The Little Trickster
4 Olhos Negros
Logo após a missão que levou Castiel a encontrar a localização do demônio mais antigo de todos, Caim, ou Pai do Assassinato, o anjo começou a perambular pela terra no seu velho carro, um 1978 Lincoln Continental Mark V de cor amarela. Bem, não era realmente dele, mas lhe foi dado de presente pelos Winchesters.
Durante algumas semanas, tudo que ele fez foi bancar o pai preocupado de Claire, a filha de seu receptáculo, além de andar por ai ajudando algumas pessoas realmente necessitadas, usando seu dom de cura para salvá-los. Até que ele estava se virando bem, e a sua graça não estava completamente esgotada. Poderia se dizer que ele estava tão bem quanto um humano comum.
Mas existia algo diferente em Castiel. Ou melhor, algo que voltava ao normal: todo aquele conhecimento passado por Metatron a alguns meses atrás... Castiel não gostava de viver com algo que pertencia a seu inimigo dentro da sua cabeça e resolveu apagar aquilo de seu cérebro, quase como um programa a ser deletado de um computador (coisa que agora ele não entendia mais). Resolveu que, se era para aprender sobre os humanos, faria isso sem o presente de Metatron.
Agora o Cas era de fato o Cas.
E o anjo estava perto o suficiente de onde Dean e Sam se encontravam quando recebeu o chamado dos Winchesters. Respondeu ao chamado assim que terminou de fazer o seu lanche (dois X-Bacons), e então foi para Des Moines, onde Dean deu a sua localização exata para Castiel: um hotel comum, onde eles costumavam dormir antes de encontrarem o bunker.
– Coloca o endereço no mapa, vai achar rapidinho. – Dean deu a dica pelo telefone.
– Ah... – Castiel gaguejou. Não sabia como dizer que não conseguia mais usar aqueles aparelhos tão modernos.
– O que? – Dean perguntou, notando o tom de voz do amigo.
– Eu não sei exatamente como se usa isso. – Castiel revelou. Do outro lado da linha, Dean encarou Sam rapidamente. Estavam por viva voz.
– Tudo bem, Cas. Eu tenho um programa aqui que manda a nossa localização pro seu celular. – Sam avisa, já mexendo no celular.
– Ah... – Castiel hesitou mais uma vez. – Como faço pra ver esse programa? – os irmãos, do outro lado da linha, se entreolharam, como se enxergassem o velho Castiel.
Demorou quase uma hora para que os três pudessem se encontrar. Depois de ter se perdido no caminho duas vezes e ter que dizer a um policial que estava indo pra um hotel se encontrar com dois rapazes, Castiel finalmente achou o rumo para o hotel. Dean e Sam o esperavam do lado de fora, escorados na lateral do carro, enquanto conferiam as últimas descobertas sobre o caso do garoto. Agora eles tinham um nome.
Castiel desceu do carro, ficando de frente para os Winchesters.
– Sam... Dean... – chamou os irmãos pelo nome, que se encararam por um tempo, e voltaram os olhos para Cas.
– Você está bem, cara? – Dean foi o primeiro a perguntar. – Quer dizer, você não tinha toda a biblioteca nacional dentro de sua cabeça, e agora não sabe nem usar um celular?
– É complicado... – Castiel respondeu, mas não entrou em detalhes. – Por que me chamaram? Algum caso novo? – ele perguntou de forma branda, no seu velho jeito.
– Bom, parece que alguns anjos estão sendo assassinados por ai. – Sam contou, dando uma breve pausa. – Achamos que você sabe de alguma coisa, por isso ligamos.
– Eu não sei de muitas coisas que andam acontecendo no paraíso. Acabei desligando a rádio angelical, e não tenho muito contato com os outros anjos. Faz tempo desde que vi um. – Castiel revelou, mantendo-se parado, sem se mexer um centímetro.
– Então... Não sabe de nada que está acontecendo? — o Winchester mais velho perguntou.
– Não. – o anjo respondeu firme.
– Então vamos te manter atualizados. – Sam afirmou. – Vamos.
Os três foram para o quarto de hotel em que os Winchesters passariam a noite. Lá, Dean e Sam contaram para Castiel tudo que sabiam sobre os assassinatos: primeiro, contaram sobre o garoto. Com pesquisas e achando fotos do garoto na internet, eles descobriram seu verdadeiro nome: Aaron Benningan, desaparecido há dois anos. Sua mãe foi assassinada cruelmente durante uma invasão domiciliar. Os seus algozes também estavam mortos. Depois contaram sobre suas identidades falsas, e os lugares aonde ele viveu, ou melhor, se escondeu, além dos nomes falsos que ele usava.
– Parecia que ele não estava cometendo assassinato, e sim se defendendo dos anjos. – Sam, sentado em uma das camas, ao lado de Castiel, que ocupava a perna da outra cama, explicou para o anjo. – Agora não sabemos o porquê dos anjos estarem atacando o garoto, por isso achamos que você saberia.
Sim, Castiel sabia. Ou melhor, ele tinha uma teoria sobre isso tudo. Isso porque essas caçadas angelicais já aconteceram várias vezes, a última vez num passado não muito distante. Se fosse aquilo o que ele achava que era, nada poderia fazer para evitar, mas havia aqueles dois irmãos, tão teimosos e determinados a protegerem os inocentes que se colocariam no caminho de qualquer um para lutarem pelo que achavam ser certo.
