The Lady In My Life
7 Estranho seria se eu não me apaixonasse por Emma Swan.
Notas iniciais
{Regina}
Desço da esteira rapidamente, sem desligá-la, e pego o celular que está em cima de um criado-mudo:-Oi, Emma!- saúdo-lhe, ainda arfante devido ao exercício que estava fazendo.
–Nossa, você está meio cansada, não é? Estava correndo a maratona de Nova York¹?- indaga, jocosa, enquanto volto para desligar a máquina de exercícios.
Resolvo entrar na brincadeira e respondo:- Quase isso! Já comecei a me preparar para a próxima edição. As quenianas que me aguardem!- concluo, zombeteira.
–Ótimo, se você precisar de uma treinadora, conte comigo!- diz, num tom mais sério.
–Você gosta de esportes, Srta. Swan?- pergunto, curiosa.
–David, provavelmente, não deve ter lhe dito, mas sou triatleta!- explica.- Houve uma época em que pensei em competir profissionalmente, todavia enfrentei alguns problemas em relação a minha inclusão em uma das categorias.- acrescenta, um tanto evasiva e melancólica.
Fico imaginando as situações humilhantes e embaraçosas que Emma deve ter passado neste caso. Pois, ser um esportista é uma das grandes dificuldades enfrentadas por transexuais, já que na maioria das modalidades, os únicos gêneros aceitos pelos comitês não incluem os transgêneros e, mesmo quando são permitidos, isto não significa dizer que estarão livres de preconceito*.
–Uma mulher que gosta de artes, músicas e esportes! Se me disser que aprecia cinema e literatura também, caso-me com você hoje mesmo!- falo, divertida, notando que ela ficou calada e quase consigo ver suas bochechas rosadas.
Por causa do seu silêncio, motivado pelo meu último comentário, ouço o barulho de pessoas e o cantarolar de pássaros do outro lado da linha:- Onde você está?- inquiro, tentando retomar a conversa.
–Estou num parque!- responde, parecendo aliviada por voltarmos a falar.
–Que inveja! Também gostaria de estar no The Public Garden (Jardim Público de Boston) agora! Possivelmente estaríamos andando de pedalinho!- afirmo, eufórica, lembrando do nosso passeio.
–Quem lhe disse que estou no The Public Garden?- questiona, com seu já famoso ar misterioso.
–Não?! E você está em qual parque, Srta. “mistério”?- pergunto, brincando com ela.
–Vou te dar uma dica: ele fica bem perto da sua casa!- responde e, ao tomar consciência que ela está próxima a mim, meu coração volta a palpitar freneticamente.
–Srta. Swan, não me diga que você está no Central Park!?- não quero acreditar que ela está aqui.
–Estou! Olhando para vários prédios ao meu redor, tentando adivinhar qual é o seu!- exclama, com voz doce.
Ao escutá-la pronunciar a última frase, sinto uma ternura enorme tomando conta do meu corpo:- É verdade! Estou vendo da janela do meu quarto, com meu binóculo de longo alcance, uma loira alta e bonita, usando um vestido florido e com um enorme chapéu de camponesa, além de uma cesta pendurada no braço direito, saltitando e com esquilos ao redor. Acho que é você!- digo, divertida.
O som de sua gargalhada se apodera dos meus ouvidos:- Sinto muito, mas essa não sou eu! Creio que um dos moradores do prédio em frente ao seu está assistindo alguma animação da Disney e o binóculo está focado nisso!- rebate, no mesmo tom.
Nesta hora, eu bem que gostaria de realmente ter um binóculo para visualizá-la no parque, pois suponho que, de qualquer forma, ela deve estar encantadora.
[E]:–Bem, eu até gosto muito do Central Park, mas não foi para vê-lo que vim de Boston! Você poderia descer?- pergunta de uma maneira irresistivelmente charmosa.
[R]:– É claro, Srta. Swan! Só demorarei o tempo de tomar um banho rápido!- esclareço, ansiosa com a iminência de encontrá-la novamente.
Nos despedimos e corro para o banheiro, pois não quero deixá-la esperando nem um minuto além do estritamente necessário.
***
Chego no parque e sigo as coordenadas que ela me passou, imaginando mais ou menos onde irei achá-la. Cada vez que fico mais próxima do local, minha felicidade aumenta, enquanto olho para todos os lados, tentando avistá-la.

