Incerteza tomou conta de todos os seus movimentos enquanto a encarava. Ao mesmo tempo em que tinha a aparência totalmente igual à Wanda que conhecia, como se fosse uma gêmea idêntica, também havia algo naquela mulher, que a diferenciava da outra. Algo mais suave, mais ameno, uma falta de peso que, certamente, tinha a ver com a forma como parecia viver de forma pacata ali.

Olhou ao redor, novamente percebendo como a casa chegava a ser ordinária pela forma como gritava “classe média”, mas tudo estava em seu devido lugar e, apesar da quase perfeição dos móveis e da vida que parecia emanar do ambiente, não conseguiu sentir qualquer energia mágica ou não os rodeando, como acontecia na cabana. Era como se ali não houvesse nenhum resquício do caos escarlate com o qual Wanda constantemente lidava, apesar de uma versão dela se encontrar à sua frente.

— O banheiro é por ali, caso queira se limpar. — Ela resolveu se pronunciar indicando uma direção pelo corredor curto sob a escada ao notar sua hesitação sobre o lugar, embora parecesse se divertir ao mesmo tempo, como se soubesse algo que Bucky não sabia. Como sempre, as mulheres Maximoff sempre saíam à sua frente. — Vou estar na cozinha.

Ela passou por ele sem demora e sem esperar qualquer resposta de seu atordoamento. Enquanto isso, Bucky respirou fundo e decidiu seguir pelo caminho que ela mandou, ainda que suspeitosamente, encarando todas as pistas que conseguia. Mas, num primeiro instante, nada o chamou a atenção e ele não podia nem iria demorar muito, quanto mais rápido falasse com ela, mais fácil entenderia toda aquela confusão, afinal Wanda não havia esboçado qualquer surpresa sobre sua existência e vice-versa.

Olhando no espelho do pequeno lavabo social, constatou que estava uma bagunça, realmente. Lavou o rosto e conseguiu limpar parte da roupa, se perguntando onde poderia conseguir algo para se trocar. Se havia uma Wanda ali, certamente haveria mais conhecidos, essa era a lógica, certo? Estreitou os olhos, tentando pensar rapidamente em todas as possibilidades, mas, quando notou que estava demorando demais, se lembrou que a própria Feiticeira o havia levado até ali e, por isso, decidiu confiar em seu instinto.

Então, ao secar as mãos, seus olhos ficaram presos em um quadro infantil pendurado à porta. Era óbvio que se tratava da obra de uma criança, que retratava uma mulher em vestes vermelhas, um homem que parecia um robô familiar demais, duas crianças vestidas em camisetas quadradas de cores diferentes e um cachorro, também robô, os rodeando. Uma das crianças era rodeada por efeitos azuis, enquanto a outra possuía um efeito infantil de velocidade. Bem, não foi nada por acaso que Wanda escolheu aquela realidade.

Saiu do banheiro, ajeitando-se em uma postura pretensamente neutra e tranquila e se dirigiu à cozinha americana simples, notando que a ruiva daquele mundo parecia se ocupar com chá. Ela fechou um armário após alcançar uma jarra de cerâmica e se voltou à ele, com um sorriso ameno, mas os olhos mais analisadores que conhecia.

— Sou Wanda. — Ela estendeu a mão, que Bucky pegou com cuidado.

— Eu… notei. — O soldado sorriu, quase constrangido. — James Barnes.

— Eu sei.

Bucky franziu o cenho, se perguntando de onde ela poderia conhecê-lo, de fato. Ou, como era o James Barnes que ela realmente conhecia, mas Wanda se voltou ao fogão e alcançou uma peneira numa gaveta abaixo do balcão. Ela fazia tudo com muita naturalidade, completamente habituada ao local.

— Posso te perguntar algo? — Ela concordou, sem hesitação. — Estamos em… Um outro mundo?

— Outra realidade, sim. Como se fosse… Outra terra. — Ela gesticulou para que se sentasse nas banquetas junto à ilha, no que Bucky respirou fundo sentindo sua cabeça entrar em espiral. Era incrível, ao mesmo tempo em que soava… Impossível, irreal.

— Como isso funciona? Na prática?

— