Já era a quarta ligação de Sam, que rejeitava, por isso resolveu retirar o celular do modo de vibração e, simplesmente, o jogou na mesinha de cabeceira ao lado e suspirou, levando as mãos à barba por fazer de forma agoniada.

Após aquela madrugada na hospedaria, havia concordado em voltar para a casa a tempo para o feriado de Ação de Graças, que aconteceria dali a alguns dias, porém, tudo desandou e Bucky sequer encontrou um momento para dizer à ruiva que precisava ir embora.

As coisas estavam, de fato, acontecendo rápido demais, mas não podia, simplesmente, deixar que seu entorno o comandasse. Entrelaçou os próprios dedos de forma nervosa, imaginando como Wanda reagiria, quando dissesse que estava partindo. Pois ele teria de ir, afinal de contas, não deveria ser o eterno responsável por ela, por mais que se preocupasse com sua segurança, com o bem-estar de sua mente, com tudo o que a envolvia diretamente.

Além disso, não era exatamente de grande ajuda se mantendo ali. Bucky não tinha nenhum grande poder que pudesse ser útil contra Chthon, seus seguidores, ou a própria Bruxa que os ajudava. Além disso, já havia se machucado uma vez e tinha consciência que poderia ser uma distração para ela, especialmente pela forma como se culpara e ficara transtornada após Bucky ser esfaqueado com a adaga envenenada. Wanda tinha sua própria jornada, especialmente no que dizia respeito a encarar seu passado, suas origens e, principalmente, suas escolhas quanto ao futuro.

Seus olhos recaíram sobre a tiara, que havia descansado sobre a cômoda de madeira e se levantou para alcançá-la, de maneira curiosa. Mesmo que não estivesse na cabeça dela, aquilo parecia fazer parte de Wanda de um jeito único e, novamente, enquanto a examinava entre os dedos, a sensação pesada da energia escarlate o tomou por inteiro.

Não o oprimia, notou, assim como a magia de Wanda nunca fizera algo do tipo a ele. De certa forma, exceto por aquele primeiro momento, em que invadira seu quarto de hóspedes na cabana e encontrara sua projeção astral, sempre conseguiu conviver muito bem com aquela habilidade dela, o que considerava… Curioso, no mínimo.

Não era apenas a necessidade latente de tentar compreendê-la, era também a permissibilidade de Wanda para que o fizesse, pois, ninguém estava interessado nisso. Geralmente, as pessoas a temiam e julgavam e essa era a impressão que ficava, pois a ruiva não era rodeada por muitos paradoxos. Era preciso se esforçar para conquistar sua confiança, concluiu, e a maioria não estava disposta a tanto. Bucky havia sido uma exceção, assim como Sam, Steve, Barton e, é claro, Visão.

Engoliu em seco, ainda examinando a tiara, uma das partes mais enigmáticas de Wanda, assim como sua história com o sintozóide. Detestava apenas pensar nele e não compreendia como eles poderiam estar ligados em algum sentido romântico, embora soubesse que ela estava sempre procurando se apoiar em alguém que a entendesse de forma mais profunda do que uma garota com poderes quase absurdos demais em comparação aos demais.

Visão enxergara nela mais do que sua superfície e isso fora o suficiente para que idealizasse toda uma vida com ele. Com casa, rotina, filhos, vizinhos enxeridos e problemas familiares comuns — algo pelo o que constantemente estava buscando, mesmo que, no momento, estivesse concentrada em sua batalha contra os servos de Chthon.

E, em meio a tudo isso, havia aquele beijo no meio da madrugada e todos aqueles olhares e todos aqueles momentos em que parecia existir uma conexão tão surreal entre eles, que o fazia perder o fôlego e dar um passo atrás, calculando a melhor forma de agir, pois Wanda não queria ser distraída. Havia deixado isso bem claro há não mais do que três dias atrás, quando afirmara que não podia se perder por conta dele.

Em meio a um suspiro desgostoso, se voltou à porta do banheiro, ainda segurando a tiara escarlate, e bateu na madeira com os nós dos dedos. Fazia, ao menos, duas horas que Wanda se encontrava no banheiro. Havia a levado direto para a banheira, onde abriu a torneira de água quente para que pudesse se aquecer o mais rápido possível. Mas, desde então, após ouvir Sprite e a Bruxa se recolherem em seus próprios quartos, a madrugada adentrou ao silêncio e escuridão completos, assim como a ruiva, que se manteve quieta no banheiro até responder em tom baixo.

