The Last Ones
9 As Cinzas
Notas iniciais
Os últimos momentos foram inexplicáveis para Jack. Não poderia ter acontecido. Sammuel Hall não poderia estar morto. Sandy, seu amigo, que sempre, sempre lhe recebia com um sorriso, e que nunca na sua vida lhe recusou alguma ajuda. Não poderia estar morto.
Simplesmente não podia...
– Jack! — Gritava Mérida, chacoalhando os ombros do albino. — Precisamos ir!
– Sandy... — Era só o que Jack conseguia dizer.
– Não desperdice a vida dele.
Nem mesmo Hiccup conseguia atrair a atenção de Jack. Somente a voz de Astrid o emergiu de volta à consciência.
– Jack, lembre-se do que me prometeu. — Disse a loira.
E de fato, a lembrança ressurgiu. Eu mato Norte.
Em algum tempo, a respiração de Jack se estabilizara novamente.
– Hiccup, onde estamos? — Perguntou.
– No subsolo. Para lá — apontou para o sul — é a North La Salle. Tem uma entrada para os túneis de trem. Mas ainda estamos longe, e já está anoitecendo.
Jack encarou o lugar. Tubos metálicos se estendiam, iluminados pelas fracas luzes fluorescentes. Era de fato um lugar miserável, mas era no mínimo protegido. E os mortos não poderiam entrar ali.
Avançaram apenas uns dois quilômetros pelos corredores estreitos. E não tinham encontrado a saída para o metrô. Já eram umas onze horas quando decidiram parar ali mesmo, tomados pelo sono e pelo cansaço. Havia uma área ligeiramente mais espaçosa pelos sulcos da parede, onde montaram o acampamento.
Astrid se voluntariou para ficar de guarda. Mérida seria a próxima. Queriam esperar até no mínimo as seis da manhã para retomarem a caminhada.
Mérida se encostou na parede do canto, onde se permitiu chorar a morte de Sandy. Hiccup e Jack se aconchegaram sobre si mesmos. Jack não chorava, contudo. Estava exausto demais até mesmo para isso.
Hiccup encostara a cabeça no ombro do albino, e não demorara nada para pegar no sono. Jack ainda repassava mentalmente a cena que acabara de presenciar. O estalo do pescoço da Sandy sendo partido, o sangue escorrendo por sua garganta aberta.
Mísseis explodindo cidades, bombardeios sobre crianças. Tudo berrava em seus pesadelos aquela noite.
Acordou quando um helicóptero caia sobre sua cabeça. Por sorte, seu susto não acordara Hiccup. E era Astrid quem ainda estava de guarda. Com cautela, afastou Hiccup de seu ombro. Então caminhou até o lado da loira.
– Hey. — Cumprimentou.
– Hey. — Respondeu a loira. — Não consegue dormir?
Jack balançou a cabeça.
– É, eu também não conseguiria dormir nessas horas. — Disse Astrid. — Ele parece mais jovem quando dorme. — Apontou para Hiccup. — Estou feliz que ele tenha você.
Jack sorriu para a amiga, agradecido pela escuridão esconder o fato de que estava corando.
– A gente meio que se familiarizou durante a fisioterapia. — Continuou Astrid. — Ele me ajudou quando mais ninguém pôde.
– É, ele tem esse talento. — Concordou o albino.
– Jack... O que acha que vai acontecer? Depois que vencermos.
– Se vencermos. — Ele corrigiu.
– Quando. — Retrucou a loira. — Não podemos nos dar o luxo de perdermos, não agora. Não depois que Sandy...
E se calou. Jack, porém, incrivelmente não demonstrava reação ao ser lembrado da morte do amigo.
– Depois que vencermos, eu matarei o Norte, como prometi.
– Disso eu sei. — A loira deu um tapa no ombro de Jack. — Quero saber depois disso.
Jack ponderou por um momento.
