The Hurting. The Healing. The Loving.
33 Capítulo 32
A chuva caía torrencialmente lá fora. Havia continuado por toda a tarde, fazendo as pessoas se recolherem em suas respectivas tarefas e tingindo de cinza o céu, em nuvens tão pesadas, que aquele clima parecia interminável.
De certa forma, o tempo revolto combinava em muito com a forma confusa como estava se sentindo. Pela primeira vez em bastante tempo, suas dúvidas não estavam relacionadas ao Soldado Invernal, mas a uma mulher. E não qualquer mulher, mas a mais complicada de todas.
Em seu tempo, havia uma crença popular de que as mulheres eram um mistério e de que suas palavras, que diziam muito mais do que aparentavam, não podiam ser desvendadas. Quando era jovem, no Brooklyn, e não tinha muito o que fazer para além de se engraçar com todas as garotas do bairro, Bucky acreditava que isso fazia sentido por conta dos joguinhos inofensivos que jogavam.
Wanda, por outro lado, estava envolta em uma camada de mistério que parecia pertencê-la por natureza e vice-versa. O mistério estava intrínseco à sua personalidade e não fazia parte de um joguinho de conveniências entre dois lados interessados. Afinal, partindo da linha mais óbvia de todo o quadro escarlate que pintava ao redor de ambos, ela não tinha interesse em Bucky… Certo?
Ele sempre se gabara, inclusive para Steve, que compreendia as garotas. Mesmo depois de tanto tempo, depois de recuperar parte do controle de sua mente, em algumas poucas aventuras que tivera, embora preferisse a solidão, percebeu que isso, ao menos, não havia mudado tanto. Apesar de mais prático — e talvez isso fosse apenas por conta da idade e do fato de não querer falar sobre seu passado -, continuava com o mesmo tato, o mesmo instinto para dizer o que gostariam de ouvir e chegar onde ele desejava.
Mas, aparentemente, não em relação à Wanda Maximoff. Tudo sobre ela o intrigava, então, de repente, tudo sobre ela passara a fasciná-lo, ainda que sentisse compreendê-la apenas na superfície, em relação ao que deixava que compreendesse. Em algum nível, tinha certeza que ela sabia disso e, assim, sempre fizera questão de manter alguma distância entre eles.
Wanda era apaixonada por Visão, ainda que ele não estivesse ali com ela; fizera o que fizera na S.W.O.R.D e em Westview, não apenas por conta de seus filhos, mas por causa do sintozóide e do sentimento que haviam compartilhado, mesmo que por um breve momento. Ela queria tudo o que tinha direito com Visão e, ainda que não falasse sobre ele, certamente tinha consideração pelo compromisso que fizeram.
Além disso, apesar de Bucky não compreender exatamente como eles poderiam funcionar, o robô a compreendia, de verdade, e sem muitas palavras. Certamente, não estaria dentro daquele quarto trancado, pela décima vez percorrendo o mesmo caminho de um lado a outro pelo piso de tacos, pensando o que poderia significar ouvir dela que a distraía.
Revirou os olhos para si mesmo, tentando compreender todo o desenrolar daquela última discussão e, apesar de imaginar todos os cenários possíveis, não chegou a nenhuma conclusão. Mesmo com a tensão e hesitação de antes entre eles, era a primeira vez que algo parecia, de fato, fora de lugar. Como se o que ela dissera mudasse tudo, mas também nada a julgar pelo fato de estar ali, estacado em suposições, exatamente como antes.
E isso já estava ficando ridículo. Bufando, alcançou a jaqueta de couro jogada sobre uma cadeira e as luvas, de sempre, saindo para o corredor. Ao voltar para o hotel, depois de um tempo estacado no carro, onde ela o deixara, notou que Wanda não subira para o quarto, decidindo ficar no pequeno bar que o estabelecimento mantinha para hóspedes e não hóspedes.