Não demora muito para que eu veja uma mulher com longos cabelos dourados, amarrados numa trança lateral, que cai pelo lado direito do seu rosto, vestindo uma calça preta de tecido e uma blusa 3/4 com listras horizontais nas cores negra e branca.
Ela está sentada sobre uma toalha xadrez, estendida na grama, e ao seu lado noto uma cesta de piquenique.
Ao perceber que estou me aproximando, seus lábios esboçam o mais lindo sorriso que eu já vi e, contemplando as covinhas perfeitas que se formam em suas bochechas, dou-me conta, pela primeira vez, que estou apaixonada por Emma Swan.
♫ Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as índias, mas a terra avistou em você
O som que eu ouço são as gírias do seu vocabulário ♫
Ela se levanta e anda em minha direção. Quando está bem perto, não resisto e a abraço, aspirando seu delicioso perfume e sentindo seus lábios macios tocando timidamente as minhas bochechas direita e esquerda. ´
–Você já tomou café-da-manhã? Pela hora acredito que sim, mas está convidada a tomar um brunch** comigo!- diz, afastando-se um pouco de mim.- Mais uma vez vou quebrar a minha regra de não comer nada antes do meio-dia! No entanto, quando pensei em vir ao Central Park não resisti à tentação de trazer uma cesta para fazer um piquenique com você!- acrescenta, gentilmente, segurando-me pela mão e levando-me até a toalha.
É quando percebo que não estamos sós no vasto gramado do parque, uma vez que há casais e famílias fazendo o mesmo que a gente, sentados em toalhas xadrezes, apreciando verdadeiros banquetes.
–O que você trouxe de bom para degustarmos?- pergunto, sentando-me e colocando minhas pernas de lado, enquanto vejo Emma fazendo o mesmo.
–Bem, Srta. Mills, o cardápio está bem variado: temos bolos, salada de frutas, sucos, torradas, panquecas, geleia e até tortas salgadas!- fala, apontando tudo com a mão.
–Não me diga que foi você que preparou tudo isso?- indago, pegando um pouco da salada de frutas que está com uma aparência ótima.
–Sinto lhe decepcionar, mas culinária não é um dos meus predicados!- afirma, sorridente.- Minha única especialidade é macarrão com queijo. Se você me der uma chance, posso surpreendê-la qualquer dia, fazendo essa iguaria!- salienta, com expressão divertida no rosto.
–Acho que vale a pena correr o risco, pois adoro massas!- digo, zombeteira.
–O único risco que você corre é ficar viciada e querer que eu prepare sempre!- ressalta, orgulhosa.
Sorrio do seu convencimento, pegando um pedaço da torta salgada para experimentar e lembro de perguntar-lhe sobre suas gatinhas:- Ah, como estão Snow e Ravenna?
Olha-me com ternura, provavelmente por estar feliz com o fato de eu lembrar dos seus amores e responde:- Estão bem! Outro dia elas me perguntaram por você!- diz, brincalhona.- Disseram assim: onde está aquela moça bonita que ficou tão encantada por Elis Regina?!– acrescenta, fazendo uma voz diferente, imitando a suposta fala das gatas.
Tento visualizar essa hipotética cena na minha mente e indago:- E o que você disse a elas?- embarcando na sua fantasia.
Fica pensativa e, ao final, responde:- Disse-lhes que ela estava em Nova York, possivelmente chateada com alguém que a deixou sozinha em um casebre abandonado, por ser idiota demais, mas que tinha certeza que essa pessoa iria procurá-la para pedir-lhe desculpas da forma adequada, torcendo para que as escusas pudessem ser aceitas!- conclui, olhando docemente para mim.
Não sei como alguém consegue ser tão cativante quanto Emma Swan.
–Talvez no fundo a moça bonita já tenha perdoado quem a abandonou no casebre, todavia pode ser que ela finja que ainda está um pouco chateada, para saber até onde a tal pessoa está disposta a ir para conseguir o seu perdão.- entro no jogo de insinuações dela.
Continuamos conversando e saboreando o conteúdo da cesta, falando sobre os lugares que podemos visitar neste final de semana em Nova York.
Logo, lembro de um local que adoro: o Hayden Planetarium e Emma se mostra muito empolgada para ir, mais uma vez, ao lugar.
