Pessoalmente, acho cômico como resoluções podem ser decididas por cara ou coroa. Ok, o único exemplo que consigo me lembrar é a decisão de campo em uma partida de futebol, mas... Se pararmos para pensar, sempre colocamos a sorte em uma face, como se esse fosse o único caminho, a única alternativa.

Ahh, por que tudo não pode ser simples como escolher campo ou bola? Não é saudade daquele tempo em que minha preocupação era o desempenho com a bola; é um sentimento mais arrebatador, que faz até minha respiração ficar mais lenta e minhas pupilas tremularem...

O passe para o lateral e correr no corredor, pelas costas do adversário. Se um chegar na cobertura, enfiar a bola para o centroavante; se não, arrastar até a linha de fundo, ou cortar para o meio e bater forte. Era um ritual, quase uma dança... Como eu queria poder encontrar fórmulas, alternativas ensaiadas para resolver os problemas atuais.

Mas essa situação não pode ser resolvida com triangulações pelas laterais, arrancadas pelas costas da marcação ou com dribles na entrada da área. Para vencer esse jogo, é preciso blefar, esconder, articular e, muitas vezes, tomar decisões que não queremos.

Eu me vi sentado naquela mesa polida do Conselho de Assuntos Digitais da ONU, o macacão azul substituído por um terno que pesava como uma armadura. O emblema dos Digimons no meu folder não era um símbolo de aventura; era um selo diplomático. A Embaixada Digital tinha o mesmo status que qualquer nação, um pedaço de território soberano de Digimundo em solo humano. Nossa única condição, nosso grande acordo: nenhum Digimon ou Escolhido ergueria uma garra ou um punho com força letal contra as nações soberanas. Era a barreira que separava a paz do apocalipse. Na época, eu ainda acreditava que era forte o bastante.

Junto com esse acordo, reuniões secretas. Umas mais tensas, outras mais leves. Mas foi naquele dia que tudo começou.

O ar em Genebra era pesado, misturando o amargor do café requentado com o cheiro de ozônio dos projetores holográficos. Mikhailov, o embaixador russo, ergueu-se. Seus olhos, dois fragmentos de gelo, varreram a mesa antes de cravar-se em mim. A tradução simultânea sussurrou em fones de ouvido, mas o tom não precisava de tradução: era puro ácido.

— Não estamos aqui para debater — sua voz cortou o ar, um golpe de faca —, mas para constatar um fato! A Polônia, um mero fantoche da OTAN, transformou seu território em um viveiro para terroristas Digiescolhidos ucranianos! É uma provocação. Nossa paciência… esgotou-se.

Um sussurro urgente varreu a sala, os intérpretes se inclinando para seus microfones, tentando encontrar equivalentes para a fúria contida naquelas palavras.

Do outro lado da mesa, a embaixadora polonesa empurrou sua cadeira para trás com um ruído áspero. Seus olhos faiscavam sob os cabelos grisalhos.

— Fantasias! Mais uma de suas fábulas para justificar a próxima atrocidade? — rosnou, ignorando o protocolo. — Destruir o Dombas não é o bastante? Precisam trazê-las para este Conselho? — Ela se ergueu, desafiadora, os nós dos dedos brancos sobre a mesa de jacarandá. — Se querem mais uma guerra, venham. Mas não insultem esta assembleia com acusações infundadas.

O embaixador britânico, Sir Henri, limpou a garganta com um som suave, tentando domar a fera que soltara.

— Ora, ora… moderação, por favor. Esta presidência exige civilidade e diálogo. Somos diplomatas, não… gladiadores.

— Civilidade? Diálogo? — A palavra ecoou, carregada de um cansaço milenar. O embaixador ucraniano, Oleh, não se levantou. Vestia um uniforme preto, similar ao que o presidente usa, não um terno. Seus braços permaneciam cruzados, seus olhos profundos fixos no britânico. — Diga isso aos milhares mortos nas trincheiras de Karkiv, Sir Henr. Nós alertamos diversas vezes sobre o perigo das falas Russas e fomos taxados de histéricos, a ONU cometerá o mesmo erro novamente? A serpente rasteja até esse grupo, e ainda falam em civilidade?

