The Light of Dawn
6 O Necromante - Parte 2
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Ela sentia as costelas arderem a cada passo desferido. A cicatriz era de uma Era há muito passada, mas latejava como se o ferro ainda tocasse sua pele. Uma vez longe dos anões, ela se permitiu sucumbir sobre o próprio peso, despiu as camadas sobrepostas de pele e couro até encontrar a túnica: o sangue escuro havia maculado o algodão e ainda vertia abundante do ferimento. — Por Eru. — Murmurou.
O corpo pesava a cada instante passado e a luz parecia querer abandoná-la. Foi nesse instante em que ela fechou os olhos e se deixou dominar pela escuridão. Havia fogo, havia dor.
"Eu a vejo, Primeira Luz de Arda."
No horizonte, Calad reconheceu as torres de Angaband e, no alto da mais alta delas, o vulto negro coroado pelas jóias de Fëanor.
"Cada dia mais fraca. Cada dia mais humana..."
O corpo estava preso e — na dor — ela perdeu a noção de tempo ou espaço.
"E quando você cair, nada poderá impedir a minha ascenção."
Calad reuniu a pouca força que lhe restava para se erguer. Uma das mãos apoiou o corpo enquanto a outra impedia o sangramento, causando-lhe ainda mais dor. — Que a luz de Eärandil brilhe sobre mim. — Exclamou a elfa.
— Como sempre brilhou, filha de Yavanna. — O mago apareceu entre as árvores. A ponta do cajado irradiava a luz das próprias estrelas. Ele se aproximou de Calad e estendeu a mão para que ela se erguesse. — Milady se feriu durante a viagem? — Indagou o mago. Ele sabia a verdade, mas recusava-se a acreditar.
Calad negou com a cabeça antes e aceitou a mão entregue por Gandalf. Ergueu-se com dificuldade e teve que se apoiar no mago para se manter em pé. Aquela cicatriz era a marca da primeira Lâmina Escura forjada pelos bruxos de Carn Dûm, cujo o menor ferimento poderia sentenciar seu alvo à uma eternidade de escuridão. — As sombras se aproximam, Olórin.
O mago hesitou. — As trevas foram derrotadas, Milady. — Gandalf afastou-se da elfa, andou ao redor da clareira, abaixou-se próximo à alguns ramos que cresciam e apanhou um punhado de folhas longas que cresciam ali. — Athelas, Milady. — Confirmou antes de esfregar as folhas entre as próprias mãos até que estivesse maceradas.
— Assim como a luz. — Calad observou a aproximação do mago e ergueu a túnica, revelando o corte que atravessara o lado direito de seu tórax. Ao redor, pele e sangue estavam enegrecidos pela corrupção de outrora. — Não podemos esquecer, Olórin. Não podemos perdoar. — A elfa franziu o cenho, os lábios foram cerrados quando a planta tocou o ferimento.
— Perdão, Milady. Minhas habilidades como curandeiro não são tão boas quanto as de mago. — Admitiu. Assim que os ferimentos ficaram cobertos com a Folha-do-Rei, Gandalf agarrou um pouco da lama formada pela última chuva e finalizou-a sobre as costelas de Calad. — Sra. Calad eu posso afirmar-lhe que os mesmos erros não serão cometidos.
A dor fora aliviada, mas a preocupação da mulher continuava.
— Olórin, não podemos arriscar! — Calad prendeu o cinturão mais uma vez contra o corpo, fixando o curativo feito pelo mago. Gandalf afastou-se mais uma vez e permitiu que os pensamentos fossem levados para longe dali. — Depois da Guerra de Ira, não restou luz alguma em Arda.
O homem apoiou-se no cajado.
— Talvez eu conheça uma.
A elfa meneou a cabeça e buscou no chão o que restava de suas vestimentas. — Não sou nem a sombra do que costumava ser. — Ela retrucou.
— Assim acredita-se, Primeira Luz de Arda. — Gandalf arregalou os olhos ao perceber uma maçã perfeitamente redonda e vermelha muito próxima do lugar onde estava. O mago a apanhou e arranjou lugar entre as raízes da árvore. — Talvez eu tenha esquecido de mencionar, mas acredito que nossos amigos estejam em apuros.
— Eu não tenho amigos por lá. — Calad se irritou com a despreocupação do mago, revirou os olhos e tentou lembrar o rumo que deveria tomar para voltar ao acampamento.