Recolhemos tudo e andamos até o seu BMW amarelo, saindo em busca do Hayden.
***
O planetário é um oásis para quem gosta de ciência e aprecia arquitetura, pois como ele fica anexo ao Museu de História Natural, vemos o moderno se mesclar com o antigo.
Quando saímos de uma das apresentações, nos deparamos com a última pessoa que queria encontrar ali: minha mãe, Cora.
[C]:- Regina, meu amor, que surpresa agradável encontrá-la aqui!- diz, beijando minhas faces e noto que está passeando com um dos meus adorados sobrinhos.- Trouxe August Junior para visitar o planetário, pois você sabe como ele adora astronomia, não é?- acrescenta, enquanto o garoto solta a mão dela para correr e abraçar minhas pernas, gritando “tia Regina”, com sua vozinha infantil.
Por um momento, esqueço que Emma está comigo. Pego August, colocando-o no braço, depositando infinitos beijos nas suas bochechas, enquanto ele acaricia meu rosto com suas pequenas mãos.
[C]:-Quem é essa linda moça ao seu lado?- indaga, indiscretamente, fazendo-me lembrar que ainda não as apresentei.
[R]:-Desculpe, esqueci de apresentá-las! Esta é Emma Swan, irmã de David! Emma, esta é minha mãe, Cora Mills!– a loira olha rapidamente para mim, antes de cumprimentar mamãe, provavelmente lembrando da conversa que tivemos sobre a minha genitora.
Mordo o lábio, controlando o riso, imaginando se ela pensou em colocar a mão sobre o coração, como sugeriu naquela ocasião.
Minha mãe, para variar, não perde a oportunidade de analisar Emma de cima a baixo e suponho que está se controlando para não ser ainda mais indiscreta.
A loira, pelo contrário, passa a dar atenção ao pequeno August, que parece também estar fascinado por essa deusa bávara***.
[C]:- Você parece muito com seu irmão, Emma!- enfatiza.
[E]:- Nós somos gêmeos!- esclarece, sorrindo.
[C]:- Ah, sempre quis ter um casal de gêmeos! Adoraria vesti-los com roupinhas iguais, só que de cores diferentes, claro. Azul para o menino e rosa para a menina!- conclui, deixando-me, mesmo sem querer, constrangida.
No entanto, ao olhar para Emma, percebo que ela permanece impassível, apenas escutando as baboseiras de mamãe.
Cora vira-se para mim em seguida e indaga:- A propósito, por que David não esta com vocês, Regina?
[R]:- Ele está em um Congresso de Medicina em Baltimore, mãe!- explico, desejando que ela vá embora.
[C]:- E por que você não foi com ele, meu amor?- continua com suas intromissões.- Sabe como os homens são, não podemos deixá-los muito soltos!- fala e volta seu olhar para Emma:- Desculpe-me, querida, sei que ele é seu irmão, mas não deixa de ser homem!- conclui, para que não pareça ainda mais indelicada.
Se Emma tinha alguma intenção de responder ao comentário de Cora, furto-lhe a palavra e digo:- Mamãe, acho que sou bastante grandinha para saber como levar os meus relacionamentos!- e acrescento na sequência:- Desculpe-nos, mas precisamos ir!- ressalto, beijando-a na face e desalinhando o cabelo de August.
Pego na mão de Emma e continuamos o nosso passeio. Já distante, observo que Cora ficou parada no mesmo lugar, olhando-nos enquanto nos afastávamos.
[R]:- Emma, desculpe-me por toda essa cena!- falo, quando já estamos longe.
Sorri para mim e diz:- Não se preocupe, lembre-se que sou filha de Margaret Bayern!
[R]:- Quando saímos para passear parece que os Estados Unidos são uma província, não é? Pois sempre encontramos alguém indese... interrompo meu comentário, recordando-me que o outro encontro indesejado foi com a ex-namorada dela, Belle.
Olho para Emma desconfiada, tentando disfarçar meu mal-estar pela gafe que cometi, porém, percebo que ela está sorrindo de uma forma diferente, provavelmente porque sabe o que eu ia dizer e o que isso significa.
Ao terminarmos o passeio ao planetário, chamo-a para irmos até meu apartamento, pois tenho uma surpresa para ela. Pretendo convidá-la para outro programa um pouco diferente. Só que como falta algumas horas para o dito evento, é melhor passarmos no loft, a fim de comermos algo e tomarmos banho.
