P.O.V. Jeremy.

Cinderela. Bem, parece que esta Cinderela tá mais pra Conde Drácula.

—Na verdade, como sou mulher, seria Condessa. Olá de novo, Jeremy.

Olhei para ela e não estava usando óculos de sol, os olhos dela eram uma coisa. Se destacava na multidão com certeza. Azuis, bem azuis e fluorescentes. Eles brilhavam no escuro.

—Os lobos, na floresta no dia da fogueira... eram vocês não eram? Você e seu irmão.

—Sim. E só pra você saber, vocês é que estavam invadindo propriedade privada.

—Como sua mãe se transforma de volta mesmo na lua cheia?

Ela respirou fundo. E respondeu:

—Não é como pensa. Nossa transformação não está limitada á noites de lua cheia. Sim, existe uma conexão mística entre lobisomens e a lua cheia, nos faz mais fortes. Mas, eu posso me transformar numa loba sempre que eu quiser. Aquele dia foi minha primeira vez. Minha e do Lucian. Feliz aniversário de vinte e dois anos, vai ter que quebrar cada osso do seu corpo para se transformar num lobo.

—Espera um pouco, você quebrou seus ossos?

—É parte do processo. Leva algum tempo para conseguir ter consciência humana na forma de lobo. Quando estamos transformados podemos nos comunicar, telepaticamente. Nossas mentes viram uma coisa só, estão ligadas. Chamamos de triângulo. Toda matilha tem.

—E você é uma garotinha obediente.

—Não é como se eu tivesse escolha. Minha mãe é uma lobisomem Alfa. Ela é a alfa, temos que obedecer.

—Um alfa mulher?

—Temos sempre um macho alfa e uma fêmea alfa. Para todos os efeitos, meu tio e minha mãe são os Alfas de todos os Alfas. Eles sempre serão os Originais. E está certo, não sou Cinderela. A Cinderela era uma trouxa, se eu fosse a Cinderela já teria comido a Madrasta e as irmãs logo no início da história.

Ela se aproximou bem de mim e passou a mão fria no meu rosto.

—Teria seduzido o Príncipe e feito bebês com ele.

Antes que eu pudesse responder ou se quer processar a informação... ela foi-se num borrão. Bateu um silvo de vento.

Então, a fala saiu:

—Feito bebês com ele?!

P.O.V. Presidente Kelly.

Todos os governos do mundo estão em alerta. Os exércitos estão preparados e os serviços de inteligência estão fazendo planos de contingência para estas novas espécies.

—O que sabemos sobre eles?

—Além dos mitos? As únicas informações verdadeiras e relevantes que temos até agora vieram de uma única criatura. Hope Genevieve Corvinos. Ela e o irmão dela são filhos dos primeiros de suas espécies. Chamam-nos de Tribridos. Ao que me parece a família Corvinos é a primeira e mais forte, a Origem de tudo. Todas as espécies das quais temos conhecimento. Eles alegam que querem paz. Querem ter direitos.

—Ótimo.

P.O.V. Lucian.

Minha irmã/prima foi convidada para aparecer na televisão. No programa da Oprah. Ela odeia a Oprah, mas disse sim.

—É uma oportunidade de expormos o nosso lado da história irmão. Isso é política, temos que ser inteligentes e grande parte da população americana assiste este programa ridículo.

—Ela está certa filho. Sobre tudo.

Disse meu pai. Ele sempre foi mais ponderado.

E a louca da Hope foi no programa.

P.O.V. Hope.

Estou nos bastidores esperando para ser chamada.

—E hoje, nossa convidada especial é ela. A sensação da Internet, a primeira das criaturas a vir a público. Hope Corvinos.

E lá fui eu. Acenando, sorrindo.

—Belos óculos de sol.

—Obrigado. É um prazer estar aqui.

Disse sentando naquele sofá branco.

—Bem vinda.

—Obrigado.

A bela mulher humana negra que usava maquiagem e tinha seus cabelos cuidadosamente arrumados começou a me interrogar, de forma gentil.

—Eu tenho que perguntar, porque se revelar agora?

