A escuridão não era um vazio. Era um cinema de pesadelos, e a tela era a minha própria memória. Flutuava num mar de inconsciência, meu corpo um peso distante e dormente, mas minha mente era arrastada, à força, para reviver o dia em que tudo começou a desmoronar.

A memória não chegou com um estrondo. Chegou com a calma torturante de quem ainda não sabe que está no olho do furacão.

O sol daquele dia não era quente; era dourado e suave, banhando o telhado da casa dos Izumi, onde todos os doze estavam reunidos, um milagre que raramente se repetia.

O ar cheirava a grama recém-cortada misturada ao óleo quente do tempurá que a senhora Izumi e eu fritávamos na cozinha. O som da frigideira estalava como um coração contente.

Hikari ria, um som leve e musical, de algo que Sora dissera enquanto arrumava as flores que trouxera. Mimi, por sua vez, mostrava uma sequência interminável de fotos no celular para Miyako, que rolava os olhos, mas sorria. Do outro lado, Taichi e Yamato travavam sua batalha eterna, por absolutamente qualquer motivo, com Koushiro tentando impor a lógica das estatísticas sobre a paixão cega dos dois. Iori ouvia, educado, Ken observava tudo com um sorriso quieto e tranquilo, e Takeru, com a agilidade de um gambá, roubava onigiri da mochila do Joe, que resmungava, mas nunca o impedia verdadeiramente.

Aquele não era um momento de paz. Era a própria paz.

E então, o som.

Não foi sirene. Não foi alarme. Foi pior: o vibrar insistente do tablet de Koushiro, repetido em rajadas, como se o aparelho tivesse enlouquecido. Uma enxurrada de notificações estourou na tela, tão violentas que o aparelho quase saltou de seu colo.

O “toc” dos dedos dele contra a tela ecoava cada vez mais rápido, cada vez mais ansioso, à medida que a cor se drenava do seu rosto.. Ele parecia feito de giz.

— Não… — a palavra saiu como um sopro.

Num estalo seco, a manchete saltou para a TV da sala. O brilho branco iluminou nossos rostos como um holofote de interrogatório. Todos nos comprimimos diante do brilho branco, apenas para ver as letras vermelhas queimando como brasas:

“RÚSSIA INVADE ESTÔNIA E LETÔNIA. ARTIGO 5 DA OTAN É INVOCADO.”

O silêncio que se seguiu foi mais alto que qualquer gritaria. O ar pesou, ficou irrespirável. Yamato foi o primeiro a se mover, endireitando-se, seu rosto de brincadeira substituído por uma máscara de granito. Taichi parou de gesticular, seu punho ainda fechado no ar, congelado.

— Isso é… isso é guerra — a voz de Iori era pequena e assustada.

E foi só o primeiro dominó.

Os dias seguintes se tornaram um pesadelo em câmera acelerada, alimentado por notícias que chegavam em cascata, cada uma mais impensável que a anterior.

Nós nos aglomeravam na sala de Koushiro, que se transformou em nosso posto de comando não oficial, as paredes forradas com telas que cuspiam horrores.

Miyako batia no teclado, o cursor borrado pelas lágrimas, repetindo “não, não, não…” como se pudesse negar a realidade digitando mais rápido.

— China ataca Taiwan! — a voz de embargada da violacea, vinha cortada por soluços. — Os EUA… estão enviando porta-aviões… O Japão… estão pressionando o Japão a se juntar…

Uma transmissão ao vivo mostrava os céus de Taipei riscados por mísseis.

Mimi deixou a testa colar contra o vidro frio do laptop, o peito pulsante, a respiração presa

— Coreia do Sul lança ataque preventivo contra o Norte! — Iori entrou na sala, o rosto esbranquiçado, como se todo o sangue tivesse fugido. Segurava o celular com as duas mãos, rígido, como quem segura uma granada sem pino. — Pyongyang já está respondendo… Eles pediram apoio formal à China e à Rússia.

