The Last Ones
7 As Marcas
Notas iniciais
Jack repassava as palavras da presidente em sua cabeça por diversas vezes. Em um mês, o governo havia transformado Jack em um catalisador para um levante contra a Locker. A ignorância se provava uma benção, porque uma vez que não sabia como suas ações repercutiam no país inteiro, Jack se sentia confortável, sem ser exposto ao mundo. Mas agora ele era famoso. E o pior era que ele sabia disso. Procurava por Hiccup. Precisava dele, urgentemente. Primeiro para avisá-lo de que ambos iriam para Chicago no dia seguinte. Se é que ele já não soubesse. Notícias corriam solto, ainda mais quando não haviam muitas pessoas para compartilhá-las.
Hiccup estava no terraço, lugar que Jack só havia visitado uma vez antes, e que sabia que Hiccup o adorava. Fazia frio, o que Jack também gostava. Uma das melhores coisas sobre Minessota é que lá, quase sempre fazia frio. Neves esporádicas, geadas, dias de neve. Jack se aproximou de Hiccup, que estava encostado no parapeito.
– Hey. – Disse Jack. Hiccup estava distraído com alguma coisa, olhava para baixo, sua mão esquerda chacoalhava repetidas vezes sobre um pequeno caderno de couro. – O que está fazendo?
– Rascunhos. – Disse Hiccup.
– Rascunhos?
– Isso, como uns rabiscos. – Só então Jack conseguiu ver o que tinha na folha. Eram simples, traços rápidos, mas tão bem colocados para representar a vista de Mineápolis, que surpreendeu Jack. Nunca antes viu que Hiccup desenhava, um talento que seria inutilizado pelo mundo em que vivia.
– Eles são ótimos. – Comentou Jack, admirando pelo ombro de Hiccup.
Só então viu que uma página continha um desenho de um rosto, rabiscado, mas facilmente reconhecível: Jack.
– Por que me desenhou aí? – Perguntou o albino, com um sorriso curioso.
– Eu prefiro não comentar. – Disse Hiccup. E de fato, sentiu borboletas em seu estômago quando pensou em mostrar o caderno a Jack. Já não queria que tivesse visto aquele, imaginou como seria se visse os outros...
– Por que não? – Teimou Jack.
– Por que eu não quero. – Disse Hiccup, fechando o caderno.
– Por que não?! – Agora Jack ria da situação, tentava agarrar o caderno das mãos de Hiccup, mas segurou firmemente seu pulso.
– Me solta, Jack. – Disse Hiccup, e não havia sinal de divertimento em seu rosto.
– Então me deixa ver!
Hiccup o encarou. Engoliu em seco antes de bater o caderno no peito de Jack. O albino riu, mas claramente confuso com a reação. Balançou a cabeça ao ver que Hiccup estava novamente encostado no parapeito. Jack folheou as páginas, quase se deparando com reflexos dele mesmo. Hiccup preenchera o caderno com desenhos de Jack nas mais variadas formas. Entendia o que isso significava. Que da mesma maneira em que Jack precisava de Hiccup, entendia que Hiccup também necessitava dele.
– Por que nunca me mostrou esses? – Disse, sua voz mostrava delicadeza, era convidativa, e até mesmo apaixonante.
– Eu não queria que visse. – Disse Hiccup. – Agora sabe que em tudo o que você fizer reflete em mim também. E você não precisa desse fardo.
Jack observou Hiccup. O jeito como o vento bagunçava os cabelos castanhos, como ele coçava a ponta do nariz com as costas da mão. O jeito com que ele via o mundo. E nunca antes o viu tão lindo. Ele era lindo, de fato.
Em algum momento, Jack segurou o pulso de Hiccup.
O movimento de dor de Hiccup tirou Jack de seu estado de torpor.
– O que foi? – Perguntou Jack, e viu Hiccup massagear a parte de dentro do pulso esquerdo. Por entre a manga da camisa, a pele exposta continha finos traços rosados. – Hiccup?
