The Hurting. The Healing. The Loving.
39 Capítulo 38
— Isso é absurdo.
Bucky declarou de maneira firme recebendo apenas um olhar consternado de Wanda e um menear de cabeça pensativo da outra senhora, enquanto Sprite se mantinha sentada de pernas e braços cruzados, como se assistisse a um programa muito interessante.
— Não, não é… Você sabe disso.
A ruiva retrucou pacientemente, como se já esperasse que ele não fosse abraçar sua ideia no primeiro instante. Mas é claro que não iria, ninguém em sã consciência faria isso. Steve rechaçaria no mesmo instante em nome de um plano melhor.
— Bem, então, me esclareça melhor, porque tudo o que estamos tentando fazer nas últimas semanas é te manter em segurança e agora está tentando jogar isso no lixo. — Pareceu mais exasperado do que deveria, ganhando um levantar de sobrancelhas da garota de cabelos curtos, sentada.
— Não estou fazendo isso. — Wanda disse, numa careta, como se o que ele estivesse argumentando fosse absurdo. Ela era inacreditável. — Eu tenho certeza que nenhum de vocês irá deixar algo acontecer comigo se as coisas fugirem do controle.
— Certo. — Concordou de maneira cética, andando de um lado a outro pela sala por um instante até se apoiar em uma das prateleiras e se voltar à bruxa mais velha. — Diga a ela que isso é absurdo.
— Bem… — Ela pareceu pensar algumas vezes, tentando encontrar as palavras em seu característico trejeito, com as mãos de dedos cumpridos juntas à frente do corpo. — Precisaríamos tomar algumas precauções, é claro, mas…
— Ah, por favor!
Bufou, conseguindo por pouco evitar de revirar os olhos como uma criança. Wanda cruzou os braços e, simplesmente, o encarou, sem demonstrar muita preocupação com sua reação, mas ficou satisfeito por sustentar o desafio no olhar esverdeado até Sprite se fazer presente na conversa.
— Wanda não é uma pessoa que seria facilmente submetida pela magia de alguém… Ou mesmo pela força. — Ela o olhou detidamente.
— O que está sugerindo é um método de tortura conhecido e, inlusive, usado pela H.Y.D.R.A…
— Eu sei. — Disse em tom mais baixo. — Mas… preciso me colocar sob uma situação, onde o único foco será o feitiço que preciso aprimorar. Tenho que esconder o Darkhold de maneira definitiva ou eles continuarão me perseguindo para ressuscitar Chthon.
Enquanto consultava o Livro, Wanda teve a ideia de se colocar sobre uma situação extrema, onde teria que pensar por si mesma em todos os ensinamentos da Bruxa sobre o feitiço de proteção. Ela se sentia muito atrasada no estudo e execução daquele em específico, como se uma trava a tivesse prendendo no lugar para manter tal questão em aberto. Uma trava quase mística e sobrenatural, segundo ela.
A questão, especialmente para ele, é que sua solução era se colocar sob uma espécie de tortura no lago, onde a Bruxa, ao mesmo tempo, a manteria embaixo d’água e tentaria formas de invadir sua mente, de forma que deveria se concentrar meramente no levantamento da defesa para tentar acelerar o desenvolvimento de suas habilidades sob tal pressão.
Conhecia os poderes da ruiva e sabia muito bem que, se ela quisesse, nenhum deles poderia realmente colocá-la em perigo, mas se lembrava pessoalmente da forma como empenhava aquele tipo de tortura a serviço da H.Y.D.R.A., sob o manto do Soldado Invernal, e não apenas contra inimigos. Tinha quase certeza que a própria Wanda poderia ter sido vítima daquele tipo de método, por isso, o fato de a ideia surgir dela era… Perturbadora para ele, no mínimo.
— Eles podem sentir a energia pesada da magia que emerge do Livro. — Explicou a bruxa quietamente. — É assim que os seguidores de Chthon sabem que o Darkhold está na posse de Wanda.
