The Last Ones
5 Revelações
Notas iniciais
Jack não conseguia acreditar em nenhum dos fatos recentes. Ele podia jurar que a cidade de Mineápolis havia sido completamente destruída. Havia sido a primeira a ter sido desativada pelo próprio governo. E lá estava ele, descobrindo que havia uma população inteira sobrevivendo em uma base secreta do governo.
– Eu sou a presidente Laura Hale. — Disse a mulher, os examinando com seus olhos dourados. — Há muito para contar para vocês, de modo que prefiro que façamos em um ambiente mais reservado. Sigam-me.
A presidente se virou em um movimento elegante, caminhando com passos decididos pelos corredores do edifício. Mas Jack não deu um único passo.
– Onde está Ethan? — Perguntou. A presidente se virou novamente, olhando para Jack, seus olhos analíticos se transformavam em compreensivos em um único piscar.
– O garoto está na nossa ala médica, se preparando para uma cirurgia. Infelizmente só podem entrar na ala hospitalar quando estiverem limpos, e acabaram de sair de uma das zonas mais contaminadas do globo.
– Eu preciso vê-lo. — Exigiu Jack, sua voz falhando aos poucos.
A presidente o encarou por um momento.
– Preciso que sejam descontaminados antes de liberá-los, de outro jeito não poderão entrar no hospital.
Se descontaminados significaria apenas um banho, Jack teria concordado com a presidente muito mais cedo. Passou poucos minutos de baixo do chuveiro, a água fria escorrendo por seu corpo.
Em seguida, vestiu as roupas negras designadas pelo governo. Ainda não confiava neles, olhando suspeito para o banheiro vazio, como se alguém pudesse algemá-lo a qualquer instante. Uma vez vestido, esperou pelo resto do grupo no corredor, sentando-se ao lado de Sandy.
– Onde está a Astrid? — Perguntou Jack.
– Foi encaminhada para a ala hospitalar quando viram os hematomas. — Respondeu Sandy, a cabeça afundada sobre as pernas, como se quisesse desaparecer ali mesmo.
– Ainda não acredito que Norte... — Começou Jack, deixando a voz morrer ao imaginar que Norte torturaria logo Astrid para descobrir o paradeiro de Jack.
– Você acha que estamos melhor aqui? — Perguntou Sandy, olhando diretamente nos olhos de Jack.
E honestamente, ele não saberia dizer. Apenas torcia pelo melhor.
Mérida saiu dos chuveiros em seguida, vestindo um uniforme igualmente preto. Seu arco havia sido recolhido quando embarcaram no primeiro helicóptero, mas um guarda de escolta garantiu que ela o receberia de volta quando saísse das instalações.
Foram escoltados até a ala hospitalar. As paredes brancas pareciam reluzir, os médicos e enfermeiros caminhavam de um lado para o outro, carregando badejas com seringas e tubos de ensaio.
Uma recepcionista guardava a bancava de entrada, direcionando histericamente para um milhão de direções aleatórias. Jack, Mérida e Sandy se espremeram a mesa. Antes que abrissem as bocas, contudo, a recepcionista apontou para um longo e iluminado corredor.
– Terceira e quarta sala a direita. — Disse a recepcionista.
Avançaram para o corredor. Astrid estava no primeiro, sentada sobre uma maca com um avental médico cobrindo seu corpo. Sandy e Mérida correram para vê-la. Mas Jack se manteve quieto na porta. Virou-se para a porta seguinte.
Hiccup estava deitado sobre a maca, um lençol branco sobre sua pele pálida. As sardas estavam destacadas devido a palidez. Jack nunca havia o visto tão mal. Nem mesmo quando tinham acabado de resgatá-lo de volta à Arca.
Não havia reparado no enfermeiro que estava presente até que o som metálico das agulhas chamou sua atenção.
– Desculpe — disse Jack. — Não sabia se podia se podia entrar.
