The Hurting. The Healing. The Loving.
40 Capítulo 39
A brisa fria fazia com que as folhas das copas das árvores e dos arbustos balançassem de forma calma. Na escuridão, malmente iluminada pelos dois lampiões dispostos pela bruxa à beira do lago, o silêncio cortado pelo breve piar de uma coruja ao longe soava quase fantasmagórico e opressor, mas estava mais do que acostumado àquilo.
Se lembrava de passar noites e noites em missões nos lugares mais inóspitos possíveis, tão distantes e insalubres, que nem mesmo as almas assombradas por seus passados chegariam perto. Além disso, sua visão e audição eram melhores do que as de um homem comum, então, ainda que seus olhos se concentrassem no ponto mais escuro da floresta, que rodeava a casa da bruxa, Bucky se mantinha tranquilo quanto à segurança do local. Nada parecia à espreita.
A questão era o que Wanda estava se propondo a fazer. Se colocar em uma situação extrema como aquela para forçar um resultado parecia exatamente o tipo de coisa que a H.Y.D.R.A, provavelmente, fazia com ela. A usava, submetendo a testes cientificamente questionáveis, desumanos, então, observava, esperando a reação dela e de seus poderes, para só depois anotar e retomar qualquer que fosse o experimento.
A ruiva não tinha surgido com essa ideia por acaso, tinha proposto à bruxa, porque conhecia a probabilidade de funcionar, o que era assustador para alguém da idade dela e apenas pensar sobre o assunto parecia esmagá-lo por dentro, afinal estava bastante familiarizado com aquele método de tortura específico.
Após a decisão de Wanda, era como se pudesse sentir em seus dedos a textura molhada dos cabelos de suas vítimas, bem como ouvir o ruído ecoante de seus ofegos ao puxar suas cabeças do balde d’água para respirar brevemente, pressionando após uma questão não respondida. Com o tempo, os homens e mulheres deixavam de tentar resistir e aquele nervo específico em seus pescoços amolecia sob sua mão.
Não havia como resistir à força empregada pelo Soldado Inverno naquele gesto, por isso, simplesmente desistiam em poucos minutos. As vítimas da H.Y.D.R.A. não morriam ali, era apenas uma forma, dentre muitas outras, de a organização obter as respostas que precisava, mas algumas chegavam muito perto do afogamento real, lembrou observando a iluminação bruxuleante sobre a água escura do lago.
Encostado junto a uma das árvores que cercavam o lago, observou quando a senhora passou pela porta em passos calmos, observando tudo ao redor como se determinasse se o clima estava bom para seu propósito. Em pleno novembro, Bucky tinha total certeza de que forçar Wanda a se manter embaixo da água gelada do lago não era, exatamente, saudável, mas nada do que dissesse a faria recuar. Por isso, se mantinha ali. Ele não era ninguém para tentar impor suas vontades, ainda que tentasse convencer mais a si mesmo do que a ela com este mantra.
Sem se preocupar com ele, a senhora de curtos cabelos prateados e pele branca extremamente enrugada foi até a beira do lago, onde, aparentemente, lavou as próprias mãos e murmurou um tipo de prece que, ele suspeitava, não tinha nada a ver com qualquer religião que conhecia. Então, se virou para Bucky e o observou de maneira atenta enquanto secava as mãos no próprio vestido verde e longo, os olhos como agulhas sob as luzes amareladas dos lampiões.
— Wanda não precisa que cuide dela, Sr. Barnes. — Ela iniciou de maneira cuidadosa.
— Eu sei. — Concordou, quietamente, ao que ela iniciou a própria reflexão de maneira cuidadosa.
— Isso… Em tese, é bom para alguém como você. — A Bruxa juntou as próprias mãos à frente do corpo, de maneira reflexiva, e Bucky se perguntou porque ela havia começado aquela conversa naquele sentido. — Ela faz seu próprio caminho. Assim como Natalya fazia. Você pode descansar, Sargento.
Em tese, ele estava sempre preocupado com a segurança, o bem-estar e a sanidade dela, sabia, mas a Bruxa não precisava ter detalhes disso.
— Como era a mãe dela? Natalya… — O nome soou estranho em seus lábios, pesado como o sotaque do Soldado Invernal ao pronunciar palavras russas. Estava impressionado demais pela direção dos próprios pensamentos anteriores e palavras de origem russa o deixavam sempre nervoso. — Elas eram parecidas?
Wanda havia mencionado que tinha visto uma foto antiga de Natalya, quando ela e o irmão, Django, eram adolescentes. Mas, pela forma obstinada como a bruxa descrevia a amiga, tinha a impressão de que era mais parecida com a ruiva do que ela gostaria de admitir.