— Então não se importará caso sejam comidos por trolls... — O mago abocanhou a maçã pela primeira vez, saboreando-a antes de indicar a macieira para a elfa. — Essas maçãs são deliciosas! Você deveria experimentar…
A elfa piscou algumas vezes antes de apontar para o Leste. — E você? Nada fará?
— Mas que pergunta! — Exclamou Gandalf antes de morder a maçã uma vez mais. — Eu terminarei essa deliciosa maçã.
Calad esperou algum tempo para averiguar as palavras do mago. — Você realmente vai deixá-los virarem banquete de trolls?
O homem fez um trejeito com a mão e isso foi o suficiente para que ela apanhasse a lança, a espada e desaparecesse entre as árvores.
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Quando Calad chegou à clareira, os anões já estavam amarrados em sacos e não havia sinal de Bilbo. — Onde está você, pequeno? — Indagou em baixo tom no que escalava uma das árvores. Aproximou-se pelas copas e parou exatamente sobre o lugar onde a companhia de Thorin Oakenshield havia sido deixada. Naquele exato momento, os três trolls se ocupavam discutindo sobre o modo como fariam os anões.
— Onde está aquela maldita elfa? — Indagou Glóin. O anão se movia de um lado para o outro, atingindo vez ou outra os companheiros. — Eu juro que repartirei aquele nariz arrebitado com o meu machado!
— Talvez ela tenha se perdido. — Sugeriu Ori. O anão rolou o corpo a fim de se afastar de Glóin.
Calad observava a discussão do topo. A elfa revirou os olhos e seguiu a procurar por qualquer sinal deixado pelo jovem hobbit.
Mas ela foi encontrada antes.
Bilbo havia sido jogado para algumas árvores de onde a elfa se encontrava, assim que a avistou, ele pulou algumas vezes sobre o galho e balançou os braços. — Mi..! — Mas parou no instante em que a mulher colocou o dedo sobre os lábios e pediu silêncio. Ele assentiu com a cabeça, mas era tarde demais: o troll chamado Bert os havia escutado.
— Vocês ouviram isso? — Indagou ele.
— Não ouvi nada. — Respondeu o outro.
— Mas eu sim! — O troll avançou alguns metros na direção onde Bilbo estava. Os dedos enormes agarraram os galhos mais baixos da árvore e os balançaram algumas vezes seguidas. — Talvez sejam mais anões!
Calad enfiou o rosto entre as mãos ao perceber que o hobbit estava prestes a soltar o galho ao qual havia se agarrado.
— Mi! Mi! — Grunhiu ela, alto o suficiente para que os três trolls escutassem.
— São pássaros. — Concluiu Tom.
Então as atenções foram voltadas para os anões. Bert observou cada um deles antes de apontar para Kili e Fili, os mais novos da comitiva. — Que tal assarmos estes primeiro? — Ele sequer esperou a resposta dos outros dois e logo apanhou os anões pelos sacos que os prendiam. — A carne deve ser mais macia! Podemos deixar os outros para o ensopado.
— Traga-os logo! — Tom estava impaciente com a demora, pois já fazia meses que só comiam assado de carneiro.
Foi então que uma lança cortou o ar e atingiu o olho esquerdo de Bert. O troll urrou de dor e largou os dois sacos, deixando que os anões caíssem ao chão em um baque surdo. — Estamos sendo atacados! — Gritou ele. As duas mãos foram levadas ao olho, ele cambaleou de um lado ao outro antes de cair ao chão.
Tom empunhou sua clava e a agitou de um lado ao outro.
A elfa respirou fundo, ergueu os olhos para Bilbo uma última vez e ao constatar que ele estava pronto para ajudá-la, sacou uma das três adagas que carregava consigo e a atirou contra o hobbit, atingindo-o no capuz e o prendendo no tronco da árvore. — Liberte os outros. Eu vou distraí-los! — E pulou para o centro da clareira.
O corpo girou sobre o próprio eixo a fim de amortecer a queda.
— Eles mandaram um elfo! — Tom gargalhou antes de de correr na direção de Calad. O troll bateu sua clava contra o chão e buscou atingí-la, mas a elfa era mais ágil. — Essa sim é uma boa carne!
— Entreguem os anões e ninguém sairá ferido. — Ordenou a elfa. Bert já estava ferido o suficiente. Ela encolheu os ombros ao constatar que talvez aquela não seria uma boa proposta. — Mais ferido.
— Peguem-na! Matem-a! — Gritou Bert. Passada a dor do ferimento, ele próprio pegou sua clava e andou na direção de Calad.