– Está tudo bem. — Disse o enfermeiro em um tom simpático. — Ele está sedado. Jack Frost, estou certo?
Jack acenou que sim.
– Ele perguntou por você antes de ser sedado. Eu posso acordá-lo uma vez antes da cirurgia. Tem algo que eu acho melhor que você conte para ele.
+++
Como iria fazer isso, Jack não fazia ideia. Acenou para o enfermeiro, que um comando em uma mesa, desligou alguns aparelhos atados a Hiccup. Demorou alguns segundos até que o dono dos olhos verdes os abrisse. Piscaram algumas vezes, desvencilhando-se da luz. E então focalizaram Jack.
– Hey. — Disse.
– Hey. — Respondeu Jack.
– Onde estamos? — Perguntou Hiccup, a voz muito mais fraca do que Jack jamais se lembrara.
– Em uma base militar em Minessota. Na cidade de Mineápolis. — Disse Jack, sentando-se ao lado de Hiccup.
– Pensei que haviam desativado a cidade, há anos...
– Eu também pensei, mas hey, tem algo que pediram para eu lhe contar... — Esfregou as mãos, respirando fundo antes de dizer: — A viga de metal... Ela se afundou na sua panturrilha, esmagando a fíbula, e rompendo um tendão.
A respiração de Hiccup se tornou mais profunda, pressentindo o que viria a seguir.
– Sinto muito, Hiccup, eles terão que amputar sua perna.
Jack esperava uma reação como chorar, pedir para repetir, até mesmo se irritar com ele. Porém Hiccup não esboçava reação. Aliás, foram as lágrimas de Jack que escorreram primeiro.
– Eu que vou perder a perna e você quem chora? — Disse Hiccup, ironicamente se divertindo com a situação. — Eu vou sobreviver.
– Desculpe não ter conseguido te salvar por inteiro. — Disse Jack, esfregando os olhos.
– Jack Frost, em três dias, você já salvou minha vida duas vezes. Quando é que eu vou parar de dever a você?
Ambos se encararam por um momento. Jack se surpreendeu ao ver que Hiccup não sentia medo. Nenhum resquício dele. Pressionaram os lábios em um beijo antes que cedessem de uma vez.
Se separaram um momento antes que a porta do hospital se abrisse. Uma enfermeira morena atravessou o portal, a máscara cirúrgica presa no rosto. Jack sabia que era a hora de deixá-lo ir.
Não teve tempo de se despedir, entretanto. Com um estalo, as máquinas se religaram, desfocando os olhos de Hiccup, mergulhando-o no mundo do morfináceo.
O albino acompanhou a maca de Hiccup até a última porta, onde apenas pessoas credenciadas poderiam entrar. Deu meia-volta, caminhando até o quarto de Astrid.
Mérida e Sandy ainda estavam lá, mas Astrid estava deitada, as olheiras sob seus olhos imploravam por sono. A mesma enfermeira que levara Hiccup agora entrava na sala para despachar os três.
– Por favor, eu preciso falar com ela! — Pediu Jack. Antes que a enfermeira pudesse rebater, contudo, a voz de Astrid se fez ouvir.
– Eu quero falar com ele, também. — Disse, sua voz estava mais forte do que o esperado. — Isso não pode esperar.
A enfermeira lançou um olhar frio antes de expulsar somente Mérida e Sandy da sala.
– Vocês têm cinco minutos. — Avisou, segurando a porta para Mérida e Sandy.
Jack assentiu, virando-se para Astrid assim que a porta foi fechada. Sentou-se ao lado dela, agarrando sua mão da mesma maneira que fizera com Hiccup.
– Astrid...
– Você precisa matá-lo, Jack. — A voz da loira era forte, tomada por alguma insanidade, mas da qual a ferocidade era seu maior combustível. — Norte.
– Astrid...?
– Prometa para mim. — Disse ela, agarrando as mãos de Jack com força. — Você irá matá-lo na primeira oportunidade.
