Notas iniciais
Peregrina narrando, desculpem a demora. E espero que gostem desse capítulo.
Os dias se seguiram tensos desde aquele incidente com os espelhos, ninguém mais mexia na plantação dos novos membros. Eu me sentia mal por ter de julgá-los para depois apontar em quem ti Jeb deveria apontar a arma e puxar o gatilho, não queria que eles tivessem de ir desse jeito... Me apeguei a todos, principalmente a pequena Hanna. O pior é que ninguém disfarçava os olhos desconfiados, nem mesmo Ian conseguia, nunca brigaria com ele por causa disso afinal, ele está tentando proteger a todos de um mal maior, algo que pode acabar de vez com a colônia de Jeb Stryder. Lily e eu passamos a maior parte do tempo ensinando aos novos tarefas comuns como limpar pratos, fazer a massa do pão e assar, arrumar os quartos, coisas bem banais. O jogo de futebol aliviou levemente o clima, trazendo uma nova preocupação para nossa caverna: o estoque acabou novamente e era necessário uma nova incursão, dessa vez eu teria de ir.
Em meu quarto, arrumo uma mochila com mudas de roupa novas para quando chegasse ao outro lado e tivesse de me trocar, pego também algumas sacolas que usaria para levar certos mantimentos higiênicos, separá-los ao invés de simplesmente jogar na parte de trás do carro. Pés se arrastam dentro do quarto e logo braços me envolvem de maneira carinhosa, deixando as mãos em minha barriga.
— Você precisa mesmo ir? — Sussurrou Ian em meu ouvido.
Mesmo agora, ele sempre fica inseguro quando saio da caverna, sempre protetor...
— Sunny foi da última vez com o Cal... É minha vez... — Mordo meu lábio inferior, mania herdada de Melanie, e coloco minhas mãos sobre as deles, deixando as coisas sobre a cama. — Com Skandar.
— O que? — Seu abraço se aperta, como se isso fosse me prender de ir. — Você não pode ir com um dos suspeitos...
— Quer ir junto? — Pergunto cuidadosamente, com um sorriso pequeno no rosto.
— Bem que eu queria... — Suspirou, soltando-me do abraço, sua mão afastou o cabelo de meu pescoço com movimentos suaves e seus lábios tocaram minha nuca. Arrepio no mesmo instante que sinto o beijo. — Mas Jared pediu para ajudar ele na plantação... Agora que só os membros antigos podem mexer nos espelhos.
— É uma pena...
— Poderíamos aproveitar hoje... — Suas mãos passam por meus braços, acariciando com delicadeza, descia seus beijos fazendo uma trilha em meu pescoço, preciso me concentrar para conseguir dizer as palavras certas.
— Ian... — Sinto as bochechas corarem, com a pele toda arrepiada com seu toque. — Eu vou sair amanhã cedo, preciso arrumar as coisas...
— Por favor, fique. Cal pode ir com o Skandar... — Dizia com uma voz rouca, praticamente me convencendo a aceitar o pedido.
Balancei a cabeça de leve, negando. Eu queria tanto aproveitar mesmo esse intervalo, ultimamente Ian tem trabalhado tanto que só o vejo nas horas de almoço e jantar.
— Na volta nós planejamos algo. Eu prometo... — Girei devagar, ficando de frente para o mesmo e segurando seu rosto com as duas mãos, acariciando seu rosto aspero por conta da barba crescendo.
— Tudo bem... — Respirou fundo, dando aquele sorriso que eu tanto amo. — Eu vou esperar.
Selo nossos lábios de maneira demorada e afasto-me, pegando as mochilas e saindo de meu quarto antes que ele possa me convencer de vez em ficar com ele, deixando-o sozinho.
[...]
O dia seguinte amanhece de maneira maravilhosa como sempre. O planeta Terra tem paisagens tão detalhadas, tão bem estruturadas e únicas que me deixa boquiaberta toda vez que saio da caverna, com o céu pincelado de cores ardentes que se suavizam em um azul celestial. Minha admiração é cortada pelo bocejo alto de Skandar, a Alma mais humana que já conheci.
