Esperar nunca foi algo que os Winchesters apreciavam, ainda mais quando se tratava de algum caso, piorando a situação quando eles ficavam de mãos atadas. Era ruim para qualquer um com problemas de controlar a ansiedade ter que esperar pelas coisas, mas para os Winchesters chegava as coisas chegavam a ser traumatizantes.

Por muito tempo eles esperaram: esperaram pelo pai num quarto de hotel vagabundo, esperavam por pizza no jantar – quando o pai já tinha avisado que não voltaria naquela noite -, esperavam pelo dia em que se vingariam do assassino da mãe, esperavam voltar a ser uma família novamente, esperavam ter um futuro digno para um ser humano comum, em alguns casos... Esperavam pela morte.

Sam estava cansado de esperar. Naquele quarto de hotel comum em Des Moines, ele tomou uma decisão que poderia fazê-los avançar na missão de achar Aaron Benningan. Na verdade era mais uma ideia do que uma decisão. Sabia que podia encontrar o rapaz se alguma câmera de rua o pegasse em qualquer canto do país, mas ele não podia acessar os dados do FBI daquele lugar, ainda mais com o notebook. Mas eles sempre foram bem-informados e a suaHunter Network sempre foi extensa, e até um pouco... Peculiar. Baseado nisso, o Winchester caçula resolveu fazer uma ligação, mesmo sabendo como Dean iria reagir (ele ainda não esquecera o último encontro com a tal pessoa).

Depois de procurar o número na lista de chamadas, Sam ficou aguardando a ligação ser atendida, com o celular na mão direita, e uma xicara de café na mão esquerda. Estava sentado numa cadeira de frente para uma mesa, com o notebook ligado, checando qualquer coisa que pudesse ter haver com o garoto que procuravam, além de buscar informações sobre a Marca de Caim.

Finalmente alguém respondeu do outro lado da linha, para a satisfação do caçador.

– Whatssup, bitch?

– Hey, Charlie. – Sam cumprimentou a amiga. – Como você tem passado?

– Melhor impossível. E as coisas por ai, como estão? – a ruiva questionou do outro lado da linha.

– Progredindo. – foi a única palavra que o caçador achou para descrever as coisas. – E... Falar em progresso, nós – ele se referia a ele e Dean – queríamos saber se poderia nos ajudar em uma coisa, o tipo de coisa que só você sabe fazer.

– Ah, Sam... – Charlie hesitou por um instante, como se estivesse olhando ao seu redor. – Eu estou... meio ocupada agora. – explica a hacker, dentro de uma sala lotada de jovens fantasiados de personagens baseados em Game of Thrones.

– Não me diga que... – por um instante, o Winchester achou que ela estava caçando.

– Não, não é isso. – ela nega. – É que... Estou no meio de uma convenção agora e... – ela parou para encarar uma pessoa, que sorria e piscava para ela. – Tem uma garota fazendo cosplay da Cersei Lannister que está me deixando louca aqui. – a ruiva explicou, deixando Sam em silêncio.

– Tudo bem, tudo bem, eu entendi. – ele respondeu, respirando fundo, coisa que Charlie acabou ouvindo, o que tocou o coração dela. Não, ela só queria ajudar num caso mesmo.

– Tá bom. – ela dizia como se estivesse bufando, mas ela não perderia uma oportunidade de ajudar os garotos, ainda mais quando eles a ajudaram diversas vezes. – O que eu preciso fazer?

– Existe um garoto que estamos tentando localizar. Ele não usa cartões de crédito e também não é muito de usar computadores, mas eu achei que poderiamos achá-lo através da sua foto. – Sam contou o máximo que poderia dizer por telefone.

– Entendo... Daqui eu não posso fazer nada, mas eu conheço quem possa me ajudar. Só me mande a foto dele, e verei o que posso fazer com isso. – ela afirma.

– Obrigado, Charlie. – o mais novo agradeceu.

– Ah, Sam... – a ruiva o chamou, antes de cair nas graças da Cersei. – Como está o Dean? Ele ainda está com aquela...

Por um momento, Sam encarou Dean sentado no pé da cama, assistindo televisão junto com Castiel, que estava sentado na cama ao lado. Ambos parecendo tão comuns, tão americanos, alienados ao que passava na TV. Mas aquele não era o verdadeiro Dean, e sim o que sobrou de todas as coisas ruins que ele andou fazendo enquanto era tomado pela maldição da marca (ele ainda estava com ela, mas parecia ter controle sobre ela).

– Está tudo bem. – Sam respondeu, como se não quisesse meu irmão está prestes a explodir.

Era tudo o que poderia ser dito por telefone.