– Eu prometo. — Disse Jack, o coração afundando enquanto pensava que, tal como não encontrou a mãe de Hiccup, talvez não conseguisse vingar Astrid. — Astrid... Obrigado. Por tudo.
O fantasma de um sorriso atravessou o rosto da loira.
– Somos amigos. — Disse. — Ajudamos um ao outro.
Talvez fossem as últimas forças de Astrid, pois o cansaço tomou conta dela em seguida, arrastando-a para o subconsciente.
+++
A sala de reuniões da presidente era espaçosa, uma ampla mesa circular de vidro estava disposta no centro da sala. Sandy entrou primeiro, seguido por Mérida e então Jack. A presidente entrou por último, seguida por um único guarda, mas o qual ela dispensou, fechando a porta atrás de si.
– Por favor, sentem-se. — Disse a presidente, tomando seu lugar. Jack e Mérida sentaram lado a lado, Sandy ficou do outro lado da mesa. — Eu quero dar as boas-vindas a todos vocês. Eu sei que devem ter um monte de perguntas, e em um tempo tão curto, duvido que tenham tido a chance de assimilar o que está acontecendo.
Todos se mantiveram quietos.
– Primeiro de tudo, quero reconhecer que todos aqui são os chamados de Evoluídos. — Jack e Mérida se encararam, e então Sandy, acenando em seguida. — Certo. Conheço a origem de vocês. Como apagaram suas memórias. Como modificaram tudo o que vocês são. E como os direcionaram a culpar o governo dos Estados Unidos por isso.
Jack não se surpreendeu com a revelação.
– O lugar que estamos é a cidade de Mineápolis, da qual espalhamos a notícia de que estava desativada devido aos bombardeamentos civis. Infelizmente, essa medida foi para nossa própria segurança. A companhia que iniciou a pandemia de 2016 chama-se As Indústrias Locker, uma antiga corporação militar para o desenvolvimento de armas. Porém eles esconderam um projeto ultrassecreto chamado de Reinicialização Mundial.
"Durante meses, as empresas propagaram essa epidemia em cidades grandes, aeroportos, locais de transporte público. Ao mesmo tempo em que faziam experimentos em crianças. Jovens. Adolescentes."
"Ainda não era claro quais as intenções da Locker até que entendemos que eles modificaram diversas crianças geneticamente para serem imunes ao vírus que eles mesmos criaram. Os imunes são os evoluídos, e foram criados com o intuito de serem liberados ao mundo, culpando as pessoas erradas, e repopulando a Terra depois que os últimos mortos-vivos fossem mortos."
"Foi um plano muito intrincado para que entendêssemos facilmente. Eles se disfarçavam de civis, criavam Zonas Seguras, refúgios. Arcas."
Jack, Mérida e Sandy se ajeitaram em suas cadeiras, absorvendo todas as palavras da Presidente.
– Sim, infelizmente Norte não é apenas um dos representantes disfarçados da Locker. Mas também descobrimos que ele é o diretor-geral das indústrias Locker.
"Ele agendava resgates manipulados, ele não os libertava, ele apenas fingia que vocês estavam sendo livres de uma base do governo. Ele sabia que eram os mais resistentes, os imunes."
"Desde então estamos recrutando os Evoluídos ainda perdidos, aqueles que sobreviveram. Não para lutar, mas para protegê-los. De fato, vocês são Evoluídos. São os mais inteligentes, os mais fortes, e são extremamente valiosos. Mas com um tratado ético do qual eu mesma assinei, não utilizamos os Evoluídos em nosso exército a menos que eles estejam inteiramente de acordo."
A presidente se levantou em seguida, ficando em silêncio por um momento, deixando os quatro compreenderem a veracidade de suas palavras.