Ela estava distraída com os próprios pensamentos e a chuva, que estoicamente escorria pela janela ao seu lado, iluminada pelo abajur verde disposto na mesa à sua frente. Os olhos cobertos pelo tradicional boné estavam mais ocupados nos pingos que corriam abstratos no vidro, do lado de fora e em suas mãos, uma taça de vinho quase estocada. Mesmo que fosse um bar, era um ambiente mais calmo do que os demais de Tanier e parecia combinar com a quietude inerente à alma dela.
Naquele momento, não parou nem hesitou, pois não queria de fato conversar com ela e respeitar o espaço que a ruiva, não muito tacitamente, pedira. Tinha de admitir que passavam bastante tempo juntos, então, era natural que precisassem colocar as cabeças no lugar sem a interferência um do outro.
Porém, também tinha em mente que eram duas pessoas adultas e, especialmente ele, não podia deixar aquilo que ela dissera escorrer para o vasto terreno de coisas não-ditas entre eles. O que ela dissera não estava implícito em nada do que haviam sido até então e tinha chegado, aparentemente, de forma abrupta demais.
No momento, a figura próxima à janela mais afastada do pequeno bar não mudara muito. A diferença eram os cabelos ruivos em uma bagunça meio molhada e meio seca enquanto o boné havia sido esquecido a um lado do tampo de madeira. As duas mãos dela rodeavam a taça de maneira bastante cerimoniosa e curiosa e os olhos já não estavam mais presos na janela e sim um pouco qualquer do banco vazio à frente.
Além disso, uma garrafa de vinho fora deixada à mesa, provavelmente para evitar que tivesse de chamar o garçom a todo o momento a julgar pelo tempo que Wanda estava ali. Apesar de tudo, não se preocupou muito. Ela estava ali, segura e a seu alcance, afinal de contas, e um pouco de vinho não fazia mal a ninguém.
Se aproximou também sem cerimônias, a insegurança diluída em toda a sua postura confiante ao se sentar no banco embutido à parede logo à frente dela, em silêncio. Wanda levantou os olhos sem surpresa, mais lentamente do que o normal, e Bucky pôde notar o brilho avermelhado e injetado ao seu redor. Ela estava acostumada a chás, não vinhos, mas a escolha até que fazia sentido, se fosse pensar. Girou a garrafa de maneira curiosamente desinteressada, passando os olhos pelo nome.
— Quantas dessas já tomou? — Ainda que estivesse mais lenta, a postura que ela mantinha era exemplar, como que para dizer a si mesma que seu corpo não amolecia mais a cada minuto.
— Você veio me repreender?
O tom dela foi apenas normal, não defensivo. Provavelmente, não se importaria com sua repreensão, se a fizesse. Bucky sorriu levemente com o pensamento e fixou os olhos nos dela, que apenas piscou, esperando.
— Acho que, depois de todo esse tempo e de tudo o que aconteceu… — Levantou as sobrancelhas e descansou os cotovelos sobre a mesa pequena que os separava. — Se não recorresse a um pouco de álcool, eu iria ficar preocupado de verdade.
Wanda estreitou os olhos, desconfiando de sua boa vontade. Ela estava acostumada a ser controlada. Havia sido assim quando estava na H.Y.D.R.A, mesmo que por vontade própria, sendo objeto de estudos alheios e depois, quando fora para o Complexo dos Vingadores e precisara se encaixar na cartilha de comportamento americano para garantir a permanência no país. A intenção era ajudá-la, claro, mas ainda assim era uma forma de controlar quem ela era — o que ficara ainda mais claro quando Stark mandou Visão prendê-la no lugar.
— Posso? — Sinalizou em direção à taça que ela mantinha segura entre os dedos e Wanda a estendeu em sua direção, deixando que tomasse um gole. Deus, detestava vinho! Qualquer tipo dele. Seco ou suave, tinto ou branco, especialmente o rosê, o mais caro e mais barato, nunca gostara, devolveu a taça com uma careta. — Horrível.
