The Last Ones
1 Parte 1 - OS EVOLUÍDOS | Cap. 1 - A Arca
Notas iniciais
Nenhum dos passos mais pesados de Jack faziam com que o som se sobre pusesse aos da chuva que caía com violência. Ele segurava o prórpio ombro conforme corria, e o sangue manchava seus dedos quando pressionado. A adrenalina impedia a dor, contudo. E Jack agradecia mentalmente por isso.
Estava em uma ruela escura, a noite, quando os mortos se aventuram, era o que North dizia. Atrás dele, Sandy o seguia por perto, um rifle com silenciador bem seguro em suas mãos. Embora estivesse ferido, Jack conhecia melhor aquele lugar. De noite, deveria estar um enchame de mortos-vivos. Mas não viam nada. Nem um gemido ou lamento rouco que aquelas criaturas faziam.
– Vem, por aqui! — sussurrava Jack para Sandy, as cabeças abaixadas conforme corriam curvados.
Um estrondo vindo de uma lixeira fez com que os garotos saltassem para o lado, e Sandy disparou contra a criatura emagrecida. Foram necessários diversos flashes de fogo até que o corpo esburacado do morto-vivo se aquietasse. Sangue escuro e pastoso escorria devagar pelos buracos de bala.
Pararam para ver se outro estava atrás, mas o som logo atrairia mais. Recomeçaram a corrida. Após uma esquina, estavam em uma avenida deserta, a principal da antiga cidadezinha. Jack e Sandy encararam os prédios baixos do campo por um momento, a procura da van que supostamente deveria estar aguardando por eles. Mas nada viam, exceto um lampião inconsistente que piscava no final da avenida.
Houve um barulho de motor do lado oposto da avenida, onde a van derrapava pela rua molhada, espalhando água por onde passava. Uma garota loira e com farda na testa dirigia, Astrid. Jack agradeceu mentalmente pela sorte. E então eles ouviram os gritos. Não da van de Astrid, mas do lado inverso da avenida. Gritos roucos, mortos, mas sedentos por sangue.
Os mortos-vivos que ainda não haviam aparecido por toda a busca de repente se fizeram presentes em uma única horda, uma fila assustadoramente grande de seres que já não se poderia mais chamar de humanos. Jack e Sandy estavam bem no centro entre os vampiros e a van. Como uma corda de guerra onde o lado perdedor os levaria à morte.
Puseram-se a correr. O pouco tempo pelo qual a dor de Jack não se fez sentir agora combrava seu preço, mas não ousavam parar. A chuva atrapalhava a visão de ambos, e Sandy gritava para Jack, incentivando-o a correr mais depressa. Assim como Astrid. Faltava pouco, e ainda assim, a horda de vampiros corria atrás dos dois. Apenas vinte metros. Depois dez. E os mortos aceleravam, pulavam, clamavam por sangue.
Uma outra pessoa pulou para fora da van, os cabelos ruivos e fartos cobertos por um capuz. Um arco dourado se ergueu das mãos dela, e Jack sabia o que viria. Abaixou-se quando a flecha sibilante rodopiou sobre sua cabeça, o explosivo vermelho apitou uma única vez antes de explodir um grupo de vampiros em uma nuvem de sangue e cinzas.
Mérida continuava disparando para as fileiras de mortos-vivos, berrando por Sandy e Jack. Saltaram para dentro quando chegaram perto o bastante, e Astrid pisou fundo no acelerador, com um tranco, a van se atirou para frente, correndo para a liberdade.
– O que diabos foi aquilo? — Gritou Mérida, repusando o arco. Uma fileira de flechas que alternavam entre comuns e explosivas chacoalhava sobre o soalho da van.
– O que parece? — Retrucou Jack, permitindo que a ruiva se aproximasse para examinar o ferimento em seu ombro. Não era profundo, mas as marcas dos dentes rasgaram a pele sobre a clavícula de Jack. Uma mordida de um morto-vivo seria algo fatal para a maioria das pessoas. Mas não para os Evoluídos. E naquele veículo, todos eram.
