The Long and Winding Road
9 Crying
Os dois anos seguintes passaram como uma maré lenta e silenciosa, como se o tempo tivesse aprendido a respeitar o peso que a guerra deixava nas casas da cidade de Forks. A vida continuou de forma estranhamente organizada para quem ficara, quase como se cada pessoa tentasse convencer a própria mente de que a normalidade ainda existia. Emmett e Rosalie haviam se casado durante esse período, assim como Alice e Jasper. Os dois casamentos foram momentos de rara alegria dentro de um cenário onde a ausência parecia mais presente do que qualquer celebração.
Emmett chorou escondido atrás da casa no dia do próprio casamento, tentando manter a postura de homem grande que sempre assumira desde menino, mas Rosalie o encontrou e apenas o abraçou sem dizer nada, porque algumas dores não precisam de palavras. Jasper e Alice foram mais silenciosos — o casamento deles parecia feito de olhares longos, mãos entrelaçadas e promessas ditas sem voz, como se o amor deles fosse naturalmente compreensivo. Edward não esteve presente em nenhum dos dois casamentos.
Ele continuava na guerra.
James compareceu. Charlie e Carlisle também estavam lá, tentando representar a presença dos ausentes.
Bella havia lançado um romance durante aquele período.
O livro falava sobre amor e guerra, sobre um homem que partia para o combate carregando o coração de uma mulher que escrevia para ele todas as noites. O protagonista tinha algo da personalidade de Edward, embora ninguém comentasse isso em voz alta. A história tinha o tom da saudade, da distância e da esperança teimosa que se recusava a morrer mesmo quando o mundo parecia determinado a destruir qualquer possibilidade de felicidade.
O mais surpreendente era o final.
O casal principal sobrevivia.
Eles voltavam um para o outro.
Bella nunca explicou publicamente de onde vinha a inspiração, mas aqueles que a conheciam bem entendiam.
Edward recebeu o livro em uma remessa junto com outras cartas.
Sentou-se sozinho no alojamento quando abriu o exemplar.
Leu lentamente.
Cada página parecia falar com ele.
O personagem masculino carregava culpa, medo de não ser suficiente, e uma convicção silenciosa de que a mulher que amava merecia um mundo melhor do que aquele que ele poderia oferecer.
Edward fechou o livro depois de terminar a leitura e permaneceu alguns minutos olhando para o teto de madeira do alojamento.
Bella era extraordinária.
Ele percebeu, com um misto de orgulho e dor, que a semelhança entre ele e o personagem era deliberada, quase confessional, como se cada linha fosse uma forma de Bella continuar falando com ele através da literatura.
Naquela mesma noite, Edward escreveu uma carta.
“Bella,
Li seu livro.
Você sempre disse que queria escrever sobre o mundo e agora você fez isso melhor do que eu poderia imaginar.
Você é mais talentosa do que qualquer pessoa que conheci.
O personagem principal me lembra coisas que tenho medo de dizer em voz alta. Medo de voltar diferente demais para você. Medo de descobrir que a guerra levou partes de mim que eu não conseguirei recuperar.
Mas quero que saiba uma coisa.
Eu nunca vou amar alguém como amo você.
Isso não é uma promessa romântica.
É uma verdade que carrego mesmo quando tento imaginar o futuro sem você.
Mas eu preciso que você siga em frente, se um dia a vida exigir isso de você. Não por mim. Por nós dois.
Eu sempre vou amar você,
Edward.”
Bella recebeu a carta alguns dias depois.
Leu em silêncio.
Dobrou o papel novamente e guardou dentro do livro que escrevera.
Ela não respondeu.
E Edward esperou.
A carta seguinte nunca chegou.
—
Alguns dias depois, um novo combate começou.
O ataque foi brutal e rápido.
O som dos disparos ecoava pela selva úmida enquanto os soldados se moviam entre árvores e explosões de terra e fumaça. O número de mortos foi alto.
Entre os nomes confirmados estava o de Charles Swan.
—
A notícia chegou quinze dias depois.
A campainha da residência dos Swan tocou.
Renée abriu a porta.
Alice e Bella estavam na cozinha, falando sobre coisas simples, tentando manter a casa funcionando apesar da ausência constante que pesava sobre cada cômodo.
Quando Renée viu os homens uniformizados, seu corpo reagiu antes da mente.
A mãe caiu no chão chorando antes mesmo que a notícia fosse dita.
Bella correu até ela.
— Mãe… o que aconteceu?
Mas Renée apenas repetia o nome de Charlie entre lágrimas que pareciam não ter fim.
A notícia da morte de Charles Swan foi recebida com honras militares devido à sua patente.
O corpo chegou envolto na bandeira nacional, acompanhado de Emmett, Jasper, Edward e Carlisle.
O velório foi silencioso.
O caixão permaneceu fechado.
Renée não conseguiu tocar nele durante muito tempo. Alice chorava silenciosamente, apoiada em Jasper. Emmett estava grande demais para parecer quebrado, mas era impossível não perceber a forma como ele apertava os punhos e evitava olhar diretamente para o caixão do pai.
Bella permaneceu forte.
Não porque não sentia.
Mas porque sabia que a família precisava dela de pé.
Ela falou com as pessoas, organizou coisas simples, segurou a mão da mãe quando Renée parecia prestes a desmoronar completamente.
O vento do cemitério era frio naquele dia.
Quando começaram a enterrar Charlie, Renée soltou um grito baixo e angustiado que fez Emmett fechar os olhos com força.
Alice desmoronou no ombro de Jasper.
Rosalie segurou Emmett.
Bella permaneceu ereta ao lado do túmulo.
O rosto dela estava calmo demais.
Frio demais.
Mas dentro dela havia um buraco que ninguém poderia ver.
—
Depois do enterro, Emmett reuniu os amigos atrás da igreja.
— Eu estou preocupado com ela — disse.
James franziu a testa.
— Com Bella?
— Ela está fria por fora — Emmett continuou. — Mas por dentro deve estar péssima.
Jasper concordou lentamente.
— Bella sempre foi forte demais.
— E é isso que me assusta — Emmett disse. — Porque ela está forte pela mãe.
Ele respirou fundo.
— Acho que vou mandar elas para Londres com Rosalie. Para afastar a dor daqui.
— Pode ser uma boa levar Alice também.-Jasper assentiu.
Emmett passou a mão pelo rosto.
— Meu pai sempre quis que Bella tivesse estabilidade. Apesar de ela ser muito à frente do tempo dela.
Os quatro ficaram em silêncio por um momento.
Sabiam que a guerra havia mudado todos eles.
—
À noite, após o jantar, Edward chamou Bella para caminhar.
O céu estava escuro e silencioso.
— Bella — disse ele.
Ela virou-se.
Edward segurou a mão dela.
— Quero que você se case comigo.
O mundo pareceu parar.
Não era pedido impulsivo.
Era uma decisão feita com consciência da guerra, da dor e da incerteza.
Ele tirou o anel do bolso e mostrou novamente, como promessa antiga que ainda resistia ao tempo.
Bella não respondeu imediatamente.
Mas quando ele colocou o anel novamente no dedo dela, ela sabia que aquele momento havia chegado.
Antes de partir novamente para o combate, eles se casaram.
Sem grande festa.
Sem testemunhas além da família.
Mas com a certeza silenciosa de que, naquele instante, apesar da guerra, da morte e da distância, eles escolheram continuar pertencendo um ao outro.
Mesmo sabendo que o mundo ainda tentaria separá-los.
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