The Hurting. The Healing. The Loving.
38 Capítulo 37
Quando saiu do banheiro, ainda utilizando a toalha para enxugar os cabelos úmidos, encontrou Wanda no quarto, ainda trajada como Feiticeira Escarlate. Apesar de tudo, agora parecia apenas uma roupa que a complementava, não um traje sobrenatural, especialmente por conta da postura encolhida e da falta de energia vermelha preenchendo o ambiente.
Encostada ao lado da janela, a ruiva tinha o ombro contra a parede de madeira e os olhos lá fora, distraídos, enquanto uma das mãos brincava com o outro braço estendido. Sob a luminosidade do dia insistentemente nublado, ela parecia como algo quente e quase irresistível, o que o fez se aproximar, como sempre acontecia quando se tratava de Wanda.
Revirou os olhos para si mesmo e deixou a toalha de banho sobre o encosto no sofá, mesmo sabendo que ela detestava vê-la ali.
— Ei, está tudo bem aí? — Perguntou de maneira lenta, chamando a atenção dela, que se voltou a ele por um momento, pesando as palavras para confirmar, o que o fez estranhar.
— Eu só estava… Pensando.
Wanda voltou a encarar a paisagem lá fora e Bucky suspirou, se aproximando. Ele nunca conseguia manter a distância necessária dela para fazer com que seus pensamentos fossem claros. As feições, mesmo que estivessem rodeadas pelos cabelos mais avermelhados do que nunca e aquela tiara, que parecia torná-la mais poderosa do que se percebia antes, aparentavam alguma confusão e insegurança.
Apoiou o ombro contra a parede, do lado oposto do dela à janela, como tinham feito na primeira noite ali. Por mais bobo que fosse, àquela altura parecia algo deles.
— Vai me contar sobre o quê?
Questionou após encarar o perfil quase distante, notando que ela não diria nada sem um estímulo. Tinha sido assim desde o começo: Wanda estava sempre demandando que a decifrasse e ele passara a fazer isso de bom grado, tão envolvido se via a cada troca de palavras, a cada revelação permitida por ela. A viu suspirar e cruzar os braços, ganhando tempo.
— Desde que… Aquela mulher disse todas aquelas coisas… Sobre Chthon ser meu… — A ruiva ainda hesitou, revirando os próprios olhos por um instante, parecendo odiar o som da palavra ‘pai’ relacionada àquela entidade. — Sinto que me olha como se… Procurasse algo errado.
Bucky estacou, de fato, surpreso pelo rumo que ela tomara. Estava sempre a analisando, tentando lê-la, imaginando qual seria seu próximo passo, mas jamais pensara que ela se sentiria daquele jeito e não conseguia apontar se algo realmente mudara desde que a mulher de longos cabelos pretos os abordou na manhã do outro dia. A questão é que era sempre assim porque se tratava… Dela.
— Wanda…
— É como se estivesse, constantemente, procurando algum sinal de que… Tem algo de errado comigo ou que estou diferente…
Ela explicou como se estivesse, finalmente, respirando após passar por um campo minado, o peso deixando seus ombros no mesmo instante, embora a postura insegura continuasse nela inteira e insistisse em continuar desviando o olhar do dele.
— Você é diferente. E isso não é uma coisa ruim.
Wanda o fitou de maneira agoniada, os olhos manifestando o mesmo amargor que fazia os lábios curvarem em um sorriso amarelo, chegando às próprias conclusões ao menear a cabeça em negação e voltar a encarar a janela, agora de forma mais determinada e contrariada. Se não podia decifrá-la, ao menos aquele tipo de emoção podia enxergar com clareza.
— Bem… Todos disseram que era. Que deveria me esconder, conter meus poderes para não assustar as pessoas, que elas não seriam capazes de compreendê-los. Mesmo Visão. — Bucky identificou a mágoa no fundo daquela fala e gostaria de esconder as mãos nos próprios bolsos para conter a vontade de segurar os dedos dela entre os seus para evitar aquele tique ansioso rotineiro. — Às vezes, sinto que eles não estão errados. Sou como uma bomba atômica, prestes a explodir e levar todo mundo comigo.
— Está errada.
Ela voltou a encará-lo ceticamente por um instante e cruzou os braços de maneira tensa, fazendo menção de se afastar da janela, claramente detestando a necessidade de se colocar ali da maneira vulnerável como parecia estar se sentindo.
Por mais que soubesse sobre Wanda Maximoff apenas o que ela permitia, sabia que aquela última informação sobre sua verdadeira origem a havia colocado em pedaços e apenas por isso a questão sobre ele importava. Ou, importava ao menos um pouco. Se perguntava se a ruiva se abriria naquele nível em um cenário normal, mas tudo o que vinha acontecendo… Era como se a intenção fosse mesmo testar os limites mentais dela, ver até onde aguentaria sem ceder. E aquela era Wanda cedendo na medida do que conseguia.
— Esqueça o que eu disse.
— Não.