– Parece que eles melhoraram de estratégia — Disse Sandy ofegante. — Antes que todos já apareciam logo de cara, agora eles aparecem a prestação. — Ironizou, mas ninguém ali estava a fim de gracinhas.
– E então, encontraram ele? — Disse Jack enquanto Mérida deslizava rolos de gaze ao redor de seu ombro.
– Encontramos. — Respondeu a ruiva. com seu sotaque escocês. — Está no banco da frente. Ele está fraco.
Jack adiantou-se para o lado de Astrid quando prenderam o último esparadrapo às faixas de pano. De fato, o garoto que havia gritado por ajuda em uma transmissão de emergência estava encolhido no banco, um fino cobertor jogado sobre ele. Os cabelos castanhos caiam sobre a testa, sardas pontilhavam seu rosto rosado. E ele tremia, os olhos apertados, desacordado.
– Ele vai sobreviver? — Indagou Jack, encarando os olhos azuis de Astrid. Ela apenas ascentiu, focada na diração.
O garoto de repente saltou no banco, arfando, sua garganta apertada e rouca, clamava por ar. Jack pulou para trás, e Astrid desviou a van, chacoalhando o veículo.
– Valka! — Gritou uma única vez, sua voz rouca morrendo, mas sua expressão dava a impressão de que ele queria gritar. Então seus olhos se fecharam de novo, como se tivesse sido nocauteado.
O silêncio se instaurou na van, nenhum deles sabia o que dizer ao outro.
Nenhum deles queria dizer nada ao outro.
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A entrada da fortaleza de Norte ficava no interior de uma montanha no Colorado. A áre plana ao redor dava destaque para uma única montanha solitária, onde uma construção de concreto se misturava a terra. Jack não saberia dizer onde começava a obra humana ou onde terminavam as rochas, pois ambas se misturavam com tamanha sutileza.
Os portões ficavam no nível do solo, mas apenas os guardas da fortaleza podiam abrí-los. Porém, não haviam muitas pessoas pelo mundo. Qualquer um que conseguisse caminhar sem rastejar era bem-vindo aquela altura. A van foi estacionada no interior da montanha, uma cúpula rochosa, onde ao menos uns vinte veículos que iam de jipes à vans estavam estacionados. Mas não se via ninguém no estacionamento.
Sandy carregava o garoto sobre os ombros. Astrid tamborilava os dedos sobre o volante, trêmula, antes de sair da van. Mérida apanhou o arco e uma das aljavas antes de saltar para o estacionamento. Jack acompanhou Sandy de perto, observando o garoto que agora se silenciara totalmente. Na claridade, Jack podia ver os traços de Sandy com maior facilidade: loiro, baixo, porém troncudo, ombros largos e fortes o suficiente para ganhar de Jack em uma briga com facilidade.
O interior da fortaleza era radicalmente diferente do que o exterior aparentava: as paredes rochosas davam lugar as colunas de concreto cinzento. Barras de metal, cabos de eletricidade, paredes de vidro. Um refúgio, onde tudo tinha um propósito única e exclusivamente funcional. E haviam pessoas. Aproximadamente umas mil pessoas conviviam no interior da Fortaleza de Norte.
A ala hospitalar se localizava nos andares mais baixos. O caminho mais rápido era pelos elevadores rústicos, porém velozes. Basicamente, o andar inteiro dava lugar ao hospital. Os corredores não eram tão cinzentos, mas sim cheios de ladrilhos verdes. Cortinas corridas formavam os leitos, macas espalhadas por lugares aleatórios. Mas haviam poucas pessoas. Uma enfermeira correu para atender Sandy, que deitou o corpo do garoto sobre uma maca.
– Sammuel! — Disse a enfermeira, abraçando Sandy. Jack sempre se esquecia do nome verdadeiro de Sandy. — Quem é esse?