Os olhos de Hiccup marejavam, a beira das lágrimas.
– Deixe eu ver o seu braço. – Disse Jack, firme, mas Hiccup hesitou antes de estendê-lo.
Os traços dos cortes estavam estampados sobre a pele de Hiccup, as linhas sangrentas que marcavam seu braço.
– Me desculpe. – Disse Hiccup.
– Por quê? – Perguntou o albino, o nó em sua garganta formado ao ver o as mutilações.
– Eu não queria que ninguém soubesse, nem mesmo você. – Disse. – Mas eu não sou forte o bastante. Olhe aonde estamos? – Apontou para a cidade, mas ambos sabiam que se referia ao mundo de mortos-vivos ao longe. – Eu não sou bom o bastante, nem aqui, nem em lugar algum.
Jack observou os olhos de Hiccup, a lágrima que escorreu em sua bochecha coberta por sardas. Ele sabia o que Hiccup queria dizer. De fato, sabia como era quando você olha no espelho e apenas vê um fantasma com um coração batente. E cada batida grita, dizendo “você não é digno de minhas batidas”.
Jack ergueu as próprias mangas. Hiccup viu, o quanto eram iguais. As listras quase idênticas nos braços dos dois.
– Acho que fiz a pergunta errada. – Disse Jack, a voz muito mais suave. – Por que não?
Hiccup o encarou. Jack segurou os quadris do menor, que passou os braços sobre seus ombros.
– Você é mais do que o suficiente para mim. – Sussurrou Jack.
Olhou para os lábios rosados do moreno antes de beijá-lo. Eram um daqueles beijos suaves, quase poderiam ser perdidos com o vento, mas era forte o bastante para aguentar. Se intensificou com o tempo. O calor rodopiava pelo corpo dos dois, espalhando-se de fora para dentro, para as extremidades de seus braços.
Se separaram quando não havia mais ar em seus pulmões. Se olharam, a mão de Jack acariciava uma das bochechas de Hiccup. Ele era tão lindo... E então a lembrança de Chicago lhe veio à mente.
– Agora... eu preciso da sua ajuda.
Hiccup encarou Jack, um brilho de excitação em suas írises verdes.
– O que é? – Perguntou. O albino demorou antes de responder.
– A presidente Hale liberou o ataque à Chicago. Estaremos partindo de manhã. – Hiccup assumiu uma expressão pensativa. – E tem mais uma coisa. Grupos rebeldes atacaram a Arca ontem à tarde. Norte fugiu, ele foi para Chicago.
Hiccup ponderou por um tempo.
– Então vamos para Chicago. – Disse por fim. – Ele não pode fugir de lá.
– Também não posso matá-lo lá. – Se interpôs o outro. – Hale quer uma execução pública. Aqui.
Hiccup encarou o horizonte. Ainda se perguntava por que a presidente exigia tanto uma humilhação tão grande. De fato, os crimes de Norte eram imperdoáveis. Mas parecia exagero uma execução pública a todo custo.
– Você confia nela? – Disse Jack. – Na presidente?
Jack ponderou por um tempo.
– Eu acredito nela. E com certeza deve ser melhor do que Norte.
– Mas você confia nela? – Repetiu Hiccup.
Jack se manteve em silêncio.
– Eu não confio em políticos. – Respondeu Jack. – Mas que opções eu tenho? Ao menos o governo dela deve oferecer algo melhor do que bombardear cidades com possíveis sobreviventes. Algo melhor do que abusar de crianças.
– E onde estamos no meio disso tudo? – Perguntou Hiccup, se lembrando das diversas vezes em que os testes da presidente quase o fizeram se afogar. As diversas vezes nas quais ele e Jack acordava desesperados, enquanto se lembravam das seções após seções de treinos aterrorizantes.