O abajur esverdeado iluminou o breve sorriso dela, mais visível nos olhos brilhantes por conta do álcool do que nos lábios. Os dedos emblemáticos voltaram a rodear a taça, incertos, e o silêncio preencheu o espaço entre eles de maneira um tanto desconfortável. A quietude costumava ser comum entre eles, mas depois do que aconteceu no carro parecia, ao menos a ele, um terreno minado.
Ela desenhou algumas formas abstratas na janela embaçada, notou, mas já deveria fazer algum tempo, e tinha de admitir que, à sua frente, estava ainda mais bonita do que quando a vira de relance antes de subir para o seu quarto. Considerando que o bar estava quente e acolhedor em comparação à temperatura baixa lá fora, só podia julgar que a ponta do nariz avermelhada e as bochechas coradas se deviam ao vinho, o que fazia um quadro adorável, mesmo que os cabelos estivessem uma bagunça.
Percebeu que passou tempo demais encarando cada traço do rosto dela, quando Wanda se voltou para ele e os olhos esbarraram nos seus, em um flagrante esverdeado, que fez com que sua boca secasse imediatamente. Aquilo era novo. Já estavam confortáveis ao redor do outro o bastante para que aquele não fosse um tipo de coisa a preocupar na interação que estabeleceram durante aqueles dias, mas parecia existir… Um novo contexto ali. Algo inexplicado, que estava quase implorando que ela o fizesse e esclarecesse tudo.
Dessa vez, foi ela quem parou intimidada, no entanto, desviando os olhos para a taça de maneira um tanto tensa, mas pensativa. Os dedos faziam círculos em torno do objeto de vidro e ele desejou segurar sua mão, sem luvas, para sentir se estavam frias pela temperatura que imperava lá fora ou mais quentes, pela posição privilegiada no bar. Wanda era diferente, então, até algo tão corriqueiro assim poderia surpreendê-lo.
— Da última vez que eu disse aquilo a alguém… Tive que matá-lo, no fim das contas. — A ruiva começou de maneira lenta, o sotaque mais acentuado e os olhos distantes. Bucky apenas a encarou, começando a entender o motivo de ter ficado tão perturbada no carro. — Quando os soldados de Thanos nos encontraram, havia acabado de escolher Visão, invés de voltar para Wakanda. Eu disse a ele que estava ficando…
Tudo aconteceu muito rápido naquela época. Steve lhe contou brevemente que Wanda estava se encontrando com Visão secretamente. Fazia algum tempo que ele e o pessoal de Wakanda sabiam, mas tinham tacitamente permitido que vivessem sua história, porque… Bem, no fim das contas, Maximoff merecia isso. Algo bom para fazer com que as coisas valessem a pena, apesar de tudo.
Ela havia sido a mais afetada deles por conta da prisão de Stark, Steve disse. Era tratada como uma verdadeira terrorista, estrangeira e perigosa demais para ser deixada livre em sua própria cela — Scott havia contado depois de um tempo, quando ela visivelmente se mantinha fechada em seu próprio mundo depois do resgate. Gostando ou não, o que julgou pelo tom do Capitão, Visão parecia fazer bem a ela e eles se entendiam — de uma forma questionável sobre a qual não dedicou muito de seu tempo a pensar naquele momento.
Era tudo o que sabia sobre isso, para além das partes cruciais. Visão tinha uma das jóias que Thanos desejava bem no meio da testa, o que motivou o ataque. Após Steve, Romanoff e Sam resgatarem ambos, não conseguiram remover a pedra, ainda que com toda a tecnologia avançada de Wakanda, e ela teve que matá-lo para tentar impedir que aquele titã se apropriasse do objeto, o que também não funcionou.
No fim, ela o vira morrer duas vezes, por suas mãos e pelas, provavelmente, mais cruéis de Thanos. Por isso, era compreensível que ficasse mexida por suas palavras. Mesmo que impensadas, tinham peso, em partes a tinham tornado aquilo que via e, mais especialmente, faziam parte daquela fantasia sobre a família perfeita que construíra para si mesma. De alguma forma, ela parecia sempre retornar àquele mesmo ponto de partida.
