The Last Ones
6 O Símbolo
Notas iniciais
Jack ainda repetia as palavras da presidente em sua cabeça.
“Eu mato Norte”.
“Tenha certeza que sim”.
E a vontade de executá-lo se intensificava a cada vez que observava os ferimentos de Astrid. Eram muito mais intensos do que apenas chicoteadas. Marcas de queimaduras, choques elétricos, estrangulamentos. De fato, ela foi ao inferno por Jack. Mas a ira de Jack não parava por aí. Mais de seis bilhões de pessoas, mortas por Norte. Com certeza não havia perdão de nenhuma natureza para tal crime.
Só restava uma pergunta, pelo menos para Jack, como mataria Norte? E o que lhe aguardava em Chicago?
Jack estava sentado na sala de espera. Astrid já havia sido liberada. Seu status de estressada com certeza contribuíram para que os médicos lhe dessem alta. Mas Jack ainda esperava por Hiccup. Havia conversado com a presidente faziam umas quatro horas. A qualquer momento, uma maca poderia sair da sala de cirurgia, com um Hiccup inconsciente. Mas vivo. E era só isso o que importava.
Demorou mais uma hora, contudo, até que as portas se abrissem. Hiccup estava inconsciente, diversas faixas de pano cobriam o toco sob seu joelho. Jack se levantou de imediato, seguindo-o de perto. Os médicos o afastaram quando chegaram até a sala de repouso. E Jack apenas observou, impotente, enquanto ligavam os mais diversos tubos em Hiccup.
Já era de manhã quando os médicos acordaram Jack. Ele havia apagado em uma cadeira da sala de espera, incapaz de abandonar Hiccup. Ele entrou na sala com certo receio, os olhos ardendo pelas poucas horas de sono que teve. Não haviam máscaras de oxigênio em Hiccup. O garoto dormia tranquilamente sob os efeitos do morfináceo.
Jack repousou em uma poltrona ao lado de Hiccup, e embora lutasse contra o sono, acabou desmaiando ali mesmo. Foi Hiccup quem acordou primeiro. Os olhos sonolentos piscavam para as luzes que atravessavam a janela. E não sentia nenhuma dor. Demorou até focalizar o albino, ferrado no sono, a cabeça para o lado em uma posição esquisita.
Uma enfermeira entrou na sala, uma prancheta e um pesado pacote sob o braço.
– Que ótimo, você acordou. – Sorriu a enfermeira, caminhando até o lado de Hiccup. – Como se sente?
– Vivo. – Ironizou Hiccup, sorrindo de igual maneira. – Há quanto tempo ele está aqui? – Apontou para Jack.
– A noite toda. Não saiu de perto de você por um minuto. – Respondeu. – Tenho uma surpresa. – Ela balançou o pacote sob o braço. – A presidente lhe mandou isso, com os comprimentos dela. Ela queria que estivesse aqui antes que acordasse, mas em todo caso...
Hiccup ainda processava a fala da enfermeira. A presidente havia lhe mandado um presente?
A enfermeira depositou o embrulho com cuidado ao lado de Hiccup, depois puxou termômetros, seringas, compressas de pano. Saiu dois minutos depois, com os exames em bandejas.
Hiccup desembrulhou o pacote. Dentro, havia um cone de plástico e metal fosco. Reparava que sua base seguia um formato de gancho. Demorou um pouco até reconhecer o formato humano no metal. Uma perna protética. Daquelas de corrida, sola flexível, e em um tamanho perfeito para Hiccup.
Havia um bilhete também, em uma inclinada e fina letra cursiva: “Minhas sinceras condolências, Presidente Laura Hale”.
Hiccup sabia bem quem era a presidente. Estava no cago fazia uns dois anos. Se lembrava de diversas mensagens propagadas por rádio, direcionada para os militares. Era de longe, uma das estrategistas mais sensatas das quais Hiccup já ouviu falar. E quase nunca aparecia em público. E lá estava Hiccup, admirando um presente encaminhado por ela.