Para ele, como alguém que inevitavelmente só podia olhar de fora, era como se sempre estivessem à mercê das pessoas do Culto a Chthon. Como se, mesmo que Wanda e seus poderes fossem incríveis demais para que pudesse acreditar, esse algo sobrenatural fosse mais poderoso e perigoso do que a força dela porque, às vezes, se mostrava tão… Humana e sensível.
No entanto, tinha de admitir que seu julgamento pudesse estar levemente prejudicado por seus sentimentos, tão mundanos, que a possibilidade de algo machucá-la parecia quase capaz de sufocá-lo. Especialmente por se tratar de algo relacionado a H.Y.D.R.A. e ao passado dele, pois tinha a noção do quão nocivo era. Um descuido e Wanda poderia, de fato, ser afogada.
— Bucky, nada vai acontecer. — Ela se aproximou e alcançou seu braço, com firmeza. — Sprite está certa. Não há magia ou força física que possa… Me machucar de verdade. Não como está pensando.
Fixou seus olhos nos orbes esverdeados, alguns centímetros abaixo de seu rosto, absorvendo a seriedade do que ela dissera, como se fosse uma promessa. Querer acreditar nela não apagava o próprio passado, as pessoas que havia torturado daquela mesma maneira, nem tornava aquilo mais fácil.
Ainda, mesmo que a ideia tivesse partido dela, conhecendo a si mesma, as possibilidades de seus poderes e um objetivo muito plausível, Wanda era inconsequente e constantemente nublada pelas próprias verdades e necessidades. Por isso, parecia tão absurdo que Sprite e a Bruxa estivessem tão tranquilas a respeito.
— Podemos fazer nessa noite, antes que a água do lago fique mais fria. — Sugeriu a Bruxa tentando quebrar o silêncio pesado instalado entre eles enquanto se olhavam. — A essa altura, Wanda conhece todos os meandros do Feitiço, não será necessário qualquer tipo de preparação específica. Mas será bom fazermos respeitando algumas regras místicas… Preciso encontrar algumas coisas, incluindo sua roupa.
— Roupa? — Wanda se voltou à mulher, que estacou antes de começar a subir as escadas, parecendo repentinamente animada por poder fazer algo tão… Desafiador, misticamente falando.
— Sim. — Respondeu a senhora, como se fosse óbvio. — Iremos voltar ao básico sobre rituais. Estaremos utilizando elementos da natureza, então devemos mostrar algum… Respeito. Você não acha que vai fazer isso de jeans e camiseta, não é?
Sprite arregalou os olhos levemente para ambos e seguiu a Bruxa escada acima antes que a ruiva pudesse processar toda aquela informação, a julgar por seus olhos estreitos. Porém, logo a ruiva se voltou a Bucky, meneando a cabeça, provavelmente imaginando por onde poderia começar. Por fim, ela suspirou e o puxou pelo braço, que ainda segurava, até a escada, onde o fez se sentar ao seu lado no segundo degrau.
— Ouça… Eu entendo, que isso pode trazer memórias indesejadas à superfície. — Ela começou cuidadosamente, mas de maneira corajosa. Sempre admirava quando ela conseguia ser tão certeira sobre seus objetivos, uma vez que lutava tanto pela estabilidade. — Coisas do passado com as quais não gostaria de lidar… E nem deveria…
— Não é só sobre isso…
— Eu sei. — Ela sorriu brevemente e, tão ombro a ombro como estavam, não precisou de muito para alcançar sua mão direita, os dedos firmes entrelaçando-se aos seus sem dificuldade por um segundo que pareceu muito longo enquanto ambos admiravam o contato. — Acredite, eu sei. Mas você tem que confiar em mim… Só por um momento. Sei o que estou fazendo.