— Sinto muito. Por fazê-la se lembrar disso.
— Minha vida toda… É construída sobre o cemitério das pessoas que perdi. — Deus, a visão que tinha Wanda tinha a própria vida era tão fatalista, que o deixava preocupado. Um tipo de preocupação que sempre estava presente, mas que era acordado quando ela dizia aquele tipo de coisa, como se não desse muito pelo o que era. — No momento em que disse aquilo, percebi que poderia se tornar uma dessas pessoas… E não quero que…
Ela ainda tentou continuar, mas apenas meneou a cabeça em negação e piscou de maneira lenta, tomando um bom gole de vinho enquanto processava o que, provavelmente, estivera em sua mente durante aquela tarde.
Era difícil, no entanto, imaginar para onde iriam os meandros da cabeça de Wanda Maximoff, só poderia ter uma ideia de seu direcionamento e mais nada. Ajeitou-se melhor no assento à frente dela, absorvendo todo o peso dos orbes esverdeados, enquanto seus próprios dedos tamborilavam inquietos sobre a mesa.
— Ouça… Sei que isso pode soar insensível, mas… Eu não sou Visão. Estou aqui há bastante tempo… Você não tem que se preocupar comigo… Não dessa forma.
Visão e Wanda tinham uma história, para começar, e eles não tinham. Visão não tinha o seu passado, nem aquele fantasma insistente assolando-o em seu ombro e em sua mente. Bucky não era alguém que precisava ser salvo, definitivamente, ainda que as palavras soassem difíceis.
— Eu cuidei de você por três dias enquanto estava desacordado. E… Pode dizer que não, mas o que aconteceu… Só aconteceu por minha causa. Não quero que algo ruim aconteça novamente com alguém que eu me importo, só porque… Eu me importo, entende?
Os ombros dela caíram alguns centímetros e Wanda voltou a se concentrar na taça à sua frente, desgostosa pelos acontecimentos recentes. Ela já havia dito que se importava, logo após afirmar que sentiu a vida se esvaindo dele por conta do veneno na adaga, mas nunca deixava de ser um tanto… gratificante saber que ele não era o único afetado por… Toda aquela atmosfera.
Alcançou a garrafa de vinho, já bastante vazia àquela altura, e completou a taça de Wanda. Então, afastou a mão esquerda dela com calma e levou a taça aos lábios enquanto mantinha os dedos sobre os mais finos. Detestava, mas era o único álcool que havia ali no momento, então não tinha muita escolha.
— Se preocupar com minhas escolhas é a última coisa que deve fazer, Wanda. Estou além do que pode fazer por mim. — Colocou a taça no lugar, embora Wanda não tivesse dado muita atenção ao fato, mantendo os olhos vagamente estreitos nele. — E você não tem que carregar o peso do mundo em suas costas.
— Mas eu me preocupo. — Ela ajeitou os dedos ao redor dos dele e também voltou ao vinho, inclinando a cabeça para a esquerda enquanto apreciava o líquido descendo ácido e doce pela garganta antes de completar. — Acho que isso nos deixa empatados.
Wanda estava determinada a perturbá-lo um pouco naquele fim de tarde, sentiu ao observá-la dar de ombros e voltar a encher a taça, o vidro da garrafa tilintando ao encontrar a borda de vidro mais fina. Não sabia se ela tinha consciência disso, mas estava tão disposto a se deixar ser perturbado que quase se remexeu de forma desconfortável ao ser examinado pelo brilho prepotente daqueles olhos.