O embaixador chinês, Zhang, inclinou a cabeça, um movimento calculado e sereno.

— Sr. Oleh, entendo sua frustração, ninguém aqui subestima seu sofrimento. Mas devemos concordar que é uma situação diferente, e há um risco de se misturar o conflito terrestre com o digital, isso é uma ameaça global. Um risco que este Conselho deve conter.

— ‘Conter’? — Oleh deu uma risada curta e amarga. — O que Moscou chama de ‘terroristas’ são crianças que viram os pais serem mortos por mísseis com a bandeira que ele veste no peito. Elas têm parceiros Digimons que poderiam reduzir cidades a pó. E escolheram não o fazer. O que a Rússia realmente teme não é o poder delas… é a sua futura vingança que é devida.

Um silêncio cortante tomou conta da sala. A palavra "vingança" ecoou no ar, pesada e proibida. Todos os olhos se cravaram em Oleh, alguns com incredulidade, outros com alarme.

Mikhailov empurrou sua cadeira para trás, que rangeu no piso de mármore. Ele não se levantou completamente, mas inclinou-se para a frente, as mãos apoiadas na mesa, os ombros tensionados como os de um predador prestes a atacar.

— Como ousa? — sua voz não era mais um discurso; era um rosnado gutural, tão baixo que quase foi engolido pelos fones de tradução. — Está ameaçando este conselho com uma promessa de vingança? Está confessando que abriga monstros condicionados ao ódio?

Sir Henri, ergueu as duas mãos, tentando se interpor fisicamente na discussão.

— Embaixadores Mikhailov e Oleh! Isto já passou dos limites!

Mas a fala do britânico foi abafada pelo som da cadeira do assessor americano se arrastando para trás, enquanto ele se levantava, colocando-se em uma posição mais defensiva. Do lado russo, dois assessores também se colocaram alertas, suas posturas rígidas.

Oleh, no entanto, permaneceu imóvel. Suas mãos, agora visíveis sobre a mesa, estavam firmemente cerradas, os brancos dos seus nós de dedos sendo a única concessão à emoção que ele deixava transparecer. Seu olhar, no entanto, não se desviou do de Mikhailov. Era um silêncio desafiador, carregado de uma dor tão profunda que dispensava palavras.

Foi quando me levantei. O som da minha cadeira arrastando no chão pareceu absurdamente alto.

— Excelências — minha voz soou clara, forçando uma neutralidade que não sentia —, claramente há muito medo e ressentimento envolvido. Permita-me apresentar algo além de palavras.

Toquei a tela do meu terminal. No centro da mesa, hologramas azuis e prateados materializaram-se, linhas de dados dançando em silêncio.

— Monitoramento dimensional em tempo real. A assinatura de evolução Digimon na Polônia — apontei para uma linha notavelmente plana no gráfico — está dentro de variações estatísticas normais há dezoito meses. Não há picos. Não há anomalias. Em minha opinião, baseada em fatos técnicos, é impossível recrutar "terroristas" sem gerar uma assinatura energética.

O silêncio que se seguiu foi diferente. Menos inflamado, mais ponderado. Sir Henri ajustou os óculos. Os assessores voltaram aos lugares, analisando as informações.

— Sr. Taichi — Mikhailov não abriu mão do tom cortante, mas agora direcionado à tecnologia —, com sua vênia, não posso confiar a segurança do meu país em... tecnologia ocidental.

— Eu entendo seu ceticismo, Embaixador. Mas posso garantir que o sistema é independente, desenvolvido em parceria direta com o Mundo Digital. Não foi fornecido pelo governo japonês nem por seus aliados.

Foi então que Zhang, o embaixador chinês, cruzou os braços. Um sorriso quase imperceptível tocou seus lábios.

— Interessante — disse ele, pausando dramaticamente. — Então, me esclareça. Esses sistemas... não utilizam satélites de GPS para triangulação? Seus data centers não estão, por acaso, localizados em território europeu? E, certamente, não empregam linguagens de codificação de origem... americana? A neutralidade tecnológica é um conceito tão utópico quanto a neutralidade política, não acha?

