The Last Ones
12 Cicatrizes
Notas iniciais
Os olhos azuis de Jack o encaravam.
Ele estava morto. Só poderia estar morto. Tinha que estar. Vira com seus próprios olhos Jack Frost ser morto. As bolas de fogo que irromperam dos explosivos sobrevoaram a multidão até engolfar Jack nas chamas. E lá estava ele, os olhos azuis, os cabelos brancos mais curtos, a franja havia sumido, marcas de queimadura subiam de seu pescoço, marcavam seus braços. Mas os olhos azuis encaravam Hiccup, como se não houvesse mais nada para se olhar.
— Jack? — Hiccup disse, a voz trêmula. Jack sorriu. Receou antes de puxar Hiccup entre os braços, o abraço mais apertado, o mais desesperado que já tinham dado. E também o mais caloroso.
Vozes gritavam das cadeiras dos pilotos.
— Se segurem, temos um minuto antes de religarem a rede elétrica da cidade, temos esse tempo para sumir. — Um dos soldados gritou.
Mas nem Hiccup e nem Jack escutavam. Estavam absortos um no outro. Os braços de Jack eram firmes e quentes, Hiccup poderia ficar lá para sempre. Não saberiam o que dizer um para o outro. Não precisavam dizer, apenas sentir a presença um do outro.
As sirenes soaram depois de um minuto, tal como o soldado advertira, mas estavam muito longe. Estavam fora de Mineápolis, estavam livres.
— Então. — Um dos soldados chamou Hiccup. Apenas quando seu rosto foi iluminado que Hiccup pôde reconhecê-lo: Coronel Holmes, quem Hiccup jurava que havia morrido. — Aposto que tem um milhão de perguntas.
Hiccup não disse nada, mas Holmes explicou mesmo assim.
Quando o helicóptero caiu sobre a multidão, Holmes conseguiu se arrastar para fora da avenida. O esquadrão havia desaparecido, o que de certa forma aprovara. Quando o conflito seguiu além daquele trecho da avenida, Holmes seguiu em direção ao sul, mas foi quando encontrou alguns dos rebeldes/sobreviventes do lado de fora, que embora pareciam apoiar o governo de Hale, sabiam das guerras que ameaçavam as fronteiras. As bases de sobrevivência se espalhavam por locais afastados do globo. Fronteiras entre Canadá e Estados Unidos, Sul do México, partes não inundadas da Flórida. Quando as explosões em frente ao Chicago Board of Trade foram transmitidas em rede nacional, houve um foco no grupo de Jack. As equipes de busca e sobrevivência dos rebeldes correram para socorrer as vítimas. Os Evoluídos sobreviveriam as explosões com muito mais facilidade do que pessoas normais. As pessoas ao redor de Jack morreram, mas seus corpos serviram como escudo humano para protegê-lo do fogo. Não que isso alegrasse Jack, mas estava apenas "no lugar certo na hora errada". Foi resgatado pelas equipes dos rebeldes/sobreviventes assim que a poeira abaixou. Não houve tempo para resgatar Mérida, Astrid ou Hiccup, foram resgatados pelo exército militar. Embora tivesse se queimado mais do que todos no esquadrão, Jack se recuperou em um mês, sobrando um mês para assistir à execução de Norte. Naquela altura, os sobreviventes/rebeldes já sabiam que tanto Norte quanto Hale não mudariam as coisas, e que os fronts de batalha logo atingiriam as fronteiras dos Estados Unidos. Dali para frente, era só uma questão de tempo até que todo o governo caísse nas mãos das guerras.
Holmes parecia se divertir ao imaginar Mineápolis caindo em pedaços.
— Está se preparando para outra guerra, Holmes? — Disse Hiccup, encarando-o.
— Na realidade não. — Respondeu Holmes, com divertimento. — Veja, Ethan, o que provavelmente vai acontecer é que... O governo não vai conseguir reverter a situação de nenhuma maneira. Tanto faz Hale ou um outro político, mesmo que honesto, as outras nações estão mais do que prontas para as guerras, querendo ou não. As bases de sobrevivência possuem um acordo de não se envolverem. Assinado por mais de cinquenta países, inclusive os Estados Unidos. Estaremos seguros lá. Asseguraremos a sobrevivência enquanto o mundo tenta resolver suas diferenças. Não mais o que fazer.