– Chamou na frequência de emergência. — Respondeu Sandy com simplicidade.
A enfermeira olhou para Jack. Se não fosse pelo alto coque loiro sobre sua cabeça, ele jamais teria reconhecido Azel. Os olhos verdes dela encaravam as faixas em seu ombro, analisando-o.
– Sente-se, eu vou conferir as bandagens. — Disse a loira, saindo em seguida, vasculhando as prateleiras.
Sandy tomou uma cadeira ao lado de Jack.
– Sobrevivemos mais um dia. — Disse.
– Sobrevivemos mais um dia. — Concordou Jack. Usavam esse código quando precisavam aliviar a tensão. — De onde veio esse garoto? — Indagou, encarando a maca que estava sendo arrastada por outro enfermeiro.
– Eu não sei. — Respondeu Sandy. — Deve ter visto o inferno em primeira mão. Assim como todos nós.
– Valka... O que é Valka?
– Isso é um nome. Vem do norueguês. — Sandy respondeu indiferente. Seu conhecimento ainda espantava Jack. — Uma amiga?
– Provavelmente. — Jack se afundou na cadeira, soltando um longo suspiro. — Quando ele se recuperar podemos voltar lá para ver.
Sandy apenas ascentiu. Jack não sabia o que iria acontecer. Poderia estar morto no dia seguinte. Ou na semana seguinte. Quando o mundo se acaba em uma epidemia, tudo desaparece como fumaça.
+++
Jack estava parado na frente do espelho, não havia mais ninguém no banheiro. Estava sem a camisa, observando os curativos sobre sua clavícula. Vez por outra se encarava no espelho. Seus olhos eram doentimente azuis, os cabelos naturalmente brancos e rebeldes. Sua pele era tão pálida como neve recém caída. Era comumente chamado de albino pela maioria que não o conhecia por nome. Sussurava a lista que ele repetia para si mesmo por diversas vezes:
Meu nome é Jack Frost. Tenho dezessete anos. Minha família provavelmente foi morta pelos mortos-vivos. Não tenho lembranças de minha infância. Hoje é 29 de novembro de 2021. Salvamos um garoto que havia solicitado socorro por uma transmissão de emergência.
Então vinham as partes que Jack mais odiava. A história. A verdade sobre como o mundo havia acabado. Como um acidente tóxico fez com que um vírus de experimentos militares se propagasse. Como seis bilhões de pessoas morreram em dois anos. Como que as nações ainda entraram em guerra por comida. Por terras. Por segurança. A Fortaleza de Norte havia sido descoberta como uma antiga instalação militar, mas da qual civis se apropriaram uma vez que não haviam mais militares para a ocuparem.
A fortaleza foi rebatizada de Arca, um refúgio para qualquer um não-infectado.
Mas haviam entre eles, alguns que era imunes ao vírus. Chamavam-se os Evoluídos. Nenhum deles se lembrava do que ocorrera, mas todos tinham histórias semelhantes:
Jack havia sido resgatado de uma instalação militar, uma base do governo, haviam selos dos Estados Unidos pelos corredores. Havia sido salvo pelo Norte, alto, grande, lembrava até com um touro, mas salvara a vida de Jack Suas memórias se formaram a partir daí. Do dia do resgate, apenas flashes de memória.
Assim aconteceu com Mérida, Astrid, Sandy, e mais uma pequena fração dos habitantes da Arca. Não sabia quem eram seus pais. Não sabia o que o tornava imune ao vírus. Não sabia nem como ele havia sido resgatado.
Poucos são os Evoluídos. E nenhum dos Evoluídos possuem suas memórias completas. Apenas o que aprendem das histórias dos outros.