A sala ficou quieta novamente. Zhang havia, com precisão cirúrgica, exposto a falácia. Mesmo o sistema do Koushiro estava vinculado à infraestrutura global. Eu estava sem saída. Minha boca abriu-se, mas nenhum som saiu. Um frio percorreu minha espinha. Ele encontrara o ponto fraco que eu não poderia contra-argumentar.

— Excelência, por favor — a voz calma e ligeiramente condescendente de James Harrington, o embaixador americano, cortou o silêncio. — Por mais que o Embaixador Zhang tenha um ponto técnico, seria impossível operar um sistema global sem usar a infraestrutura global. Até a China hospeda dados em servidores europeus quando é conveniente. O que importa não é onde o código roda, mas a sua integridade.

— Ainda assim — Mikhailov manteve o ceticismo, mas o furo de ar da sua argumentação havia sido tapado —, o Kremlin não aceitará apenas esses dados como garantia.

E então, joguei a carta, olhando diretamente para ele.

— Então proponho algo que vai além dos dados: luz. Uma inspeção. Nós, os Escolhidos, lideramos. A Rússia nos dá uma lista de locais que a sua inteligência apontar. Iremos a todos. Observadores de todos os países aqui representados serão convidados. Verão tudo. Transparência total.

A mudança na sala foi quase física. O peso do ar mudou. Os ombros da embaixadora francês, que estavam tensionados, relaxaram.

— A França — ela declarou, olhando em volta —, e creio poder falar pelos europeus, apoia incondicionalmente a proposta. Enviaremos nossos melhores observadores.

— A Polônia não tem nada a esconder — afirmou a embaixadora Nowak, com determinação. — Abriremos nossas fronteiras.

— A Ucrânia aceitaria um cessar-fogo temporário na fronteira polonesa — acrescentou Oleh, seu olhar ainda fixo em Mikhailov —, caso a Rússia concorde em garantir a segurança da área.

— Os Estados Unidos enviarão representantes — confirmou Harrington, fechando o bloco de notas com um gesto definitivo.

Zhang e Mikhailov trocaram um olhar rápido. Pude perceber um quase imperceptível movimento de cabeça do chinês, uma negativa. Ele percebera o isolamento.

— A China — disse Zhang, sua voz suave como seda —, em espírito de cooperação, contribuirá com recursos e tecnologia para uma contraprova independente.

O cerco estava fechado. Todos no conselho estavam favoráveis. A Rússia saíra de acusadora para encurralada.

— Esta presidência coloca a proposta em votação — declarou Sir Henri. — Por favor, ergam as mãos quem é a favor de uma inspeção nos termos sugeridos pelo Embaixador Taichi.

Um a um, os braços se levantaram. Mikhailov, vendo a situação irreversível, fez um gesto brusco com a mão, um misto de consentimento e desdém.

— Esperem o contato do Kremlin com as coordenadas.

Sua fala mal chegou aos nossos ouvidos quando o homem já se virava e deixava a sala, seguido por seus assessores. O silêncio que ficou era pesado, mas triunfante. Naquele momento, olhando para as mãos ainda levantadas ao redor da mesa, eu me senti invencível.

Achei que tinha entendido o jogo.

Achei que tinha vencido.

Foi o meu maior erro.

Mal saí da sala de reunião e me tranquei em meu gabinete. Minhas costas colaram-se contra a porta. Ergui as mãos e as vi tremer, o coração batendo como se fosse explodir.

Precisava falar, colocar para fora, mas… tinha que ser cuidadoso. Um passo em falso e causaria um pânico desnecessário.

— Yamato… — Meus lábios sussurraram o nome que rondava minha mente, um pensamento alto demais para ficar confinado às ondas cerebrais.

Ele entenderia. Saberia que aquilo, por mais perigoso que fosse, tinha sido uma vitória. Sem precisar de alardes.

Sentei na poltrona e abri o notebook, uma dúvida me corroendo por dentro. Será que estava sendo egoísta? Arrogante demais, em acreditar que eu e meu julgamento sozinhos poderíamos carregar aquele fardo?

Deixei os pensamentos de lado e o chamei pelo aplicativo de comunicação interna; mais uma das criações brilhantes do Koushiro.

A conversa foi rápida. Ele me alertou do perigo.