—Primeiramente, bom dia a todos e isso não foi uma decisão individual. Houve uma assembleia geral com todos os Clãs, Covens e matilhas do mundo. E se os homossexuais podem lutar por seus direitos, se existe liberdade religiosa para sua raça... porque não haveria para nós? Queremos praticar os nossos costumes, usar nossas habilidades, sem termos que nos esconder.

—Então, não temos o que temer?

—As coisas são complicadas. Vampiros, bruxas e lobisomens são criaturas predatórias. É isso o que nós somos, predadores. Mas, nós temos consciência. Tanto quanto você. Sabemos a diferença entre certo e errado. Vampiros tem as emoções ampliadas sentimos o mundo de um jeito que um humano jamais conseguiria. Infelizmente, a decisão de vir á público teve sim um propósito maior. Graças á crescente expansão industrial, lobos estão sendo expulsos de seus territórios, quase não há mais floresta para nos transformarmos e corrermos. A magia das bruxas está diminuindo, como servas da natureza, nossa magia vem da própria terra e como a devastação continua a magia está enfraquecendo, ficando... negra. E os animais estão morrendo, consequentemente os vampiros estão ficando sem presas. E se ficarmos sem presas... ai vocês vão ter do que ter medo.

—E quanto a bolsas de sangue?

—É uma saída sim. A maioria dos vampiros e lobos usa, mas vampiros e lobos precisam caçar. É uma necessidade física, como um ser humano precisa fazer xixi. Quando você tá apertada para o banheiro, você tem que ir. É impossível resistir ao imperativo biológico. Não é uma ameaça, é a realidade.

—Então, isto não é apenas por seus direitos, mas também é um aviso?

—Exato. Os humanos estão devastando tudo sem remorso, nunca pensando nas consequências de suas ações e em como isso afeta não apenas a vocês, mas a nós também. Qualquer um que tenha visto um esquema duma cadeia alimentar sabe como funciona. Mês passado, uma madeireira despejou uma comunidade inteira de lobisomens do seu lar ancestral! Cada lobo por quem eu lutei, cada um que na hora da necessidade se levantou por mim e por meu irmão... vocês tiraram eles todos de suas famílias e pelo o que?!

Abri a maleta preta que estava cheia de dinheiro.

—Por isso?

Peguei os maços e mostrei para a câmera.

—Isso vale mais que suas vidas? Mais que as vidas de seus filhos? Esses pedaços de papel verde. Isso não é comida. Compra-se comida com isso sim, mas isso não é comestível.

P.O.V. Oprah.

Ela estava realmente revoltada.

—Bem, tenho certeza de que a madeireira não fez por mal.

—Não. Não fez por mal, fez por dinheiro. Áreas ambientais protegidas estão sendo devastadas enquanto estamos aqui conversando, tendo essa conversa tão agradável.

Mas, então... numa fração de segundo a menina levantou e ficou de cócoras era uma espécie de posição de ataque. As presas, os olhos azuis, tão azuis quase violeta.

—Tenha calma eu acredito que se houverem negociações...

—Fique quieta. Tem pessoas armadas aqui dentro. E eu sou o alvo. Apareçam! Apareçam se tiverem coragem!

Um ataque?

—Fiquem calmos. Vamos todos sair pelas saídas de emergência.

—As saídas estão trancadas. Eles trancaram tudo. Isso foi planejado.

A garota neste momento era mais bicho que gente.

—Posso farejar vocês. Posso ouvir seus batimentos, sentir o cheiro da sua adrenalina.

Um bando de homens armados saiu e eles abriram fogo contra a garota.

—Morra abominação!

Bem, eles tentaram. Ela se movia tão depressa que não dava pra ver. E um a um eles caíram no chão.

—Meu Deus!

—Tenham calma, eles não estão mortos. Apenas inconscientes. E desarmados. Sugiro que a senhora chame a polícia.

E chamamos as autoridades, mas houve outro ataque antes dos policiais chegarem e um garoto foi assassinado ao vivo.

—Não. Não Henry, respira Henry. Respira.

Ela abraçava o garoto que estava morrendo, ele tomou uma saraivada de balas no peito. Quando o garoto morreu, ela gritou e tudo voou longe.

—Henry!