The Last Ones
10 Guerra Aberta
Notas iniciais
Não sabia mais onde estava o chão. Poderia muito bem ser um pássaro, seus braços em chamas eram asas flamejantes. Suas penas eram vermelhas, dançantes e brilhantes. Mas asas de fogo não duram para sempre. As chamas mais fortes não são feitas para durar. Quando as asas pararam de bater, sentiu o chão áspero contra suas costas. A ausência do ar fez com que a agonia viesse. A dor tomava conta de todos os pensamentos, embaralhando-os, desfazendo-os em diminutas partículas enquanto queimavam.
Sentiu mãos varrerem seu corpo, jatos de espuma apagando as chamas. E então veio a calmaria, guiando-se pelas veias de Hiccup em forma de morfináceo.
A cena se repetia por incontáveis vezes. As explosões sequenciais. A aeronave da Locker. Os explosivos sendo detonados pela avenida, os civis sendo mortos pelo ataque.
Os cabelos brancos sendo consumidos pelas bolas de fogo.
Luzes brancas inundaram os olhos verdes do garoto. O cheiro de carne putrefata enchia suas narinas. Diversas pessoas estranhas que vestiam roupas brancas e máscaras reviram sua pele, esticando, puxando, costurando e remodelando. Uma máscara de borracha foi posta sobre seu rosto, e Hiccup mergulhou no sono novamente.
Gritos, pessoas que variavam entre mortas, queimadas, ou com partes do corpo faltando. Jack sendo mergulhado no fogo.
A cena se repetiu por durante dias, nos quais Hiccup acordava para ser nocauteado por médicos.
Gritos, fogo, explosões repentinas.
As vezes os sonhos eram agradáveis, onde havia apenas Hiccup descobrindo uma cidade fantasma. Mortos-vivos que pediam por morte.
Chamas dançantes sobre a multidão.
Já haviam se passado quinze dias quando mantiveram o garoto acordado. Ele estava de volta a Mineápolis, em um hospital militar. Mérida o aguardava, sentada na poltrona, diversos curativos espalhados por sua pele vermelha. Ela também havia sido pega pelas chamas.
E Hiccup não conseguia chorar. Simplesmente não vinham as lágrimas.
Foi a presidente Hale quem o visitou no quarto do hospital. Trazia um embrulho pequeno e fino, aparentemente rígido. Os olhos da presidente estavam vermelhos, como se tivesse chorado. Explicou metodicamente o que havia acontecido depois que a Locker derrubou os explosivos.
O discurso motivacional de Jack havia funcionado perfeitamente. Os sobreviventes que se rebelavam contra os soldados de laranja haviam penetrado o prédio do Chicago Board of Trade segundos antes dos explosivos serem disparados. Os explosivos desordenaram até mesmo os próprios soldados da Locker. Não estavam preparados para aquela mudança no cenário. Norte foi arrastado para fora do prédio alguns minutos após as explosões, os rebeldes o jogaram sobre os corpos das vítimas, mergulhando-o no sangue. Teriam o matado se os soldados de Hale não os tivessem impedido, afirmando que ele seria executado publicamente.
O coração de Hiccup pulou uma batida. Norte não seria executado por Jack.
Não houve mais nenhum tipo de apoio da população que elegera a Locker como seu governo principal. O bombardeio que Norte havia causado em seu próprio povo virou todos contra ele imediatamente.
– Ainda haverá uma execução. — Disse a presidente. — Sinto muito por Jack não poder concluí-la. — Aquilo perfurou Hiccup como uma navalha. — Mas tenho certeza de que se ele confiava em alguém, com certeza era em você. — Encarou os olhos verdes de Hiccup, que não dissera uma única palavra. — Por isso estou passando a honra para você.
Os olhos de Hiccup se moveram para a presidente. Examinava as palavras dela. Ao menos o significado delas.