– Depois disso, seremos livres. Viveremos nas zonas seguras, poderemos declinar o serviço militar. — Disse Jack. — Uma hora, os mortos também cairão por terra. Quando isso acontecer, a presidente terá o poder total, mandará frotas de civis para as cidades menores. As coisas voltarão ao normal.
– Você acha? — Perguntou Astrid. — As coisas podem voltar mesmo ao normal depois disso tudo?
Jack sabia a resposta, tentara ser prático, mas de fato, sabia que não.
– Não. As coisas nunca vão voltar ao normal. Não depois do que Norte fez. A Locker precisa acabar. É por isso que irei matá-lo. Por Sandy.
A loira acenou, concordando. O apito do relógio indicava que era a vez de Mérida assegurar o acampamento. As duas trocaram de lugares, Astrid ironicamente caindo no sono na mesma hora.
Mérida tinha uma pequena lata de cozido de carneiro, o qual ela dividiu com Jack, beliscando aos poucos.
– Que bagunça. — Disse a ruiva. Jack apenas concordou. — O que faremos quando chegarmos no Norte?
– Primeiro, nos passaremos por civis. Chegaremos até a North La Salle. — Respondeu Jack. — E afinal, agora eu sou famoso. Posso criar uma distração para os soldados da Locker, incitar os rebeldes a invadir o prédio talvez. Vamos dar um jeito.
– Parece um bom plano. — Disse a ruiva. Podemos atrair o Norte para fora ao invadir o prédio, também. Dependendo dos números. Quanto mais pessoas tivermos conosco, melhor.
– De onde vieram aqueles vampiros, Mérida?
– Eu não sei. Até onde sei, eles se mantêm bem longe dos limites de Chicago. Só podem ter vindo do lado de fora.
Foi quando um pensamento invadiu Jack.
– As propagandas da presidente Hale, são para incitar os sobreviventes, certo? — Mérida concordou. — E, se apenas o lado do governo ainda estiver lidando contra os mortos-vivos, então não teria como um helicóptero da Locker se infestar de vampiros tão facilmente.
– O que está insinuando? — Perguntou Mérida, seguindo a intrincada linha de raciocínio de Jack.
Finalmente a verdade atravessou os dois.
– Que talvez a presidente me considere mais útil nesta guerra morto do que vivo.
+++
Os vampiros eram os que mais apareciam na segunda rodada de pesadelos de Jack. Cenas após cenas de helicópteros que transbordavam os mortos, explodindo a apenas alguns passos dele. E entre os mortos, Sandy rastejava até Jack, sua cabeça bamba para um lado, ossos de seu pescoço expostos enquanto ele lutava para alcançar Jack. O albino acordava quando já não podia mais sentir a carne de suas bochechas.
Hiccup estava deitado no ombro de Jack, dormindo profundamente, sua respiração pesada fazia cócegas no pescoço de Jack.
O albino ergueu os olhos até onde estaria Mérida. Ela estava lá, mas seu corpo se encostara em um corrimão de metal enferrujado, onde a ruiva acabara cedendo ao sono. Jack afastou Hiccup, sem acordá-lo. Sabia que dificilmente conseguiria voltar a dormir. Encarava os corredores dos túneis, mas nada via além de intermináveis fileiras de luzes fluorescentes, oscilando com a fraca energia.
Mas havia alguma coisa. Um som. Bem fraco, mas que Jack reconhecia. Metal, sendo atingido ou muito fraco ou muito longe, e por repetidas vezes. Removeu uma lanterna do colete. Não via nada, mas ainda ouvia.
Empurrou de leve o ombro de Mérida.
– Jack? — Disse a ruiva, a voz rouca pelo sono.
– Eu acho que tem alguma coisa. — Dizia, o som das batidas no metal mais próximas depois de um tempo.