A verdade atingia Hiccup como um soco, mas ele concordava com tudo. Matar Hale ganhou um tempo extra. Dias ou anos, talvez a guerra ainda se desarmasse, mas não tinham mais o que fazer. Já fizeram além do necessário.
— O que acha que vai acontecer? — Perguntou para Jack.
O albino apenas o observou, um sorriso atravessando seu rosto.
— Honestamente eu não sei. — Disse. — Mas ficaremos juntos.
Suas mãos se entrelaçaram sem mais questionamentos.
Pensou em Mérida, e em Astrid. Talvez elas ficassem seguras em Mineápolis. Conhecia Mérida, ela não confiava em política. Sairia de lá na primeira oportunidade. Quanto a Astrid... Hiccup não se importava tanto com Astrid. Torcia pelo melhor, apenas.
+++
O Helicóptero permaneceu no ar por mais uma hora antes de pousar em uma base aérea improvisada. As aeronaves estavam desativadas sobre a pista. Uma delas aguardava por Hiccup e Jack.
Holmes não embarcou nessa última aeronave.
— Eu ainda preciso prestar meus serviços aqui. Provavelmente eu nunca verei as Bases de novo. — Hiccup o encarou, confuso por um momento. — Fiquem a salvo.
— Você também. — Disse, antes de embarcar.
Por todo esse tempo, permaneceram de mãos dadas. Não havia ninguém com eles na aeronave, apenas os pilotos, separados deles por uma parede de metal que formava a cabine.
— Você ainda está vivo. — Disse Hiccup, agarrado às mangas de Jack. Não parecia real. Parecia um sonho, do qual ele não queria acordar.
Jack o beijou sobre a cabeça. Ele ainda estava com a farda branca sobre os cabelos castanhos.
— Eu assisti à execução. — Disse Jack.
Hiccup o encarou, receoso.
— E...? — Disse, sem jeito. Acabara de assassinar uma presidente.
— E você não desaponta. — Concluiu Jack. — Mas por que a farda?
Hiccup o olhou por um momento longo, e se inclinou para beijar os lábios do albino.
— Por você. — Respondeu. Jack sorriu de canto, roçando a mão sobre a bochecha de Hiccup. — Sempre foi você.
Quem o beijou dessa vez foi Jack. Era um beijo delicado no começo, mas que evoluía para uma necessidade, nenhum dos dois satisfeitos. Não ainda. Nenhum dos dois viu quando Hiccup estava sobre o colo de Jack, puxando-o pela nuca. O ar já havia ido embora de seus pulmões, mas precisavam de mais. Sentiram aquilo de novo, aquele calor que se esvaia para as pontas dos dedos, para as extremidades de seus corpos.
A aeronave pousou depois de umas três horas. Estavam em uma área cercada por montanhas rochosas de um lado, e o oceano do outro. E pinheiros, muitos pinheiros por todos os lados. As montanhas rochosas se erguiam centenas de metros acima. Passarelas de madeira atravessavam as rochas, e diversas casas confortáveis pontilhavam os planaltos. Parecia um grande vilarejo vendo dali.
A aeronave se recolheu para um hangar, parecia quase escondido em meio as montanhas. Hiccup e Jack adentraram o vilarejo.
— Foi aqui que esteve? — Perguntou Hiccup.
— Não — Respondeu Jack. — Estive em um povoado no Canadá. Pelo menos se parecia com um povoado.
As pessoas do vilarejo reparavam nos garotos aos poucos, primeiro apontando, então reconhecendo de todos os noticiários transmitidos pelo Governo. Os dois heróis que derrubaram a Locker.
Um homem alto e corpulento os cumprimenta, os braços estendidos para os lados quando os vê.
— Bem-vindos aos Apalaches. — Disse em uma voz alegre.
Jack e Hiccup o seguiram. O homem se apresentava como Hauser, apontava para todas as dez mil direções do grande vilarejo. Na realidade, aquilo era uma grande ilha, que se anexava ao sul do Maine, mas derrubaram represas para se isolar em uma grande zona segura. Alguns apelidavam a ilha de Berk. Não que esse nome agradasse, mas era um nome.