Por isso, resolveu focar em algo prático. Embora não ajudasse muito, voltou a encarar os fios ruivos espalhados em torno do rosto fino em uma bagunça embaraçada e úmida. Atipicamente ruivos, apontou para si mesmo de maneira pensativa. Quando estava em público, Wanda sempre deixava o cabelo mais castanho e escuro do que naquele tom tradicional de vermelho, o que a tornava muito mais… comum, se é que esta era a palavra certa. Porém, mesmo estando em sua aparência normal, não conseguia desviar os olhos do quadro especialmente bonito que ela formava sob aquela luz a beneficiando em todos os ângulos.
— Onde está o seu boné? — Ela deu de ombros, como quem não se importava, e Bucky revirou os olhos. Tirou o próprio boné que usava e se inclinou sobre a mesa para colocá-lo nela, afastando os fios ruivos do rosto no processo. Wanda se manteve em silêncio, apenas acompanhando cada movimento seu e, não sabia se porque estava mais lenta, simplesmente o deixando continuar e evitando qualquer protesto; ou porque queria perturbá-lo, como, de fato, estava. — Uma garota ruiva, bonita e bêbada, sozinha em um bar… Está chamando a atenção como um farol.
— Certo… — Bucky voltou a se sentar e ela terminou de ajeitar o boné na própria cabeça enquanto piscava de maneira lenta e sorria brevemente, consigo mesma. Então, Wanda empurrou a taça em sua direção, novamente, perguntando com curiosidade. — Você pode ficar bêbado?
— Não realmente. — Respondeu com uma careta, aceitando o vinho sem pensar muito a respeito. — Consigo ficar levemente zonzo e alterado, mas apenas por alguns minutos. São poucas as coisas capazes de me deixar… Distraído.
Usou a palavra de forma proposital, esperando ver a reação óbvia no rosto dela. Wanda revirou os olhos e levou as mãos ao rosto, apertando as palmas contra os olhos no processo. Podia enxergar as bochechas avermelhadas pelo álcool, deixando-a tão mundana que não conseguia desviar os olhos. Queria tocá-la, sem as luvas, sem olhos escarlates o encarando de volta. De alguma forma, sabia que ali, naquele breve instante, era apenas ela, a garota Maximoff, seus olhos esverdeados e seus medos em relação a ele.
— Você não vai me deixar em paz, não é? — Bucky apenas sorriu e recostou-se contra o banco. — Eu não estou bêbada.
— Posso ver. — Não esperava que ela, realmente, admitisse que estava alterada, por isso, seguiu tomando da mesma taça de vinho, enquanto Wanda comentava sobre como Steve também não podia ficar bêbado por conta de seu metabolismo super acelerado. — Você não iria querer vê-lo bêbado. Iria quebrar toda essa imagem de irmão mais velho superprotetor que tem dele.
— Isso não é verdade. — Como muitos que o seguiam, Wanda era inteiramente leal a Steve Rogers, não ao Capitão América em si, mas a figura por trás do capacete.
— Steve… — Seu dedo rodeou o vidro da taça, enquanto encarava o movimento de maneira pensativa, embora não realmente séria. Era mais fácil buscar uma memória boa de Steve do que qualquer outra, pois quando eles eram apenas garotos do Brooklyn tudo era bem mais simples. — Era muito propenso a se envolver em confusões. E nem precisava ingerir todo esse álcool que você ingeriu essa tarde, bastava umas três cervejas e a coragem que ele já tinha por natureza.
— Bem, me deixe adivinhar… Ele estava sempre do lado certo. — Wanda inclinou-se sobre os próprios cotovelos, um sorriso pequeno ilustrando seus lábios, e tudo o que pode fazer foi encarar cada canto de seu rosto, sem fazer questão de disfarçar muito. Então, em resposta apenas meneou a cabeça em uma breve concordância, o que a deixou visivelmente satisfeita. — A meu ver, isso não é nada ruim.
— Não, não é.
Steve estava sempre em sua mente, no fundo dela, influenciando quem poderia ser, especialmente depois de se ver relativamente livre do Soldado Invernal. Mas, por algum motivo, não gostava de falar muito a respeito dele. Lembrar de como as coisas eram, por mais simples que fossem, não deixava seu desgosto pelo futuro deles ao menos um pouco atenuado.
