Notas iniciais
UHUU FELIZ NATAL PRA VOCÊS, SEUS NYEHROS (what?!) Meu presente de Natal pra vocês é esse capítulo, tá, não o capítulo inteiro, mas o final dele XD Ancioso xDDDD Aproveitem o feriado ;)

As palavras de Norte repercutiram na cabeça de Hiccup pela próxima semana. Em suma, na maioria do tempo ele arremessava adagas, se recusando a acreditar em cada uma daquelas palavras. Antes que ele evitava assistir as reprises no noticiário, agora ele fazia questão de cerrar os dentes e rever as cenas quantas vezes fossem necessárias. As câmeras davam um close na aeronave enquanto ela derrubava os explosivos. O logo da Locker foi claramente notado na gravação. Qualquer outra coisa era impensável.

Hiccup adquirira um estranho hábito, mas do qual gostava, de perambular pelos corredores do prédio que estava hospedado. Locais apertados nos quais encontrava por acaso, como armários velhos, um corredor estreito da tubulação, câmaras de ar, e nenhum deles seria encontrado. Por ninguém.

Ninguém além de...

– Hiccup! — A voz de Astrid tirou Hiccup de seu estado de torpor. A loira estava encolhida em um armário de giz.

Em um dia normal, ele a cumprimentaria de volta. Mas ela o lembrava de Jack. Ela o lembrava dos explosivos, das armadilhas que ela mesma poderia ter projetado. O garoto estava dando meia-volta para ir embora quando os dedos de Astrid agarraram seu pulso.

– Fique! — Disse ela, a voz rouca. Uma sensação quente e pegajosa se espalhava dos dedos dela, o cheiro de metal que Hiccup reconhecia de longe. Estava escuro, mas as linhas de sangue nos antebraços da loira eram visíveis. Uma tesoura cega estava caída ao lado dela.

Qualquer pessoa normal a julgaria por isso também. Mas isso Hiccup não poderia julgar. "Por que não?" A frase de Jack atravessou a mente de Hiccup, como uma navalha sob seu crânio. Precisava sair dali. Precisava parar de pensar em Jack. Precisava parar de pensar em tudo.

A tesoura rasgou a pele de seu pulso antes que se desse conta do que ele mesmo estava fazendo.

Não sangrava muito, mas ardia o suficiente. Precisava daquilo. Os cortes se repetiram, de novo, e de novo, e de novo, afastando as memórias. Jack estava morto. A sensação de dor o invadia. Jack nunca mais voltaria. Outro corte que afastava os pensamentos. Negar é inútil. Mais um corte que o impedia de pensar.

Astrid o encarava por todo aquele tempo. Não dizia nada. Não precisava. Sabia muito bem o que se passava na cabeça do garoto. Também revivia aquele dia em sua mente, mesmo quando a memória não era bem-vinda. Nunca era bem-vinda.

Os gritos, as explosões, as chamas, e o silêncio. Aquilo se repetia com a maior facilidade. Os cortes os traziam de volta ao presente.

"Por que não?" Se cortar? Por que não se aliviar? Forte não era aquele que pressionava a lâmina contra a pele para demonstrar que não sentia dor. Forte era aquele que conseguia rejeitar a lâmina. Se cortar é fácil. Se anestesiar contra seus pensamentos é fácil. E funciona. Por um tempo. Por que quando se percebe que já não funciona mais, já será tarde, por que estará em um caminho sem volta em direção a sua alma. Olhe no espelho, e verá um fantasma com um coração batente, onde cada batida grita dizendo "Você não é digno de minhas batidas".

Então, mais uma vez, por que não?

+++

Os cortes foram tapados com esparadrapos, que logo se avermelharam com o sangue. Hiccup não notara que aquele era o dia da execução. Quanto tempo havia passado? Dias? Semanas? Anos, quem sabe. Mas a presidente Hale convocara Hiccup, Astrid, Mérida, um grupo de pessoas que estavam presentes durante o bombardeio e mais um pequeno grupo de Evoluídos para uma reunião de "emergência" na sala principal. Umas vinte pessoas no total.

– Obrigado por virem. — Disse a presidente, entrando na sala. Seu cabelo estava preso em um coque alto, e as rugas se espremiam sobre suas bochechas com um sorriso de ansiedade. — Por favor, sentem-se.

Todos se sentaram à mesa circular. A presidente tomou um lugar na ponta da mesa.

– Como alguns de vocês sabem, estamos aqui por uma convocação vinda de meu próprio povo. — A presidente iniciou a pauta com palavras simples, mas nada objetivas, como sempre. — Naturalmente que as indústrias Locker cometeram crimes horrendos contra a humanidade. Que não podem ser perdoados apenas com uma execução pública de somente um dos cabeças da organização. Muitos murmúrios pedem por uma boa dose de vingança contra a Locker. Então surgiu a ideia que concilia vingança e um trabalho para remediar a situação do mundo. De que mais experimentos sejam feitos, dessa vez com os recém-nascidos das pessoas relacionadas diretamente com o poder da Locker.

