The Last Ones
4 Parte 2 - O MASSACRE | Cap. 4 - Mineápolis
Notas iniciais
Em segundos, o mundo se transformou em um turbilhão de cores. Em seguida, apenas a escuridão. Aos poucos Jack abriu os olhos, reparando em pequenos pontos ao redor em que as chamas ardiam sobre os destroços do Hospital. Um apito irritante martelava sua mente. Jack não sabia onde estava, exceto que haviam escombros sobre seu corpo. E não via Hiccup.
– Hiccup? — Gritou, o desespero ameaçando tomar conta.
– Aqui! — Respondeu o outro, e uma expressão de dor foi percebida em seu tom de voz.
Em alguns minutos, conseguiu se desvencilhar dos escombros, passando por uma pequena brecha que havia se formado por entre as vigas de metal que o cercavam. Uma vez livre, Jack se pôs de pé, caindo novamente devido a tontura.
– Hiccup! — Chamou novamente, indo em direção as respostas roucas que o outro dava.
O estômago de Jack se revirou ao ver Hiccup. Uma barra de metal atravessava sua perna esquerda, um pouco abaixo do joelho. Sangue se espalhava pelas rochas destroçadas. Cobriu a boca com as mãos ao ver a cena.
Em seguida, se atirou ao lado dele. Hiccup demonstrava dor, mas não era proporcional ao ferimento que tinha.
– Hiccup, sua perna...
– Eu já reparei — cortou Hiccup, em meio a um gemido. — Eu não à sinto.
Só então que Jack compreendeu a gravidade da lesão. A viga de ferro teria atravessado um dos tendões, danificando-o além do reparo.
Ouviram um lamento rouco, mas não foi emitido pelos garotos. O som veio de uns dez metros à frente deles. Jack reconheceu rapidamente os olhos cegos do morto-vivo, iluminados por uma fraca chama que parecia lamber as vigas de aço. Jack tateou as costas à procura da pistola. Apontou a arma retamente para a cabeça da criatura.
Estava apertando o gatilho quando outra criatura o derrubou no chão.
O morto-vivo montara sobre Jack, lutando para aproximar os dentes em qualquer carne exposta que encontrasse. A arma tremia nas mãos do garoto, lutando para apontar para o rosto da criatura repugnante. Houve um flash abafado pelo silenciador, e a cabeça do morto-vivo tombou para trás.
O outro estava a uns cinco metros, Jack precisou disparar duas vezes antes de derrubá-lo. Olhou ao redor a procura de mais, parecia que estava limpo por hora.
Correu até Hiccup, que lutava para afastar as vigas enferrujadas de cima de seu corpo encolhido. Jack agarrou o metal, puxando-o para cima. A viga que perfurara Hiccup não era maior do que uma faca de cozinha, e a outra perna do garoto estava ilesa. Conseguiram ancorar Hiccup pelo ombro de Jack, e juntos, forçaram o caminho para fora dos escombros.
Um morto-vivo ardia em chamas em frente ao buraco formado pelos destroços do hospital. Jack o deixou queimar. Não gastaria suas balas. O mais assustador veio a seguir.
O que antes abrigava uma cidadezinha, agora era uma imensa bagunça de chamas. Pilhas de destroços queimavam em meio a escuridão. O fogo rodopiava sobre os prédios caídos. O local onde a bomba atingira, o marco zero, era agora um enorme vão onde as chamas dançavam em tons de dourado.
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Demorou algum tempo até que os garotos conseguissem traçar seu caminho até o solo, onde pequenos focos de incêndio crepitavam. Hiccup apoiado nos ombros de Jack, observando com horror o cenário caótico.
Se mantiveram em silêncio. A fumaça fazia com que os dois tossissem, suas gargantas queimavam, clamando por água. Se não fosse por uma placa retorcida no meio do asfalto, jamais teriam reconhecido a avenida principal.
Para quem o bombardeio era destinado, os garotos ou os mortos-vivos, nenhum deles sabia dizer.
Hiccup se sentou em um poste tombado, aliviando os ombros latejantes de Jack. Não havia um único prédio ainda de pé, um único local pelo qual os dois pudessem se abrigar. Jack se ajoelhou diante de Hiccup, examinando o ferimento. O sangue escorria aos poucos. Jack não poderia remover a viga, isso poderia desencadear uma hemorragia.
Rasgou um pedaço da própria camisa, batendo-a uma vez, e então enrolando-a ao redor da perna de Hiccup.