— Sinto falta dele também.
Só então percebeu que Wanda mantinha silêncio, e também o analisava. Por um momento, pensou na possibilidade de a ruiva ter lido sua mente, mas imaginava que sua linguagem corporal, seu tom e ele inteiro, eram o bastante para que ela soubesse o que se passava. De qualquer forma, não havia o que fazer sobre aquele passado, por isso, levantou a garrafa já vazia.
— Hora de ir? — Ela concordou e Bucky foi até o balcão do bar para pagar a conta em dinheiro, enquanto Wanda juntava a bolsa e o casaco, sem pressa, seguindo até a escada de forma cuidadosa demais. Sorriu brevemente e verificou o recibo quando o vendedor o entregou: uma garrafa inteira era… Bastante, se fosse considerar apenas a resistência humana dela, enfiou o papel no bolso da jaqueta e começou a segui-la enquanto subia as escadas, sem pressa. — Você está bem?
— Sim.
Wanda respondeu de forma arrastada e ele teve que se esforçar para disfarçar o sorriso que já subia por seus lábios. Por baixo do sotaque pesado e das feições geralmente sérias, ela era divertida em sua acidez. Deixou que seguisse sem apressá-la e se manteve ao seu lado, sem também oferecer ajuda — por algum motivo, sabia que recusaria com veemência.
Estava começando a desejar prolongar aqueles momentos com ela, para, simplesmente, orbitar ao seu redor. Depois de toda aquela conversa no bar, sabia que estaria satisfeito apenas de poder olhá-la, o que fez sem pestanejar, analisando o perfil de olhos baixos, e fazê-la falar a respeito sobre o que, realmente, a afligia.
Ao final do corredor em que estavam hospedados, todo o ruído do bar embaixo da pequena hospedaria já havia sido deixado para trás. Buscou a chave em um de seus bolsos, girando o molho ansiosamente, sem qualquer motivo aparente. O ruído tilintado era o único a preencher o pesado silêncio até chegar à porta de número seis, onde se voltou à Wanda, que já segurava a própria maçaneta da porta do quarto logo em frente ao seu.
Talvez o silêncio fosse pesado apenas para ele, deliberou sob o olhar esverdeado e brilhante diretamente no seu. Wanda não se intimidava facilmente e ainda estava convicto de que ela tinha a intenção de perturbá-lo, testar o efeito que tinha sobre ele. À essa altura, a ruiva deveria ter bastante consciência do que se passava por sua mente, ainda que insistisse em afirmar que não o lia.
Por um momento, gostaria que o fizesse, pois já não conseguia mais disfarçar como, há dias, vinha fazendo sua realidade girar em torno daquela mulher. Agora, como no bar há minutos, o que o fazia engolir em seco, era a luz. Tinha que ser. A pouca luminosidade das arandelas amareladas do corredor em combinação ao tempo nublado lá fora, deixando-a sob certa aura sombreada, parecia incapaz de disfarçar o brilho dos olhos esverdeados ansiosos.
Tudo o que a envolvia rotineiramente era a pressão, o compromisso e a ameaça externa, mas não conseguia colocar seus conflitos em perspectiva, mesmo que a acompanhasse diariamente lutar para vencê-los, quando a tinha tão próxima naquele corredor, quando a vira tão naturalmente sentada ao lado daquela janela, simplesmente apreciando uma taça de vinho, mais mulher e menos bruxa do que podia apontar há dias, conversando amenidades após, sem qualquer trava aparente, explanar seus medos à Bucky.
Quando Wanda falava sobre si, sempre parecia tensa e distante, mas não naquele momento. Sabia que o álcool era propulsor disso em algum nível, mas também tinha a ver com o cansaço e o conforto. Ele era a única pessoa que estava ali e, talvez, por isso, manter a distância faria com que dispendesse muito mais trabalho e energia. E Wanda não dispunha dessa energia, como ele bem havia apontado mais cedo. O próprio fato de recorrer ao vinho o provava exatamente isso.