Houve uma pequena algazarra na sala quando as palavras foram proferidas. A presidente estava sugerindo mais uma nova geração de Evoluídos. Mais crianças sem memórias, arrancadas de suas casas, infâncias que nunca viveriam, seriam roubadas delas por agulhas e anotações em pranchetas.

– Quem deu essa ideia? — Disse uma das vozes da sala.

– Eu mesma. — A própria presidente respondeu. — Mas não acho que seria justo sem um consentimento da parte de vocês, os Evoluídos, que mais sofreram nas mãos da Locker. Então, sugiro uma votação. Apenas os Evoluídos estão convidados, e ninguém pode se abster de votar. — Houve um silêncio mortal no recinto. — Já estamos em círculo. Comece você. — A presidente apontou para uma garota de cabelos fartos na ponta da mesa.

Mérida respondeu de imediato.

– Não! — Disse. — Não podemos continuar com isso. Não é culpa dessas crianças.

– De fato não é.- Disse o garoto que estava ao lado de Mérida. — É culpa dos pais delas. Deixe que eles saibam o que eles mesmos causaram aos seus filhos. Voto sim.

Hiccup se surpreendeu com a crueldade que mesmo os Evoluídos eram capazes de demonstrar. Talvez Evoluídos significasse pessoas melhores. E talvez apenas pessoas fisicamente mais fortes.

Os votos seguiram. Sim, e não, não e sim, sim, mais um sim.

Eram treze Evoluídos à mesa. Astrid era a última. Hiccup não poderia participar. E queria poder. Queria ser um Evoluído apenas por aquele momento, no qual poderia votar não. Não importaria o que fizeram a Jack, não cabia às crianças pagarem por tamanha injustiça. Estavam em um empate por enquanto, a decisão de Astrid encerraria a votação. Ela decidiria o que viria a seguir.

Os olhos dela se focaram nos de Hiccup antes de dizer, e pode sentir o que ele queria dizer. Para votar não.

E, entretanto, era a chance de Astrid de se vingar. Não traria suas memórias de volta, mas melhor do que cortes em seu braço, era a satisfação de ver os responsáveis entregarem os próprios filhos para o matadouro.

Sua alma pagaria por isso, mas não fazia diferença para ela.

– Eu voto... — E olhou para os olhos de Hiccup novamente. — Eu voto sim. Por Jack.

Hiccup quis socá-la. Estrangulá-la se pudesse, mas não poderia fazer mais nada.

– Ótimo, então isso encerra a votação. — Disse a presidente, satisfeita.

Por um momento, Hiccup entendeu o que aquilo significava. Por que ele não poderia votar, mesmo no lugar de Jack. Ele sofrera tanto quanto ou talvez mais do que pelo menos metade dos Evoluídos daquela sala. Porém, a decisão de Hiccup estava muito clara, seria um não. Estariam em um número par com ele. A presidente Hale o retirara o direito de votar. Mesmo lhe cabendo melhor do que aos outros, para ter maiores chances de conseguir o resultado que queria. Maiores chances para que dissessem sim.

+++

A adaga presidencial estava encostada em seu quarto. A presidente deixara bem claro que Hiccup precisava usar o uniforme do exército para a execução. Mas que homenagens eram opcionais. Ouviu a porta do quarto se abrir. Uma garota loira e atlética a atravessou. Astrid, com uma farda branca sobre a cabeça.

– Hiccup. — Disse. Hiccup não a respondeu. — Olha, eu sei o porquê de não querer falar comigo. — Uma lágrima escorria pelo rosto da loira. — Eu sinto muito, por tudo. Eu sinto falta dele também.

Só então Hiccup viu uma faixa enrolada nos braços de Astrid. Um tecido branco, sem nenhum detalhe significativo. Mas com um único nó entre as extremidades. Astrid o removeu do braço, e com as duas mãos, depositou, receosa, o tecido branco sobre os cabelos avermelhados do garoto.

Uma farda branca. Uma farda pura. Uma farda perfeita.

Jack Frost.

Hiccup a encarou nos olhos pela última vez.

– Só me diga que não foi você.

Astrid se manteve em silêncio, estava sobre uma corda bamba, a mercê das lágrimas. Sabia à que ele estava se referindo. Se as bombas que mataram Jack eram de Astrid.

– Eu não sei. Só tenho pensado nisso, e honestamente, eu não sei.

Não havia um único som naquela sala. Eles apenas se encaravam. Astrid beijou a bochecha de Hiccup.

– Acerte o seu alvo. — Disse.

Os olhos verdes ainda a fitavam, amargurados, mas certos com o que estavam prestes a dizer:

– Adeus, Astrid.

+++

Os passos de Hiccup para fora do Centro de Treinos de Mineápolis eram firmes, sincronizados. Ele segurava a adaga virada para trás em sua mão. Fileiras intermináveis de pessoas preenchiam as avenidas, as sacadas dos prédios, os telhados, ou a praça sob a entrada do Edifício do Centro de Treinos.

Quando viram a farda branca sobre Hiccup, as pessoas foram à loucura, gritavam, solidarizavam-se, até choravam. Hiccup viu que a maioria delas pintara o rosto com faixas brancas, em homenagem a Jack. Hiccup era uma delas. E por um momento, gostava disso.

