The Hurting. The Healing. The Loving.
37 Capítulo 36
Wanda não havia dormido exatamente bem naquela noite. Deitado no tapete no quarto sobre as almofadas do sofá, após a Bruxa insistir que eles deveriam deixar o hostel onde se hospedaram porque estariam mais seguros em sua casa, Bucky notou que ela não havia pregado os olhos quando a ouviu se revirar contra si mesma ao menos sete vezes, suspirando pesadamente.
Contudo, escolheu não quebrar o silêncio instalado no quarto de forma voluntária. Wanda também precisava se entender consigo mesma, formar uma opinião sobre tudo o que havia ouvido, sozinha. Ele não podia — e não deveria — ser a voz na cabeça dela, pois ela era uma mulher adulta perfeitamente capaz de cuidar de si mesma.
Bucky já havia se acostumado ao fato de que ele não estava ali para mantê-la segura dos inimigos lá fora. Pela primeira vez, sua missão não tinha nada a ver com super habilidades. Embora soubesse que o culto a Chthon e seus seguidores representavam um risco a Wanda, aprendia cada dia a mais vivendo aquela realidade esotérica que nunca imaginara e sabia que não tinha nenhum requisito para lutar contra qualquer um que a ameaçasse.
Por isso, acordou com facilidade durante a madrugada e, consciente de que, na cama, ela estava praticamente no mesmo estado, mas provavelmente tensa e perdida nas próprias emoções, apenas acompanhou o dia clarear lentamente e o quarto ser iluminado pela pouca luz da manhã nublada, até se levantar e ajeitar novamente as almofadas duras.
Fez sua higiene matinal e colocou um moletom para correr. Fazia algumas semanas que não tentava se desligar da própria mente a partir da exaustão física, então a ideia soava atrativa. Muita coisa havia acontecido naquele curto espaço de tempo e não vinha conseguindo digerir — ou separar — tudo. Especialmente aquele beijo.
Apertou os lábios de forma contrariada e ainda deu uma última olhada na ruiva encolhida sob os cobertores na cama antes de deixar o quarto de forma sorrateira, fechando a porta com discrição, e descer para o térreo. Surpreendentemente, a Bruxa e Sprite já se encontravam de pé, preparando um café da manhã simples na cozinha.
— Bom dia, sargento.
Sprite cumprimentou de forma mais animada, como se o dia anterior e todas as coisas que descobriram não pesassem tanto sobre eles. A analisou aceitando a xícara de café preto que a senhora oferecia. Bem, para uma criatura secular aquele, talvez, fosse um conflito sem grandes repercussões no curso de sua existência.
— Como Wanda dormiu?
— Não sei se ela pregou os olhos essa noite.
— Não devemos pressioná-la. — Refletiu a bruxa, meneando a cabeça enquanto ponderava. — Tudo o que ela descobriu… É como se mudasse sua essência. Eu a compreendo o bastante para saber que é assim que se sente, como se suas bases estivessem em constante mudança.
Concordou, sem querer passar a discutir justamente com ela as questões sobre Wanda, pois gostava de ouvir as reflexões da própria ruiva, sob seu ponto de vista.
— Vou sair para correr.
Avisou, já se dirigindo à porta da cozinha. O clima estava frio e o sol relutava em aparecer, mas a temperatura era o menor de seus problemas. Alcançou o celular no bolso só para checar antes de ficar sem sinal ao seguir pela trilha que, se funcionasse como achava, rodeava a pequena cidade.
Sam havia confirmado que chegaria a Praga nos próximos dias, o que o fez retorcer os lábios de maneira contrariada. Ainda não sabia se a decisão mais correta e madura era fugir, mas precisava que fosse assim. Pelo bem de sua sanidade. Não podia, de fato, auxiliar Wanda em qualquer coisa relacionada ao seu problema com os seguidores de Chthon, não queria também atrapalhar como havia feito quando fora esfaqueado com a adaga envenenada, nem se deixar envolver mais. No fim das contas, tinha que ser maduro o bastante para admitir que aquela decisão era um tanto covarde.
Bucky não se lembrava de ter sido daquela forma com qualquer outra mulher em sua vida. Mesmo depois do Soldado Invernal, os flashes que tinha eram de um homem confiante, alguém que sabia manter o controle da situação e conduzir a coisa toda. Mas Wanda era… Diferente de tudo o que já conhecera. Literal e figurativamente. Em poucas semanas, ela o fizera sentir coisas que imaginava estarem inalcançáveis para ele, além de outras mil coisas novas.
Não fez questão de voltar muito cedo. A corrida foi tranquila e a brisa estava fria, apesar do sol preguiçoso que se fizera presente por alguns minutos. Ao voltar, notou que a casa da bruxa continuava em seu ritmo lento. Sprite avisou que Wanda havia tomado café da manhã e voltado para o quarto, o que ele estranhou, seguindo diretamente para o segundo andar.