Jack pareceu entender isso por um momento. Mas ambos concordavam que dos males, o menor. E outra, Hale havia tornado o governo dela responsável pela libertação dos Evoluídos. Pela busca aos sobreviventes. Por uma solução.
– Ela parece que quer fazer de Astrid uma estrategista. Agora mesmo elas acabaram de criar sequências de armadilhas para combates apertados. – E então Jack explicou como funcionavam as sequências de explosivos para encurralar tropas inimigas.
– É inteligente. – Disse Hiccup. – Mas, me parece errado. Mesmo para uma guerra, devia haver um limite entre o que é moralmente correto e o injustificável.
Jack apenas concordou. De fato, achava que não haviam mais nenhum tipo de limites para a crueldade.
– Que horas saímos? – Perguntou Hiccup.
– Amanhã as seis da manhã. Chegaremos em Chicago às sete.
Os dois se mantiveram em silêncio por um momento.
– Tem mais uma coisa. – Disse Jack.
E explicou sobre como Hale havia feito de Jack uma propaganda para os sobreviventes, um símbolo de rebeldia contra a Locker.
– Isso é bom, certo? – Disse Jack.
– Acho que não. – Disse Hiccup. — Isso é uma invasão de privacidade. Tomaram o seu rosto como deles, te tornaram uma fonte rebelde. As pessoas lá fora usarão você de agora em diante. Tudo que eles fizerem, te transformando em um alvo direto. Quem você acha que Norte vai mirar primeiro quando estivermos em Chicago?
Jack sabia a resposta.
Sabia que agora, cada um de seus passos seria vigiado por Norte.
+++
Os dois estavam no quarto. Hiccup jogava apenas o estritamente necessário em uma pequena mala. Apenas uma muda de roupas. Pequenas latas de alimentos não perecíveis. Um bloco de notas, com um lápis amarrado por um barbante.
A mochila de Jack, do dia em que eles haviam chegado ainda estava com ele, intocada. Não encostaria em nada daquilo. Apenas observava Hiccup enquanto ele ajeitava a mochila com provisões.
Tentava não admitir, mas se via cada vez mais irremediavelmente ligado a ele. Não haviam se beijado muitas vezes depois do primeiro dia na ala hospitalar. Se lembrava de como o corpo magro de Hiccup tinha sido carregado por Sandy. Como o garoto havia surtado quando descobrira que não haviam encontrado sua mãe. Como fugiram da Arca. De tudo o que aconteceu depois.
De repente, Hiccup se virou, encontrando os olhos azuis de Jack. Estes que não se desviaram.
Se encararam por um tempo inconfortavelmente longo, até que Hiccup perguntou:
– O que está olhando?
Jack levou seu tempo para responder:
– Você.
E se levantou, deu apenas dois passos até chegar até Hiccup. A proximidade dos dois não os assustavam mais. Não queriam se afastar. Os braços de Hiccup estavam no pescoço de Jack, puxando-o para mais perto.
Se beijaram novamente, dessa vez sem o efeito de morfináceo, sem a ameaça de serem presos no mesmo momento para separá-los. Podiam ir cada vez mais além. A língua de Jack pedia passagem pelos lábios de Hiccup. Era um beijo suave, Jack deslizava sua língua pela de Hiccup, sentindo seu sabor. Já estavam arfando quando se separaram. Se olhavam diretamente nos olhos, os verdes se afogando nos azuis.
– Sabe que se vierem aqui, estamos mortos. — Disse Hiccup, abafando um sorriso.
Jack apenas sorriu.
– A porta se tranca por dentro também.
+++
Jack empurrou o corpo de Hiccup contra a parede. Se encararam antes de se beijarem novamente, as mãos de Jack tateavam o corpo do moreno, sentindo sua pele por baixo da camisa. Ele queria aquilo. Queria mais do que tudo. Sorriu de canto, olhando firme nos olhos verdes. Mas notou além da ansiedade, o nervosismo.