Mérida se ergueu, agitando as pernas para afastar o formigamento. E então escutou. O som ainda estava lá, mais alto do que Jack se recordava. Demorou apenas trinta segundos para acordar os outros. O som ainda estava lá, Jack podia ouvi-lo ainda mais claramente do que antes.
Por sorte, talvez, o som vinha do Norte, direção contrária à qual os garotos seguiam.
Caminharam para o norte com passos curtos e silenciosos. Havia pequenas poças de água depois de um tempo, que espirrava quando eles inevitavelmente pisavam em cima. Finalmente ouviram um som, muito mais próximo, mas não era das batidas. Era um som elétrico, um corpo grande que ecoava pelos túneis.
– O metrô! — Disse Hiccup, e começaram a correr em direção aos trilhos. Uma escotilha de acesso levaria os garotos até os níveis mais baixos do metrô. Viram a luz que se afastava para o norte das lanternas do vagão. — É para lá que vamos.
Olharam no relógio. Eram exatamente seis horas, o que significava que lá fora já estaria claro. Seguiram os trilhos por um longo período. A North La Salle não estaria muito longe. Mais um pouco e já sabiam que a batalha do lado de fora não havia terminado. O som dos tiros e dos explosivos ainda era extremamente claro, mesmo dali.
Se não fosse pelos cegos olhos que brilhavam no escuro, eles jamais teriam visto o morto-vivo que os aguardava no meio dos trilhos. Um tiro com uma das flechas de Mérida o abateu sobre a testa. Jack ligou a lanterna pela segunda vez.
Não era apenas um.
Jack se sentiu como se estivesse em Frisco novamente, pois no mínimo uns trinta vampiros estavam agrupados nos trilhos. E todos se puseram a correr atrás dos garotos.
Estavam novamente correndo de mortos-vivos, mas ao sul, longe de onde precisavam ir. Os passos ecoavam pelos túneis, e dessa vez não havia uma van esperando para leva-los em segurança, havia apenas uma avenida tomada pelo caos, onde uma guerra os aguardava.
Mérida removeu uma das flechas explosivas. E não as mirou nos mortos. Mirou em uma caçamba com barris de combustíveis, jogados ali pelo descaso humano. A flecha disparada emitiu um último brilho antes de acender os túneis. Uma explosão ensurdecedora derrubou um pilar que sustentava a rua acima.
As rachaduras do desabamento os seguiram, e aos montes, o teto dos túneis, ou o suporte da rua cedeu, um a um, os pilares caíam em uma pilha de destroços, como se perseguissem os garotos. Os estrondos das colunas colapsadas reverberavam nos ossos deles, e certamente que os vampiros teriam sido esmagados nesse último golpe de Mérida. Finalmente haviam alcançado a área entre as próximas colunas de concreto, interrompendo a reação em cadeia.
A poeira se ergueu e se abaixou em seguida. Então Jack viu que tinham improvisado uma rampa pela rua colapsada.
Luz do dia inundava os túneis através da abertura da rua colapsada. Sem que precisassem dizer nada, os garotos correram para a rua, escondendo seus rifles enquanto subiam o asfalto colapsado.
Estavam em um cruzamento movimentado, civis e soldados se dispersavam para lados aleatórios, afastando-se do ataque surpresa no subsolo. Mas os tiroteios se concentravam uns dois quilômetros para o norte, longe do Chicago Board of Trade. Por um lado, era bom, conseguiriam talvez atravessar a cidade com mais facilidade. Por outro lado, agora Jack precisaria inventar algum tipo de distração.
Se infiltraram em meio as pessoas, que caminhavam desesperadas para o sul. Exatamente onde precisavam ir. Hiccup guiou o esquadrão algumas ruas paralelas à direita, onde o caos se repetia por todo lugar.
Finalmente chegaram na North La Salle. Ao menos no início dela. Os prédios pareciam aumentar de altura conforme a avenida se estendia. Quando mais para o sul, mais altos eram os prédios, começando pelo rio que cortava o centro da cidade. Ali se concentravam altos arranha-céus feitos de vidro, intactos, tal como Hiccup se recordava.