Ao chegarmos no apartamento, falo:- Fique à vontade!- colocando minha chave sobre o console, onde há alguns livros e dois vasos de plantas com lírios dentro.
[E]:- Gostei da decoração da sala! Adoro ambientes cleans e imaginei que faria seu estilo!- diz, indo até a porta da sacada que proporciona uma bonita visão do Central Park.
Realmente, meu loft tem pouca mobília, pois acho espaços com muitos móveis pouco práticos. Nossos olhares se encontram e digo, divertida:- Sempre achei interessante como os designers tem verdadeira fixação por ambientes cleans. Não deveria ser justamente o contrário?
[E]:- A arte de decorar um espaço tem a ver com deixá-lo bonito, prático e funcional e isso não envolve, necessariamente, enchê-lo de móveis que servirão de obstáculos para as pessoas esbarrarem neles!- afirma, no mesmo tom.
[R]:- Posso dizer que concordamos em mais um aspecto!- exclamo.- E por falar em pontos em comum, como hoje fiquei sabendo que você também gosta de esportes, tenho uma proposta para lhe fazer.- acrescento, sorridente.- Tenho dois ingressos para um importante jogo da NBA! David e eu compramos já há algum tempo, mas surgiu esse compromisso para ele no fim de semana. Pensei em não ir sozinha, porém, como você apareceu inesperadamente e o jogo é hoje, no final da tarde, adoraria ter a sua companhia.- concluo.
[E]:-Claro, adoro basquete! É um dos meus esportes preferidos!- destaca, satisfeita.
[R]:- Ah, então você gosta mesmo de basquete!- falo, animada.- Só não me diga que torce para os...
[E]:- Celtics?- ela interrompe o meu raciocínio.- Sim! Mas, pelo seu semblante, imagino que não era isso que você queria ouvir!- acrescenta, brincalhona.
Coloco as mãos sobre a face, fingindo um enorme pesar e digo:- Eu sabia que você tinha que ter algum defeito!- e ela cai na gargalhada, sendo acompanhada por mim.
Digo-lhe que o jogo que veremos será justamente entre os Knicks, minha paixão, contra os Celtics, a dela.
Depois de comermos uma refeição leve, preparada por mim, tomamos banho, uma após a outra, e nos vestimos para irmos ao jogo.
Estou com uma calça jeans, tênis, regata branca e um agasalho e boné dos Knicks, para completar meus trajes de torcedora aficionada. Emma ri, ao me ver vestida desta forma, e percebo que está linda como sempre, usando uma saia preta acima dos joelhos, uma blusa branca e jaqueta da cor da saia, além de sandálias rasteiras.
[E]:- Desculpe não estar vestida a caráter, como você, porém não sabia que correria o risco de ser convidada por Regina Mills para assistir uma partida de basquete!- fala, zombeteira.
Desta vez, vamos para o Madison Square Garden, onde acontecerá o jogo, no meu Mercedes.
Já nas arquibancadas, enquanto esperamos a partida iniciar, percebo um dos torcedores olhando de forma descarada para ela:-O jogo ainda nem começou e eu acho que meu ingresso já está pago!- diz, comendo-a com os olhos.
Emma, todavia, parece estar alheia aos olhares e flertes dele, uma vez que encara distraidamente o jumbotron onde alguns lances de jogos anteriores estão passando.
–Que homem atrevido e grosseiro!- deixo escapar minha irritação pela atitude dele, sem querer.
[E]:-O que foi?- indaga, preocupada, tendo a atenção despertada pelo meu comentário.
[R]:-Nada de importante! Esqueça!- afirmo, encarando-a.-Prepare-se para conhecer uma face minha que só se manifesta aqui: a torcedora fanática e briguenta!- e ela aquece meu fim de tarde, sorrindo com minha declaração.
Instantes depois, os jogadores param de se aquecer e o jogo não demora muito a começar. Aproveito, entre um gole e outro na cerveja, que compramos na entrada, para provocar o armador do Celtics:- Rondo, você não amarra o cadarço dos tênis de Calderón!- incito, citando o nome do jogador que atua na mesma posição no Knicks.
Emma sorri, divertindo-se com minhas provocações.