– Eu quero que você faça aquilo que Jack gostaria. Honre a memória dele, estou lhe entregando sua vingança. — A presidente repousou o pequeno pacote aos pés da cama. — Essa é uma adaga de guerra, uma relíquia que resgatamos para a posteridade. É velha, mas ainda funciona com certeza. Você pode dar o último golpe de guerra. Se aceitar.
Hiccup encarou a adaga com firmeza, não havia uma dúvida sequer sobre a resposta.
– Eu aceito.
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Mais uma semana até que as bolhas de queimadura se desfizessem. Marcas profundas ainda marcavam as cicatrizes. Permanentemente. As células originais do corpo de Hiccup foram geneticamente testadas, manipuladas a aceitarem os enxertos de pele. Marcas de queimaduras subiam por seu peito, contornavam suas costas. Lambiam em traços irregulares por seu pescoço. Teve a sorte de que a principal área de seu rosto foi poupada. Sua perna metálica havia sido substituída por uma mais versátil, mais moderna.
As pessoas afundavam o pesar sob o trabalho. Mérida em suas flechas. Astrid em fisioterapias. Havia sido pega pelas explosões, com queimaduras ainda piores das de Hiccup. Seu cabelo loiro havia sido raspado, mas pequenas mechas irregulares tornavam a crescer. Diversas cicatrizes cobriam suas pernas e braços. Sobreviveria, voltaria a normalidade depois de alguns meses.
Hiccup ocupava seu pesar com a promessa da presidente, de que ele mataria Norte por Jack.
E depois não saberia mais o que faria. Sem Jack, as coisas perdiam o rumo. Não haveriam mais buscas em cidades fantasmas. Não haveriam mais histórias sobre as pessoas que passaram pela vida de Jack.
Não ouviria mais aquelas palavras amáveis que espantavam seus pesadelos.
Hiccup afastava esses pensamentos com arremessos de adagas. Não com a adaga presidencial, mas sim com as adagas de arremesso nas galerias de tiro que haviam no centro militar. Mérida quase sempre estava lá, disparando flecha após flecha em alvos aleatórios.
Era de tarde quando repousaram as armas. Se encararam em silêncio. Os olhos de Mérida estavam marejados, mas os de Hiccup não demonstravam nenhuma expressão significativa, além de raiva. Desgosto. Não por Mérida, mas por cada ser humano na face da Terra.
Ele não queria ouvir, mas ela precisava falar de qualquer maneira. A pior coisa era guardar os sentimentos.
– Ele não merecia aquilo. — Disse a ruiva, limpando uma das lágrimas do rosto. Hiccup se manteve impassível. — Eu me lembro da última conversa que tivemos em Chicago. Ele falou sobre aquele helicóptero com os vampiros, os que mataram Sandy. — Hiccup se lembrava claramente do helicóptero que se espatifara no meio da rua. — Não fazia sentido. Os vampiros só podiam vir do lado do governo. Não haviam vampiros nas cidades da Locker. Todos os habitantes de lá são protegidos, por isso permanecem...
– O que quer dizer? — Cortou Hiccup, indisposto a ouvir mais sobre os últimos pensamentos de Jack.
– Que aquele helicóptero era daqui. — Disse ela. — O com os vampiros, ele só poderia ter pego o contágio se viesse dos sobreviventes rebeldes, que estavam do lado da presidente. Ele achou que a presidente quisesse se livrar dele, fazer dele um martírio.
– Isso não faz sentido. — Disse Hiccup, rebaixando as suspeitas de Mérida as mesmas besteiras ditas por uma criança de colo. — Como que o helicóptero de Hale poderia saber que estávamos lá se estava infestado de vampiros?
– Talvez fosse um ataque surpresa a Locker. Talvez a presidente havia ordenado um ataque convergente ao nosso plano em Chicago. Tudo estava sendo monitorado.
Não fazia sentido para Hiccup. Não faria sentido. Não era um argumento bom o bastante para ele.
Helicópteros em chamas estrelavam seus pesadelos. Bombas e armadilhas prendiam pessoas em ruas estreitas. Armadilhas para tropas de choque que exploravam os instintos humanos de buscar um local seguro.