– Terei que fazer um torniquete. — Disse Jack, a voz trêmula. Hiccup sabia o que isso acarretaria. Poderia perder a perna. — Sinto muito, Hiccup.
– Está tudo bem. — Disse Hiccup. Claramente que não estava, mas a mentira conseguiu acalmar ambos por um momento.
O último nó foi laçado ao redor de uma pequena tira de metal.
Foi quando ouviram o som das hélices. Ambos se abaixaram quando imaginaram outro bombardeio.
Ao invés disso, o pesado corpo negro do helicóptero de patrulha cruzou o céu, a bandeira dos Estados Unidos estampada nas laterais.
Não tiveram tempo de correr antes que a luz do helicóptero iluminasse o rosto dos garotos.
– Jack, vá! — Gritou Hiccup, agarrado a própria perna.
– Não, eu não vou a lugar algum sem você! — O desespero trespassou por Jack com a ideia de abandonar Hiccup. Sabia que não conseguiriam correr, a perna lesionada de Hiccup impediria isso.
– Jack, por favor! — Hiccup persistia, uma lágrima solitária descendo por sua bochecha.
Antes que pudesse dizer qualquer coisa, Jack selou a boca de Hiccup com um beijo. Pressionando os lábios, impedindo Hiccup de emitir mais uma palavra. O moreno havia sido pego de surpresa, e embora estivesse receoso, permitiu que se entregasse para Jack naquele beijo. Uma sensação de calor invadiu os dois, Hiccup esquecera a dor lancinante em sua panturrilha. E não teriam se separado se não fosse pelo som insuperável do helicóptero que acabara de pousar.
Foi quando os soldados saltaram do helicóptero. Apontando os rifles militares para os garotos. O vento provocado pelas hélices fez com que o cabelo branco de Jack tapasse seus olhos.
As armas de Jack foram recolhidas, e Jack estava pronto para ser algemado, assim como Hiccup. Mas ao invés disso, os soldados apenas escoltaram os garotos pelos ombros, caminhando com eles para o interior do helicóptero.
Jack estava na defensiva, assim como Hiccup, e estavam a ponto de bombardeá-los com perguntas hostis quando viram outros três adolescentes.
Reconheceram de imediato os cachos indomáveis de Mérida, a farda sobre a testa de Astrid, e os cabelos arrepiados de Sandy.
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Astrid e Sandy estavam apagados, encostados um no outro no canto do veículo. Mérida, porém, estava alerta, e tentava acalmar Jack, respondendo às milhares de perguntas do garoto com paciência.
– Jack, se acalme. Vou lhe contar tudo o que sei.
– O que está fazendo com eles?
– Eles nos resgataram enquanto estávamos procurando por você. Norte havia ficado possesso quando vocês desapareceram. Disse que era para nós irmos atrás de você.
Os olhos de Jack se desviaram para Astrid.
– Sim, ela foi obrigada a nos contar, mas Jack, ela não queria. Norte a forçou a contar.
Uma outra olhada em Astrid e então Jack pode ver os hematomas em seus ombros nus, seguidos de corte profundos e arranhões.
– Astrid... — Disse Jack, se aproximando, mas a mão de Mérida segurou seu ombro.
– Norte a torturou, Jack. Ele não é quem pensávamos que era.
– Como ele pôde...
– Nós também não acreditamos, Jack. Fomos atrás de você, mas tínhamos esperança de desaparecer assim que despistássemos o grupo de saqueadores que veio conosco. São praticamente lacraias do Norte. De qualquer maneira, estávamos quase em Delta quando o míssil atingiu a cidade. Ela ficou muito pior do que Frisco. Nossa van foi derrubada pela onda de choque, e então tivemos a chance de escapar. O helicóptero do governo nos encontrou uns trinta minutos antes das próximas explosões atingirem Denver.
Jack não conseguia assimilar a mudança nos eventos. Era muito para compreender de uma só vez.
– Não somos os únicos Evoluídos, Jack. Eles possuem uma frota inteira.
– E onde estamos indo? — Perguntou Jack, agora sua voz era uma oitava mais baixa.
– Para uma base em Minessota. — Respondeu a ruiva com simplicidade. — Eles estão pedindo para confiarmos neles... não tenho certeza do que fazer.
– Jack? — Outra voz chamou no canto do helicóptero.
Jack se virou até onde estava Hiccup. Encolhido, as mãos trêmulas segurando o fino cobertor que tentava aquecê-lo.
– Estou aqui. — Disse Jack, segurando uma das mãos de Hiccup.
– Onde estamos agora? — Perguntou Hiccup, a voz rouca e falha.