Ainda hesitou por um segundo, mas não bateu na porta. Simplesmente fechou os dedos sobre a fechadura e abriu abruptamente, estacando no momento em que seus olhos captaram tudo o que acontecia no pequeno quarto de hóspedes que eles ocupavam. Estava impregnado por magia, aquela energia forte e pesada ocupando todo o cômodo, como se fosse parte dele naturalmente.
Apesar de se tratar de algo opressor, se estendia a partir de Wanda por todo o cômodo ao redor como uma ramificação natural. Ela estava bem no centro, flutuando de pernas cruzadas apenas alguns centímetros acima dos cobertores, as pernas cruzadas como em uma pose de meditação e as mãos estendidas para cima, simulando uma oração. Era… Ao mesmo tempo, natural e antinatural convergindo em uma só imagem.
Os cabelos flutuavam ao seu redor, assim como certa energia escarlate mais forte em torno dos fios, das mãos e do Livro dos Condenados, que também flutuava à sua frente. Porém, o que mais o chamou atenção era a espécie de tiara, também em um tom de vermelho escuro, que usava na testa, em continuidade aos cabelos da mesma cor. Engoliu em seco, temeroso e incerto sobre o que fazer, se poderia se mover ou meramente dizer algo.
Sua hesitação, então, foi findada pela própria Maximoff, que abriu os olhos de orbes totalmente escarlates e os fincou diretamente nos dele. Um movimento da mão mística fez com que a porta, que ainda segurava distraidamente pela maçaneta, fosse batida secamente e Wanda piscou, deixando a magia escarlate desvanecer de forma tão abrupta que ela e o Darkhold caíram em um baque amortecido no colchão.
Bucky levantou as sobrancelhas, observando-a respirar fundo, parecendo cansada pelo esforço escarlate e fazendo com que o livro desaparecesse sem qualquer truque aos olhos de ambos.
— Me desculpe. — Ela balbuciou de maneira rouca e com sotaque pesado, o que o fez se mover, procurando nela todo o resquício da magia escarlate que estivera ali no segundo anterior.
— Er… Eu devia… — Brincou com os próprios dedos e chegou a encarar a porta de madeira às suas costas com um certo ar de confusão. — Eu devia ter batido.
— É só… — Wanda levou uma das mãos enluvadas ao próprio pescoço e só então ele notou que, mesmo na falta da magia, ainda usava aquela roupa diferente. — Eu não fazia isso há algum tempo…
Ele inclinou a cabeça, indicando que estava ouvindo e Wanda se levantou para buscar um copo d’água que tinha sido deixado sobre a bancada modesta. Bucky apenas acompanhou, observando como aquele traje parecia realmente fazer parte de quem ela era, de sua identidade, fundindo mulher e Feiticeira Escarlate. O vestido de um vermelho escuro e material grosso, com detalhes entalhados, se moldando ao corpo de forma a não deixar que a feminilidade sobre a calça justa se perdesse, fazendo um conjunto perfeito com a tiara na cabeça.
Apesar de parecer ser o bastante para unir suas personalidades, no entanto, se perguntou por um instante se, naquele momento, com os olhos esverdeados tingidos por aquele fundo escarlate que não poderia ser apenas fruto de sua imaginação, ela era mais Wanda ou mais Bruxa. Não sabia distinguir.
— Gosto do… Novo uniforme. — Wanda encarou a si mesma por um instante de silêncio e voltou a olhá-lo de forma inexpressiva enquanto segurava o copo, no que Bucky fez um sinal na direção da porta do banheiro. — Tenho que tomar banho.
A ruiva ainda abriu a boca para dizer algo, mas ele bateu a porta atrás de si em um baque alto e precisou de um minuto para respirar de verdade. A primeira vez que a vira utilizando a projeção astral fora um choque — para ambos. Agora, mesmo que não deixasse de ser chocante, soava também… Excitante, impactante de um jeito que chegava a ser desconcertante.
Encarou o próprio reflexo no espelho, notando através dos olhos claros o quanto parecia perturbado pela própria reação. Impaciente consigo mesmo, abriu o registro de ferro da pia e não se importou com a água gelada quando tocou seu rosto e sua nuca, precisava do choque que não parecia ter o efeito necessário por conta de sua resistência.
Voltou a examinar o rosto molhado e corado, pela corrida de vinte quilômetros ou por seus pensamentos, não saberia dizer, e decidiu seguir para o banho. Só sairia de lá depois de se certificar que o próprio coração estaria tranquilo o bastante para manter um diálogo como uma pessoa normal.
Fale com o autor