Foi Sandy quem teve a ideia de atender aos socorros que recebessem, a procura de novos Evoluídos. Logo, Jack e Mérida se juntaram a ele. Astrid era a mais nova do grupo, havia sido salva apenas três meses antes, e ainda sofria pelo estresse pós-traumático. Jack estava na Arca fazia apenas um ano. Naquela época, a maioria das massas que podiam ser salvas já haviam sido resgatadas. Adições de moradores se tornaram cada vez menores. Agora, eles apenas sobreviviam no subterrâneo.
Jack por diversas vezes quiz morrer. Não queria viver em um mundo que não pertencesse aos humanos. Seria mais fácil para todos se simplesmente morressem e deixassem a natureza recuperar o que é dela.
Mas agora, os humanos apenas recuperavam outros humanos.
Assim como Jack recuperava outros Evoluídos.
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Já era de madrugada quando o garoto finalmente acordou. Azel ainda estava de plantão quando os olhos do garoto se abriram. Correu atrás de Jack logo em seguida. Sabia que Jack não estaria dormindo. Jack quase nunca dormia. O garoto não havia dito quase nada, além de perguntar onde estava. Ainda estava meio "grogue" quando Jack chegou na sala. Apenas ele e Azel.
– Quem é você? — Perguntou o garoto. Agora que Jack via o garoto na claridade, via como seus olhos eram verdes. Brilhantes. Lembravam gotas de oliva quando a primavera chegava.
– Meu nome é Jack Frost. — Respondeu, encarando os olhos do garoto. — Lembra qual é o seu nome?
– Ethan. — Respondeu o garoto, seus olhos alertas, desconfiados, analíticos. Suas roupas haviam sido trocadas por aventais médicos.
– Certo, Ethan, você está em uma zona segura. — Dizia Jack, cauteloso. — Chamamos de Arca. Segurança contra os andarilhos. — Era melhor evitar dizer o nome Vampiros ou Mortos-Vivos por hora. — Segurança contra o Governo.
Ethan ainda estava na defensiva. Se agarrava aos lençóis da maca, cobrindo suas pernas nuas.
– Não foi você quem me resgatou.
– Não, não diretamente pelo menos. — Admitiu Jack, se aproximando da maca, sentando-se ao lado de Ethan. — Eu estava com um colega, cobríamos os telhados enquanto você foi resgatado por outros colegas.
Ethan assimilava com certa lentidão. A luz da compreensão finalmente atrevessou seus olhos, seguida por outro sentimento.
O pânico.
– Minha mãe... — Começou, atirando os lençóis para o lado. — Onde está ela?
– Hey, se acalma, não achamos ninguém com você! — Dizia Jack, o que foi um erro, pois Ethan saltou para fora da cama.
– Vocês a deixaram lá? — Ethan agora erguia a voz, o pânico tomando conta. Uma vez de pé, Jack viu que não devia ter mais do que um e sessenta e cinco de altura.
Em dois segundos, Ethan atirou uma bandeja médica em Jack, correndo em seguida para a porta. Não iria longe. Não podia ir. Jack o agarrou pelo pulso, puxando-o de volta. Se surpreendeu com a força do menor, porque em seguida os dois estavam no chão, um Ethan que lutava para afastar as mãos de Jack, grunhindo como um morto-vivo o faria.
Jack estava sobre Ethan, forçando seus braços para se retraírem. Foi quando Azel lhe espetou uma seringa, nocauteando-o em segundos.
Jack finalmente fungou, aliviado, encarando as três mesinhas de metal que Ethan havia derrubado. Agarrou-o no colo em seguida, colocando-o de volta na maca.
– Ele é pesado. — Reclamou.
– Deixaram a mãe dele lá?
– Não vimos mais ninguém lá. — Respondeu Jack, se afastando da loira. — Hey, nós vamos voltar lá com ele. — Continou, segurando o rosto de Azel. — Vamos encontrar ela.
– É melhor que encontre. — Disse a loira.
Azel se retirou em seguida, recolhendo as bandejas do chão.
Jack agora se virou para o corpo encolhido de Ethan.
– Eu vou encontrar ela.
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