Ken fechou os olhos. Por um instante, vi a mesma sombra de pavor que um dia o devorara como o Kaiser — e que agora voltava para sufocá-lo.

— Israel e Irã… — a voz falhou, e ele nem precisou terminar. Apenas sacudiu a cabeça, os olhos perdidos em algum ponto distante, como se quisesse não ver.

— É todo mundo… — sussurrou, a palavra quebrada como vidro. — É a Terceira Guerra.

Nós assistimos, impotentes, à humanidade se devorando com uma fúria que nem nossos Digimon mais sombrios possuíam. Éramos espectadores de um apocalipse que não tínhamos poder para impedir.

Até que o golpe veio. Alertado por uma mensagem vinda de Gennai, direto para nosso painel de monitoramento

— isso é… — a voz de Koushiro saiu como sussurro de incredulidade. Suas mãos tremiam sobre o teclado. — Olhem.

“RÚSSIA UTILIZA DIGIMON EM ATAQUE DE PRECISÃO. ARSENAL NUCLEAR POLONÊS DESTRUÍDO.”

A manchete não era vermelha. Era preta.

Imediatamente o amargo tomou conta das nossas bocas. Minhas pernas tremiam, e meus pulsos cerraram com o vídeo transmitido sob aquela notícia.

Um GranKuwagamon, não… Não podia ser.

Na transmissão não víamos um Digimon. Era um monstro saído dos mais terríveis pesadelos. O corpo tingido em cores militares, opacas, sem a vida que os seres digitais tinham. Olhos brilhavam em azul eletrônico frio, sem o fogo da vida. No peito, a insígnia da força aérea russa, exibida com orgulho

Quando ergueu as presas, não houve rugido, apenas um zumbido cirúrgico. Emanando seu ataque, Tesoura Dimensional, abriu o ar, e a base polonesa desapareceu num clarão branco, sem som, sem resistência. Como se nunca tivesse existido.

O cheiro de ozônio parecia atravessar a tela. Nossos estômagos se contraíram. O silêncio nos devorou.

— Meu Deus… —A mão de Sora voou até a boca, abafando um grito. Seus olhos tremulavam, e um calafrio percorreu todo o seu corpo. — Eles… usaram um Escolhido. Eles fizeram isso.

Hikari encolheu-se, e Takeru a puxou para perto, seu rosto pálido de horror.

Em uma entrevista, o General russo Ivanov deu sequência à matéria. De pé, com ombros firmes, postura rígida e voz intensa; a perfeita imagem de um general russo implacável, ao lado de quem temíamos… Yuri, seu rosto sem brilho e olhar vazio, segurando um Digivice militarizado.

Ao lado deles, seu Kokabuterimon acorrentado, com capacetes de controle que pareciam grilhões de metal e fios apertando sua cabeça. Do seu peito escapava um rosnado contínuo, um som de angústia pura e animal que o general ignorou completamente.

—" A Mãe Rússia integrou perfeitamente essas criaturas à nossa doutrina de defesa… — a pausa antes do final foi quase um deleite. O sorriso dele não era humano. — Elas são um recurso natural. Como o petróleo. Como o gás. E serão utilizadas para proteger nossa soberania."

“Recursos Naturais”. A frase soou como ácidos, queimando nosso âmago

Doeu mais fundo que qualquer bala.

A impotência nos forçou a ir para casa, mas o sono foi uma ideia absurda. A noite foi passada em claro, com as retinas queimadas pelo clarão de arsenais nucleares sendo apagados do mapa com um ataque. Pensamos que tínhamos visto o pior feito com nossos amigos. Ingenuidade, a vida ainda reservava um fel mais amargo para nossas bocas.

Na manhã seguinte, os alertas começaram a pipocar no grupo emergencial. Primeiro um, depois uma enxurrada. Eram da França. Eles não apenas iriam retaliar; iriam inovar. A mensagem era clara e aterrorizante: uma nova arma estava sendo preparada.