Sabia que ela não queria adentrar a questão de sua própria origem tão cedo e respeitava que deixasse essa caixa, ao menos temporariamente, fechada. Em algum momento, a Maximoff estaria pronta para enfrentar seu próprio passado e Bucky podia apenas aguardar.
— Eu soube que era a filha de Natalya no momento em que a vi na cidade. — A mais velha sorriu, quase nostálgica. — Além do gênio impetuoso, elas são idênticas em aparência. Natalya também era muito convicta das próprias crenças, ainda que, no fim, se provasse errada. Ela tinha a necessidade de experimentar, por si mesma, o resultado de suas escolhas. Fossem bons ou ruins.
— Soa como Wanda. — Concordou, notando o suspiro de anuência da outra.
— Natalya… Quando fugiu, não estava intimidada pelos Servos de Chthon. Ela tinha a convicção de que precisava tirar os filhos daquele lugar e o que aconteceu… Foram consequências sobre as quais estava bastante consciente. Ela era… Como uma força da natureza.
A senhora apertou um pouco mais os dedos à frente do corpo, pensativa, a mente claramente no passado por um breve momento. Mas, não deixou de chamar a atenção que descrevia Natalya exatamente como Bucky poderia descrever a própria ruiva para um estranho. Ela era a mãe de Wanda Maximoff, afinal, gostando ela ou não.
— Porquê você me mandou afastar dela? Naquele primeiro dia. — Cruzou os braços, tentando não soar tão inseguro quanto a ansiedade em seu peito ressoava.
— Não é óbvio? — O tom dela foi quase suave e condescendente, mas ele apenas se manteve em silêncio. — Wanda… Sempre terá muito a enfrentar. A carregar. E você já passou por muito, Sr. Barnes. Ela é um fardo e você merece alguma… Paz em seu caminho.
Bucky sentiu-se encolher. Ele gostaria de alguma paz. Era o que tinha em Wakanda no que parecia muito tempo antes. Naquela época, seu ambiente de refúgio havia sido repentinamente invadido e despedaçado pela presença opressora do Titã e, ainda que soubesse que poderia recorrer ao país africano a qualquer momento, nunca mais retornara para desfrutar da solitude autoimposta, do silêncio tranquilo, da distância da realidade, da natureza calma e amigável. Talvez um dia.
E, ainda, havia Wanda, que não encarava como um fardo. Notara que tinha passado a encará-la quase que como uma missão a ser cumprida, mas não no sentido de ser difícil de lidar. Enigmática, complexa e vulnerável eram palavras que melhor a definiam e de maneira um pouco mais… Gentil, diria.
— Talvez Wanda mereça o mesmo. — A ponta de sua bota brincou abstratamente com a grama já seca pelo frio.
— É por isso que anui a vontade dela sob qualquer hipótese?
Questionou a senhora em tom condescendente, no que Bucky apenas levantou os olhos para olhá-la no mesmo instante em que a porta dos fundos da casa se abriu.
Sprite e Wanda começaram a descer os degraus de maneira calma, observando o ambiente preparado pela bruxa mais velha. A ruiva usava uma roupa bem diferente do que estava acostumada. Era um vestido solto e fluido, de aparência antiga, na cor branca. As alças eram largas, como uma camisola antiga, e o tecido — fino demais para a noite fria — seguia até os pés descalços.
Novamente, era como se, imediatamente, tomasse toda a atenção que tinha, o que fez com que, ansiosamente, escondesse as mãos em punho na jaqueta de couro quando Wanda se encaminhou até ele, estancando à sua frente. Não parecia muito ansiosa nem muito insegura, apenas decidida.
— Então… É isso?
Questionou, sem saber se se referia ao vestido ou ao que se assemelhava muito a um ritual. Wanda apenas meneou a cabeça e meio que deu de ombros, no que levantou os braços e, com os dedos avermelhados, inesperadamente fez com que uma tiara avermelhada surgisse em sua cabeça, logo acima da testa, de onde tirou com facilidade — como se fosse um acessório normal, não algo antigo e impregnado de magia.
— Pode segurar isso para mim?
Ela questionou em tom baixo, os olhos de fundo escarlate o observando de maneira séria e, agora, um pouco ansiosa. Era como… Uma anuência, exatamente como a Bruxa havia acabado de apontar. Uma espécie de aceitação ao que ela era: mulher e Feiticeira Escarlate, ao mesmo tempo. Engoliu em seco, observando o objeto que, mesmo na pouca iluminação, parecia sobrenaturalmente reluzir em vermelho.
— Você tem certeza? — Afinal, soava como uma grande responsabilidade meramente ter contato com aquele objeto.
— Sim.