– É o fim do mundo mesmo, mulher querendo dar palpite em basquete!- resmunga um jovem que está em pé ao nosso lado, usando o boné do Celtics.
Levanto-me para encará-lo e pergunto-lhe, debochada:- Hei, macho-sabichão, já que você é o expert neste esporte, diga-me quem foi o jogador que possuía um arremesso de três pontos quase infalível, que fazia passes incríveis e tinha agilidade para roubar a bola, além de ter sido um dos principais jogadores da dinastia do Boston Celtics nos seus anos dourados?!
A cara que ele faz é um poema e aproveito para acrescentar:- Logo vi que você é mais um daqueles fãs que nada sabe sobre os times para os quais torcem e vem aos estádios só quando o clube está bem no campeonato ou disputando uma partida importante!- digo, arqueando a sobrancelha.- Para que você não passe mais vergonha, esclareço que estava falando de Larry Bird, um dos maiores ídolos do seu time.- destaco, percebendo que várias pessoas ao nosso redor, começaram a rir da forma como eu o calei.
O rapaz, irritado, por não ter como rebater minhas provocações, empurra-me, fazendo com que eu perca o equilíbrio. Todavia, antes que eu caia, sinto os braços de Emma em volta do meu corpo.-Você está bem?- pergunta-me, séria e preocupada.
[R]:- Estou, não foi nada!- asseguro, encantada pelos seus lindos olhos verdes, sentindo a respiração dela sobre meus lábios e adorando estar, mais uma vez, sendo sustentada por seus fortes braços.
Ela me afasta, delicadamente, e se aproxima do jovem:- Essa sua conduta foi muito inadequada! É por causa de atitudes como a que você teve agora que acontecem tantas brigas em estádios ou ginásios de esportes, resultando em pessoas sendo hospitalizadas ou mesmo mortas. Brigas essas, ocasionadas por algo que deveria unir as pessoas.–diz, severa, e o rapaz, intimidado pelo seu tom e pelo tamanho de Emma, que é mais alta que ele, pede desculpas e senta-se sem dizer mais nada.
Nesse momento, consigo perceber nela a austeridade herdada dos seus antepassados alemães. Reflito sobre o que ela disse e fico constrangida, pois sei que também tive a minha parcela de culpa na confusão, quando o provoquei. Afinal, não é certo tripudiar só porque sabemos que estamos com a razão.
Apesar deste pequeno incidente, o jogo foi ótimo. É impressionante como a companhia de Emma é agradável em qualquer circunstância. Os Knicks venceram a partida e tudo está perfeito.
Quando chegamos ao estacionamento e vou para o banco de motorista, esfuziante também por causa do álcool que corre nas minhas veias, ouço a voz de Emma:–Onde a senhorita pensa que está indo? Verei a sua face irresponsável agora também?–sua voz é séria, mas seus olhos compassivos amenizam o tom de repreensão.–Pode passar para o banco de passageiros. Quem dirige sou eu!–decreta, autoritária.
–Já estava com saudades da velha vovó Swan!-digo, jocosa e ela faz uma careta para mim, pegando as chaves da minha mão.
***
Retornamos ao apartamento e digo a Emma para que se sinta em casa, enquanto vou à cozinha preparar uns drinques.
Indico-lhe algumas revistas e livros que estão sobre uma mesinha ao lado do sofá, para que se distraia durante a minha ausência.
{Emma}
Enquanto aguardo o retorno de Regina, sento-me no sofá, e estico meu braço, pegando uma revista para folhear. Ao puxá-la, uma espécie de agenda cai no tapete que há na sala.
Levanto-me para pegá-la e na folha em que está aberta, reconheço a mesma caligrafia do cartão que acompanhava a coletânea com a qual Regina me presenteou.
Observo que não se trata de uma agenda, mas sim, de um diário. Olho rapidamente para a porta e escuto seus movimentos ainda distantes, provavelmente na cozinha.
Quando vejo o meu nome de relance na folha, a curiosidade toma conta de mim e sinto uma necessidade premente de ler o que está ali escrito:
“Ontem tive um agradável passeio com Emma. Há muito tempo não me sentia tão feliz só por estar na companhia de alguém! Almoçamos juntas, fomos ao The Public Garden, andamos de pedalinho e terminamos o passeio na Biblioteca Pública de Boston, depois de passarmos pelo Museu.