— Está cansado? — Perguntei com um riso baixo.
— Um pouco, Nina não me deixou dormir muito... — Ele coçou a cabeça de maneira descontraída, mostrando um sorriso torto. — Acho que eu devia ter um quarto com ela.
— Eu também gostaria de ter um com o Ian... Mas somos muitos pra poucos quartos.
Acabamos os dois rindo, ao lado do jipe enquanto Lilly e Brandt caminham em nossa direção, ambos com a mesma carranca que Jared usava quando cheguei aqui pela primeira vez. Skandar solta um suspiro baixo e seu sorriso se desmancha ao vê-los.
— Queria que isso acabasse... Eu gostava tanto de ser bem tratado pelos humanos.
Todos estávamos do lado de fora, subindo no jipe que depois de solavancos e bastante balançadas iria nos levar aonde os carros estavam escondidos e teríamos de trocar de roupa. A princípio, Skandar pareceu bem tímido em se despir daquela maneira inesperada, mas consegui fazer sem que seu rosto esquentasse. Apesar de estar acostumada, ainda ficava incomodada com aquilo sentia como se estivesse espondo algo que nem mostro para Ian, o que seria errado. Entretanto acabo afastando esses pensamentos e entro no carro, com Skandar no banco de passageiro e eu como motorista, enquanto Brandt e Lily iam atrás usando óculos escuro e cheios de sacolas.
Andar pelas estradas acima da velocidade ainda era uma coisa que eu não conseguia e também, não precisávamos nos preocupar mais, tinhamos duas almas no carro e uma manta imensa para cobrir os dois humanos atrás de mim. Eles só vinham junto porque queriam ficar de olho em Skandar, caso ele tentasse fugir iam atirar em sua cabeça sem um pingo de remorso. Era algo que eu não admirava nem um pouco da atitude humana. Chegamos ao primeiro super-mercado da região, ficava no final da cidade e parecia bem vazio em minha opinião. Paro o carro não muito próximo da entrada, por causa dos meus amigos humanos que preferiam distância daquilo e parar o carro do outro lado do estacionamento estaria deixando bem claro que estávamos com humanos ali. Pego algumas sacolas e Skandar também, descendo do carro.
— Peg ? — Chama Brandt em um sussuro antes que eu saia do carro.
— Sim?
— Vamos estar preparados, caso algo dê errado. — Sua voz é tão fria quanto o cano da espirgarda que ele deixa a mostra para eu entender o que ele queria dizer.
Concordo com a cabeça rapidamente e saio do carro com um arrepio percorrendo o corpo. Eu não queria que meu novo companheiro de compras morresse, mas se fosse necessário... Eu seria capaz de deixar? Nego com a cabeça para afastar novamente meus pensamentos confusos, entrando no que costumava chamar Walmart ao lado de Skandar, que vai direto para a ala de comidas enquanto eu fico com a higiene. Vou pegando sabonetes, shampoos, condicionadores e tento ser um tanto cuidadosa, já que éramos dois. Ou melhor, somos uma famíla de cinco pessoas e... Pretendo ter mais um filho. Passo a mão em minha barriga com um sorriso meigo, imaginando como seria a sensação de estar grávida. Melanie diz ser um sonho bobo mas acredito que toda fêmea desse mundo pensa nisso pelo menos uma vez na vida. Estico a mão para um teste de gravidez mas logo afasto a mão. O que Ian iria pensar? Que estou querendo ter filhos? Não, só estou interpretando meu papel, hoje meu nome é Espirais de Vidro. Enrolo uma meixa de meu cabelo no dedo indicador, pensando se levaria mesmo ou não.
— Posso ajudá-la? — Escuto uma voz gentil falar comigo e quando me viro com um sorriso meus olhos se arregalam.
A pessoa não tinha os olhos brilhantes como os meus.