– Hiccup? – A voz de Jack o tirou de seu devaneio. Jack se levantou, caminhando até o lado de Hiccup. O sorriso do moreno deve ter sido o mais bem recebido que Jack teve na vida. – Como se sente?
– Já o segundo que me pergunta isso. – Disse Hiccup. Então estendeu a perna protética.
– Quem te mandou? – Perguntou Jack.
– A presidente Hale. – A resposta fez Jack engolir em seco, imaginado o método de barganha da Presidente. Não que ela precisasse, pois Jack já havia aceitado o cargo que ela solicitara. – Você a conheceu?
– Ontem à noite. – Confirmou. – Ela me pediu para fazer uma coisa.
Jack contou a Hiccup sobre a mentira de Norte, sobre Chicago ainda estar ativada, porém nas mãos da Locker. Sobre como eles iriam para Chicago quando se recuperassem.
Sobre como Jack teria o privilégio de executar Norte publicamente.
Hiccup encarava Jack, boquiaberto, enquanto assimilava os eventos dos quais nem ele, que vivera somente do lado de fora das muralhas, desconhecia.
– E quando você vai para Chicago? – Perguntou Hiccup por fim.
– Assim que nos recuperarmos. – Respondeu Jack. – Isso inclui você. – Os olhos de Hiccup se ergueram para os de Jack. – Eu quero que você vá comigo.
Não houve uma resposta imediata. Jack sabia o que estava pedindo para Hiccup. Queria que ambos lutassem em Chicago. Não era mais uma questão de sobrevivência. Não eram apenas mais vampiros para fugir.
Aquilo era uma guerra. A segurança de ninguém poderia ser garantida.
Hiccup sopesava as opções com cautela. Por um lado, ficaria com Jack. Por outro, garantiria sua segurança. Foi ali, quando os dois finalmente entenderam o quanto que se compreendiam. O quanto que realmente estavam cansados de se esconder desse novo mundo.
– Eu vou com você. – Disse Hiccup.
+++
A recuperação de Hiccup não foi menos difícil do que a de Astrid. Ambos faziam sequências intermináveis de fisioterapias. Acabaram se apegando aos gritos de incentivo um do outro. Eventualmente se tornaram amigos. Hiccup nutria um imenso agradecimento pela loira, pois ela lhe deu a oportunidade de procurar por Valka, e mesmo que não a tivesse encontrado, ainda considerava cada esforço como valido a pena.
Astrid também entendia o quanto precisava dos incentivos de Hiccup para continuar lutando contra as dores. Além do mais, a loira desenvolveu um método, que antes compartilhara com Jack, e agora compartilhava com Hiccup. Repetia todos os fatos dos quais tinha absoluta certeza de que estavam acontecendo. Começando pelo próprio nome, partindo para eventos cada vez mais complexos. E no final o objetivo. Ele vai matar Norte, era o que a loira repetia para si mesma, confortando-se nas palavras. Nós vamos sair dessa, era o que Hiccup repetia.
Ao mesmo tempo em que Jack mergulhava de cabeça nos treinamentos com os militares de Hale. Aprendera mais um milhão de formas de utilizar armas diferentes, modos de combate, estratégias de guerras. Estava cada vez mais se assemelhando com os soldados. E não estava sozinho. Se não fosse por Sandy e Mérida, com certeza Jack já teria ficado louco.
Todas as tardes se reuniam no refeitório do Centro Militar de Mineápolis. Passavam juntos os trinta minutos do almoço e do jantar. Também designaram um quarto para Jack, do mesmo tamanho do que o que possuía na Arca. Ele gostava disso. Sempre preferiu espaços mais apertados do que amplos locais espaçosos.
