Bucky encarou o contato de Sam em seu celular, questionando se deveria ligar ou não. Encostado à cadeira de ferro disposta na calçada do pequeno hotel em que Wanda e ele estavam hospedados, sob um guarda-sol desnecessário para o dia nublado que se estendia naquela manhã, deslizava o dedo enluvado pelo aparelho de maneira detida, repetindo para si mesmo a conclusão a que chegara mais cedo: deveria ter ido para Praga.

Antes que Sprite lhe dissesse aquelas coisas sobre romance, antes que a ruiva o tivesse pedido para ficar, antes que eles se beijassem naquele corredor pouco iluminado. Tudo havia se desenrolado de forma incrivelmente imprevista em uma velocidade perturbadora nos últimos dias. Agora, quando parava para pensar, era como se olhasse para um quarto bagunçado e não soubesse por onde começar a colocar tudo no lugar.

O problema era ele, Wanda, aquela bruxa ou todo o contexto tenso em que estavam? Não saberia dizer, pois só podia ter opiniões quanto a si mesmo e sabia, embora relutasse em admitir, que estava cada vez mais rendido, totalmente perdido em Wanda — nos problemas de Wanda, na segurança de Wanda, no futuro de Wanda.

O problema nessa questão é que tudo isso era só dela, inclusive seu futuro, sua jornada, seus objetivos, coisas pelas quais estava lutando naquele momento — de forma que ela não podia ser nada daquilo para ele. E, por tudo isso, não conseguia não se sentir como um intruso em todo aquele cenário, ainda que ela tivesse pedido para que ficasse e a acompanhasse até o fim de tudo aquilo — ao menos seus estudos, pelo que compreendia dela.

Rapidamente checou os rostos dos turistas ao seu redor, já que, desde que acordara, tinha a sensação de ser observado, no mínimo, e voltou a encarar o contato do novo Capitão. Detestava falar sobre seus problemas, pois tudo o que dizia a si mesmo era muito mais interno e íntimo do que algo mundano e tateável, mas por um momento desejou poder ligar e contar para ele, só para saber o que pensava daquilo.

Por três segundos, a vontade foi justificada pela forma como sabia que Sam ficaria totalmente sem reação e, somente depois, iria xingá-lo por estragar algo que deveria ser tão simples — se fossem pessoas simples. Então, sabia que o outro diria exatamente o que se passava pela sua própria mente, um reflexo da realidade o atingindo como um trem: ele tinha problemas demais para lidar com os problemas de Wanda também e não deveria jogar com as próprias vontades daquela forma.

Sabia que vinha brincando com o fascínio que, cada vez mais, sentia pela Maximoff. Mas nem em seus melhores sonhos imaginava que pudesse chegar àquele extremo — se é que um mero beijo era mesmo um extremo tão importante quanto julgava naquele momento. Para Bucky, no entanto, havia sido, sim, diferente. Chocante. Inesperado. Totalmente inebriante. Wanda havia tomado sua mente por completo sem sequer precisar fazer uso de seus poderes durante aqueles segundos e não se importava, minimamente, de ter concedido isso a ela. Havia sido como se tivesse recebido alguém bem vindo depois de tanto tempo, tal era o jeito como, simplesmente, anuiu sem pensar duas vezes aos lábios macios e o perfume deleitoso envolvendo-o por completo.

Apertou os lábios de forma desgostosa. Não podia permitir que sua mente divagasse sobre aquele momento, mais do que já fizera durante a madrugada ao fechar a porta do quarto atrás de si e tentar focar em respirar novamente. Bucky sempre havia sido prático, tinha que ser realista agora e fazer valer a própria maturidade.

Tomou um gole do simples expresso duplo, que pediu mais cedo, e viu, por trás dos óculos escuros, quando Wanda passou pela porta do hotel e rapidamente o encontrou, em uma das mesas, como se fosse um turista qualquer conhecendo as belezas do Leste Europeu, fora das grandes cidades.

Há muito tempo atrás, numa das muitas madrugadas em que perdera o sono por conta de seus pesadelos, assistira a um filme onde um cara conhecia uma garota durante uma viagem de trem e, enquanto divagavam sobre as belezas de Viena e questões da juventude, se apaixonavam de forma inevitável. Algo tão improvável, mas tão… Simples.

Seus dedos de metal tamborilaram ansiosos sobre o tampo da mesa e Bucky guardou o celular após mandar uma rápida mensagem de texto para Sam e levantar o olhar para acompanhá-la se sentar à sua frente de maneira quase hesitante. Era estranho que ela não parecesse tão nervosa quanto imaginou que estaria, poderia até dizer que não havia resquício do quanto havia bebido na noite anterior.

— Ei. — Ela cumprimentou, ao puxar a cadeira e se acomodar.

Seus olhos se demoraram por um instante em seu próprio boné sobre a cabeça dela e ele examinou o rosto limpo de maquiagem, mas também de olheiras cansadas. Ela deveria ter dormido por muitas horas depois do que aconteceu — diferente de Bucky.