Norte estava ajoelhado na entrada do prédio. A presidente Hale estava de pé na sacada sem grades acima dele. A praça em frente ao edifício possuía uma fonte circular, onde Astrid e Mérida estavam ao redor. Hiccup se pôs no pequeno suporte sobre a água entre elas. Viu que Mérida também usava uma farda branca.

As últimas pessoas se aglomeraram ao redor deles, uns vinte metros de distância. A presidente Hale iniciou o discurso.

Apreciem!– Disse, firme, sua voz ecoava pelas caixas de som pela cidade. — Esse é o momento final. Hoje, não estamos aqui para uma mera execução. Isso é mais do que um simples ato de redenção. Esse é o tiro final da guerra! Ethan Sølberg, o garoto que acompanhou nosso líder, Jack Frost, foi seu confidente e mais leal amigo, terá a honra de matar o responsável por todo o sangue. Sangue será pago com sangue!

As palavras da presidente eram quase idênticas às do último discurso de Jack. Ele encarava a presidente, mas parecia que fumaça sairia dos olhos verdes de Hiccup.

– Ethan "Hiccup" Sølberg, gostaria de dizer algo para o responsável por todas as atrocidades cometidas?

Soava mais um comando do que uma sugestão. Hiccup então encarou Norte. As palavras apenas saíram, altas e firmes.

– O que você fez viverá aqui para sempre.

As pessoas gritaram com essas palavras, urros de aprovação.

Hiccup estendeu o braço para trás, e o silêncio reinou. Poderia se ouvir um alfinete caindo em meio à todas aquelas pessoas, que olhavam, aguardando. Tudo se resumia aquele momento. Os olhos frios de Norte olhavam não para a ponta da adaga, mas diretamente nos olhos de Hiccup. Ele não tinha por quê mentir. Ele iria morrer, querendo ou não. Mas não Hale.

Ela usou todos eles. Usou Jack, usou Hiccup. Usou Astrid para construir as bombas.

Sangue se pagará com sangue.

Não qualquer sangue.

Hiccup arremessou a adaga em um movimento sutil, que rodopiou livremente, cortando o ar até se fincar sobre peito de presidente Hale. Em segundos ela despencou da sacada, caindo sobre o chão de concreto. Morta.

+++

O pandemônio se formou aos poucos. Primeiro, as pessoas se sobressaltaram, em seguida gritaram. Avançaram sobre a praça, e antes de tirar Norte de vista, Hiccup pôde ver os olhos azuis de Norte sorrirem, não confusos, mas em compreensão. Não viveria além daquele dia. O tumulto arrastou Hiccup para longe, não pode mais ver Astrid ou Mérida. Mãos agarraram sua adaga, e então o puxaram pelos ombros.

Foi arrastado até o Centro de Treinos, jogado nos elevadores, arrastado novamente pelos corredores, jogado novamente em um último quarto. Teria quebrado algum dedo ou deslocado um braço, o que na realidade era apenas uma sensação extra pela verdadeira dor. Os cortes em seu antebraço estavam sangrando de novo.

Hiccup examinou onde estava. Seu quarto. Aquele que dividira com Jack. Deitou-se na cama, não havia nenhum utensílio realmente útil. Cordas, facas, nada. Havia um banheiro com apenas o rolo de papel higiênico e uma toalha. Ainda havia água nas torneiras.

Hiccup desencavou um prego sob a cama, o apontou para o antebraço. Não cortaria fundo o bastante até o pulso, mas rasgaria a pele com facilidade.

Esperava que a qualquer momento, um carrasco aparecesse, para matá-lo. A qualquer momento ele entraria por aquela porta, e Jack não estaria lá para protegê-lo. Não saberia dizer quanto tempo havia se passado desde que chegara. As cascas dos cortes já estavam formadas, firmes. Uma pequena janela no quarto já mostrava a escuridão.

E então luzes alternantes. Não havia som, mas a luz branca invadiu o quarto, tão forte que Hiccup cobriu os olhos.

E então as paredes do quarto explodiram.

Argamassa voava pelos ares, caindo sobre o rosto de Hiccup. Um turbilhão cinzento preencheu o quarto, partículas de poeira rodopiaram em espirais.

O som das hélices martelava seus tímpanos, e a voz do piloto do helicóptero se fez ouvir sobre a confusão.

Saia daí agora! Precisamos correr! – Hiccup apenas seguiu o som das hélices, até o buraco da parede.

Metros abaixo estava a rua, e uma metro a frente estava o helicóptero, bambeando no ar. Hiccup fechou os olhos antes de saltar, caindo diretamente no chão frio do helicóptero.

Mãos lhe agarraram, batiam suas roupas, e então sentiu o helicóptero se mover dali. Umas cinco vozes diferentes gritavam, mas apenas uma que Hiccup reconhecia.

– Hiccup. — Disse o albino.

Notas finais
WHOAHOOOOOOO Já podem gritar, ele tá vivo, sinhô Xessus! xDD Feliz Natal, e até o próximo, e último capítulo, possivelmente :( Flwprocês ;)