Conforme as semanas passavam, mais intensos eram os treinos, para todos. Jack começou a reparar em diversos padrões, como: Mérida era de longe a melhor atiradora do esquadrão. Sandy era o melhor em combate corpo-a-corpo. Jack não sabia dizer qual eram suas qualidades, até que Mérida interveio:
– Você é a mente da equipe. Se não fosse por você, eu jamais teria descoberto como completar aquele teste de resistência semana passada.
E de fato, Jack se recordava desse teste, onde uma rua abandonada de Mineápolis servia de cenário de guerra, no qual precisavam traçar um caminho até as pontas da cidade, efetuar uma invasão, conquistar um objetivo e saírem ilesos. A estratégia de Jack rendeu os maiores pontos entre todos do esquadrão.
– Não se subestime. – Disse Mérida, em um dos testes de tiro ao alvo. Permitiram que ela utilizasse o arco e flecha em combate. De fato, ela era muito mais funcional com a arma do que com os rifles militares.
Porém Jack adotou um estilo totalmente diferente nos combates. Os telhados eram rotas de fugas, e sua mira não era ruim. Se lembrava de quando abatera um daqueles alvos móveis com um único tiro de pistola.
Já estavam em Minessota faziam dois meses quando Hiccup e Astrid se juntaram aos treinos táticos. Ao lado de Jack, ambos tiravam as melhores notas do esquadrão. Hiccup era o mais versátil com as armas do que Jack, e tinha raciocínio rápido. Detectava soluções simples em situações impossivelmente difíceis nos testes em que eram jogados.
Havia uma cama livre no quarto de Jack. Hiccup a ocupou da mesma maneira que ocupou na Arca, ao menos pelas doze horas em que morou lá. Mas não confiavam na distância. Preferiam dormir na mesma cama, espremidos contra a parede, esperando pelos monstros que certamente entrariam pela porta.
Aos poucos os testes se intensificavam. O que antes podia ser encarado com certas brincadeiras, agora eram verdadeiros desafios não somente físicos, como psicológicos. Em um dos testes, Jack foi amarrado a uma cadeira em um sótão do subsolo. E a água subia por todos os encanamentos expostos. Não sabia se era realmente um teste ou um ataque vindo da Locker. Jurava que teria se afogado se Hiccup não tivesse entrado na sala, desfazendo os comandos que mergulhavam o tanque.
Em outra, Hiccup havia sido jogado em uma viela estreita, pela qual os mortos rastejavam até ele. Jack o salvou momentos antes que os mortos rasgassem sua carne.
O maior desafio foi durante os testes de sobrevivência, onde romperam uma represa diretamente sobre uma rua de uma cidade abandonada. A cidade, cercada por muros de concreto, não fornecia uma rota de fuga. Jack, Sandy, Hiccup, Mérida e Astrid estavam em um cruzamento na avenida principal, ainda esperando o início do teste quando ouviram o som da água. As paredes da represa abaixaram, e a água invadiu a rua com tanta violência que tiveram apenas tempo de entrarem em um prédio mais alto do que a onda. Todos, com exceção de Hiccup.
A mão de Jack apontava inutilmente para a rua enquanto a água jogava Hiccup para longe de Jack. Em questão de segundos, havia inundado o quarteirão, batendo nas Muralhas sólidas que cercavam a cidade. Jack jurava que Hiccup teria morrido no teste, se não fosse pelas boias escondidas sob os uniformes. Hiccup estava flutuando sobre a água, agarrado a um poste enquanto batia as pernas contra a corrente.
Naquela mesma noite, Hiccup gritava em seus sonhos, enquanto o quarto mergulhava em uma onda da qual ninguém poderia resgatá-lo. Ninguém além de Jack. Não voltaram a dormir aquela noite, apenas se mantiveram abraçados, a cabeça de Hiccup deitada no peito de Jack.
O albino apenas se mantinha preso as palavras da presidente, que havia dito semanas antes que os testes eram perfeitamente monitorados, e que em caso de falhas, todas as medidas de segurança possíveis estavam em vigor para a proteção dos soldados.