Hiccup se via novamente na North La Salle. Via as explosões destruírem as ruas horizontais. Depois as sequências de mísseis que detonavam o final da rua vertical. Mas não via Jack no sonho. Via apenas a ordem em que as explosões procederam. As pontas da rua primeiro, afastando as pessoas. Depois a base da Avenida principal, encurralando os soldados.
+++
Depois de alguns dias, já não parecia mais fazer sentido continuar treinando. Acertava todos os alvos a longa distância. O garoto via Mérida cada vez menos, suas visitas a galeria de tiros eram menos frequentes. Mataria Norte. Era apenas o que importava. O que ainda impedia o garoto de cair na loucura era os pensamentos metódicos que Astrid havia lhe ensinado algumas semanas atrás:
"Meu nome é Ethan Hiccup Sølberg. Tenho dezesseis anos. Estou em Mineápolis. Eu vou matar Norte em uma semana."
Só então reparara que só faltava apenas uma semana. Apenas sete dias para vingar a morte de Jack. Agora viriam os fatos mais complexos, aqueles que ele odiava.
"Estive em Chicago. Jack conseguiu unir o povo para derrubar a Locker. O mataram por isso. Ele agora é o mártir dos sobreviventes. Ele está morto." E repetiu a última frase por diversas vezes. "Ele está morto. Ele foi morto pela Locker. Norte o matou". E cada vez menos as frases pareciam ser verdadeiras. Ainda não acreditava. Queria acreditar, seria muito mais fácil... Mas não conseguia. "Jack Frost está morto!"
Forçava as vivas lembranças dos explosivos. O padrão para encurralar os sobreviventes. As ruas que prendiam ambos civis, rebeldes e soldados da Locker.
Mas o que mais veio a sua mente foi o dia que antecedeu a viagem a Chicago, quando Jack o encontrou no terraço. Avisando-o de que estava sendo exibido para o público como catalisador para a revolta. E de como a presidente Hale estava aproveitando as melhores habilidades de Astrid para formular táticas de guerra.
Mais uma vez Hiccup se via em Chicago. A rua de intersecção em "T", os explosivos sequenciais.
Finalmente as peças do quebra-cabeça pareciam se encaixar na mente de Hiccup. As explosões iniciais afastavam as pessoas das áreas periféricas do centro da enrascada. As segundas ondas de explosivos terminavam o trabalho de matar aqueles pegos pela armadilha.
Mas a aeronave possuía o selo da Locker, o símbolo do cadeado prateado. Mas tinha certeza de que ouvira Jack dizer que Astrid havia criado uma armadilha idêntica à que fora utilizado.
Não podia ser verdade. Hiccup não aceitaria aquilo como verdade. Precisava ver alguém. Provavelmente a última pessoa que ele imaginou que seria.
+++
A cela de Norte ficava no subterrâneo da sede do governo. Não haviam muitas celas, mas as que haviam eram justamente para os criminosos mais desejáveis, por questões políticas, no geral. O guarda da cela pareceu não reconhecer Hiccup de imediato, mas viu uma das várias filmagens de guerra que as redes do Estado insistiam em reprisar. Hiccup aparecia em diversas cenas, todas ao lado de Jack. O estômago do garoto se afundou ao ver a imagem dos dois ainda juntos, praticando sequências de tiros contra alvos móveis. O guarda deixou o garoto passar em seguida.
Hiccup esperava um lugar horrível, abaixo das considerações humanas onde Norte estivesse em uma situação miserável. Entretanto, a cela de Norte era como um quarto de hotel, havia uma grande TV, sofás almofadados, guarda roupas cheios de tecidos alternáveis. Norte era um homem grande, mas perdera diversos quilos em seus últimos dias, seu rosto abatido perdera toda a cor que uma vez tivera. Os lábios inchados pareciam que estavam para estourar. Os olhos cinzentos estavam secos. Os longos bigodes de outrora foram cortados em partes irregulares e precisavam ser raspados. Mas era ele.