Em minutos, uma chamada de vídeo reuniu a maioria de nós. Apenas Taichi, envolvido nas negociações desesperadas da ONU com Gennai, e Joe, preso em uma plantão hospitalar que não podia mais ser adiado, estavam ausentes. O resto de nós encarou as telas, esperando pelo próximo capítulo do fim do mundo.

— É a Catherine! — O grito de Miyako foi uma faca cortando o silêncio pesado. Todos os olhos se voltaram para a tela que ela compartilhava, mostrando vídeos da ação francesa.

Lá estava ela. Catherine. De pé na rampa de um Airbus A400M Atlas. A roupa militar, e os óculos de salto de paraquedas não escondiam a furia e determinação de seu olhar; e nem mesmo o rugido das hélices cortando o ar poderiam romper o pânico da cena.

E então, elas saltaram.

Por um segundo, foram duas figuras caindo contra a imensidão. Até que uma luz — dourada, violenta, avassaladora — irrompeu ao redor delas, engolindo a dupla num clarão que fez todos nós recuarmos das telas. O ar pareceu vibrar com um sopro ancestral.

— Digievolução… — alguém sussurrou, com a voz rouca de incredulidade. — No meio da queda…

Ceresmon surgia como uma ameaça real, ao qual aquela base na Sibéria não estava pronta para lidar. Rugiu seu Lança-chamas Sanguíneo, e a labareda magmática tomou toda a base.

Soldados corriam, mas eram alcançados e sufocados em meio ao que parecia

uma erupção de sangue. A explosão não foi apenas o fim, mas um alivio para o caos que havia se tornado no campo russo.

O horror nos emudeceu. Os olhos temerários para acreditar em tamanha brutalidade e resposta; e diferente de Yuri, Catherine não parecia forçada aquilo.

A realidade nua, crua, esfregava em nossa face a obviedade :O precedente estava estabelecido. Nós não éramos mais heróis ou parceiros. Éramos o sistema de armas definitivo.

A caçada começou naquele exato instante. Os governos do mundo, em pânico e com uma ganância voraz, emitiram decretos, e no Japão, não foi diferente. Koushiro leu em voz alta, cada palavra saindo como um golpe baixo, cortante e oficial:

“DECRETO IMPERIAL: TODOS OS PORTADORES DE DIGIVICE DEVEM SE APRESENTAR PARA REGISTRO E ALISTAMENTO MILITAR OBRIGATÓRIO. A RECUSA CONSTITUIRÁ TRAIÇÃO E SERÁ TRATADA COM A MÁXIMA PENALIDADE. VOCÊS TEM 24H”.

Um calafrio simultâneo percorreu nossas espinhas. Nossas bocas secaram de repente, enquanto nossas mentes lutavam para processar a descrença absoluta daquela ordem.

— Eles não… — Mimi engasgou, as palavras saindo entrecortadas por uma respiração ofegante. —…podem fazer isso!

— Isto é uma declaração de guerra contra nós — Ken constatou. O tom, frio e lógico, mas no rosto, um olhar perdido em meio às sensações. ( ou, para mais clareza: Sua voz era fria e lógica, mas seu rosto tinha um olhar perdido, sobrecarregado pela emoção. )

— O que fazemos? — Sora soltou o questionamento como uma granada liberada por um drone, sem volta, livre e pairando no ar.

Foi então que a mensagem de Taichi irrompeu no chat, cortando aquele silêncio. Três linhas curtas, duras, e sem espaço para discussão:

— Koushiro.

— Prepare uma transmissão. Agora.

— Use todos. TODOS.

Pouco tempo passou, até que o rosto sério e determinado de Taichi surgisse em telas de celulares, telões e TVs de todo o Japão, devido ao hacking de Koushiro.