– Hey. — Disse Jack, acariciando o queixo de Hiccup. O moreno o olhou nos olhos, respirando com dificuldade. Então tornou a beijá-lo antes que perdesse a coragem.
Hiccup puxou Jack até o colchão. O albino deixou uma trilha de beijos que subiam de seu pescoço até suas bochechas, e então seus lábios. O beijo era bem intenso, quase não paravam para respirar. As mãos de Jack desceram até as pernas abertas de Hiccup. O moreno gemeu, suave, o que fez Jack “acordar”. Hiccup ergueu a barra da camisa de Jack, puxando-a para cima. Foi quando separaram o beijo. Jack se debruçou sobre Hiccup. Beijava-o incessantemente. Sua camisa veio em seguida, arrastando o tecido pela pele do moreno. As marcas dos cortes ainda eram visíveis em seus pulsos. Linhas de cicatrizes marcavam seu peito. Jack as beijou, cicatriz por cicatriz, subindo por seus braços, até chegar as dos pulsos.
Sentiu a mão de Hiccup se retrair ao sentir os beijos sobre os cortes. Jack o beijou nos lábios novamente, segurando seu rosto com delicadeza.
Finalmente, Jack desabotoou a calça de Hiccup, abaixando-a aos poucos.
Beijava e massageava a virilha do moreno, e sentia o volume aumentar entre as pernas do garoto. Brincou um pouco com a barra da cueca, puxando o elástico, provocativo. Viu o garoto gemer novamente, e baixou a cueca em seguida. O membro exposto de Hiccup já estava desperto. Jack o agarrou com uma mão, deslizando em movimentos verticais primeiro. Então deslizou sua língua por sua extensão. Hiccup se agarrava aos lençóis, arqueava suas costas para trás, enrijeceu suas pernas quando Jack finalmente o abocanhou.
Sua cabeça se movia para cima e para baixo em meio as coxas de Hiccup. Dedos agarraram os cabelos brancos de Jack. Hiccup gemia sentindo o calor dos lábios de Jack envolvê-lo. A sensação de calor atravessou o corpo de Hiccup, direcionando-se ao seu membro, o prazer explodindo em líquidos brancos de esperma.
Jack se ergueu sobre Hiccup, beijando-o nos lábios uma vez.
– Sabe o que vem agora, né? — Disse, beijando seu pescoço em seguida. Hiccup confirmou com a cabeça. Suas mãos voaram até o cinto do albino, desafivelando-o, e desabotoou as calças.
O albino segurou a cintura de Hiccup, dando-lhe firmeza, sentindo o calor sendo transmitido até sua pele. O último tecido deslizou pelo corpo de Jack. Segurou a cintura de Hiccup, posicionando-se de frente para ele. Faria aquilo com delicadeza. O beijou novamente antes de começar.
Jack o forçou aos poucos, espremendo-se pelas paredes apertadas do moreno. Hiccup gemia enquanto se sentia invadido. Nem sempre de dor, contudo. As mãos dos garotos se entrelaçaram quando Jack estava inteiramente dentro do moreno. Então a velocidade dos dois aumentava. Logo estavam em uma dança sincronizada. As pernas de Hiccup laçaram a cintura de Jack, puxando-o mais para dentro.
Ambos suavam quando sentiram as estocadas finais, o prazer do calor preenchendo Hiccup enquanto Jack se desfazia sobre ele.
Desaceleravam aos poucos, ofegantes e exaustos, um sorriso estampado em seus rostos. Jack deitou sua cabeça no peito de Hiccup, mãos acariciavam seus cabelos brancos enquanto se acalmavam.
Não conseguia mais espremer seus pensamentos. Jack simplesmente não conseguia.
– Eu te amo. — Disse, antes que pudesse se conter.
E agora estragaria tudo, em apenas um segundo. Hiccup não poderia correspondê-lo. Simplesmente não poderia, por todos os motivos possíveis. E então veio a resposta.
– Eu também te amo.
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