– Eu agora deixo com vocês a escolha. São os primeiros Evoluídos que conseguem escapar da base da Arca. E os únicos que sabem como voltar até lá. Não os obrigo a nada, e nem irão nenhum de meus colegas no gabinete. Mas preciso convidar vocês a participarem, de clamarem sua liberdade. Norte é a Locker. Se o pegarmos, pegamos a Locker.
Os olhos da presidente encontraram os de Jack.
– Eu li os relatórios confiscados da Locker, os experimentos que mais davam errado transformavam os jovens em albinos. E poucos eram os que sobreviviam por muito tempo. Mas você está aqui. Os Evoluídos albinos são de longe os mais raros e os mais... Evoluídos. Eu não acredito que esteja aqui por acaso, Jack Frost.
Jack encarou a presidente, sentindo-se desconcertado por essa revelação. A natureza de sua aparência, tudo resumido a um experimento genético. Do qual Norte, em quem ele confiava, que havia comandado.
Mas ainda haviam pontas soltas nessa história.
– De onde vieram os mísseis que quase nos mataram essa tarde? — Perguntou. — Eu consegui ver o selo dos Estados Unidos nele.
– Sim, rastreamos o sinal do míssil essa tarde, foi quando emitimos o alerta de emergência. Ele foi disparado de uma base da Locker, na Flórida. A inteligência acredita que ela foi lançada justamente com o objetivo de conter os fugitivos. Para matá-los. Só tínhamos a transmissão como modo de alertá-los, o que estou aliviada por ter funcionado.
Jack observou a presidente. Sem reações.
– O que quer que façamos? — Disse por fim.
A presidente sorriu, satisfeita. Levantou-se da cadeira, e deu dois toques na parede. Ato que pareceria estranho, até que a parede se ascendesse com uma irritante luz branca.
Aos poucos, linhas tortas tomaram forma, e então Jack reconheceu o mapa dos Estados Unidos.
– Acreditamos que Norte os avisou de que todas as capitais estavam desativadas. Mas isso também não é verdade. Ainda temos Chicago, Detroit e a própria Mineópolis. As muralhas garantem a segurança destas cidades. Chicago, porém, ainda está sob o comando da Locker.
Os três jovens se encararam, compreendendo o que a Presidente estava pedindo.
– Você quer que nós a libertemos? — Disse Mérida.
– Se concordarem com nossos termos. — Respondeu a presidente com simplicidade. — Se capturarmos Norte, teremos a oportunidade de publicar seus crimes perante todos os sobreviventes, não só nos Estados Unidos, mas assim como no mundo.
Com dois toques na parede, a tela mudou, revelando uma sequência de dígitos: 7 359 598 272.
– Esse era o número de habitantes na Terra em 2015. — Jack suspirou, não conseguiria imaginar tantas pessoas nem em seus sonhos mais insanos. — Agora esse... é o número atual.
Os números se encolheram devagar, até que formassem 791 212 215.
Mais de seis sétimos da população mundial havia morrido.
– Só há uma punição para um crime tão severo. — Disse a presidente. Jack sabia o que era. — Execução, em praça pública. Mas não podemos tocar em Norte se não removermos todo seu armamento antes. Ele poderia dizimar o que restou de nossa população em minutos, se quisesse. Precisamos tomar suas bases. Precisamos de Chicago. — A presidente permitiu que o silêncio tomasse conta. — A escolha é de vocês.
Os números se repetiam na cabeça de Jack inúmeras vezes. 7.359.598.272 para 791 212 215. Mais de seis bilhões e meio de pessoas, mortas, ou reanimadas em criaturas monstruosas.
Era o suficiente, pelo menos para Jack. Ele agora se lembrava das palavras de Astrid.
– Eu só tenho uma condição. — Disse. A presidente lhe encarou com curiosidade.
– E qual seria? — Perguntou, com suficiente leveza na voz.
– Quando chegar a hora, eu matarei Norte.
A presidente apenas sorriu.
– Tenha certeza que sim.
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