A elfa assentiu com a cabeça, afastou-se em alguns passos antes de desembainhar sua longsword¹: Morinehtar, a umbrocida. . — É por isso que eu odeio trolls. — Resmungou no instante em que a clava de Bert foi mais uma vez afundada.
Dessa vez, aproveitou-se daquele interím de tempo para usar a madeira como apoio e escalar até o ombro do troll.
Ele se agitou de um lado para o outro, mas ela não cedeu.
Calad estendeu o braço e alcançou a lança que ainda se encontrava no olho de Bert, puxando-a para fora e trazendo consigo boa parte do órgão da criatura.
Bert urrou mais uma vez. A dor lancinante pareceu o suficiente para que ele cambaleasse por algun tempo antes de tombar.
Mas ainda havia outros dois.
— Elfa, nos liberte! — Gritou Kili, desviando a atenção de Calad por tempo suficiente para que William acertasse sua clava, atirando-a para trás. As armas caíram longe e lhe restavam apenas duas das adagas que carregava.
Calad se ergueu.
— Elfa! — Insistiu Fili.
A mulher revirou os olhos, puxou uma das adagas e lançou na direção dos anões. A lâmina cortou o ar e atingiu o saco que prendia Kili tão rente ao ombro que seria possível se observar um pequeno sangramento no lugar.
O anão agitou-se, aproveitou a lâmina presa ao chão para cortar o tecido e libertar o irmão em seguida.
Os irmãos interceptaram Bilbo no meio do caminho, apanhando suas armas poucos antes de correrem na direção da elfa.
Foi Fili quem lhe alcançou a espada no exato instante em que William investia contra ela com um dos espetos que serviria para assar os anões. — Milady! — Gritou ele, alcançando-lhe uma das espadas enquanto Kili escalava o braço do troll.
O jovem anão empunhou seu arco e o colocou sob o nariz de William. Em seguida, usou o peso do próprio corpo para se apoiar para trás, exibindo a jugular do troll. — Matem! — Arguiu o anão.
Calad aproximou-se de Fili e estava prestes a segurá-lo pela capa quando ele se afastou.
— Eu te impulsiono! — Sugeriu ela.
— De jeito nenhum. — Retrucou o anão.
A elfa revirou os olhos e usou uma das mãos para empurrar os ombros de Fili contra o chão.
— Vocês poderiam se apressar? — Indagou Kili, tentando manter-se equilibrado sobre o troll que se agitava de um lado ao outro.
— Você me impulsiona no três. — A elfa se afastou alguns metros.
— O quê? Milady, não… — Mas ele foi interrompido pela contagem da elfa.
— Um! — Exclamou ela, correndo na direção do anão.
— Milady… — Fili tentou outra vez, mas a elfa já havia apoiado os pés em suas costas.
— Dois!
O anão revirou os olhos e uniu toda a sua força para se erguer. Em verdade, o fez sem dificuldade alguma já que os elfos eram muito leves. — Três! — Ele próprio exclamou no instante em que Calad pulou contra o troll.
A espada foi afundada na garganta de William, o sangue jorrou sobre Calad e ela deixou que o peso do próprio corpo arrastasse a lâmina até que seus pés tocassem o chão. As visceras escaparam pelo corte feito e atingiram a elfa antes que ela pudesse rolar para o lado.
Finalmente, o troll caiu ao chão.
— Eu odeio trolls! — Ela voltou a afirmar. O sangue foi sacudido das vestes, mas não seria o suficiente para livrá-la do odor terrível.
E no instante em que Bilbo libertou o último anão, os primeiros raios de sol irromperam no horizonte, petrificando o que havia restado dos corpos.
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Thorin se aproximou dos três jovens e anuiu com a cabeça. — Devemos nossas vidas à vocês. — O anão voltou sua atenção para a elfa. — Especialmente à você, Milady, e ao Sr. Bolseiro.
— Você não me deve nada, Thorin Oakenshield. — Retrucou a elfa, buscando a espada e a lança que haviam sido jogadas longe pelos trolls. — É para isso que servem os amigos. — Calad destinou uma reverência sutil ao rei anão. — Com licença, mas eu realmente preciso me lavar. — Ela indicou o sangue e visceras espalhados pelas roupas antes de se afastar em alguns metros da comitiva de Thorin.
— Eu diria que você está particularmente graciosa, Milady. — Kili entreabriu um sorriso matreiro e empurrou o próprio cotovelo contra as costelas de Fili. — Ela gosta de mim, com toda a certeza.
Fili revirou os olhos e ambos não contiveram as gargalhadas.
Nesse interím de tempo, o peito de Kili foi atingido por uma tripa de troll.
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