Castiel não era muito de assistir televisão, nem mesmo quando se tornou o mais comum dos seres humanos. Mesmo quando Metatron lhe deu todas aquelas informações sobre a história (o que incluia filmes, seriados e novelas), ele não sentia nenhum prazer vendo aquelas coisas em sua cabeça. Mas Dean parecia gostar de ver aquelas reprises de UFC, ainda mais com um pedaço de hamburguer na mão. Na verdade era uma das poucas coisas que dava para ver naquele quarto de hotel tão barato e sem credibilidade.

Por algum motivo, ver dois homens se enfrentando até um ficar completamente injuriado era legal na cabeça de Dean, mas para Castiel, as coisas pareciam ser um pouco mais complicadas do que isso. Parecia existir uma filosofia por trás disso.

– Esses homens... – Castiel dizia, com o corpo curvado e os olhos voltados para a TV. – Eles parecem lutar não só pelo dinheiro, mas pela glória, assim como faziam os campeões das épocas mais antigas, que tentavam se igualar aos deuses da época, pensando que ganhariam suas recompensas numa outra vida. – Castiel comentava, enquanto Dean o encarava, com aquela cara de “É sério isso, cara?” – Um pensamento inútil, de fato. Quando eles morriam, iam direto para o inferno.

– Como consegue deixar as coisas tão irritantes, Cas? – perguntou Dean, o encarando. Castiel não soube responder de imediato.

De repente, depois de uma hora de espera, Sam interrompeu a conversa dos dois, com boas notícias.

– Finalmente. – ele soltou. – Acabei de receber um e-mail. – comentou.

Dean se levantou, e foi até a mesa, onde olhou para a tela do notebook de Sam, enquanto Castiel se colocava de pé, indo até eles.

– Pra que tantas abas abertas? Por acaso está vendo alguma sacanagem ai? – Dean implicou, tentando mexer no notebook de Sam, mas ele reagiu com um tapa na mão do irmão.

– Não mexe ai. – ele disse, de forma até um tantinho ríspida. Não queria que o irmão lhe visse pesquisando mais sobre a marca. Castiel observou aquilo, mas não falou nada.

– Tudo bem, Mr. American Pie. – zombou Dean.

– Enfim, parece que Aaron Benningan está em Greenfield, Indiana. – Sam comentou. – Uma câmera o pegou entrando numa loja de doces... Aparentemente ele foi lá mais de uma vez, sempre no mesmo horário.

– Wonka’s? – Dean olhou o nome da loja, lembrando-se da Fantastica Fábrica de Chocolate. – Greenfield não fica muito longe daqui.

– Devemos chegar lá antes que ele ataque mais algum anjo. – Castiel afirmou.

– Vamos lá, ver se conseguimos um convite dourado para o Cas. – zombou o Winchester mais velho, já pegando suas coisas para sair do quarto.

– Para que serve um convite dourado? – o anjo perguntou.

– A gente conta tudo no caminho. – Sam bateu em seu ombro, enquanto Castiel ficava parado, pensando se deveria ter jogado todas as informações de Metatron fora.

Seria útil para entender as piadas do Dean.

Greenfield, Indiana.

Algumas horas depois...

Para Aaron, não existia coisa melhor do que comer doces. Era animador e extremamente empolgante ter aqueles confetes de chocolate todos em sua boca. Nada no mundo poderia lhe fazer mais feliz. Sentado numa loja conhecida como Wonka’s, pertencente a um senhor conhecido da cidade, um homem branco e calvo que poderia muito bem fazer o papel de Papai Noel no natal.

O adolescente ficava sentado numa cadeira bem na entrada da loja, saboreando cada confete daqueles como se fosse o seu primeiro, como se fosse um gosto inédito ao seu paladar tão acostumado com doces. Na sua mesa também tinha brigadeiros, pequenas xícaras de cappuccino, jujubas, entre outras guloseimas que chegavam. Aaron era muito bem tratado pelo senhor, afinal pagava pelo serviço (com dinheiro de verdade, mas com um cartão falso). Já era a terceira vez que ele estava indo lá, e não pararia até ser obrigado a ir embora da cidade.

– Quer mais uma xícara de cappuccino? – perguntou o Mr. Donald, o dono da loja.

– Já estou cheio de cappuccino por hoje. Obrigado, senhor. – Aaron agradeceu de forma educada.

– Não há de que, Mr. Montana. – ele sorriu, voltando para o balcão.

A loja estava moderadamente freqüentada, nem muito cheia, nem muito vazia. Era uma loja fechada, com seis mesas espalhadas pelo lugar, além do balcão, tudo feito de madeira, com vitrines expondo todos os tipos de doces conhecidos pelo homem (incluindo torta). Era um paraíso para os chocólatras, e com certeza era um paraíso para Aaron.

