já não gritava.
Ela havia se transformado numa espécie de vazio inconformado.
Uma parte de Isabella Cullen parecia ter morrido com Edward.
A outra parte que restava vivia apenas pelos filhos.
—
No Vietnã, Eleazar disse a Edward que era hora de partir para a base militar.
O soldado tentou esconder a alegria que sentia ao ouvir a notícia.
Mesmo com o corpo ainda dolorido, a possibilidade de voltar ao contato com o exército significava que estava mais perto de retornar para casa.
Edward agradeceu profundamente à família Denali antes de partir.
— Vocês salvaram minha vida — disse ele.
Tânia ficou em silêncio enquanto o observava.
Havia tristeza nos olhos dela, mas também uma compreensão silenciosa.
—
A viagem até a base militar levou mais de quatro horas.
Quando Edward chegou, encontrou James.
O amigo o encarou por alguns segundos antes de correr e abraçá-lo com força.
James chorou.
Chorou como não havia feito desde o início da guerra.
— Você está vivo… meu Deus… você está vivo.
Edward apenas permaneceu imóvel por alguns segundos antes de responder:
— Sim.
James contou tudo.
Sobre o funeral.
Sobre Bella.
Sobre Anthony.
E mostrou uma fotografia que Emmett havia enviado — Bella com os dois filhos.
Edward passou muito tempo olhando a imagem.
Os dedos tremiam levemente.
O rosto dela parecia mais maduro.
Mais cansado.
Mais quebrado.
Mas ainda era Bella.
—
Os militares informaram que ele passaria por uma bateria de exames antes de receber alta para retornar aos Estados Unidos.
Edward apenas assentiu.
Porque naquele momento, a única coisa que ocupava sua mente era uma promessa silenciosa que se recusava a morrer dentro dele.
Ele ainda precisava voltar para casa.
Para Bella.
Para Anthony.
Para Charlotte.
E para a mulher que, mesmo acreditando que ele estava morto, continuava vivendo por amor.
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