- Pode entrar. Estou decente.

Bucky abriu a porta do pequeno cômodo com cuidado, a encontrando, sem surpresas, ainda na banheira, praticamente da forma que a deixara há horas: realmente decente, utilizando o vestido branco e abraçando os joelhos de maneira pensativa.

Fechou a porta e se aproximou, constatando que ela mantinha a água que a submergia ainda quente, mesmo depois de todo aquele tempo, além de ter colocado alguns sais aromáticos, que agora impregnavam todo o ambiente. Os cabelos ruivos estavam apenas meio secos e a coroa de flores brancas, já murchas, havia sido esquecida no tapete fofo logo ao lado da antiga banheira de cobre.

- Você está bem? — Perguntou baixo, no que ela respondeu uma afirmação de maneira distraída após encará-lo por um momento, parecendo mais distante do que qualquer outra coisa. — Acho que isso é seu.

Estendeu a tiara para ela, que sorriu brevemente e a pegou entre os dedos enrugados pela água.

- Obrigado.

Não precisaria ser um grande observador para chegar à conclusão de que estava cansada, provavelmente pela energia que precisava colocar no feitiço mais cedo, bem como o esforço físico de se manter debaixo d’água por mais tempo do que deveria. Tacitamente, havia travado uma breve luta com a força de Sprite, tentando não utilizar de suas habilidades para vencê-la, até que se tornou inevitável. Não foi justo, mas quem poderia ser naquelas circunstâncias?

Wanda voltou a colocar a tiara escarlate, que pareceu se encaixar de forma mágica e sobrenatural acima de sua testa, antes de sumir diante dos olhos dele, que levantou as sobrancelhas, impressionado. Ainda não havia presenciado aquele tipo de acontecimento de forma tão clara, o que era… Impactante. Tudo sobre ela era, lembrou a si mesmo, enquanto Wanda indicava que se sentasse ao seu lado.

Em meio a um suspiro vencido, resolveu fazê-lo, se mantendo de costas contra a lateral da banheira, na altura de onde deveria estar seus pés, para que pudesse dar a ela alguma privacidade — e aos seus pensamentos também. Por um instante, o silêncio preencheu o banheiro pequeno, mas aconchegante, ambos perdidos em seus próprios pensamentos, embora, muito provavelmente, os seus envolvessem muito mais a própria Maximoff do que qualquer outra coisa.

- Então, o feitiço… Deu certo dessa vez. — Começou lentamente, tateando o tópico, enquanto Wanda tateava distraidamente a superfície da água da banheira.

- Sim… Bem, mais ou menos. Eu me distraí… — Ela pestanejou por um instante. — Mas agora sei a direção em que preciso me aperfeiçoar…

- Bom, o fato de quase se afogar para fazer o feitiço correto talvez cause mesmo um pouco de distração.

Comentou ironicamente, sem esconder sua insatisfação com toda aquela ideia e o ocorrido mais cedo. Em tese, sabia que Wanda não se deixaria machucar, de verdade, mas já a conhecia o suficiente para saber que se colocaria no limite para se provar, para alcançar qualquer objetivo em que acreditasse, por mais absurdo que pudesse parecer.

Wanda, por sua vez, alongou o silêncio, um suspiro pesado a deixando enquanto recomeçava de maneira lenta e mais calculada. No entanto, não permitiu que seu coração seguisse o mesmo ritmo do tom baixo e tranquilo que ela empregava, pois pareceu ter congelado naquele breve instante.

- Bucky… Enquanto estava submersa, eu… Não conseguia parar de pensar em você. — Ainda que a sentisse examinando seu perfil cuidadosamente, há não mais do que um metro, fixou os olhos no vão entre a porta fechada e o chão, apenas absorvendo as palavras. — Eu podia sentir… Sua preocupação, podia sentir o sangue mais rápido em suas veias pela ansiedade do que estava acontecendo comigo, e a respiração descompassada… Quase como se fossem em mim. E sei que não era. Consigo identificar suas emoções perfeitamente bem já há algum tempo, então… Foi um pouco desesperador.