– Certo, Hiccup, e agora? — Perguntava Astrid, discreta.
– O Chicago Board of Trade fica no final da Avenida. Em uma rua de intersecção. — E apontou para o final da avenida, um quilômetro mais ao sul, onde o inconfundível edifício se erguia, cercado por outros prédios pouco mais baixos.
– Quantos andares? — Perguntava Jack.
– Uns sessenta, sessenta e cinco. Norte deve estar no topo. — Disse Hiccup.
A multidão de pessoas se arrastava para frente, tudo o que o grupo precisava fazer era se deixar levar pelo fluxo. Mas não havia nenhum sinal de batalha ali. Hiccup pareceu perceber isso, pois agitou o pulso de Jack, chamando-o.
– Jack, vamos precisar nos separar. — Disse. O albino o encarou incrédulo, como se Hiccup tivesse pedido a Jack para que cortasse um braço e o deixasse para trás. — Precisamos invadir de algum jeito. E Holmes nos confirmou ontem que haviam alguns rebeldes sobreviventes infiltrados aqui. Se conseguir agitá-los, avisá-los de que está aqui, talvez convença a multidão a causar algum tumulto.
Jack ainda não estava acreditando no que ouvia. Fazia sentido, mas não era dos riscos do plano que Jack tinha mais medo. Era seu coração que estava se partindo.
Em meio à toda a multidão, ignorando os olhares conspiratórios que recebiam, Jack o beijou, enquanto caminhavam, se separando quando foram forçados pela multidão alvoroçada.
– Mérida — Disse Jack, apontando para a ruiva. — Venha, seguiremos pela calçada da direita. Hiccup, Astrid, vocês vão pela esquerda. Causaremos uma distração assim que chegarmos ao final da rua. — Apontou para o Chicago Board of Trade.
Astrid apenas assentiu, e Jack deu um último aperto na mão de Hiccup, encorajando-o. Então se viraram, o albino e a ruiva em uma direção, o moreno e a loira em outra.
Ambos os grupos olhavam para a outra calçada, um procurando pelo outro conforme avançavam. Depois de alguns minutos, alcançaram a linha do metrô suspenso, uma ponte que atravessava sobre a avenida, de onde pendiam grades rasgadas, guardeadas a cada metro por soldados da Locker, vestidos em armaduras laranjas, que revistavam todos os civis que atravessavam, formando uma barricada.
Jack e Mérida se encararam, atônitos, enquanto se lembravam de que portavam rifles militares sobre os casacos pesados. Não iriam passar na vistoria, e também não podiam abandonar as armas. Jack procurou por Hiccup do outro lado da avenida, quando viu uma pequena comoção ao redor de um casal, uma moça loira e um garoto moreno. Ouvia os gritos dos soldados "armas, armas!" E sabia que algo tinha dado errado.
Estava quase correndo até eles quando, sem aviso, os suportes dos trilhos de trem piscaram, seguidos pelo estrondo das explosões. A ponte colapsou antes que qualquer um dos soldados da Locker pudesse reagir.
Os rebeldes estavam atacando o centro de Chicago.
Em segundos, o pandemônio tomou conta das avenidas. Jack e Mérida correram, avistaram Hiccup e Astrid saltando por cima das barricadas, em direção ao Chicago Board of Trade. Tropas rebeldes chegaram em seguida, trocando tiros contra os soldados da Locker, os civis presos em meio ao fogo cruzado. Jack teria levado um tiro certeiro no peito se não fosse pela mão de Mérida puxando-o no chão. Fingiram-se de mortos, por um momento, enquanto os tiros eram trocados apenas um metro acima deles. Soldados e civis passavam sobre eles, esmagando seus dedos, chutando suas cabeças, sendo mortos em seguida. Se entreolharam quando viram a primeira brecha, então se arrastaram como os outros sobreviventes, rastejando para fora da área de conflito. Jack via diversas pessoas caírem como rochas, tombando no chão quando eram acertadas. Riscos vermelhos e amarelos cortavam o ar, e Jack apenas se arrastava para fora do cruzamento.