Seus olhos escorregaram dos dela, percorrendo a linha bem desenhada do queixo e, abaixo, através da pele clara da garganta e do colo rodeado pelos cabelos compridos e ligeiramente bagunçados. Tinha a impressão de que eles estavam mais ruivos, mas poderia ser apenas a luz — novamente — ou, simplesmente, a forma como a encarava, deslizando o olhar até subir aos lábios tingidos pelo vinho tinto, um detalhe que quase passara despercebido em sua análise minuciosa.
Imaginou que havia sido rápido, dois segundos ou menos, mas percebeu que não quando notou Wanda o analisando de volta, sem pestanejar. Wanda sempre o colocava sob uma perspectiva muito própria e ele quase mataria para saber o que se passava na mente dela quando o encarava daquela forma, séria e profunda sem se esforçar.
— Isso… Não é uma boa ideia. — Ela não precisou de muito para saber exatamente o que se passava na mente dele, o tom baixo, quase um murmúrio soando novamente pesado entre eles enquanto os dedos, geralmente ansiosos e inquietos, se apertavam em torno da maçaneta de sua porta. — Para você… Principalmente.
Notou que prendia a respiração quando ela terminou e Bucky pode piscar e respirar sob seu olhar analítico. De repente, estava muito ciente do que Wanda acabara de falar, da semiescuridão daquele corredor vazio e dela inteira tão próxima e tão bonita quanto estivera por todo aquele fim de tarde, quando a aura onipresente e poderosa da Feiticeira Escarlate, de alguma forma, a deixara para dar lugar a uma Wanda mais suave, mas tão compreensiva sobre ele e suas vontades mais profundas.
Bucky focou o rosto dela, como se tivesse caído durante um sonho, e encarou a porta do próprio quarto, a chave girando entre os dedos, antes de voltar a olhá-la, tentando clarear a própria mente depois de tudo o que passara por ela envolvendo o nome Wanda Maximoff.
— Sim. Você tem razão. — Pigarreou ao concordar, a acompanhado forçar um sorriso pequeno e incerto, também sem deixar de olhá-lo. Pela forma como não tirava os olhos dele, parecia também estar processando o que acontecia, o que acabara de dizer, o que acabaram de concordar, sem precisarem realmente falar algo a mais. Não era necessário, mas também prendia a respiração e secava sua garganta de forma que não sentia há muito, muito, tempo. — Durma bem, Wanda.
Incerto, abaixou os olhos e balançou novamente a chave entre os dedos antes de se voltar à porta, pois ela faria o mesmo. Sua mente, costumeiramente ansiosa, parecia uma espiral de pensamentos aleatórios, que focavam com muita rapidez nos olhos dela.
O que acontecera entre eles? O que acontecera por todo o final de tarde, onde simplesmente não conseguia tirar os olhos dela por um segundo, como que hipnotizado por aquele magnetismo que Wanda parecia exercer apenas sobre ele? De repente, mesmo que parecesse solitária quando a encontrara no bar, ela parecia mais tangível, mais humana e, portanto, mais… Alcançável para Bucky.
Bem, não era uma boa ideia, de toda a forma, e ela estava certa. Engoliu em seco, desejando ter uma última visão das ondas ruivas escorrendo pelas costas, sob o boné dele, e daquele momento, que ficaria para sempre no ‘quase’, no corredor. Na manhã seguinte, quando tudo voltasse ao seu devido lugar, era muito provável que parecesse apenas uma brincadeira de sua mente. Se se esforçasse, talvez realmente acreditasse nisso.
Quando se voltou à ela, no entanto, Wanda já o olhava sobre os ombros, a porta destrancada esquecida, os olhos verdes sérios, mas ainda tão brilhantes quanto presenciara por toda a noite, parecendo refletir toda a sua essência e toda a realidade minúscula daquele corredor e daquela ideia, que pairava sobre a cabeça de ambos com intensidade.