- Então… Foi isso o que a distraiu. — Foi tudo o que conseguiu elaborar a partir de tudo o que Wanda dissera, ainda processando a consciência dela sobre o que sentia.

- Não… Não vá por esse caminho. — Ela corrigiu em meio a um riso baixo e nervoso, parecendo levar um pouco da água quente até o pescoço, sem se importar com os fios quase secos antes de continuar. — Você estava certo. Eu não deveria ter te beijado. Não enquanto estava bêbada, ao menos.

Bucky franziu o cenho, estranhando a mudança de rumo do assunto. Até aquele momento, Wanda não tinha sido exatamente vocal sobre o beijo. Apesar de ter uma opinião formada sobre o assunto e de, praticamente, a ter repreendido como um pai na manhã seguinte, ela não pode dizer nada, pois foram interrompidos pela serva de Chthon e todo o caos que se sobrepôs às revelações trazidas por sua chegada.

Pensando em retrospecto, soava quase que como um sinal, de que tudo o que acontecera naquela madrugada tinha ficado lá, perdido na névoa da escuridão e na sensibilidade de suas memórias sentimentais demais. No entanto, ela não parecia ter finalizado aquele assunto.

- Não entendo… Aonde quer chegar.

Se voltou a ela por tempo suficiente para vê-la suspirar e se mover na banheira, lentamente, a água produzindo um ruído suave enquanto cortava o cômodo pequeno, até que Wanda se ajeitou às suas costas e passou o braço por seus ombros antes de apoiar o rosto junto ao seu, hesitantemente, como que testando como ele reagiria a cada toque.

Exceto que não reagiria. Nada o havia preparado para aquele passo, considerou imerso no perfume dos sais que emanava dela e na textura macia da bochecha contra a sua, ainda que o contraste entre a pele quente dela e a sua parecesse construir um rastro ansioso quando Wanda voltou a falar.

- Eu pude sentir suas emoções, dessa forma, porque estou… o tempo todo, concentrada em você. — Wanda murmurou e Bucky levou a mão até o pulso quente dela, descansando em seu peito, apenas para que pudesse ter algo para comprovar que aquilo era real enquanto ela apoiava a testa contra a sua têmpora, pouco intimidada pela pessoalidade do gesto, embora a respiração descompassada fosse compatível com a dele. — Você não sai da minha cabeça, Bucky. Já faz algum tempo.

O suspiro dela parecia de alívio, como se tivesse acabado de dizer algo que estivera mantendo para si por algum tempo e, apesar de esperar por uma resposta, simplesmente deixou que ele assimilasse tudo aquilo, sem apressá-lo, embora a presença dela contra si fizesse todos os seus pêlos se arrepiarem por sua sugestão trêmula.

A mera sugestão de contato com Wanda o desestabilizava, mas não esperava por suas palavras, não aquelas, e elas pareciam retumbar nele por inteiro, como que cravando bem no fundo de seu peito. Se voltou à ruiva, ainda sentado no chão ao lado da banheira, quebrando momentaneamente o contato, mas nada disposto a se afastar para examiná-la sem amarras.

Os olhos, sem qualquer resquício de escarlate, o observaram com algum receio até chegarem aos seus, onde teve a certeza de que nada em si seria capaz de rechaçar a ela e às suas palavras, pois Wanda também não saía de sua cabeça e, muito provavelmente, sabia disso.

- As coisas que faz… e isso o que diz… — Levou um dedo a franja comprida, percorrendo-a até a altura do pescoço, afastando os fios ruivos e molhados para as suas costas, ao mesmo tempo fascinado e intimidado pela postura magnética que ela parecia emanar sob aquela luz, tão próxima dele. No entanto, Wanda o encarava com quase ansiedade, concentrada em seu próximo passo. Bucky apreciava que, tanto quanto ele, ela prestava atenção no significado do que dizia, não meramente em suas palavras. — Porque agora?

A observou piscar e se aproximar da borda da banheira, apoiando os braços contra o material de ferro, pouco preocupada com a proximidade de seus rostos e suas respirações juntas. Aparentava emanar um certo brilho em suas íris esverdeadas, algo que não sabia identificar, mas gostaria, pois Wanda parecia muito consciente de suas emoções e gostaria de se inundar nela.

