The Long and Winding Road
14 Hey Jude
O dia seguinte ao funeral de Edward foi o primeiro dia em que Bella realmente compreendeu o significado da palavra sobrevivência.
Não era viver.
Era continuar existindo quando uma parte de você já não estava mais no mundo.
A caixa entregue pelos militares estava sobre a cama, intacta, pesada como um fragmento físico da ausência de Edward.
Bella demorou vários minutos antes de abrir.
Quando finalmente o fez, o cheiro das roupas dele ainda estava presente dentro do recipiente.
Havia camisetas dobradas cuidadosamente, fotografias da família, objetos pessoais e uma carta inacabada.
A letra de Edward estava ali, interrompida no meio de uma frase.
Falava sobre a guerra.
Falava sobre a esperança de que ela terminasse.
Falava sobre sonhos que ele teve durante a última noite em que escreveu.
“Bella,
Hoje sonhei com o bebê.
Era uma menina.
Tenho certeza.
Ela tinha seus olhos.
Acho que deveríamos chamá-la de Charlotte se for menina.
Quando a guerra acabar, quero caminhar com você e Anthony pela praia…”
A frase terminava ali.
Bella tocou o papel com as pontas dos dedos, como se tentasse sentir o pulso do homem que escrevera aquelas palavras.
A caixa tornou-se o último vínculo físico que ela possuía com Edward.
—
A família tentava fazê-la comer.
Renée insistia com voz suave.
Esme colocava comida na mesa e pedia que Bella se sentasse com todos.
Anthony perguntava quando o pai voltaria.
Bella respondia sempre da mesma forma:
— O papai está trabalhando.
Mas quando todos se distraíam, ela voltava para o quarto.
Fechava a porta.
E deitava-se em posição fetal sobre o travesseiro de Edward, abraçando o objeto como se fosse o único resto vivo do marido.
Foi assim que Jasper a encontrou.
Ele bateu na porta.
Nenhuma resposta.
Abriu lentamente.
O coração apertou imediatamente ao ver a irmã naquele estado — abraçada ao travesseiro, corpo encolhido, silêncio absoluto preenchendo o quarto.
Jasper fechou a porta atrás de si.
Sentou-se perto da cama.
— Bella…
Ela não respondeu.
O silêncio permaneceu por quase um minuto antes que ele voltasse a falar.
— A culpa é minha.
Bella virou o rosto lentamente.
— O que você está dizendo?
As mãos de Jasper tremiam levemente.
— Eu deveria ter ido naquele lugar. Eu estava com febre por causa da inflamação do ouvido. Edward foi no meu lugar.
O choque atravessou o rosto de Bella.
Ela ficou imóvel.
Não chorou.
Não falou.
Apenas o encarou como se tentasse processar a informação que mudava tudo dentro dela.
Jasper continuou:
— Eu sinto como se tivesse matado meu melhor amigo.
Bella permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de dizer:
— Não fale isso.
Mas sua voz era vazia.
Porque dentro dela algo já estava quebrado demais para ser consertado.
—
Os meses seguintes foram sobrevivência.
Bella não vivia, ela apenas continuava existindo.
A gravidez avançava em meio ao luto pesado, numa madrugada, entrou em trabalho de parto.
O nascimento foi rápido, mas doloroso.
Carlisle realizou o procedimento com mãos firmes, embora o próprio rosto estivesse marcado pela tristeza silenciosa que carregava desde a morte do filho.
Quando a criança nasceu, o choro preencheu o quarto.
Era uma menina.
Bella segurou a filha com mãos trêmulas.
— Charlotte — disse ela.
Carlisle confirmou lentamente.
— Charlotte Swan Cullen será o nome registrado, como Edward desejou.
A menina tinha traços delicados.
Bella beijou a testa da filha antes de fechar os olhos, como se naquele momento estivesse tentando sentir Edward através da vida que ele ajudara a sonhar.
—
No Vietnã, Edward despertou do coma numa casa simples do povo Denali.
O teto de madeira e o som distante da natureza foram as primeiras coisas que ele percebeu ao abrir os olhos.
Eleazar Denali estava ao lado dele.
— Você está vivo — disse o homem.
Edward tentou se mover, mas o corpo estava extremamente fraco.
— Minha família… — murmurou.
— Você ficou desacordado por meses — respondeu Eleazar. — Ainda não está em condições de viajar.
O pensamento imediato de Edward foi Bella.
— Eu preciso avisar minha esposa.
Eleazar explicou que levaria algum tempo até que pudesse retornar à base militar.
Edward assentiu com dificuldade.
—
Tânia visitava-o frequentemente.
Ela o observava com silenciosa admiração.
Um dia, enquanto ajudava a trocar os curativos dele, reuniu coragem para falar.
— Eu acho que você poderia se apaixonar por mim — disse ela, a voz baixa.
Edward ficou em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Você é mil vezes mais linda que as estrelas, Tanya.
Ela sorriu, com tristeza contida.
— Mas?
Edward olhou diretamente para ela.
— Você já sabe a resposta.
Fez uma pequena pausa.
— Meu coração tem uma única dona.
— Bella — disse Tânya.
— Sim.
Ele fechou os olhos por um momento.
— Ela é tudo o que existe para mim.
—
Em Forks, Bella segurava Charlotte enquanto observava a chuva cair contra a janela.
O mundo havia mudado.
A guerra ainda existia.
E entre dois continentes separados pela dor e pelo silêncio, um homem ainda respirava pensando na mulher que esperava por ele.
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