Segurou os ombros dela sobre o uniforme vermelho de tecido grosso e impediu que ela se afastasse, pois sabia que não lhe daria a chance de voltar àquele tópico tão cedo. Havia aprendido, ao menos um pouco, quando pressioná-la e quando recuar e este não era o momento de dar um passo atrás. Fora um longo caminho até Wanda se ver confortável em sua presença e, agora, tinha de lidar com a consequência da expectativa dela.
Não sabia se, em algum momento, a olhara procurando algo de errado, mas certamente esperava uma reação ante a nova informação sobre Chthon. Não era sobre ela em si, mas o histórico de repreensão que a ruiva tinha na conta parecia pesar sua bagagem em momentos cruciais como aquele.
Seus olhos se desviaram dos orbes esverdeados, negando a espera ansiosa por uma resposta concreta que a deixasse confortável e seus dedos brincaram com os fios ruivos, ondulados, para formar a imagem completa da Feiticeira Escarlate. Raramente estava sem luvas, mas tinha acabado de sair do banho, de maneira que podia sentir a textura macia dos cabelos dela contra sua pele — da mesma maneira que naquela tarde no corredor do hostel enquanto a beijava. Parecia tão fascinante quanto tudo que rodeava Wanda Maximoff.
Ela soltou a respiração tensa e piscou, tentando encontrar alguma normalidade naquilo, embora não fosse nada comum que seus dedos continuassem subindo, ajeitando pacientemente a mecha ao redor do rosto, sem ousar tocar na tiara que parecia… Impressionante e intimidadora, mesmo que não pudesse sentir, de fato, a energia influente da Feiticeira Escarlate no momento.
— Você é como… Uma boneca perfeita… E perigosa. — Wanda somente o encarou, evitando se manifestar, ainda que o brilho em seus olhos tivesse sido bastante distante do escarlate. Seus dedos ousaram contornar a mandíbula muito levemente e, por um momento, viu que ela até buscou por um contato maior, inclinando levemente a cabeça na direção de sua mão. — Conheço o potencial de seus poderes, o que é capaz de fazer, e só posso imaginar o que ainda não vi com meus próprios olhos… Não estou te subestimando. Isso só prova que é diferente, não que é propositalmente destrutiva.
Wanda suspirou e abaixou o rosto, pouco preocupada com o contato, mais imersa do que qualquer outra coisa nos próprios questionamentos e dúvidas sobre si mesma e seus poderes, além de suas palavras.
Apesar de Bucky esperar uma resposta para determinadas coisas, sabia que a questão dela não era exatamente com ele e o fato de parecer procurar uma reação nela, afinal ela deveria ter uma. De qualquer forma, aquilo não era o que gostaria de ouvir quando decidiu confrontá-lo. E, ao menos disso, tinha certeza, pois, no fim das contas, Wanda era uma mulher. E ele costumava entendê-las.
— E…?
Ela soou cansada quando esperou por mais. Detestava a posição em que se colocara, mas Bucky estava feliz que ela parecesse se importar o suficiente para tanto. Evitou um pequeno sorriso satisfeito e voltou a encaixar a mão na curva do pescoço macio com o rosto bem desenhado para fazer com que levantasse os olhos para ele. Desde o início, era assim que estava acostumado a falar com Wanda — calma e uma tentativa de compreensão, por um momento, como sinônimos.
— Eu vi coisas suficientes em todos esses cento e poucos anos, das quais deveria ter medo. E… — Seu tom foi baixo e mais persuasivo do que estava habituado, mas foi o bastante para sentir, através de seus dedos próximos à garganta dela, como engoliu em seco. — Você não é uma delas, Wanda. Eu apenas me preocupo pelo o que parece… estar destinada a ser. Pela sua segurança.
E, neste instante, ao mesmo tempo que o alívio pareceu tomá-la, uma sombra recaiu sobre suas feições e o semblante se tornou mais cansado. Sem descruzar os braços ou se afastar, Wanda se aproximou e deitou a cabeça na curva de seu ombro em meio a um suspiro rendido, enfim conformada pela resposta que sabia ser sincera.
Embora, na maioria das vezes, se sentisse completamente invadido pela possibilidade de ter sua mente totalmente dissecada por ela, também apreciava que as coisas entre eles fossem tão abertas. Não havia espaço para jogos nem muitas amarras. Eram apenas suas verdades contra eles mesmos, o que podia ser duro, por um lado, mas, olhando de outro ângulo… Quase terno.
Sua mão apenas acompanhou o movimento e deslizou do pescoço para a nuca quente, aparando-a em um abraço ao rodeá-la também pela cintura e apoiar seu rosto contra os cabelos ruivos.
— Eu estava utilizando a projeção astral para ter acesso ao Darkhold de forma mais segura. — Ela disse em tom baixo e perdido contra ele. — Estava procurando respostas sobre este retorno de Chthon, algo sobre um ritual ou algo do tipo, mas… Ainda não consigo manusear o livro como deveria.
— Encontrou alguma coisa, no fim das contas? — Ela se afastou e, de repente, sustentava um brilho mais determinado no olhar de fundo escarlate, o que o deixou fascinado por uns três segundos inteiros.
— Não, mas tive uma ideia.
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