— Povo do Japão. Povo do mundo. Nós somos os Escolhidos. Lutamos por este mundo muitas vezes. Lutamos por vocês. — O tom era calmo, mas firme. O peito aberto e o olhar traziam a serenidade esperada do nosso líder. — Mas hoje, nos é dada uma ordem: transformar nossos parceiros, nossos amigos, em armas. Em instrumentos de morte. Nos é ordenado que escolhamos lados em uma guerra que só trará destruição.

Ele fez uma pausa, e seu olhar, ainda sereno, carregava o peso de uma decepção profunda.

— Nossa resposta é não. Os Escolhidos não obedecerão a esta ordem. Não seremos usados. Não seremos soldados. Falo em nome de: Taichi e Hikari Yagami, Yamato Ishida, Takeru Takaishi, Koushiro Izumi, Sora Takenouchi, Joe Kido, Mimi Tachikawa, Ken Ichijouji, Iori Hida, Miyako Inoue e Daisuke Motomiya. E convocamos todos os Escolhidos ao redor do mundo a fazer o mesmo. A verdadeira batalha não é entre nações. É pela alma do nosso futuro.

A transmissão foi cortada em menos de um minuto, mas a semente estava lançada. E a retaliação foi imediata e brutal.

Sirenes. Logo ouvimos as sirenes se aproximando de todos os nossos bairros. A polícia não vinha para conversar.

Nosso próprio país, o Japão, foi o primeiro a nos declarar “Terroristas e Inimigos da Nação” por nos recusarmos a nos tornar soldados.

Na casa dos Yagami, a mãe do Taichi encarou os filhos, com olhos cheios de lágrimas, mas sua postura era de aço.

—Vão. Pelas escadas de incêndio. Agora.

Ela não discutiu. Pegou o casaco e saiu para a entrada do apartamento, para enfrentar os agentes que já batiam na porta, dando tempo dos filhos fugirem.

Cena semelhante na casa dos Izumi. O pai de Koushiro, normalmente imerso em seus livros, colocou-se diante da porta principal, dizendo à esposa para chamar os advogados, seu grito era na verdade um código para Koushiro fugir pelo seu quarto, que dava para os fundos da casa, conseguindo escapar. E se encontrar com os irmãos Yagami

Na casa dos Ishida não foi diferente. O pai de Yamato e Takeru, um homem durão mas de coração imenso, não tentou argumentar. Ele encontrou os dois filhos no esconderijo que tinha nos fundos do pequeno apartamento.

— Vocês precisam fugir. Aqui não é seguro.

— Pai mas… Para onde vamos? — Yamato questionou já sentindo a voz embarcar

— Vão para o digimundo! — Na voz, firmeza; nos olhos, uma dor infinita. — Nós vamos distraí-los. É o nosso papel agora.

— Pai, não! — Takeru suplicou, agarrando o braço dele. — Eles vão te prender!

— É uma ordem, Takeru — ele olhou para Yamato, um olhar cheio de um orgulho agonizante. — Protejam-se. Protejam uns aos outros. É o que importa. Há outros como vocês por aí, sozinhos e com medo. Só vocês podem salvá-los agora. Nós… — suspirou, cansado, sabendo que a partir daquele momento, daquela decisão, tudo mudava — Só podemos ajudar atrasando eles. Então vão, rápido.

Ele saiu, fechando a porta dos fundos com um clique final. Antes de um estrondo arrebentar a porta e o barulho de discussão, lutas corporais e tazer ser ouvidos pelos irmãos, junto com gritos de dor do patriarca

Apertaram com força o digivice, e com lágrimas nos olhos Takeru abriu o portal pelo notebook que tinha levado, partindo daquela realidade, fechando o portal na sequência

O loiro mais novo lembrou que todos ainda mantinham a rede de DTerminal por segurança, e para evitar a interceptação do governo avisou por lá

“Viemos para o digimundo, quem conseguir, venha para, não podemos arriscar perder mais…

Takeru Takaishi”

Joe, ainda de jaleco, estava no meio do corredor da emergência quando os agentes da JSDF entraram, armados, gritando seu nome. Pacientes e staff médico gritaram, se aglomerando em pânico.