Então, sem que pudesse esperar ou calcular, ela se virou em uma rapidez surpreendente e o alcançou com dois passos, a boca convictamente firme contra a sua em meio a um ofego surpreso compartilhado por ambos. Por um segundo, que pareceu durar uma eternidade, os lábios macios e a pressão conhecida do selinho foi tudo o que sentiu, sua mente estacada nas mãos mornas segurando seu rosto de forma determinada.
Porém, no momento seguinte, seu primeiro instinto foi se afastar para olhá-la. Mesmo que não soubesse o que dizer, talvez fosse debilmente confirmar se era aquilo mesmo e o corpo quente que sentia junto ao seu era o de Wanda, talvez para recordá-la que ela não estava sóbria ou, simplesmente, reforçar o que ela acabara de dizer — e que Bucky, racionalmente, concordara -, que aquilo não era uma boa ideia.
Tudo isso pareceu ter passado como um flash em sua cabeça nublada, e não pelo vinho, mas por Wanda, que simplesmente não permitiu que se afastasse, rodeando seus ombros com os braços e se esticando para beijá-lo de verdade. Suas mãos na cintura dela, que inicialmente apenas a apararam e quase a empurraram, se fecharam mais firmemente ali e, de repente, a distração dela funcionou, pois não conseguia pensar em nada, exceto a boca junto à sua e o corpo quente pressionando-o até que estivesse contra a porta fechada de seu quarto, sem pestanejar sustentando seu peso e o dela.
Era como se tivesse implodido em si mesmo, tudo o que conseguia sentir concentrado ali, entre eles, tal a forma como se sentia fora de órbita. Quando Wanda se convenceu que, realmente, pelo modo como a rodeava não deixava margem nenhuma para que tivesse coragem de afastá-la, os dedos firmes passearam por seu pescoço novamente e pela mandíbula, antes de descerem e se fincarem em seu peito sobre a camiseta escura, aquecendo-o por todo o caminho como se soubesse que Bucky era meio fascinado por suas mãos.
Não conseguiu resistir a encontrar a nuca macia e quente sob os longos cabelos ruivos, entremeando os dedos nos fios longos e bagunçados, que há tanto tempo gritavam por sua atenção e atraíam seus olhos para ela como um ímã. Não era a mesma coisa quando deixava os fios castanhos para um disfarce, havia algo no vermelho que fazia parte da essência dela.
A sentiu ofegar em seus lábios e se pressionar ainda mais contra ele, tão lentamente quando a língua que circundava a sua e a mão que apertava sua jaqueta, puxando-o contra si. Àquela altura, não sabia onde ela começava ou ele terminava, apenas sentia a bolha de formigamento por todo o seu corpo, que assim continuou até que, voluntariamente, mas sem muita vontade, se afastaram na confusão de bocas e respirações ofegantes daquele instante.
Uma confusão incerta, que tinha mais a ver com quem eram do que com o gosto de vinho da boca dela, que fez com que abrisse rapidamente os olhos para vê-la, há centímetros, processar o que acabara de acontecer, ainda de olhos fechados, por alguns breves momentos antes de, lentamente, soltar sua jaqueta com cuidado e subir os olhos para encará-lo sob o boné, piscando, como se ainda tentasse compreender o que acabara de acontecer.
— Boa noite, Bucky.
Não esperava menos, pois ele próprio se encontrava em um estado similar. Wanda engoliu em seco ao se virar de forma hesitante e sumir pela porta do próprio quarto após um baque seco. Desviou os olhos para o corredor vazio, sem realmente enxergar qualquer coisa, buscando alguma explicação lógica para o que acabara de acontecer, mas só conseguiu levar as mãos ao rosto para coçar os olhos e deixar a cabeça cair pesadamente contra a madeira da porta, onde ainda estava seguramente encostado.
Ele estava tão ferrado.
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