No fim das contas, um pouco de álcool, talvez, fosse exatamente o que precisava. Há semanas, Wanda lidava com um tipo de tensão que não a abandonava por um segundo e, certamente, na noite anterior havia dado menos peso à toda a realidade esotérica da qual fazia parte.

Ainda, ela mantinha os cabelos ruivos, invés do tradicional castanho quando em público, o que secretamente apreciou, pois a deixava mais… Iluminada, mesmo que seus olhos esverdeados fossem sempre carregados e tempestuosos.

— Você não parece de ressaca. — Comentou depois de cumprimentá-la, empurrando para ela a xícara de chá que havia pedido mais cedo. Os dedos envoltos em escarlate dariam um jeito de esquentar a bebida que preferia, invés de café. — Dormiu bem?

Wanda simplesmente meneou a cabeça em confirmação e se concentrou na cesta de pães à sua frente, alcançando um croissant e esmigalhando-o para comer com manteiga, o que o levou a estreitar os olhos. Apesar da hesitação inicial, era como se tivesse, simplesmente, decidido que nada tinha acontecido. Não o encarava direito, mas parecia torcer para que, talvez como ela, resolvesse tornar o que aconteceu apenas um delírio de uma madrugada solitária.

Havia cogitado essa possibilidade pela manhã, pois a conhecia o bastante para compreender que ela não gostaria de encarar o que havia feito sob a perspectiva de seus objetivos pessoais. Ele não poderia ser um empecilho, havia sido clara quanto a isso quando estavam no carro no dia anterior, o que o incomodava ao extremo, pois, acima de tudo, ele havia gostado. Para Bucky, não havia possibilidade de fingir que nada havia acontecido. Porém, precisava ser prático.

— Você pode falar. — Ela desistiu do croissant de uma só vez. — Sua ansiedade está me deixando ansiosa.

Bucky levantou uma sobrancelha, observando-a colocar tudo de lado. Ao que parecia, era apenas uma distração para si própria, que o encarou, de fato, um pouco nervosa antes que começasse a soltar as palavras ensaiadas.

— Você estava certa. O que aconteceu… — Era como se não sentisse espaço para puxar o próprio ar, por um instante, o que o surpreendeu. Fazia tanto tempo que não desfrutava daquela sensação, tão mundana e comum para qualquer pessoa. — Não foi uma boa ideia. E… Não pode acontecer novamente.

A acompanhou piscar lentamente, processando o que dizia sem deixar de encará-lo. Mesmo que estivesse, propositalmente, de óculos escuros, sabia que ela estava a par das emoções que o percorriam de cima a baixo, ainda que se recusasse a lê-las, de verdade. Por um momento, apenas observou cada traço do rosto mais delicado absorvendo o que dissera de maneira aparentemente inesperada, a julgar pela forma como pareceu surpresa.

— Er… Ok...

Wanda ajeitou a xícara à sua frente, um pouco inquieta e Bucky sentiu a culpa percorrê-lo por afastá-la de maneira tão abrupta. Talvez estivesse se adiantando demais, talvez aquele beijo fosse apenas um beijo e nada mais, talvez devesse ter tratado como um acontecimento avulso, propiciado por um momento de carência, mas era melhor que qualquer possibilidade outra fosse imediatamente tirada da mesa. Pelo bem de sua sanidade e, provavelmente, da dela.

— Eu deveria tê-la parado. Você não estava sóbria, realmente, e… Sou a única pessoa ao seu lado aqui. Você está vulnerável, Wanda, sabe disso. É… Natural que confunda as coisas. Que nós confundamos. — Não sabia se dizia para ela ou para si mesmo. Engoliu em seco, desejando alcançar os dedos meio trêmulos de unhas curtas, tão típicos dela, mas hesitou. — Além disso… No final, eu vou embora e você irá terminar o que veio fazer, então… Tudo ficará em seu devido lugar, eu acho.

Dessa vez, foi o próprio Bucky quem desviou o olhar das íris esverdeadas pesadamente postas sobre ele, como se o julgassem fortemente e sem ressalvas. Por um instante, mesmo o ruído de conversas nas mesas ao redor estacaram, tão concentrado estava naquela conversa — embora não fosse um diálogo, exatamente — e no próprio coração disparado, orbitando quase que como fora de seu peito.

— Bem… Parece que teve tempo de formar toda uma opinião sobre o que aconteceu.

Wanda pensou em cada palavra ao dizer lentamente e ele teve que voltar a encará-la, esperando que pudesse sentir a contrariedade que o habitava. Havia sido ótimo, mas não era possível por ser quem eram, ter feito o que fizeram no que parecia ser outra vida e estarem destinados a caminhos completamente distintos.

— Você disse que não podia ter distrações em seu caminho. Nós… — O sargento hesitou ao se referir a eles como um, mas era como se não houvesse mais volta. — Nós não devemos ser uma, certo? Então, não seja injusta aqui, ok?