– Você está pensando demais, Cas. – Dean comentou, de pé em frente a Castiel, levando em conta os dez segundos que ele permaneceu encarando o nada. Isso fez o Winchester chegar a uma conclusão. – Você sabe de alguma coisa. O que é?
– Não sei se é realmente isso. – Castiel sussurrou.
– Isso o que? – Sam questionou, curioso.
– Não posso contar agora. É algo que somente alguns anjos sabem.
– Cas, seja o que for, precisa nos dizer. – Dean argumentou, mas sem engrossar a voz. Estava sempre tentando ser o mais manso possível, por causa da marca. – Por que esses anjos estão perturbando o garoto?
– Por causa do que ele é. – era tudo que Castiel queria dizer naquele momento.
– O que ele é? – Dean indagou.
– Uma ameaça. – Castiel respondeu.
Columbia, Missouri.
Aaron finalmente achava um lugar para ficar. Não era bem um casarão, mas era um kitnet bem confortável. Esse lugar não tinha corredores: era só uma sala-quarto que tinha uma porta para uma pequena cozinha, um banheiro e uma lavanderia, tudo que um homem precisava para sobreviver. Já estava anoitecendo, e ele precisava proteger o lugar contra rastreadores demoníacos e angelicais. Com isso, demoraria dias até ser realmente encontrado ali.
Ele começou então a usar uma tinta spray que havia conseguido conjurar para fazer alguns desenhos de símbolos pelas paredes da casa. Tinha aprendido aquilo num DVD que recebia algumas vezes, ensinando o que cada símbolo fazia. Sabia qual símbolo repelia os anjos, qual era necessário para prender um demônio e qual oração realizar para que ele saísse de um corpo. Para alguém que nunca caçou na vida e não teve nenhum tutor para isso, Aaron sabia um bocado sobre criaturas, pelo menos o suficiente para não se surpreender.
Nunca precisou realmente de todo aquele conhecimento. Quer dizer, somente para alguns anjos que entravam em seu caminho. Antigamente eles mandavam apenas um anjo para matá-lo, mas quem queria a sua cabeça percebeu que enviar apenas uma pessoa não era o bastante. Então começaram a enviar dois, e nada daquilo adiantava. Quanto mais Aaron resistia, mas anjos eram enviados para atacá-lo, mesmo que apenas em dupla. Tinha sorte de conseguir se esconder a tempo dos inimigos.
Demorou pouco tempo para finalmente terminar os rabiscos sobrenaturais na parede. Assim que terminou, ele se jogou na cama, caindo de costas no chão. Em poucos segundos, ele estava dormindo. Mesmo sendo quem ele era, Aaron ainda conseguia se cansar algumas vezes, principalmente quando fazia viagens longas e ainda por cima tinha que usar seus poderes para despistar os inimigos.
Precisava descansar.
Mas aqueles que lhe caçavam não descansavam.
Seus olhos se abriram rapidamente quando ele sentiu que algo obscuro se aproximava. Ele olhou na direção da porta, que não ficava muito longe dele, mas mesmo assim o garoto não mexeu um músculo. Estava disposto a ver até onde aquilo iria dar.
Não demorou nem três segundos e Aaron teve a sua resposta: alguém do lado de fora chutava a porta de sua pequena morada, arrombando-a. Logo um homem negro e careca entrava no local, seguido de um homem branco de olhos azulados com o cabelo escuro e espetado e um moreno de porte militar. Os dois primeiros foram na direção do jovem deitado na cama, agarrando os seus braços com força, tentando puxá-lo para fora do lugar. O terceiro homem colocou um saco preto em sua cabeça, com um símbolo angelical desenhado nele.
O garoto não oferecia resistência, e os sequestradores não discutiam esse fato. Mas logo perceberam que aquilo estava ficando fácil demais. Chacoalharam o garoto após tirá-lo da cama e perceberam que ele estava um pouco mais... Mole. Suas mãos pareciam bastante molengas e brancas, quase como fosse... de travesseiro. Tiraram o saco da cabeça daquele que seguravam, e logo viram que o que estavam segurando era um boneco de travesseiro.
– Demônios... – disse Aaron, escorado na parede da cozinha. – Tão previsíveis.
As palavras dos três atiçaram-nos, fazendo revelarem seus olhos negros para o Nephilim. Os seres das trevas estavam prontos para responderem a trapaça do jovem Aaron quando ele fez um leve sinal com o dedo, apontando para o chão. Os três olharam para baixo ao mesmo tempo, podendo reparar no pentagrama desenhado na parede. Sabiam o que aquilo significava.
– Voltem lá para baixo e mandem um recado pro rei: — Aaron disse, com toda a arrogância que conseguiu reunir. – Não mexam comigo.
O garoto de olhos azuis estendeu a mão para os três demônios e então eles cuspiram seus espíritos demoníacos para fora daqueles corpos, ambos saindo pela boca, até escaparem por uma janela que estava aberta. Aaron foi até as três criaturas humanas que caiam no chão de seu kitnet, ajoelhando-se e tocando seus pescoços, procurando por algum sinal de vida entre eles. Todos mortos. Não fazia nem um dia inteiro que havia chegado na cidade, e já teria que arrumar um jeito de despistar os seus caçadores.
E agora não eram apenas anjos...
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