— Taichi, não confie demais nas palavras do embaixador — a voz de Yamato vinha carregada de uma cautela que eu me recusava a aceitar. — Quem decide é o Kremlin. Eles jogam sujo.

Nos dias seguintes, a Rússia enviou as coordenadas. E todos juntos, num frágil consenso, decidimos adiar a comitiva para a semana seguinte. Era tempo suficiente para os países escolherem seus emissários.

O mundo respirou aliviado.

O mundo é tolo.

Não houve semana seguinte. Não houve comitiva.

Achei que o jogo da diplomacia era futebol, mas na verdade era xadrez. O tempo era uma peça, e quem se movesse primeiro levava a vantagem.

A Rússia moveu-se primeiro. Um ataque preventivo, furtivo, que pegou as defesas militares; e a mim, totalmente de surpresa.

Estava no almoço na casa dos Izumi. O cheiro de lámen caseiro ainda enchia o ar, uma normalidade brutalmente falsa. Mal pude acreditar no que meus olhos viam na tela muda da TV, que de repente piscou com um banner vermelho

Meu telefone explodia em notificações.

Minha visão turvou, e o áudio parece ter ficado lento. Ergui meus olhos e encontrei os de Yamato; olhar não era mais de cautela. Era puro pânico. Eu havia dito que não era nada, que tudo estava sob controle. E agora…

Era um golpe de mestre geopolítico, e eu, o embaixador, o garoto que salvou o mundo digital, fui pego como um novato.

Imediatamente, convocamos uma reunião remota com os membros do comitê. Discretamente, pedi ao Koushiro as chaves da sede de nosso centro, em Tókio, e me contactei aos demais

Nowak, a polonesa, nem esperou a formalidade.

— Vocês traíram nosso acordo! Isso foi um ataque covarde! São dezenas de vítimas num domingo! São nojentos! Devem ser expulsos deste conselho!

Mikhailov parecia esculpido em gelo.

— Isso foi um aviso, Nowak. Pare de abrigar terroristas ucranianos. Os europeus devem abandonar seus programas militares com Digimons. A Rússia não os tolerará.

— Está lunático! — esbravejou Sophie Beaumont, da França. — Acha que a Europa ficará calada diante deste ato de guerra?

Mikhailov nada respondeu. Seu rosto exibia um sorriso sutil, quase sádico.

— Varsóvia já comunicou que acionará o Artigo 5 — declarou Nowak, a voz cortante como vidro. A informação não era uma ameaça, era um obituário. — Já que este comitê não serviu para conter a Rússia, não perderei mais meu tempo aqui.

A tela dela escureceu. Em sequência, as conexões dos EUA, da França, Ucrânia e até do Reino Unido foram cortadas. Um a um. O pacto defensivo ocidental se materializava em silêncio, numa salta de telas.

— Bem… é realmente uma pena — disse Zhang, o chinês, fechando os olhos lentamente. — Como vice-presidente, declaro encerrada esta reunião de emergência. Mikhailov, falaremos em particular.

A tela escureceu por completo. Eu ficara estático, mudo. Meus ouvidos se recusavam a aceitar o que haviam ouvido. Meus olhos, céticos, testemunharam o fim. Eu estava lá. Eu tinha assistido à declaração da Terceira Guerra Mundial, uma guerra alimentada pelo meu fracasso.

Os países se afundaram no conflito. A OTAN moveu sua infantaria para o território ucraniano, enfrentando os russos em campos que já eram sepulturas. Na Ásia, no Oriente Médio, até nas Américas… tudo começou a desmoronar. Não havia mais espaço para diplomacia. O caos estava instaurado.

Mesmo com o mundo desabando, me afundei em reuniões de emergência com um único objetivo: impedir uma escalada maior. Garantir a segurança dos seres digitais. Desta vez, não seria pego desprevenido. Eu precisava me antecipar, não confiar, estar um passo à frente. Estabelecemos protocolos, zonas de exclusão, canais de comunicação direta com os Digimon soberanos.

Por um instante, naquele turbilhão de planos de contingência, achei que finalmente tinha o controle. Que finalmente entendera o jogo.

Mas então… veio a última jogada.