Jack ainda repetia as palavras em sua cabeça: Eu vou matar Norte.
+++
– Jack! – Sandy gritava para Jack assim que o vira atravessando o corredor. – Venha, eu estava procurando por você.
Sandy arrastou o albino pelos corredores do Centro Militar, se recusando a responder as perguntas dele. Chegaram em uma sala de reuniões, onde a presidente Hale conversava com Astrid, sentada em uma mesa com projeções holográficas. Jack reconheceu o desenho básico de uma rua de “interseção em T”, diversos pontinhos pretos espelhados pela rua. Um desenho básico representando uma tropa de soldados subia a base do T, chegavam no topo, e então os pontinhos negros ao redor piscavam em luzes amarelas, seguidos por uma fileira de pontinhos brilhantes que subia a base do T até alcançar a tropa dos soldados. Táticas de guerra, pensou Jack. Ouviu Astrid confirmar.
– ...enquanto isso os vampiros estariam encurralados na ponta da rua, e não poderiam fugir para nenhum dos lados, as minas impediriam que eles escapassem. Quando se vissem sem saída, seguiria a última rodada de explosivos.
A presidente acenava, absorta pelo estudo de Astrid. Jack via que essas táticas se baseavam simplesmente nas mais espontâneas reações do psicológico humano. Talvez vampiros pensassem diferente. A presidente se virou para Jack.
– Jack, que bom que veio. – Disse a presidente. – Sammuel já lhe contou as notícias?
Jack demorou um pouco até recordar que Sammuel era o nome de Sandy.
– Não, senhora. – Disse.
– Nossos satélites gravaram uma imagem recente com notícias do Colorado. – E se virou de costas, apertando dois comandos em uma mesa. A parede piscou uma vez antes de mostrar uma fotografia aérea do Colorado. Jack reconheceu de imediato a localização da Arca. Mas não era uma foto, por que um vídeo se seguiu, aonde helicópteros apareciam, trocavam tiros contra a fortaleza de Norte, e então desapareciam. Momentos depois, um caminhão saia do interior da Muralha, o qual Jack reconheceria em qualquer lugar.
– Norte. – Disse.
– Sim. – Respondeu a presidente. – A inteligência seguiu o caminhão em direção a Illinois. Jack, sabe o que isso significa? – Jack sabia, mas a presidente continuou da mesma maneira. – Norte pode ter chegado em Chicago a essa altura. Sem a Arca, ele é vulnerável.
Jack encarou os olhos cinzentos da presidente. Ele sabia o que ela diria a seguir.
– Isso significa que...
– Que estou encaminhando uma tropa para Chicago de imediato. Você e sua esquadra poderão ir amanhã de manhã. Aliás...
A imagem na tela mudou, Jack agora via uma multidão de pessoas, sobreviventes pelas cidades menores, ou então outros Evoluídos. E todos marcavam faixas brancas sobre suas bochechas. Faixas de guerra.
Jack coçava os cabelos enquanto perguntava:
– O que isso quer dizer?
Mas foi Sandy quem respondeu:
– Eles estavam nos gravando esse tempo inteiro. As imagens de nosso treinamento foram disponibilizadas pelas transmissões para todo o país. Eles nos transformaram em modelos rebeldes!
Jack encarava Sandy, ainda sem compreender, até que outro de seus fios brancos caísse sobre seus olhos. Ele.
O Governo transformara Jack em um agitador rebelde.
– Em sua condição de Evoluído, já possui forte apoio popular devido a sua história – recomeçou a presidente. – Como vocês todos foram forçados a terem suas memórias apagadas. Como mentiram para vocês sobre tudo. Isso chama a atenção do povo. Motiva eles a te seguirem. Eu já disse antes como os albinos são os mais raros. Deu um símbolo a eles. – Jack encarou a presidente. – Nada representa a paz melhor do que o branco. Eles precisam de luz. Eles precisam de você.
Fale com o autor