A escada era estreita o bastante para que pudessem conversar sem que aquele tom que soava tão íntimo ecoasse por todo o lugar. Além disso, mesmo que ela estivesse ao seu lado, não conseguia parar de encarar o perfil bem desenhado ladeado pelos longos e lisos cabelos ruivos. Há muito tempo, se deu conta, não conseguia tirar os olhos de Wanda Maximoff.
— Isso não… É justo. — Disse, resignado, talvez mais para si mesmo.
— Sei que odeia toda a situação, mas… Gostaria que estivesse presente. — Ela murmurou, quase que se encolhendo contra si mesma, como se estivesse admitindo algo; ao menos, a si mesma; até que respirou fundo e levantou o rosto para o dele, de maneira mais determinada. — Preciso que esteja lá, Bucky. Preciso de alguém para manter meus pés no chão.
— Essas coisas que diz… — Levou as mãos ao próprio rosto, apertando os olhos. Aquela situação era contra tudo o que acreditava, mas, ainda assim, do outro lado, era Wanda quem estava pedindo. Voltou a encará-la, notando, não pela primeira vez, quão próximos se encontravam e como o tom que mantinham era baixo e particular ao voltar a falar, elaborando lentamente. — Não é justo quando… Sabe que tenho este… Impulso de estar disponível para você o tempo todo.
Por um instante, Wanda apenas o encarou com os olhos brilhantes sob a iluminação amarelada etérea da sala de estar da Bruxa, provavelmente assimilando o que acabara de dizer, algum nervosismo presente em sua postura hesitante. Para ele, não havia intenção em dizer isso ou aquilo, era apenas onde a realidade de estar ali, por todos aqueles dias, o levara.
No fim das contas, embora, conscientemente, soubesse que deveria evitar aquele caminho — tentador, mas perigoso -, não conseguia evitar sentir o que sentia, ainda que em um nível não exatamente romântico. Ainda assim, sabia que aquilo tudo era sentimental demais para a relação recentemente amigável que possuíam, por mais profunda que aparentasse ser.
Porém, o segundo não durou muito, pois, logo, Wanda suspirou e levou a mão invariavelmente mística à sua têmpora, rodeando seu rosto de forma suave por um momento, que soou suspensivamente longo naquele breve espaço — de tempo e de lugar, de fato — até os dedos alcançarem o centro de suas sobrancelhas.
— Você pode desfazer isso aqui. — A ruiva se referiu àquela ruga tensa de preocupação, que dificilmente o deixava quando se tratava dela, ainda que isso parecesse ser inacreditável para alguém que não conhecia tão bem até alguns dias atrás. Bucky apenas a olhou, guiado pelo timbre suave e pelas mãos esotéricas. — Nada de ruim vai acontecer comigo. Não por causa disso.
Wanda assegurou, no que ele levantou as sobrancelhas ante o pequeno sorriso dela, tão próxima que o perfume suave de seus longos fios ruivos, soltos sobre os ombros, embalava a ambos de maneira inevitável e hipnotizante.
— Quão animador isso pode ser, não é?
Retrucou ironicamente, no que ela sorriu de verdade e afastou os dedos de seu rosto, percorrendo-o com os olhos por um momento, de forma quase séria e reflexiva, antes de se colocar de pé e contorná-lo para começar a subir as escadas em direção ao segundo andar, onde Sprite e a Bruxa se encontravam.
— Vou checar o que elas estão preparando.
Wanda não esperava resposta e Bucky estava concentrado demais em seu coração descompassado para pensar em uma; considerou levando uma das mãos ao peito para tentar controlar a própria respiração enquanto os olhos corriam a sala, sem realmente enxergar o ambiente.
Naquele momento, era como se toda a conveniente narrativa que criara na manhã anterior, sobre não poderem ser próximos naquele sentido inominável, pesasse uma tonelada ante a presença esmagadora e persuasiva de Wanda Maximoff. Ainda assim, pelo bem deles e, principalmente, de seu próprio coração, ele deveria resistir.
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