Atravessaram a ponte em ruínas, se levantando em seguida, correndo junto com a multidão. Não havia mais sentido em esconder as armas. Jack e Mérida agarraram as suas, apontando-as para tudo que vissem. Adrenalina ardia em chamas em seus corpos. Saraivadas de balas cortavam o ar sobre a multidão apavorada.
Mais para frente, os rebeldes armavam barricadas humanas para conter os soldados Locker. Jack viu um helicóptero laranja da Locker sobrevoar a avenida, um lampejo de fumaça saltou sobre a multidão, acertando em cheio a aeronave, explodindo-a no ar. Os destroços retorcidos caíram sobre a multidão atrás de Jack.
Mais tiroteios seguiram os garotos enquanto eles atravessaram. E Jack já havia perdido a localização de Hiccup. Não viam nem os cabelos dourados de Astrid. Os rebeldes explodiam tanques da Locker, sem reservas quanto as baixas de civis.
Se abaixaram em outro cruzamento quando fileiras de soldados tornaram a trocar tiros uns contra os outros. Hiccup e Astrid já haviam passado a frente do cruzamento, mas Jack e Mérida tiveram apenas tempo de se esquivar antes de uma coluna de uma das fachadas dos prédios desmoronasse sobre aquele cruzamento, esmagando no mínimo umas cinquenta pessoas.
Hiccup e Astrid correram para a proteção de uma área coberta da entrada de um prédio, atrás de colunas altas e grossas. Diversos pais seguravam os filhos atrás dessas colunas, tirando as crianças do fogo cruzado. Três soldados Locker seguiram Hiccup e Astrid, as armas se apontaram para direções aleatórias, e então trocaram tiros contra eles, espiando pelas laterais das colunas de concreto. Um dos tiros de Hiccup acertou em cheio a cabeça de um dos soldados que tinha a mira em Astrid. Foi quando uma série de detonações explodiram a entrada do prédio, a nuvem de fogo se espalhou instantaneamente, não sobre Hiccup, ou Astrid, mas sobre as crianças que se abrigaram na entrada do prédio.
Mais para frente, Mérida abrira fogo com flechas explosivas contra uma fileira de soldados Locker. Jack se jogara atrás de um carro destruído no meio da avenida, se abaixando aos disparos que metralhavam alguns centímetros sobre sua cabeça. De súbito, jorros de chamas explodiram em uma linha quase perfeita sob os pés dos rebeldes. As tampas dos bueiros foram arremessadas quando ataques subterrâneos explodiam algumas sessões das ruas. O Chicago Board of Trade ainda estava à uns trinta metros deles, mas parecia que quanto mais perto, mais intensa era a batalha. Os quatro correram, separados, quando outro helicóptero em chamas se espatifara contra as janelas de um alto edifício. Depois se jogaram no chão quando uma luz muito intensa iluminava um pequeno trecho da rua, derretendo as pessoas que eram pegas pela luz. Atiravam quando soldados Locker apareciam. A multidão se espremia, um tumulto desesperador que arrastava todos para frente, estupidamente mais perto das áreas mais perigosas.
Não eram soldados, não eram civis, não eram vampiros ou mesmo crianças.
Eram pessoas. Pessoas gritavam. Pessoas choravam. Pessoas sangravam. Pessoas mortas para todos os lados.
Já estava quase no final da avenida quando Jack viu dezenas de civis agarrados as crianças. Todas com no máximo quatro anos, nos colos dos pais. A cena causou curiosidade em Jack, que observou onde estava pela primeira vez:
Estava na frente do Chicago Board of Trade. As entradas do edifício estavam bloqueadas por uma porção de soldados vestidos de laranja. A Locker guardava as portas de Norte com a própria vida, aparentemente.
