The Hurting. The Healing. The Loving.
50 Capítulo 49
Ambos sustentaram o silêncio dentro do carro por alguns minutos enquanto encaravam a versão quase fantasmagórica da cabana que Wanda morou nos últimos meses. Naquele momento, era apenas um esboço de um verdadeiro lar, parecendo extremamente fria, desabitada e esquecida.
A madeira estava corroída em diversos lugares e os arbustos, em torno da varanda, assim como a varanda, cresceram mais do que poderia prever. A porta da frente continuava arrombada, assim como tinham deixado ao sair do lugar às pressas após a invasão dos seguidores de Chthon. Wanda não parecia ter feito muita questão sobre a cabana, tinha ficado mais possessa pelos objetos que pertenciam aos filhos dela e foram levados como forma de desestabilizá-la.
— Tem certeza disso?
Questionou em tom baixo após um suspiro pesado enquanto a ruiva apenas mantinha um olhar analisador e sério sobre o local. Bucky havia comentado que o Dia de Ação de Graças era muito pessoal, para ser passado com pessoas realmente importantes e, na noite daquele dia, ela sugeriu que deixassem Sprite e a Bruxa para ficarem sozinhos.
Elas vinham sendo essenciais na construção de sua confiança e mergulho real em suas habilidades como uma verdadeira Feiticeira, mas, no fim do dia, ainda eram estranhas, com quem convivia pela necessidade. A mais velha conhecia os meandros sobre Chthon, o Alto Revolucionário e seus seguidores, além de poder guiá-la, mas notou que Wanda ainda não havia realmente superado o fato de ter escondido os detalhes sobre sua real paternidade e, por isso, o vínculo com ela vinha sendo mais frio e distante.
Por trás do convite, notou também que ela não queria ser ingênua em relação a Bruxa, não queria se deixar levar novamente por uma sensação fabricada de conforto e, no fim, se descobrir enganada ou usada, o que a tornava sempre atenta sobre a outra. Além disso, também percebeu que a guarda alta e desconfiança não parecia implicar a ele e sua presença, apesar das constantes crises de insegurança de Wanda, o que o deixava aliviado.
— Estou mais confiante sobre meus poderes. E… — Ela estava de braços cruzados e parecia tensa, apesar das palavras. — Acho que, como da outra vez, eles não vão se atrever a chegar muito perto. Fizeram aquilo porque a cabana estava vulnerável e não estávamos aqui.
— Eles têm medo de você. — Wanda voltou os olhos para Bucky, de maneira séria. — Precisam de você, mas ainda assim… Conhecem as possibilidades do que pode fazer e temem todo esse poder.
Ela meneou a cabeça e respirou fundo, parecendo tentar amenizar com o gesto o peso de tudo o que a rodeava.
— Bem… Espero que isso seja bom. — Deu de ombros. — Ao menos, neste caso.
Concordou com um aceno e desceram do carro, seguindo para os degraus da varanda ainda com alguma desconfiança. Viu que Wanda tinha os olhos esverdeados concentrados e que os dedos, sem luva, ainda que estivesse realmente frio, se moveram uns contra os outros sombreados de escarlate, como se procurasse por algo de errado ou estivesse preparada para um ataque.
Ela seguiu à frente dele e Bucky não se incomodou. Sabia que qualquer ameaça estaria invisível aos seus olhos e, ainda que tivesse alguma vantagem sobre um humano comum por causa das habilidades advindas do soro, dessa vez, não sentia qualquer energia diferente emanando do lugar.
Wanda pareceu chegar à mesma conclusão assim que ultrapassaram a solteira da porta. A cabana estava como deixaram, com todos os armários abertos e móveis fora do lugar, revirados como se um ladrão de pouco talento tivesse passado por ali. Os ombros dela se tornaram menos tensos e os dedos, antes apenas ansiosos, pareceram se aquietar por um instante, apenas até que ela levantasse os braços e com um aceno rápido e prático das mãos começasse a, magicamente, colocar tudo de volta no lugar.
Mas não era apenas isso. O feitiço transfigurava toda a realidade da cabana, tornando as paredes de madeira e portas mais novas e bem cuidadas, conferindo uma espécie de lustre sobrenatural aos móveis, quase como se fossem novos ou apenas uma visão enevoada da realidade. O mesmo acontecia com as luzes e eletrodomésticos, assim como os tapetes confortáveis que adornavam a pequena sala de estar sem TV, próxima à grande janela lateral, e a lareira de pedra escura, agora muito mais reluzente.
Agora, conseguia compreender perfeitamente o motivo de se sentir inteiramente rodeado por ela quando chegou ali. Semanas antes, não conseguia descrever a sensação e a associava mais à própria mulher, simplesmente, porque não era possível notar que… Não era apenas a experimentação com magia no quarto de hóspedes que Wanda fazia naquele momento, mas todo o lugar. Cada coisinha que se encontrava na cabana estava impregnada por Magia do Caos e, por isso, podia quase que sentir em sua pele, não como um incômodo, mas uma constatação — agora, muito presente.