– Mérida? — Perguntou Jack. A ruiva encarava um mapa digital em um dos painéis do helicóptero.
– Em algum lugar de Nebraska. Estaremos pousando em breve.
Jack se voltou para Hiccup.
– Ouviu isso? — Disse o albino. — Vai dar tudo certo.
Hiccup encarava Jack, os olhos verdes imersos nos olhos azuis.
– Você me beijou. — Disse por fim. Jack esboçou um sorriso.
– Eu não ia te deixar ali. — Respondeu Jack. — Eu vou aonde você for.
Se mantiveram em silêncio por um momento.
– Estaremos pousando na base aérea de Sutherland em alguns minutos. — Disse o piloto, enquanto apertava botões aleatórios em um painel.
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A base de Sutherland pegava uma área de cinco quilômetros, cercada por grades altas com arames despontando do topo. Aviões pequenos e monomotores estavam estacionados pela pista, diversas luzes piscando dos acampamentos aonde o exército se reunia.
Jack acordava Astrid sem sutilezas para que saíssem do helicóptero. Porém, Hiccup estava fraco demais para se levantar.
Homens vestidos com roupas militares traziam macas improvisadas para carregar Hiccup. Jack os acompanhou enquanto eles erguiam o corpo de Hiccup, mas foi impedido de seguir até a aeronave metálica aonde o garoto foi embarcado. Lutou contra os empurrões dos guardas, indisposto a deixar Hiccup sozinho.
– Ele vai para o mesmo lugar que você, agora entre no maldito avião! — Diziam um dos militares, mas Jack se recusava a ouvir as palavras de qualquer pessoa que trabalhasse para o governo.
– Jack! — Gritava Mérida, agarrando-o pelo pulso. — Aquele é um avião hospitalar! Eles vão cuidar de Ethan!
As palavras da ruiva eram as únicas que o alcançariam em meio àquele tormento. E não havia mais o que fazer, pois a maca já transportava Hiccup para o interior do avião. Para Jack, só restava embarcar ao lado dos outros. Mérida o puxava pela mão, guiando-o até o interior da aeronave.
Esta parecia ser inteiramente forrada por placas metálicas, e era duas vezes mais espaçosa do que o helicóptero. Levaram mais ou menos duas horas até chegarem em Minessota. Mais vinte minutos até que a aeronave pousasse em movimentos espirais. Não haviam janelas para que vissem aonde estavam.
Foram literalmente escoltados para fora, a traseira da aeronave levava até uma rampa mecânica, degraus íngremes pelos quais os garotos desciam apressados. Estava escuro, e nevava. O contraste entre as temperaturas causou arrepios em Jack. No Colorado, um calor infernal fazia com que o garoto se agoniasse com a própria temperatura. E em Minessota, a neve lhe causava calafrios.
Se bem que Jack gostava da neve. Era de longe, sua estação favorita. Não tinha visto a neve muitas vezes em suas excursões com o grupo, mas sempre gostara da macies gelada que os flocos de neve proporcionavam.
Jack não conseguia ver muito mais do que a fachada cinzenta do edifício em que pousara. A noite escura impedia que ele visse coisas além de vinte metros de distância. Tinha uma vaga noção de estar em uma vasta cadeia montanhosa, e algumas luzes artificiais piscavam no horizonte.
Entraram em uma larga porta eletrônica de metal. Essa que deslizou para baixo depois que entraram. Finalmente, Jack viu o selo dos Estados Unidos estampados em uma bandeira no hall de entrada do edifício. Pessoas atarefadas zanzavam de um lado par ao outro, portando pranchetas, carrinhos de mão, sacolas pesadas, e alguns grupos militares que portavam armas pesadas. Jack reparou que com exceção dos militares que ainda mantinham uniformes de camuflagem, todas as pessoas na base de Minessota usavam roupas exclusivamente negras.
Uma alta mulher caminhava em direção aos garotos. Mérida se adiantou ao lado de Jack. Astrid era carregada pelos ombros de Sandy, ainda com expressões de dor.
Agora perto, a mulher era sorridente, mas sua expressão era perturbadora. Vestia roupas exclusivamente negras, os cabelos também negros estavam presos em um rabo de cavalo. Possuía rugas de velhice, mas seus olhos eram dourados, pareciam que cintilavam como faíscas em uma fogueira. Havia um único pingente preso em seu colete, o qual Jack reconheceu de imediato: uma águia presidencial.
– Bem-vindos a Mineápolis. — Disse ela.
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