– Eu estava esperando até que o lacaio do Jack aparecesse. — Disse ele, analisando Hiccup, pensando certamente em como ferir de vez o psicológico do garoto. — Então venha, o que a presidente Hale pediu para que você me ameaçasse? Já aviso que não irá conseguir muita coisa. Sou um homem condenado.
– Eu vim aqui por vontade própria, Norte. — Disse Hiccup, as palavras frias, mas objetivas. — Eu preciso saber uma coisa.
– Se fui eu quem matou seu querido Jack Frost.
Foi como se Norte tivesse detonado as bombas sobre Hiccup novamente. A dor em seu peito era real demais para não ser física também. Norte continuou, entretanto.
– Antes de mais nada, peço que não se iluda. Ainda somos inimigos. Acontece que não sou como Laura Hale, sei quando admitir a derrota. De fato, fui eu o representante da Locker por esses últimos cinco anos.
Cinco? O surto do vírus havia começado faziam seis anos.
– Qual é, não pensou mesmo que Hale sempre esteve no poder, pensou? Ela era a diretora da Locker na época em que ela mesma apareceu com a ideia de fazer experimentos ilegais na indústria farmacêutica. Remédios são a melhor maneira de enganar as doenças. Pessoas usam remédios na esperança de que eles curem as dores de cabeça, mas jamais desconfiariam de que estes eram os verdadeiros causadores das doenças.
Hiccup tentava assimilar os novos fatos. Isso mudava todas as cartas na mesa.
– De qualquer maneira, depois que os surtos começaram, Hale simplesmente saiu da Locker, se passando para o lado do governo como uma pobre assistente bem-intencionada. Não tive tempo para fazer nada. Eu era o vice-presidente da Locker na época, e como tal, tinha como obrigação resolver a situação. Precisávamos de tempo.
"Mas os surtos se espalhavam rápido demais. Construímos as barricadas ao redor de Chicago antes que o governo de Hale tentasse nos derrubar. Garantimos tempo e sobreviventes necessários para que tivéssemos como resolver. E ainda precisávamos dos jovens, e não tinha outra maneira de conseguir algum apoio das pessoas do lado de fora das barricadas."
"As Arcas eram apenas fachadas, maneiras de convencer os Evoluídos a lutarem pela nossa causa. Protegíamos as pessoas de Chicago, embora que não soubéssemos ao certo quais eram as verdadeiras intenções de Hale, até que lançamos os mísseis atômicos nas cidades que estavam irremediavelmente infestadas pelos vampiros. E sim, eu mirava em vocês todos. Não podia ter meus internos nas mãos de Hale, o que justamente acabou acontecendo."
"Agora, quanto aos explosivos, devo admitir que foi uma jogada impressionante de Hale, tomar posse de uma de minhas aeronaves, enchê-la de rebeldes e sacrificar os meus cidadãos. Fez com que eu perdesse todo o apoio popular. Mirar em Jack foi o golpe mais forte da jogada, com certeza. Os sobreviventes do lado de fora das barricadas, os que invadiram a cidade ficaram mais do que motivados em me prender depois daquilo."
Só então Hiccup reparou no que estava reprisando na TV. O momento dos explosivos. A rua em forma de "T". Os sobreviventes encurralados. Um close foi dado em Jack durante as detonações finais.
– Eu apenas demorei demais para entender o que ela queria com isso tudo. — Continuou Norte quando cortaram para os comerciais. — Você sabia que há outros cento e vinte países que estão ameaçando guerra contra os Estados Unidos? Uma guerra nuclear, dessa vez. E que além disso, a Locker detém mais de oitenta por cento do armamento nuclear do mundo inteiro? — Hiccup entendera finalmente o que Norte queria lhe dizer. — Estou surpreso no quanto você é bom ouvinte. Mas não temos muito tempo antes que você atire em mim em público, e relativamente menos até que as nações se preparem para atacar nossas fronteiras. E nenhum tempo até que Hale consiga pôr as mãos nas armas nucleares. Qual país ela deveria atacar primeiro?
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