A mesma Rússia que acusara a Polônia de abrigar milícias de Digimons usou, de forma cruel, fria e calculada, um Digiescolhido.

Senti todos os meus ossos pesarem. Minha boca amargou com as imagens que corriam as telas do mundo… Yuri.

A culpa era um peso vivo no meu peito. Mal havia processado a traição final de Mikhailov, e já estava em outra chamada de emergência, desta vez com os embaixadores da OTAN. A tela dividia-se em rostos tensos.

— Escutem-me — minha voz soou mais suplicante do que gostaria. — O que aconteceu é um crime, mas a resposta não pode envolver os Digimon. É exatamente o que eles querem! É a desculpa perfeita para justificar o uso do Yuri! Precisamos manter os parceiros digitais fora deste conflito, ou vamos perder qualquer resto de controle!

Harrington, dos EUA, olhava para um ponto beyond da câmera, seu rosto uma máscara de preocupação.

— Taichi, entendo seu ponto, mas não podemos ficar de mãos atadas se eles lançarem outro ataque como esse. A dissuasão precisa ser total.

— A dissuasão será uma carnificina! — argumentei, sentindo o desespero tomar conta. — É isso que é uma guerra de Digimon! Não é como enviar tanques! É… mais devastador, pode atrair forças do digimundo que... — minha voz embargou, mesmo que involuntariamente — Vocês não entendem os riscos!

Foi nesse momento que uma nova conexão forçou sua entrada na reunião. O nome que apareceu me fez o coração parar: Catherine Deneuve.

A imagem que surgiu não era da aliada que eu conhecia. Vestia um uniforme militar francês impecável, seus cabelos presos de forma severa. Mas eram os olhos que me gelaram: planos, distantes, como se estivesse olhando para um manual de estratégia, não para pessoas.

— Catherine? — o nome saiu como um sopro.

Ela ignorou minha voz completamente. Sua fala foi clara, metálica, dirigindo-se aos outros líderes como se eu fosse um fantasma.

— A França não negociará sua segurança com base em apelos sentimentais. O ataque russo demonstrou que a era da diplomacia ingênua acabou. Minha parceira, Floramon, será mobilizada para a defesa do território nacional. A decisão é irrevogável.

— Catherine, espera! — gritei, me erguendo da cadeira. — Isso é tudo o que queremos evitar! Você está rasgando anos de trabalho! Você está dando a eles o que querem!

Pela primeira vez, seus olhos se voltaram para minha miniatura na tela. Não havia raiva, nem tristeza. Apenas um vazio absoluto, uma frieza que era pior que qualquer ódio.

— O mundo real, Taichi, não funciona nos termos do seu idealismo — ela disse, sua voz tão cortante quanto o sorriso de Mikhailov. — A opinião do Digimundo é irrelevante. A sua opinião é irrelevante.

A tela dela escureceu antes que eu pudesse formar outra palavra.

O silêncio que se seguiu foi mais eloquente que qualquer condenação. O acordo havia sido rasgado por uma das pessoas que mais ajudou a construí-lo.

Foi num misto de desespero e revolta cega que fiz a chamada global. Não podia arriscar mais Yuris, mais Catherines. A mensagem foi um ultimato para todos os Escolhidos e nações: neutralidade indiscutível. Revolta contra convocações. Os Escolhidos não seriam armas.

O preço da ordem foi alto. Fomos caçados pelo mundo. No Japão, nossas famílias sofreram para nos proteger, um golpe doloroso, um efeito colateral inevitável que carrego até hoje. Mesmo com lágrimas nos olhos, sabia que o trabalho não havia acabado. Precisava fazer valer a pena.

A luz pulsava como um coração vivo ao meu redor. Dados subiam em colunas douradas, cruzando o céu digital como constelações. Era belo — e sufocante. Ali, diante dos Guardiões e da própria Yggdrasil, eu me sentia menor do que nunca.

— Esta guerra já é sangrenta demais. — Minha voz ecoou pelo espaço, mas tremia na garganta. Cada palavra parecia frágil contra aquela imensidão. — Não podemos permitir que ela se torne um conflito dimensional. Se os Digimons entrarem em massa… será o fim de ambos os mundos.