— Joe Kido! Você está detido por traição e deserção! — um oficial gritou.

O escolhido congelou, sua ética médica se chocando com a nova realidade.

Seu chefe, o velho Dr. Matsuda, um homem de cabelos grisalhos e autoridade incontestável, interpôs-se entre Joe e os soldados.

— O que significa esta invasão? Este é um hospital! Há pacientes aqui! — sua voz era um trovão que ecoou pelos corredores, fazendo até os soldados hesitarem.

Foi quando a irmã de Daisuke, Jun, agora uma médica residente, agiu. Ela não gritou. Ela foi pragmática.

—Rampa de carga! Agora! — sussurrou para Joe, puxando-o pelo braço.

Dois enfermeiros, um homem e uma mulher. Lee e Katou, outros escolhidos do Japão, bloquearam o corredor com uma maca e começaram a gritar "Convulsão! Code Blue!", criando um distúrbio perfeito.

O Dr. Matsuda, entendendo na hora, aumentou o volume de sua discussão com o oficial, dando-lhes preciosos segundos. Jun levou Joe até a rampa de serviço.

— O Iori está lá embaixo com um portal! Vai!

— NÃO! Vocês vem comigo — ele os puxou pelo braço para a escada

Desceram os degraus dois a dois. Lá embaixo, na doca de entregas, Iori – sério, com seu Digivice em mãos, mantinha um portal digital instável aberto. Ao seu lado, Armadillomon estava em forma de batalha, pronto para defender a posição.

— Joe-san! Rápido! — Iori gritou, sua voz carregada de urgência.

Joe, Jun, Lee e Katou saltaram através do portal momentos antes de soldados invadirem a doca. Iori e seu parceiro mergulharam logo atrás, fechando o portal às pressas, deixando para trás os gritos frustrados dos militares e o som das sirenes.

Assim como os pais, o Dr. Matsuda, arriscou tudo. O hospital, um santuário de cura, tornara-se outro campo de batalha.

Um a um, eles surgiram do nada através de portais trêmulos e instáveis, cambaleando no solo digital como náufragos. Alguns caíram de joelhos, outros se apoiaram em árvores ou nos ombros uns dos outros, ofegantes. O ar estava pesado com sons de soluços abafados, respirações curtas e o silêncio esmagador daqueles que não tinham mais lágrimas para chorar. Entre olhares perdidos e buscas desesperadas no grupo, uma pergunta pairou, não dita, mas visível em cada rosto: Onde está o Ken?

Na residência dos Ichijouji, o drama foi ainda mais cru. O Sr. Ichijouji, de uniforme, estava do lado de fora da própria casa, junto com a equipe de abordagem. Seu rosto, um modelo de compostura policial, estava pálido e tenso.

— Ichijouji-san, confirme a ordem — o comissário ordenou pelo rádio.

Ele olhou para a casa, onde seu filho, Ken, estava provavelmente assistindo tudo pelas câmeras de segurança que ele mesmo ajudara a instalar. Ele olhou para seus colegas, homens que conhecia há anos. E então, tomou uma decisão.

— Há... há indícios de que a residência foi minada — a voz dele saiu firme, mas uma veia pulsava em sua têmpora. — É muito arriscado uma abordagem frontal. Recomendo evacuar o perímetro e aguardar a equipe de bombas.

Um silêncio constrangedor caiu sobre a equipe. Eles sabiam. Todos sabiam. Era uma mentira descarada para ganhar tempo.

— Ichijouji — o comissário falou, sua voz grave carregada de uma decepção furiosa. — Saída da frente. Essa é uma ordem direta.

— Não posso permitir que arrisquem a vida de ninguém por uma... operação precipitada — ele insistiu, plantando seus pés no jardim da própria casa, tornando-se uma barreira física.

