Os dias seguintes foram difíceis de explicar.

Bella aprendia lentamente que a dor do luto não era uma ferida aberta o tempo todo. Havia momentos em que ela conseguia respirar normalmente, falar com as crianças, organizar a casa e até sorrir quando Anthony tentava tocar o violão antigo do pai. Mas existiam outros instantes — silenciosos, pesados e inesperados — em que algo dentro dela simplesmente parava de funcionar, como se a mente tivesse decidido que continuar vivendo era uma tarefa cansativa demais para ser suportada.

Renée ficava ao lado da filha quase o tempo inteiro.

Esme também.

As duas mulheres tentavam oferecer apoio de formas diferentes. Renée sugeria mudanças, viagens, um novo começo em outro país. Londres surgia novamente como possibilidade.

— Você é jovem, Bella — dizia a mãe. — Ainda tem uma vida inteira pela frente.

Mas Bella balançava a cabeça.

— Cada canto dessa casa tem Edward.

Esme compreendia melhor que qualquer pessoa.

Ela sabia que o amor não desaparece quando alguém morre. Ele apenas muda de forma e continua respirando dentro das memórias.

—

Anthony começou a passar cada vez mais tempo perto do violão que pertencera a Edward.

O menino tinha apenas quatro anos, mas havia algo nele que lembrava profundamente o pai, a forma silenciosa de observar o mundo antes de falar, a curiosidade calma, a atenção aos detalhes.

Numa tarde, Anthony estava sentado no tapete da sala, tentando dedilhar as cordas com os pequenos dedos.

Bella observava da escada.

O som era desajeitado, infantil, mas extremamente precioso.

Ela se aproximou devagar.

— Está tentando tocar, meu amor?

— Quero aprender como o papai.

A pergunta que veio depois partiu o coração de Bella lentamente.

— Mamãe… o papai vai voltar?

Bella sentiu a garganta fechar.

Ela se ajoelhou diante do filho e segurou o rosto pequeno dele com as duas mãos.

— O papai está trabalhando em um lugar muito longe — disse com voz suave.

— Ele está cuidando de pessoas especiais.

Anthony inclinou a cabeça.

— Podemos ir visitar ele?

O silêncio que se seguiu foi quase doloroso.

Bella respirou fundo antes de responder:

— Um dia, nós vamos nos reencontrar.

Ela fez uma pausa.

— Edward está bem. Ele está com o vovô Charlie e está cuidando de vocês mesmo de longe.

O menino olhou para ela com confusão infantil, incapaz de compreender completamente aquelas palavras.

Bella sorriu com tristeza.

— Vou te dar algo.

Ela foi até o quarto e voltou com o violão de Edward.

Anthony segurou o instrumento como se fosse algo sagrado.

Bella começou a contar histórias da juventude do pai , das tardes de verão quando Edward tocava violão para ela na varanda, das discussões sobre música, da primeira vez que cantaram juntos na praia de La Push.

— Um dia, na praia de La Push — contou ela —Seu pai cantou In My Life para mim.

Anthony ouviu em silêncio.

—

Mais tarde, Emmett foi conversar com Bella.

Os dois ficaram observando Anthony no chão da sala tentando imitar os acordes que havia visto o pai fazer.

O silêncio entre os irmãos era confortável, mas carregado de memórias.

— Você lembra daquele verão antes da guerra? — Emmett perguntou.

Bella assentiu.

— A praia de La Push, contei hoje isso para o Anthony...

— Edward tocando para nós.

Bella sorriu levemente.

— Ele cantou Beatles e Rolling Stones até Rosalie reclamar que a areia estava entrando no vestido dela.

Emmett riu, mas o som veio acompanhado de uma dor profunda.

Depois o rosto dele ficou sério.

— Jasper me contou.

Bella virou lentamente.

— O quê?

— Que Edward foi no lugar dele naquela missão.

O silêncio que se seguiu foi denso.

Bella respirou fundo.

E então algo mudou dentro dela.

A tristeza que havia dominado seus primeiros meses de luto começou a dar espaço para algo diferente.

Raiva.

Inconformação.

— Eu fiquei muito puta com Edward — disse Bella, a voz baixa, controlada, mas carregada de emoção. — Ele era médico. Não precisava ter feito aquilo.

Os olhos dela ficaram úmidos.

— Ele não precisava morrer.

A voz que saiu depois era quase um sussurro.

— Eu ainda não consigo acreditar que ele morreu.

Emmett colocou a mão no ombro da irmã.

— Eu também não consigo.

—

Alice chegou alguns minutos depois com a pequena Audrey.

Ela havia ouvido parte da conversa, mas ficou em silêncio ao perceber a dor que ainda habitava o coração da irmã.

Bella não falou nada.

Porque naquele estágio do luto, a tristeza já não gritava.

Ela havia se transformado numa espécie de vazio inconformado.

Uma parte de Isabella Cullen parecia ter morrido com Edward.

A outra parte que restava vivia apenas pelos filhos.

—

No Vietnã, Eleazar disse a Edward que era hora de partir para a base militar.

O soldado tentou esconder a alegria que sentia ao ouvir a notícia.

Mesmo com o corpo ainda dolorido, a possibilidade de voltar ao contato com o exército significava que estava mais perto de retornar para casa.

Edward agradeceu profundamente à família Denali antes de partir.

— Vocês salvaram minha vida — disse ele.

Tânia ficou em silêncio enquanto o observava.

Havia tristeza nos olhos dela, mas também uma compreensão silenciosa.

—

A viagem até a base militar levou mais de quatro horas.

Quando Edward chegou, encontrou James.

O amigo o encarou por alguns segundos antes de correr e abraçá-lo com força.

James chorou.

Chorou como não havia feito desde o início da guerra.

— Você está vivo… meu Deus… você está vivo.

Edward apenas permaneceu imóvel por alguns segundos antes de responder:

— Sim.

James contou tudo.

Sobre o funeral.

Sobre Bella.

Sobre Anthony.

E mostrou uma fotografia que Emmett havia enviado — Bella com os dois filhos.

Edward passou muito tempo olhando a imagem.

Os dedos tremiam levemente.

O rosto dela parecia mais maduro.

Mais cansado.

Mais quebrado.

Mas ainda era Bella.

—

Os militares informaram que ele passaria por uma bateria de exames antes de receber alta para retornar aos Estados Unidos.

Edward apenas assentiu.

Porque naquele momento, a única coisa que ocupava sua mente era uma promessa silenciosa que se recusava a morrer dentro dele.

Ele ainda precisava voltar para casa.

Para Bella.

Para Anthony.

Para Charlotte.

E para a mulher que, mesmo acreditando que ele estava morto, continuava vivendo por amor.