As escamas de Azulongmon refletiram a luz, sua silhueta serpenteando como um trovão azul.

— O mundo humano escolheu seu caminho de destruição. — Sua voz reverberou, grave e inexorável. — Por que devemos conter nossa força? Eles usaram Digimons e Escolhidos contra nações. É uma violação de todos os pactos.

O fogo de Zhuqiaomon crepitava como se a própria atmosfera ardesse. Cada batida de asa lançava fagulhas.

— Eles nos testaram. — Seu rugido era uma lâmina incandescente. — Pensam que somos frágeis, manipuláveis pelas engenharias de dados dos humanos e suas máquinas que fingem pensar. A resposta deve ser esmagadora!

Olhei para Gennai, buscando apoio, mas ele apenas observava em silêncio. A preocupação marcada em seu rosto não me oferecia alívio.

E então, a presença que não se ouve, mas invade. Yggdrasil. Sua voz não era som: era um pensamento frio pressionando meu crânio.

— O mundo humano demonstrou hostilidade irracional. A neutralidade tornou-se risco de extinção. Intervenção é a opção estratégica mais eficiente.

Meu estômago revirou. A lógica me escorria por entre os dedos. O chão parecia ceder sob meus pés. Se continuasse nesse jogo de razões, já estava derrotado.

Respirei fundo. O ar tinha gosto de ferro.

— E os Escolhidos? — as palavras saíram roucas, quase falhando. — E as crianças e jovens que ainda acreditam na parceria? Vocês vão abandoná-las? Deixar que sejam caçadas e usadas como armas porque alguns líderes enlouqueceram?

Meus olhos varreram os quatro, um a um.

— Yggdrasil falou em lógica. Então pensem nisso: se intervirem, darão razão a todos os Mikhailovs do mundo. Serão a prova viva de que eles estavam certos em nos temer. E aí… não haverá mais volta. Será uma guerra eterna.

Engoli em seco, tentando firmar a voz.

— Mas se oferecerem refúgio, se protegerem os inocentes… estarão mostrando que nossa aliança é maior do que a loucura deles.

O silêncio que se seguiu parecia eterno. O fogo de Zhuqiaomon diminuiu, as brasas dançando mais baixas. Azulongmon não serpenteava mais; flutuava imóvel, avaliando.

Foi Ebonwumon quem rompeu a quietude, sua voz arrastada como as ondas que demoram a quebrar.

— O garoto fala de uma força que seus cálculos não alcançam. A força de uma semente. Proteger os Escolhidos não é rendição. É plantar para a próxima colheita.

Gennai inclinou a cabeça, seus olhos firmes em mim.

— Ele está certo. Esta não é uma batalha para vencer hoje. É para garantir que haverá um amanhã.

Baihumon emitiu um rugido contido, com um ar congelante emergindo de sua garganta. Meus olhos o fitaram sua imponência, e meu corpo todo tremeu

— Mas saiba, escolhido da Coragem, podemos garantir apenas que não usaremos nossas forças, mas com certeza não teremos como impedir digimons que queiram espontaneamente se juntar a humanos. Faremos de tudo para proteger a conexão, mas com certeza existiram os que não vão nos obedecer

A luz de Yggdrasil oscilou. Por um instante, o espaço inteiro pareceu congelar. Nenhuma asa bateu, nenhuma chama crepitou, nenhum dado fluiu.

— …variável aceita. — A mente fria processava cada palavra como se mastigasse um enigma. — A proposta é arriscada. Mas a alternativa é aniquilação garantida. O cálculo mudou.

O clarão se intensificou, projetando sombras longas atrás de mim.

— O Santuário Digital estará aberto. Traga seus Escolhidos.

O silêncio se quebrou, e percebi o ar voltar ao meu peito com um solavanco. Meus joelhos vacilaram, mas me forcei a ficar de pé. Os ombros pesavam toneladas, e ainda assim senti… um fio de alívio. Não era triunfo. Era como agarrar uma tábua solta no meio de um naufrágio — podre, precária, mas suficiente para manter a cabeça fora d’água. Ainda tínhamos nosso portal permanente em Genebra, em nossa embaixada... considerada inviolável.

Era pelo menos nisso que eu acreditava.


Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.