Por um momento, sentiu como se estivesse implorando para que ela desejasse não continuar com aquilo. Aquela era a convicção de Wanda no dia imediatamente anterior, nada podia ter mudado tanto. Além disso, Bucky sabia perfeitamente como seus objetivos quase obsessivos a tomavam por completo, a tornando quem realmente era, em sua essência, portanto, aquele beijo era algo que não deveria se repetir. Especialmente, porque ele não fazia parte desses objetivos.

A observou engolir em seco e menear a cabeça, absorvendo o que dissera em uma expressão pouco paciente, mas assim que abriu a boca para falar, — ao que parecia, pronta para iniciar uma discussão -, foi interrompida pela presença repentina logo ao lado da mesa.

— Olá, Wanda.

Ambos se viraram, no mesmo instante, para encarar a mulher de cabelos negros cortados em franja, utilizado roupas inteiramente negras, como da outra vez que apareceu em Novi Grad e levou Wanda a cair em uma armadilha dos seguidores de Chthon, como ela própria deveria ser. A ruiva à frente de Bucky imediatamente mudou a postura e ajeitou as costas, examinando a outra de cima abaixo, agora realmente irritada.

— O que você quer?

— Acredito que começamos do jeito errado. — O tom de voz que usava era sério, mas totalmente linear, como se não tivesse emoções. Juntou as mãos à frente do corpo, mantendo a postura ereta. — Nós precisamos conversar.

— Eu não tenho nada para falar com você.

O tom de Wanda era totalmente diferente, raivoso e na defensiva, afinal havia sido atacada pelo grupo da mulher e perdera o controle a ponto de quase matar uma de suas… Associadas. Observou os dedos finos rodearem a madeira do tampo da mesa, sobre a toalha branca, e notou que a mulher de cabelos negros também percebeu o movimento. A ruiva, ainda, perdia o controle com extrema facilidade, recordou, pensando na única faca que carregava consigo, escondida na tornozeleira.

— Mas você pode ouvir. Você deveria, ao menos.

— Da última vez, seu grupinho tentou me ludibriar com uma ilusão barata e isso quase o matou. — Wanda apontou com a cabeça em sua direção e a mulher o encarou de cima, não dando muita bola, mas pareceu não gostar da direção do diálogo a julgar pela linha fina e desgostosa, que se formou em sua boca.

— Aquilo foi… Um pouco excessivo, eu concordo. — A ruiva levantou as sobrancelhas, sem se impressionar muito.

— Saia daqui ou a próxima a voltar para aquele castelo velho com os cinco dedos quebrados será você. — Naquele instante, ao assimilar o que ela acabara de dizer, agradeceu que usasse óculos escuros pela forma como franziu o cenho e a encarou, um pouco chocado. Wanda havia comentado que a pessoa que o esfaqueara naquela noite chuvosa, havia tido que merecia, como se tivesse dado o troco em seu nome, mas não imaginava que fosse algo daquele tipo. — Sei o que quer e não vou entregá-lo a você.

— Você está negando o seu verdadeiro caminho, Wanda. — Neste momento, viu a Maximoff se levantar, arrastando a cadeira para trás e se virar à mulher, sobre a qual não sabia nada e nem tinha nome, aparentemente. Porém, dez centímetros mais alta, a outra não se intimidou e, na verdade, sequer se moveu, ainda que um fundo claramente escarlate tivesse pintado os olhos esverdeados de Wanda, sob o boné. — Deve compreender de onde veio para segui-lo, como é destinada a fazer.

— Não preciso que ninguém me aponte um caminho. Muito menos você.

Ela desviou da mulher, sem esperar por resposta, e passou por ela para deixá-la para trás, se distanciando da área do pequeno bistrô. Sem nada a dizer, observou a mulher abaixar os olhos frios para ele por apenas um momento, antes de se virar com uma calma e uma confiança, que fizeram com que sua espinha congelasse por um breve momento.

— Eu conheci a sua mãe. Natalya. — “Merda”, observou quando Wanda estacou onde estava, já próxima à rua de pedras de paralelepípedo, ante o sotaque forte da mulher ao lentamente falar o nome de sua mãe biológica. — Talvez, você tenha interesse em saber uma coisa ou outra sobre ela.

A ruiva se voltou à outra, as roupas tipicamente escuras como uma continuidade do céu nublado prometendo chuva para mais tarde. Mas, apesar de parecer abalada a julgar pela respiração descompassada e a mandíbula apertada, o que brilhava em seus olhos, sob a aura rubra da Feiticeira Escarlate, era ódio puro.

Notas finais
Hello!!! Depois do surto/lapso/loucura do capítulo anterior, Bucky estava quase em uma crise aqui kkkk O que acharam da decisão dele? É claro que há muita confusão sentimental, mas sinto que nosso querido tentou ser sábio, embora Wanda não tenha nenhuma paciência pra isso kkkkk Espero muito que tenham curtido! A partir de agora, a história vai variar bastante entre o místico e o romance, afinal, até o momento estava bastante concentrada apenas nos dois! Me contem o que têm achado sobre e, é claro, sigo agradecendo a todos que comentam, amo saber o que vocês pensam sobre esses dois ♥ Até breve!