Sabia que era hora quando os rebeldes avistaram os cabelos brancos de Jack.
O albino se içou sobre um tanque virado de cabeça para baixo, bem no centro da avenida. Removeu o capuz quando se pôs de pé sobre a multidão, e por um momento, podia jurar que os disparos haviam diminuído. As mechas de luz do sol iluminavam os cabelos brancos. Ainda parecia um civil aos olhos da Locker, mas os rebeldes gritavam "Jack Frost", "Jack Frost".
E Jack saberia o que fazer.
– Chega de mortes! — Berrava, e todos pareciam ouvi-lo, mesmo que as batalhas prosseguissem. — Chega de sermos escravos! Hoje estamos tomando nossas vidas de volta! — As pessoas clamavam por Jack, as que pintaram o rosto em tinta branca pareciam delirar. — Hoje, arrombaremos as portas desse prédio. — Ele agora apontava para as janelas do Chicago Board of Trade. Tinha certeza de que Norte o veria. — Hoje, arrastaremos a Locker para fora de seus ninhos. Vingaremos sangue com sangue!
O tumulto recomeçou com as últimas palavras, as pessoas varriam a rua para frente. Jack saltou para longe do tanque antes que uma granada pudesse explodir o garoto em pedaços.
Do outro lado da rua, a multidão apavorada espremia Hiccup, jogava-o para os lados, arrastava-o para fora do caminho. E enquanto era levado pelo fluxo de pessoas, ouvia as vozes se erguerem, gritavam "Os Vampiros!" E então o garoto soube que sim, os vampiros haviam alcançado o centro da cidade. Ouvia os carros que atropelavam pessoas aleatórias, vampiros, militares, civis, colegas rebeldes. Todos eram inimigos de todo mundo apenas pelo simples fato de estarem ali.
Havia um poste de iluminação bem aonde Hiccup se encontrava, no qual ele se agarrou com firmeza, puxando seu próprio corpo para cima. Dali de cima, podia ver com clareza até onde tinham avançado e aonde terminavam as avenidas.
Hiccup esperava, quase desejava ouvir o som dos tiroteios que viriam dos soldados da Locker. Mas não aconteceu.
Ninguém poderia prever o que aconteceria a seguir.
Os pais mais desesperados passavam seus filhos de mãos em mãos, colocando-os mais longe do foco da batalha, na avenida que cortava o final da North La Salle em duas direções. Duas rotas de fuga nas quais as crianças teriam uma chance de sobreviver.
Então os dois lados dessa mesma avenida simultaneamente explodiram ao redor do Chicago Board of Trade. A força do impacto atirou Hiccup contra o chão. As pessoas ao redor acabavam por formar seu escudo humano.
E as explosões não terminaram. Apenas um intervalo de um segundo separava as explosões sucessivas que espantavam os sobreviventes de volta ao centro da avenida.
Hiccup mais uma vez se pôs de pé, observando o evento seguinte:
Uma aeronave com o selo da Locker sobrevoou a avenida North La Salle na altura dos prédios. Diversos cilindros de metal foram derramados sobre a multidão que ocupava a avenida, dando inícios aos berros que antecederiam a morte.
Hiccup apenas vislumbrou os cabelos brancos do albino enquanto ele se debruçava sobre uma criança caída. Então Hiccup correu, atropelava qualquer um que estivesse na frente dele. Gritava, tentando inutilmente fazer com que sua voz se sobre pusesse ao coro de horror das pessoas.
E por um momento, conseguiu se fazer ouvir, por que foi avistado por duas pérolas mais azuis do que o oceano. E a apenas à três metros do albino, um cilindro solitário caía.
E então os explosivos se desfizeram em bolas de chamas.
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