Foi quando ouviram o ruído característico de um portal digital se abrindo nos fundos da propriedade. O som era inconfundível. A expressão do Sr. Ichijouji mudou de tensão para um alívio agonizante. Ele cumprira seu papel.

— Ele está fugindo! — gritou um dos agentes, apontando para o clarão de luz que iluminou o quintal.

O comissário olhou para o Sr. Ichijouji não mais como um colega, mas como um traidor.

— Detenham-no. Agora.

Dois agentes avançaram sobre ele. Ele não resistiu. Deixou-se ser algemado, seus olhos ainda fixos na casa, onde o portal já se fechava. Ele sacrificou sua carreira, sua honra e sua liberdade. Não pela lei, mas por seu filho.

Nossa missão mudou naquele dia. De salvadores do mundo, nos tornamos caçados. E, na sombra dessa perseguição, uma nova função surgiu: nos tornamos uma rede clandestina de fuga.

Nós, os doze originais, passamos a usar cada grama de nosso conhecimento: Os portais com os D3 auxiliados por Koushiro; a rede de contatos da Miyako, a persuasão e Mimi; a estratégia do Ken.

Tudo isso para cumprir a única coisa que poderia ser feita: Resgatar o máximo de escolhidos possíveis

Imploramos ajuda aos Soberanos Digimon, que, em resposta, emitiram um solene decreto de neutralidade. Eles ofereceram abrigo seguro no Digimundo, mas recusaram-se veementemente a intervir no conflito dos humanos. Enquanto isso, os Cavaleiros Reais agiam por conta própria, um raio de esperança descentralizado, salvando quem podiam e não respondendo a ninguém.

Foi uma guerra suja e sombria. Lembro-me do rosto de uma garota escandinava, não devia ter mais que doze anos, sua Lunamon ensanguentada nos braços, seu Digivice quebrado ao lado. Um sniper a encontrou antes de nós.

Outra memória me atacou, a amarga decisão de deixar um Escolhido africano para trás em uma zona de conflito porque a evacuação foi comprometida e colocou em risco todos os outros.

A culpa de cada rosto que não conseguimos salvar queimava como ácido no meu peito.

O golpe mais duro, no entanto, veio de onde menos esperávamos: a própria ONU.

Sob o pretexto de 'conter a ameaça digital', autorizaram um ataque surpresa à Embaixada do Digimundo em Genebra. Diante da investida, Gennai, encurralado e para salvar o núcleo do mundo digital de ser corrompido ou capturado, fez o impensável: deletou todos os dados de acesso e detonou os portais principais entre os mundos em um colapso irreversível.

Ele nos salvou ao custo de nos isolar no Digimundo. Sua decisão nos deixou oficialmente sozinhos, mas condenou dezenas de Escolhidos que ainda não havíamos resgatado. Eles estavam agora indefesos, abandonados em um mundo que os caçava, sem nenhuma rota de fuga.

A nossa missão, já difícil, transformou-se numa dívida de sangue quase impossível de saldar. Como poderíamos honrar o sacrifício de nossos pais e amigos se estávamos presos do lado de cá, incapazes de alcançar aqueles que mais precisavam de nós?

E então, veio a notícia que foi o estopim. Uma traição inesperada que causou uma ferida aberta, sangrenta e profunda que não poderia ser cauterizada, em nosso seio, nossa base… nosso grupo

Koushiro reuniu a todos, seu rosto um misto de nojo e de uma horrível admiração técnica.

— Wallace — ele anunciou, a palavra soando como um veneno. — Wallace está nos EUA. Ele… ele não se alistou, como Catherine. Ele se juntou a eles. Lidera um projeto. Eles criaram o primeiro Digimon biônico. Um híbrido de dados orgânicos e armamento de última geração. Não é um parceiro. É uma arma. Eles estão… fabricando soldados Digimon.