Casas abandonadas haviam sido descobertas, reconstruídas e então a cidade se ergueu aos poucos. Haviam pequenas áreas comercias, um prédio que daria lugar a uma escola, hangares para novos refugiados. Uma rota de fuga. Aos novos moradores, designavam uma casa. Para Jack e Hiccup, duas casas na costa da ilha, que se estendia por quilômetros. As casas eram vizinhas, e bem espaçosas para o padrão que ambos estavam acostumados. Jack se perguntava se seu status de líder rebelde não contribuía para que lhes dessem casas de tão alto padrão, e tão longe do resto do vilarejo.
Mas cercada pelos pinheiros altos e pelas montanhas, aquele lugar era um paraíso. Hiccup não se deu o trabalho de explorar a casa de Jack antes da sua.
— Te vejo depois. — Disse antes de deixar um beijo nos lábios de Jack. Mas não tinha certeza do que faria.
As casas pelo visto já eram mobiliadas, madeira e forros macios. E energia elétrica vinda dos painéis solares de uma das montanhas da ilha. Estavam seguros.
Hiccup gostaria de poder dizer que se sentia seguro e feliz. Mas apenas se sentou em uma poltrona da sala. Não conseguia se levantar dali. Era incapaz de se mover dali. O resto da casa parecia frio, escuro. A lareira se ascendia por um controle remoto. O único esforço que Hiccup fez foi o de apertar o botão. E encontrou o sono. Porque só sabia que já estava claro, e que Jack fritava alguma coisa na cozinha. O cheiro de ovos fritos penetrava as paredes da casa. E o albino permaneceu lá até que Hiccup engolisse a comida. Mas Hiccup não se levantou. Sua perna mecânica estava caída no tapete, mas não fazia questão de colocá-la. Jack saía a tarde, voltava a noite com comida pronta. Alguns dias, a comida caseira era trocada por pizza. Nevava, então chovia, fazia sol, e voltava a nevar do lado de fora. Mas nada do que fizesse Hiccup se levantar.
— Já é primavera de novo. — Disse Jack enquanto lavava alguns pratos. Estava vestido com uma camisa branca simples, e shorts. Os pés descalços sobre o soalho. — Você deveria caçar.
Hiccup não saíra da poltrona, com exceção para fazer uma rápida excursão ao banheiro. Ainda estava com as mesmas vestes negras com as quais chegara de Mineápolis. Tentava buscar algo para fazer, mas não via nada. Parecia que ele esperava por algo.
— Não tenho nenhuma arma. — Disse Hiccup.
— Dá uma olhada na mesa da cozinha. — Disse Jack.
Depois que ele saiu, Hiccup considerou a ideia de viajar quilômetros até o próximo cômodo. De fato, viu uma arma de caça sobre a mesa. Um rifle marrom com silenciador e marcas de guerra. E uma faca de caça. Os mesmos que ele usara em Chicago.
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De fato, a floresta era revigorante. Não avisara Jack de que saíra. Provavelmente o albino estaria procurando por ele. Uma corsa caminhava sobre os galhos secos alguns metros à frente. Hiccup apontou a faca. O arremesso rodopiante acertou a corsa. Mas então Hiccup viu a presidente Hale, despencando com o tiro certeiro que Hiccup tinha dado.
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A segunda caçada foi acompanhada por Jack. Dessa vez não vira Hale ao abater um avestruz. Dessa vez ele tinha visto uma criança de Chicago, queimada por inteiro, arrancada do colo dos pais.
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Aos poucos ele conseguiu explorar o resto da casa. Andava de meias, a perna mecânica estava revestida por um tecido, abafando o som para não acordar os fantasmas. Sua cama era uma tampa de bueiro pela qual os mortos-vivos saiam. Sua televisão apenas mostrava as notícias da guerra. Como um novo presidente havia substituído Hale, como a fuga de Hiccup era um assunto que renderia horas de discussão, como se tudo aquilo já não estivesse planejado. Como a farda branca representava o símbolo da guerra ou uma homenagem a um amigo. Como Astrid Hofferson tinha sido encontrada morta em um quarto, sozinha, os pulsos cortados com navalhas. Como o paradeiro de Mérida DunBroch. Como os países europeus invadiram os Estados Unidos. A execução pública do novo presidente. Como Mineápolis foi finalmente desativada. Como os mortos-vivos haviam reconquistado Chicago. Como novas Zonas seguras se espalhavam pelo globo. Países afundavam, pessoas continuavam morrendo.