Ela sorriu de forma pequena e encorajadora, no que Bucky abaixou os olhos novamente e alcançou a tiara com cuidado, incapaz de descrever a sensação de poder e misticismo, que emanava de algo tão pequeno. Podia sentir a energia escarlate fluindo da tiara para seus dedos, o que o deixou inquieto por um momento.
Ainda assim, não parecia ser algo ameaçador, era apenas denso e… Milenar, o que o fez se perguntar como ela lidava com aquilo diariamente. Wanda, por sua vez, apenas observou, correndo os olhos da tiara para seu rosto de forma pensativa, claramente estudando a reação dele, até lhe dar às costas e se encaminhar de maneira altiva até a bruxa, que havia tirado de uma pequena caixa de madeira uma coroa de flores tão brancas quanto o vestido.
— Ajoelhe-se na areia, de frente para o lago. — Disse a Bruxa mais velha, colocando a coroa sobre os fios vermelhos vivos da outra, especialmente sob a iluminação amarelada dos lampiões. — Precisamos, primeiro, purificá-la e pedir a benção das criaturas da natureza.
Observou a mais nova fazer o que foi pedido e se ajoelhar, ajeitando a postura e as mãos sobre o colo, concentrada nas instruções e intenções da Bruxa Branca, que retirou da caixa um frasco com uma substância avermelhada, onde molhou os dedos e usou para desenhar uma espécie de Estrela de David na testa de Wanda.
A ruiva, por sua vez, fechou os olhos e apenas respirou fundo, ouvindo a pequena prece da outra. Notou que Sprite também observava tudo em silêncio, simplesmente esperando, como se todo aquele ritual não fosse nenhuma novidade. Claro que teria visto coisas muito mais esotéricas do aquilo em sua vida milenar, o que fazia com que a apatia latente de suas reações sobre tudo o que os cercava fosse quase irritante.
Assim que a Bruxa pareceu terminar, no entanto, notou a leve mudança no ambiente ao redor, com o ar se tornando mais denso e os fios ruivos acobreados de Wanda se balançando em suas costas de forma mais intensa, assim como as vestes e a iluminação dos lampiões, que pareceu ceder por um momento, antes de o completo silêncio tomar conta.
Wanda abriu os olhos ante a movimentação atípica ao redor, encarando debaixo a mais velha. O fundo escarlate em suas íris soando cada vez mais forte na escuridão, que rodeava o lago, o que claramente fez a bruxa temer por um instante.
— Você está certa disso?
— Vamos fazer isso.
Wanda respirou fundo e piscou, mudando a postura ao se levantar. Notou que ela tentava se distanciar da Feiticeira e, por isso, aquela tiara de hastes pontiagudas estava em sua mão, não na cabeça dela. Talvez, assim, se sentisse mais confiante de que o processo estava sob controle.
Ladeada por Sprite, elas se encaminharam sem pressa até alguns metros à frente da margem do lago, e a ruiva se ajoelhou sem ressalvas, a água fria e escura a cobrindo até a altura do peito. Era uma imagem bonita e destemida, ponderou consigo mesmo ao sentir o peso do olhar dela nele por um segundo antes de encarar a bruxa.
— Irá funcionar da mesma forma como treinamos normalmente. Exceto por conta do lago. Sprite irá mantê-la sob a água enquanto eu tento forçar os limites de sua mente e você faz o uso do feitiço que lhe ensinei. — Explicou a Bruxa Branca, de maneira profissional. — Lembre-se, Wanda, você deve focar em uma barreira forte o bastante para desestabilizar seu inimigo e alcançar seu objetivo, ou seja, esconder este maldito Livro de uma vez por todas.
— Certo, entendi.
Pelo tom trêmulo, imaginou que a água deveria estar congelando até seus ossos. Ainda que convivesse com aquela poderosa e sobrenatural de si mesma, Wanda ainda era apenas humana e logo estaria tremendo de frio.
— Ok, então… No seu tempo, você mergulha e eu te mantenho embaixo d’água. Vou usar alguma força, não leve para o lado pessoal e nem… — De pé ao lado de Wanda, Sprite disse de maneira até que estacou e a ruiva a encarou, esperando.
— Você pode terminar. — A ruiva levantou as sobrancelhas para a garota de aparência jovem, que deu de ombros.
— Bem, nem tente me matar. Isso não seria nada legal e, no meu caso, seria irreversível, então…
— Vou dar o meu melhor. — Prometeu Wanda, com algum humor, no que Sprite se deu por satisfeita.
— Está pronta, Wanda?