Mas o seu paraíso era invadido por três figuras, duas usando jaquetas jeans e um usando um sobretudo bege. Os três se dirigiam até o garoto, parando na sua mesa, deixando-o surpreso com a chegada deles, principalmente com aquele que lhe olhava com um desprezo a se notar a distâncias. Sabia quem aqueles três eram, e sabia que, se eles estavam ali, poderia dar adeus ao seu paraíso.

– Aaron Benningan? – Sam perguntou, mesmo sabendo quem ele era.

– Na verdade, meu nome é Tony Montana. – Aaron respondeu de forma irônica.

– Olha aqui, corta a lorota, okay garoto? – Dean avisou de forma ríspida. – Precisamos conversar, então você vem com a gente, ta bem? Sem muitas perguntas, sem discussões. Apenas venha conosco.

– Vocês não são da polícia. – Aaron os analisou friamente. – E se não são da polícia, então não tenho porque ir com vocês.

Aquele jeito audacioso e irônico do garoto começou a irritar profundamente Castiel, que segurou forte em seu braço, o fazendo encará-lo. Aaron foi surpreendido pelo ato, mas mesmo assim não se deixou abater.

– Ele disse... Corta a lorota. – o anjo falou com a voz rouca e raivosa, assustando os irmãos, pelas palavras e pela atitude, sendo Dean a acalmar o anjo, segurando em seu braço.

– Hey, Cas, não é o lugar certo para fazer isso. – o Winchester sussurrou, e os dois amigos se encararam. Castiel logo soltou Aaron, que não moveu o rosto nem por um centímetro. Não parecia ter medo do anjo. O Nephilim se levantou, ficando de frente para Castiel.

– Tudo bem, moças... Eu vou pagar a conta e já volto. – Aaron sussurrou, olhando para os olhos azuis do anjo. – Eu posso fazer isso, não é? – perguntou zombateiro.

– Vai logo, vai. – Dean falou, e o garoto se afastou dos três, indo para o caixa. Assim que ele ficou a uma distância segura, Dean fitou Castiel. — Que merda é essa, Cas? Precisava dar uma de mafioso com o garoto? – sussurrou, repreendendo-o.

– Eu não ent... – Castiel iria dizer algo, mas preferiu focar no assunto. – Eu tenho meus motivos. – se explicou, ou melhor, não se explicou. — Esse garoto não é confiável. Qualquer um da espécie dele é extremamente perigoso.

– É, mas não é assim que devemos fazer. – Dean retrucou.

– Ele tem razão, Cas. – Sam ajudou o irmão. – Não agimos dessa forma, tão expostos. E ele já mostrou que vai cooperar.

– Ele matou vários anjos pelo país, Sam. Não devemos deixar ele escapar dessa vez, ou então haverão ainda mais mortes. – Castiel afirmou.

– Ah, qual é, ele é só um adolescente com alma de garota abandonada pelo namorado. Olha o quanto de doces que ele comeu. – Dean apontou para a mesa cheia de doces. – Acha mesmo que um garoto como ele... – virou-se para o lado para apontar para Aaron, mas não o viu no caixa. – Onde ele está? – perguntou.

Os três logo olharam para todos os cantos, e não acharam o rapaz, ficando desesperados com aquilo, afinal demoraram dias para encontrá-lo, e perderam-no em poucos segundos. Dean foi correndo na direção do banheiro, abrindo a porta do banheiro masculino, mas não via ninguém, enquanto Sam e Castiel corriam para o lado de fora, sem terem nenhum resultado. Assim que Dean saiu do banheiro masculino, os dois companheiros de caça voltaram, os três com os rostos aborrecidos por terem sido enganados por Aaron.

– Filho da puta! – Dean esbravejou, mostrando-se mais nervoso do que o próprio Castiel.

– Se não o encontrarmos rápido, ele vai sair da cidade, e ai vai ser tarde demais. – Sam passou a mão pelos cabelos medianos.

– Eu sei aonde encontrá-lo. – Castiel afirmou, cheio de certeza nas suas palavras. – Vamos... Eu conto tudo no caminho. – ele falou, andando na direção da saída, voltando rapidamente, encarando os irmãos, que paravam assustados, pensando que lhe tinha acontecido algo. Mas ele só estava se lembrando de uma coisa. – Os convites dourados...

– Vamos logo, Cas. – Dean falou, e os dois irmãos o puxaram para fora.

Notas finais
(Grandes coisas estão por vir.)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.