- Ao mesmo tempo em que compreende a mim e aos meus poderes… Você me trata como se fosse uma boneca pronta para quebrar. Uma que não pode lidar com frustrações, decepções… Com um relacionamento. — Ela o olha, como que esperando que a contradiga, mas Bucky não o faz, porque é a mais pura verdade sobre toda a relação que construíram naquele breve pedaço de tempo. Ele jamais daria aquele passo, ainda que seus olhos fossem constantemente atraídos pelos lábios vermelhos e bem desenhados tão próximos. Então, Wanda meneou a cabeça e sorriu levemente, contornando com as costas suaves dos dedos o contorno de seu cabelo curto junto à têmpora. — Porque se preocupa mais com minha sanidade do que com seu coração. E, se eu não fizer… Você nunca irá.

Então, os dedos molhados que meramente cercavam seu rosto com delicadeza se fecharam de forma determinada em seu pescoço, assim como os lábios sobre os seus, em uma decisão que só poderia vir dela. E, diferente da primeira vez, não havia confusão e urgência, era apenas intensidade e profundidade, pois soava, para sua mente e coração correndo a mil por hora, como se tivesse beijado Wanda a vida inteira.

As sensações que o percorriam eram tão distintas e inexplicáveis, que nada parecia suficiente, ao mesmo tempo em que parecia ser o bastante para inundá-lo. Dos lábios formigando pela boca macia dela, da respiração quente junto a sua e a avidez com que a língua buscava a sua, enquanto buscava apoio em seus ombros, mesmo sem muito equilíbrio por conta da banheira escorregadia, a bolha que os envolvia soava como mais do que poderia suportar, comprimindo e relaxando em seu peito a cada vez que garantia um pouco mais de contato, um pouco mais de conhecimento.

Ter Wanda ali, tão suscetível ao toque de seus dedos em sua nuca molhada e de seus dentes nos lábios avermelhados, soava como se tivesse derrubado a barreira invisível que os mantinha distantes e receosos, como se tivesse acabado de conquistar algo de valor imensurável e não conseguisse colocar em palavras tal importância. Foi apenas por isso que, sem dificuldades, rodeou a cintura molhada e a puxou para fora da banheira, quebrando brevemente o beijo em um ofego sôfrego, que se estendeu enquanto ela se ajeitava em seu colo sem se importar com toda a água perfumada do vestido molhado, que encharcou a ele e ao tapete macio em que se encontrava.

Com as costas contra a superfície de ferro da banheira, mal conseguiu tirar os olhos dos dela para observar como se ajeitou de maneira sutil, as feições ansiosas e lascivas ao se sentar de frente para ele enquanto Bucky mantinha as mãos respeitosamente, na medida do possível, estacadas junto à cintura fina sobre o vestido molhado, depositando ali toda a ansiedade daquele momento. Como se houvesse esperado muito por aquilo, mas não estivesse preparado para a realidade de tê-la desejando-o tanto quanto ele a desejava.

- Agora o quê?

Questionou baixo, ainda fascinado pela proximidade inebriante, pelas gotas de água escorrendo pela pele quente e macia, pelo vestido, antes puritano, inteiramente grudado junto ao corpo, marcando todos os lugares certos, pelos olhos mais suaves do que em qualquer outro momento que já os observara, enquanto ela também tomava tempo para analisá-lo de volta, testando suas reações e seu efeito sobre ele.

- Agora… — Ela se aproximou cobrindo o espaço entre eles e meneou a cabeça, fazendo com que seus narizes se roçassem naquela pequena e adorada falta de espaço, que estabeleciam como inteiramente correta. Os cabelos ruivos úmidos ladearam o gesto, em completa combinação com os lábios avermelhados, e Bucky apenas a acolheu contra si, as mãos gradativamente escorrendo para as costas em um caminho abstrato enquanto os dedos dela percorriam os lábios dele de maneira distraída. — Você me leva para a cama.


Notas finais
DÁ PRA ACREDITAR que chegamos nesse ponto da história?? Nem eu acredito, mas estou tão feliz que vocês possam estar lendo, finalmente, esse capítulo! Eu amo esse capítulo, essa cena, essa vibe, e espero que tenha chegado à altura da expectativa de todos sobre esse momento entre eles, com a sensibilidade, a intimidade a sensualidade na mesma medida. Me digam se gostaram e se esperavam esse passo nesse momento da história (quem sabe eu volto mais rápido esse mês)! Até breve! ♥♥