E Jack ainda estava com ele.
Logo, desistiram de morar separados. A cama de Jack era muito mais acolhedora. As notícias eram irrelevantes agora. As cicatrizes em seus pulsos já estavam quase sumindo, e as que insistiam em aparecer eram cobertas por centenas de beijos. As palavras suaves preenchiam a noite, sussurravam coisas amáveis ao invés de promessas de guerra, afastavam as criaturas que não os ameaçavam mais. As palavras confortavam Hiccup. Primeiro as palavras, então seus braços. E por fim, seus lábios.
Foi sutil, com muitos dias perdidos, mas se sentia voltando a vida. Seguiu os conselhos póstumos de Astrid, reconsiderar todos os fatos dos quais tinha absoluta certeza.
Meu nome é Ethan Hiccup Sølberg. Eu moro em Berk agora. O mundo lá fora não tem mais importância. Estou com Jack Frost. Estou seguro.
Mantinham-se ocupados caçando, Hiccup com facas, ignorando as pessoas aleatórias que eram abatidas no lugar da caça, todas ele conhecia por nome. Jack deu a ideia surpreendente de começar um diário, pessoas pelas quais valiam a pena continuar lutando. Não em guerras, mas pela vida. Desenhos de Hiccup preenchiam folhas de pergaminho. Astrid, com suas fardas. Sandy e seus olhos dourados. Holmes e seus mapas. Até mesmo Norte com sua longa barba. Depois a mãe de Hiccup, Valka. Sophie, depois seu pai, Estóico. Flashes de memória davam imagens a Jack, que descrevia como vira sua mãe. Loira, alta, sorridente. Seu pai, corpulento e sério, mas confiável. Mérida e seus cabelos fartos. Azel e seus olhos verdes, o coque erguido sobre a cabeça.
Depois vinham as partes mais alegres. Como desenhos das flores recém recebidas, assinadas por Mérida. Ela estava viva, afinal. E depois uma farda vermelha assinada por... Astrid. Encontravam paz trabalhando juntos. Jack era o melhor com as palavras. Anotava tudo o que se lembrava junto aos desenhos de Hiccup.
Berk havia crescido consideravelmente depois de alguns meses. Hiccup já tinha dezessete. Alcançara Jack, pelo menos até o próximo mês. Estava mais alto também. As casas se concentravam no centro do vilarejo, mas não a deles. Estavam afastados do centro. Estavam seguros.
Lojinhas cercavam as poucas ruas de Berk, ninguém pegava além do necessário, e ninguém pagava pelos itens. Incrivelmente, aquilo funcionava muito bem. Ninguém se importava tanto com o mundo lá fora. Quem pudesse ser resgatado era salvo, as massas de civis se aglomeravam em zonas seguras. As últimas cidades que caíram, os últimos presidentes que morriam.
Mas para Jack e Hiccup, nada daquilo importava. Tinham um ao outro. Tinham tudo naquele pequeno pedaço de terra. Alguns os achariam loucos por não se importarem com o mundo lá fora. Mas eles sabiam. Sabiam que não havia nada a se fazer. Saber era inútil para eles. De alguma forma sentiam que nada voltaria a dar certo lá fora. Construíram um escudo com a agua e uma espada com a terra. Era o suficiente.
A grama alta cercava a casa, de frente para o mar. Hiccup estava sentado entre as pernas de Jack, de costas para o albino. As ondas quebravam contra as rochas, gotículas de água salpicavam a costa.
— Promete que não vai me deixar ir. — Disse Hiccup. Sentiu Jack beijar seu rosto, bem sobre a bochecha.
— Nunca. — Sussurrou, apertando a mão de Hiccup. — Eu vou até onde você for.
Não havia uma poção mágica que os fariam emergir das cinzas. Não havia como fazer tudo desaparecer. E sim, apenas esforços que os faziam continuar seguindo em frente. Um dia mais fácil, uma gargalhada inesperada, cicatrizes que continham histórias memoráveis. Mas que eram apenas histórias.
Estavam evoluindo.
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