Seus olhos puderam apenas acompanhar, inertes e incrédulos, a mudança escarlate do ambiente, tão rápida quando os braços dela, que desenhavam uma espécie de arco à sua frente, suspenso no ar, enquanto tudo magicamente se transformava. Presenciar a magia dela era sempre fascinante, mas nunca a tinha visto fazer algo tão expansivo fora de uma luta.
Os poderes de Wanda pareciam ser mais introspectivos, mas notou que bastava direcioná-los para o lugar certo para ganhar aquele tipo de imensidão na realidade. Agora, conseguia enxergar como ela poderia ter criado toda uma vida para si mesma apenas com seus poderes. Ainda que não parecesse, a ruiva carregava em si tanta potencialidade que não era capaz de mensurar — talvez nem ela fosse.
Viu quando ela abaixou os braços, o ambiente subitamente quieto ao redor deles e apenas levantou os ombros, como se este fosse o único esforço que tivesse empenhado na tarefa de transformar toda a cabana. Então, ela se virou e ele abaixou os olhos para encarar o rosto inesperadamente corado, como se tivesse acabado de se dar conta do que fizera na presença de outra pessoa.
— Então, isso é um encontro? Tipo, oficialmente?
Provocou, levantando uma sobrancelha, vendo-a corar ao lutar para não desviar os olhos. Não era a primeira vez que ficavam sozinhos, mas era, de fato, a primeira vez que se sentia sozinho com ela por escolha, sem o peso de outras interferências para uni-los.
— Não dos mais convencionais, eu acho…
Disse em tom baixo, se referindo com um gesto ao que havia acabado de fazer com a cabana, e cruzando os braços, quase sem graça. Era, de fato, impressionante que ela se sentisse intimidada por si mesma ou por algo tão mundano quanto um encontro. Mas Wanda era uma garota jovem, lembrou a si mesmo, percorrendo o rosto bem desenhado antes de voltar a contemplar o feitiço que embalava a cabana. Era como se uma camada borrada se misturasse à realidade, tornando-a filtrada para seus olhos.
— Isso é… Impressionante. — Mediu as próprias palavras e, talvez, até o próprio maravilhamento enquanto analisava o apertar de lábios ansioso e o brilho enérgico nos olhos verdes e inquietos, mesmo quando sorriu, um pouco hesitante ao acompanhá-lo em sua exploração por aquela realidade da cabana. Wanda parecia sempre muito alerta e preocupada com tudo ao redor, não precisava de muito para chegar a tal conclusão vivendo ao seu lado todos os dias. Se conseguisse fazer com que ficasse confortável, com o mundo ao seu redor e com isso, já teria alcançado um feito impressionante. E, cada vez mais, se enxergava desejando fazer isso por ela. — Realmente incrível.
Se dirigiu à cozinha abrindo os armários novos e, novamente, aquela torradeira com o símbolo das Indústrias Stark lhe chamou a atenção. Agora compreendia como aquele lugar se moldava a Wanda Maximoff e parecia ainda mais intrigante.
— Essa cabana era de amigos da família. — Ela cruzou os braços, quase timidamente. — Pietro e eu viemos algumas vezes com os nossos pais, então… Eu apenas… Coloquei as coisas de volta no lugar. Eles morreram no mesmo dia que meus pais, não é… invasão a domicílio.
Ela explicou, incomodada, e Bucky evitou sorrir ao levantar a sobrancelha.
— Exceto que o lugar, provavelmente, é patrimônio público hoje em dia… — Murmurou como quem não queria nada, apenas analisando ao seu redor. Quis dizer a ela que aquela aura de sonho não era nada como um lugar comum e o que ela fazia era muito extraordinário, mas resolveu ficar quieto a respeito disso. — Qual é a da torradeira?
— Hum? — Ela se virou distraída e se aproximou, observando o objeto, também com um olhar de curiosidade. — Eu não sei… Talvez… Minha história esteja tão intrincada a de Stark que essas coisas estão interligadas com a minha magia. É… Como um sexto sentido ou um certo… Instinto, quem sabe?
Bem, a história dele também era totalmente entrelaçada a de Tony Stark, pensou vagamente, recordando o passado e os acontecimentos não muito distantes também.
— Eu vou buscar as coisas no carro.
Avisou, depositando um beijo calmo na bochecha dela antes de se dirigir para fora. Horas depois, Bucky terminava de montar uma pequena torta de frutas vermelhas enquanto Wanda o observava. Havia feito tudo do zero, como sua própria mãe costumava fazer, e teve que se esforçar para lembrar as medidas corretas, mas, uma vez que começou o processo da massa e da geleia, tudo pareceu fluir com mais facilidade.