— Ah, Eu... Eu não sabia... — Tento me afastar do humano. Kyle disse que os humanos estão mais radicais, mas eu não esperava que tivessem invadido um super-mercado e dominado.
— Acalme-se... — O homem tocou meu braço, com os olhos preocupados. — É só a nova lente.
Ele soltou meu braço e por um momento eu podia fugir, mas sua ação seguinte me fez ficar. Levou as mãos aos olhos e com os dedos manteve o olho aberto e tocou no seu olho, retirando uma lente transparente e mostrando o círculo vívido e brilhante em seu olho.
— Está vendo? Não sou um dos humanos da resistência. — Ele riu de maneira nervosa. — Todos estão usando as lentes... Onde estão as suas?
— E-Eu... Estava viajando. — Dei uma desculpa, pensando cuidadosamente em minhas palavras.
— Não soube dos ataques humanos? Estava passando em todos os canais... — Ele disse de maneira aborrecida e pude ver em seu crachá seu nome: Bob.
— Eu sou contra ver televisão. — Dei um sorriso amarelo.
E então ele me explicou sobre os ataques humanos. Começaram nas pequenas cidades, sendo a maioria das almas assassinadas com facas, bastões de basiball e até mesmo sufocamento enquanto dormiam. "Os humanos continuavam os mesmos" disse ele aterrorizado. Continou falando que em vários países os ataques estavam começando e as Almas precisavam ser preparadas para isso e com isso entrou os Buscadores. Eles desenvolveram um programa e distribuiram para todas as Almas os apetrechos para paralisar os humanos, não matá-los. Eles transmitiram várias mensagens de paz mas nada impediu os humanos de voltarem a atacar, escrevendo nas paredes " Saiam do NOSSO planeta." Entre os apetrechos, está as lentes para que todos parecessem humanos, o que ainda os entregavam era a cicatriz na nuca.
— Estamos em Guerra novamente... E estamos tentando mostrar aos humanos que nós só queremos ser amigos, nada disso... — Sua voz falhou de tanta tristeza, me deixando levemente comovida.
— Eu... Eu vou levar as lentes e me proteger, obrigada pelo aviso. — Consegui dizer depois de um longo período em silêncio, vendo Skandar se aproximar de mim e Bob com as sacolas cheias.
— O que aconteceu? — Perguntou ele olhando o homem.
— Atualidades, sabe como é... — Disse em um tom triste, aproximando-me dele e agarrando seu braço.
— Peg, você está me assustando. — Sussurrou ele.
— Eu te explico no carro. — Sussurro de volta, ouvindo os passos de Bob atrás de nós.
Ele apenas passou os nossos produtos, deixando que peguemos mais do que o normal para uma família de cinco pessoas. Dizia que caso tivéssimos algum problema, pelo menos teríamos um estoque extra. Seu sorriso era uma tentativa de nos deixar mais reconfortados, mesmo que não estivesse funcionando, foi uma atitude bonita. Uma atitude que as Almas costumam cultivar. Nos deu também as lentes e saímos de lá praticamente correndo para o carro, deixando as sacolas com Lily e Brandt segurando enquanto entramos nos bancos da fente. Assim que ligo o carro, a voz de Lily percorre o ambiente de maneira sussurrada.
— O que aconteceu lá dentro? Vocês demoraram... — Seu olhar foi em Skandar.
— Estamos com um grande problema...
— Que tipo de problema?
Por todo o caminho de volta para nossa casa, tive de explicar todos os acontecimentos narrados pela Alma Bob, mostrando as lentes para os mesmos que pareciam em dúvida quanto aquilo. E pelo retrovisor eu podia ver em seus olhos um brilho de esperança.
Mas o que será das Almas que ficaram ao lado dos humanos? Eu seria também expulsa da minha própria casa?
Notas finais
E aí.. O que estão achando? Obrigada quem chegou até aqui!
E enquanto ao Ian... Desculpem, mas ele tem suas necessidades também haha.
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