Perguntou a bruxa, posicionando suas mãos da forma correta, no que a mais nova fixou os olhos nela de forma feroz antes de respirar fundo e imergir na água escura do lago, com as mãos de Sprite em seus ombros para mantê-la lá quando tentasse voltar em razão da falta de ar.
Sabia que algo estava acontecendo porque a Bruxa parecia intensamente concentrada e chegou a perder alguns passos na disputa contra Wanda, mas, por um momento, nem mesmo a água pareceu fluir pelo lago, tudo ao redor, inclusive o próprio Bucky, prendendo a respiração para o que viria em seguida.
Começou lentamente. Wanda tentou submergir e a jovem de cabelos curtos a forçou sob a água, a mantendo como deveria. Notou que, para Sprite, não parecia grande coisa, o que o fez se perguntar que tipo de coisa já teria feito em todos os seus milênios de existência. Se, como ele, a garota havia empregado aquele tipo de tortura a alguém que, talvez, fosse inocente.
Seus olhos analisaram, então, ansiosamente a forma como os braços de Wanda passaram a se debater sobre a água, encharcando Sprite quase que completamente na tentativa de não ser afogada enquanto tentava não utilizar seus poderes de verdade contra ela, uma vez que sua concentração deveria estar inteiramente em criar a barreira contra as investidas mentais da Bruxa.
Bucky mudou o peso de seu corpo para a perna esquerda e verificou no relógio de pulso que a ruiva já estava submersa há quase dois minutos, o que o deixou ainda mais nervoso. Sua própria mente danificada tentava pregar peças traiçoeiras, como se pudesse sentir a textura dos cabelos de Wanda e fosse ele a mantê-la sob a água, o peso de seu corpo pequeno inutilmente tentando forçar contra o dele, o que jamais aconteceria.
Os braços dela começaram a se tornar mais nervosos em sua busca pelo ar. Sprite encarou a Bruxa, silenciosamente questionando se poderia soltar a outra, mas não houve resposta. Bucky deu um passo à frente, ansioso pelo tempo que Wanda já estava submersa. Seus pulmões já deveriam estar queimando, como os pulmões de suas vítimas queimavam e, logo, ela pararia de tentar submergir.
— Você vai afogá-la. — Disse para a Bruxa ou para Sprite, a qual encarou a mais velha com certo alarme, enquanto ele dava passos largos até a margem do lago, determinado a tirá-la de lá.
— Ela pode aguentar.
Então, tudo aconteceu muito rápido. Assim que as palavras deixaram a boca da Bruxa, Sprite foi abruptamente jogada para longe, no que pareceu ter sido a força da própria água, caindo no meio do lago com um baque molhado, no mesmo instante em que Wanda submergiu de joelhos, com os cabelos molhados e ainda utilizando a coroa de flores, tossindo enquanto se curvava tentando respirar novamente.
Bucky não soube como se aproximou tão rápido, mal sentindo a água realmente gelada do lago encharcar sua bota e calça jeans até a altura das coxas. Lutando para respirar, Wanda estendeu o braço para que a ajudasse a ficar de pé e ele rodeou sua cintura para praticamente arrastá-la até a margem, onde se sentou na areia enlameada, tossindo um pouco mais de água.
— Eu disse… — Sprite começou a andar até a margem do lago, falando alto e dramaticamente. — Para não tentar me matar.
Wanda não pareceu se importar, uma vez que estava tremendo de frio e, mais concentrada em retomar a própria respiração, o que o irritou por um instante.
— Bem, ótima ideia. — Resmungou.
Tirou automaticamente a própria jaqueta e colocou em torno do ombro dela. Ainda que não ajudasse muito, poderia proteger da brisa agora que estava inteiramente molhada e o vestido encharcado se ajustava em todas as partes de seu corpo, o que tentou, verdadeiramente, não olhar.
— Está errado. Funcionou. — Declarou a Bruxa, parecendo um pouco chocada e maravilhada, ao mesmo tempo, enquanto se aproximava segurando a barra do vestido longo e analisava Wanda. — É claro, ela precisa se aperfeiçoar, mas deu certo.
Bucky olhou da senhora para Wanda, em busca de confirmação, mas ela apenas o encarou de volta, ainda digerindo o que acontecera, em seu estado trêmulo e gelado. Sob a iluminação amarelada, seus lábios pareciam mais arroxeados e os dedos apertavam muito firmemente a jaqueta em volta de si enquanto os cabelos molhados grudam em seu pescoço e braços. Precisava tirá-la dali.
— Vamos, você tem que se aquecer.
Recolheu a tiara vermelha, momentaneamente esquecida na areia ao seu lado, e rodeou a cintura novamente, a ajudando a se levantar e praticamente a arrastando até a porta dos fundos da casa enquanto ela se mantinha encolhida junto a ele.
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