Ao sairmos da Biblioteca, tropecei, enquanto bancava a criança, descendo os degraus pulando, e fui amparada por Emma. Quando me vi em seus braços, pensei que íamos nos beijar e, estranhamente, acho que até ansiei por isso.
O que senti, ao estar tão próxima dela, foi tão forte que, não conseguindo evitar as investidas de David, acabei pensando em Emma, no seu cheiro, nos seus braços, na sua boca... durante todo o ato e tive aquele que foi meu primeiro orgasmo com ele em três meses de namoro”.
Fecho o diário bruscamente, com uma confusão de sentimentos me dominando, porque percebo que Regina também pode estar apaixonada por mim, como sei que estou por ela.
Ao abri-lo de novo, com mãos trêmulas, noto que o que acabei de ver foi escrito na manhã do dia em que visitamos o rancho do meu pai. E antes que eu possa reler o trecho, para ter certeza que não estou sonhando, ouço os passos dela se aproximando e fecho o diário, colocando-o abaixo de uma revista na mesinha onde estava.
{Regina}
–Emma... chamo-a, ao voltar para a sala, com as bebidas na mão. Aproveitei a saída e também troquei de roupa. Agora, uso apenas um vestido leve e confortável e estou descalça.–Para acompanhar os drinques, cairia bem uma boa música! Faça às honras... concluo, apontando o meu acervo de vinis e CD's, claramente sugerindo que ela escolha um dos discos e ponha para tocar.
Sorri para mim, de maneira encantadora, pegando a taça e vai até a estante onde os guardo.
Fico sem palavras quando reconheço a música que ela escolheu:- Você poderia ter colocado qualquer álbum, sem correr o risco de errar, mas tinha logo que escolher o meu preferido.- saliento, extasiada, indo até o interruptor e diminuindo a intensidade da luz.- Essa música exige uma dança! Então vamos fazer justiça a ela!- afirmo, pegando sua taça e colocando-a ao lado da minha, sobre o console.
Minha costumeira falta de inibição, aliada ao álcool, impulsiona-me a enlaçar meus braços em torno do seu pescoço, puxando-a para o centro da sala.
Emma coloca as mãos acima dos meus quadris e dançamos suavemente ao som da voz de Nat King Cole.
Nossas testas estão coladas e sinto o aroma do seu delicioso hálito que escapa por entre seus lábios. Noto que a sua respiração está meio ofegante e essa proximidade desperta em mim o desejo de beijá-la novamente:-Você dança muito bem, Srta. Swan!- digo, tentando afastar esses pensamentos, pois temo que ela se assuste e saia correndo do apartamento como da outra vez.
–Não tão bem quanto você!- diz, graciosa.
Seguimos envolvidas pela suave e marcante voz de Nat e, nesta altura da música, sinto as mãos de Emma me puxarem mais para si, apertando-me com mais força.
♫ When I give my heart
Quando der meu coração
It will be completely
Será por completo
Or I'll never give my heart
Ou então eu nunca darei meu coração
And the moment
E no momento
I can feel that
Que eu sentir que
You feel that way too
Você sente do mesmo jeito também
Is when I fall in love with you
É quando eu me apaixonarei por você ♫
Olha-me intensamente e sinto seu corpo cada vez mais tenso. Fecho os olhos e suspiro profundamente, esperando o encontro dos nossos lábios, umedecendo os meus com a ponta da língua.
Ainda de pálpebras cerradas, escuto a voz dela um pouco rouca:-Eu estou apaixonada por você, Regina!
Quando me dou conta do que Emma acabou de dizer, abro os olhos, surpresa, e dedico-lhe um sorriso de felicidade:-Achei que só eu estivesse me sentindo assim!
Neste instante, sua expressão se suaviza, e ela me beija apaixonadamente. Minha mão esquerda sobe até sua nuca, pressionando-a, no mesmo momento que seus braços envolvem minha cintura, erguendo-me um pouco do chão. Sinto o seu sabor na minha saliva, enquanto sua língua desliza sobre a minha.
As respirações ficam mais descompassadas e nossas cabeças se movem em direções opostas. Parece que nenhuma de nós duas tem a intenção de interromper esse contato tão cálido, intenso e desejado.
E agora tenho a certeza que ela não irá fugir, pelo contrário, estou convicta que esta noite nos entregaremos finalmente uma a outra.
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