A sala no nosso quartel-general no Digimundo, nosso último refúgio, ficou em um silêncio absoluto. O ar saiu dos meus pulmões. Eles não estavam só usando Digimon. Estavam profanando tudo o que éramos.

A fagulha que faltava.

— É isso — minha voz saiu rouca, rasgada, carregada de uma fúria tão profunda que tremia. — Eles vão corromper tudo! Vão pegar tudo o que a gente já lutou para proteger, tudo o que somos, e transformar em… em munição! Temos que pará-lo. Temos que atacar! Destruir os laboratórios!

— Não, Daisuke! — a voz de Taichi não era de comando, era de exaustão pura. Seus olhos estavam fundos, com olheiras escuras. — Atacar é exatamente o que eles querem! Vão usar isso como desculpa para caçar every last one of us! Precisamos ser espertos. Resgatar. Sobreviver. A diplomacia…

— DIPLOMACIA? — gritei, me erguendo tão rápido que a cadeira caiu para trás com um estrondo. — Eles estão FABRICANDO os nossos amigos, Taichi! Que diplomacia funciona contra isso? Você vai sentar numa mesa com o Wallace enquanto ele cria um exército de MetalGreymons falsos?! Enquanto ele tortura dados para fazer armas?!

— E se for uma armadilha? — Yamato cortou, seu rosto fechado, os braços cruzados. — E se for só isca para nos tirar do Digimundo? Perdemos mais de nós. Já perdemos demais.

— Ficar parado é perder também! — Takeru gritou, se levantando ao meu lado, seus punhos cerrados. — É assistir tudo o que amamos ser distorcido e não fazer NADA!

A discussão degringolou. Não foi um debate. Foi um campo de batalha. Palavras como “covarde” e “impulsivo” foram lançadas como granadas. “Irresponsável” e “ingênuo” foram devolvidas como tiros de artilharia. Olhei para Hikari, e vi a mesma fúria determinada que eu sentia. Olhei para Koushiro, e vi a lógica fria calculando os prós e contras de um ataque. Olhei para Sora e Joe, e vi o medo da perda lutando contra a necessidade de agir.

E então olhei para o outro lado. Para Taichi, para Yamato, para Mimi, Ken, Miyako e Iori. E eu não vi covardia. Vi um câncer diferente. Vi o medo paralisante de perder o pouco que restava. Era um tipo de coragem que minha raiva não conseguia processar: a coragem de não lutar.

Naquele dia, não houve um acordo. Não houve um “concordemos em discordar”. Houve um rompimento. Um silêncio pesado, doloroso e final depois que a última palavra ecoou. Nós nos viramos. Seis de nós de um lado, seis do outro. A gente não se despediu. A gente… se separou. A porta não foi fechada com um baque. Fechou-se com um suspiro.

A última imagem na minha mente, a que me persegue, foi o rosto de Taichi. Não de raiva. De decepção. De uma preocupação profunda e triste. E de uma convicção inabalável que era o espelho exato da minha.

Essa imagem foi a que me acompanhou enquanto a dor do presente me arrastava para longe do sonho, de volta à escuridão do coma.

E então, uma voz do mundo real cortou a escuridão, nítida e urgente como um bisturi:

— …hemorragia interna. Os sinais vitais estão caindo. Precisamos levá-lo para a cirurgia, AGORA!

(...)

Meus olhos abriram. Não para as memórias, mas para a luz crua e branca do centro médico do nosso QG. A visão era turva, embaçada por lágrimas de dor ou sonho, não sei. Mas reconheci os vultos. Takeru, segurando minha mão, seu rosto sujo e marcado pela preocupação. Hikari, ao seu lado, com os olhos vermelhos.

A agulha no meu braço, a pressão fria do oxímetro no meu dedo, o bip constante e acelerado do monitor… era real. Eu estava de volta.

E a primeira pergunta, a única que importava, rasgou minha garganta seca, um sussurro áspero e cheio de um medo antigo:

— Onde… onde está o Taichi?