A ruiva não ficara nada surpresa com sua preferência por doces, pois já havia notado antes, segundo ela. Wanda tinha ficado responsável pelo prato principal do jantar particular de Ação de Graças e estava cozinhando uma refeição típica de seu país, com cordeiro, diversos legumes e muito tempero. Também era algo que a mãe dela fazia em datas comemorativas, o que a fez se empenhar um pouco mais na preparação.
Pensou que ficaria relativamente nervoso quando ela se sentou à mesa de madeira e, com o rosto em uma das mãos, passou a simplesmente observá-lo cozinhar em silêncio, mas chegou a conclusão que fazia algum tempo que Wanda Maximoff não o deixava ansioso e que os silenciosos não eram ensurdecedores. Se sentia à vontade com ela, especialmente pela forma honesta como se comunicavam e expressavam o que estavam pensando e sentindo.
Em contraste com o conforto daquele momento, seu peito se apertava ao se lembrar de como, apenas no dia anterior, a ruiva dissera não ter nada a oferecer a ele. Bucky se perguntava há quanto tempo Wanda tinha isso em mente, como se pensasse que ele esperasse algo em retorno por estar com ela ali, longe de tudo e de todos. Como se pensasse… Que não valesse a pena por ser quem era, quando, para ele, soava exatamente o contrário. Não havia ninguém como ela, disso tinha certeza, e ninguém que o fazia se sentir daquela forma.
— Você ficou calado de repente.
Havia acabado de colocar a torta no torno e, agora, levava tudo o que havia sujado na pia antes de lavar as mãos e se voltar à mulher. Sob aquela luz amarelada, os olhos esverdeados dela pareciam ainda mais brilhantes e esotéricos. A beleza de Wanda era de um tipo quase intimidante, especialmente em conjunto com a forma como o olhava fixamente, parecendo estar à par de tudo o que se passava em sua alma, embora soubesse que ela tentava lhe conferir alguma privacidade.
— Eu só estava pensando… — Fixou os olhos nos dela ao se inclinar sobre a mesa, apoiando as duas palmas na madeira para se aproximar. — Em como você é bonita. Como uma boneca.
A observou sorrir e inclinar a cabeça para o lado, o analisando em retorno com os olhos brilhantes sob a iluminação amarelada da cabana. Os cabelos ruivos, que seguiram o gesto sem harmonia, deslizando pelos ombros, também refletiam o clima do local, a deixando ainda mais… Fascinante e irreal. Essa, talvez, fosse a melhor forma de defini-la, se conseguisse encaixá-la apenas nisso.
— Não é assim que se parece quando pensa nisso. — Ela comentou estreitando os olhos e Bucky sorriu, terminando de se inclinar até ela.
— E você ainda diz que não lê a minha mente…
Fechou os lábios sobre os dela e a sentiu escorregar um pouco mais na cadeira para manter o contato. Ao mesmo tempo em que parecia sobrecarregá-los com tanta energia, nenhum beijo ou toque soavam suficientes naquele momento. Ele queria olhá-la, sentir a temperatura quente de seu corpo, deslizar os dedos entre os fios macios dos cabelos vermelhos dela, mergulhar no gemido discreto que Wanda mal podia conter durante um beijo.
— Você… — Os dedos místicos seguraram seu rosto da maneira firme como parecia gostar, lentamente brincando com os fios da barba por fazer.
— O quê?
Murmurou ante o sussurro dela e os olhos esverdeados se abriram para fitá-lo, atordoada e adorável em uma bagunça peculiar de cabelos ruivos, lábios inchados e moletom confortável. Não se importou com a breve interrupção, deixando um rastro quente e molhado no canto dos lábios dela, que apenas o encarava em feições pensativas, como se vivesse uma realização muito própria após a forma como aqueles dias os levaram até ali.
E, apesar de o contato visual ser uma das coisas mais íntimas que mantinham entre si, não se sentiu intimidado nem pronto a pegar o primeiro trem. Pelo contrário, estava tão distante disso que, agora, parecia ridículo. Então, ela acariciou seu lábio inferior, percorrendo da têmpora à mandíbula com a mão delicada e cheia de anéis, antes de rodear seu ombro, se acomodando por ali como uma velha conhecida.
— Às vezes… — Ela juntou suas testas, fazendo com que a respiração quente e os lábios molhados encontrassem os seus ao murmurar, baixinho. — Não parece que você é tão real assim.
Era, no mínimo, irônico que Wanda pensasse assim, pois, não muito raramente, tinha essa impressão dela: tão poderosa, tão magnífica por fazer as coisas que era capaz de fazer e ser real, alcançável, que se via sempre fascinado, tentando tocá-la, e não apenas fisicamente. Pensou em fazer um gracejo qualquer para flertar com ela, mas apenas a encarou por um momento e se inclinou para alcançar sua boca irresistível novamente.
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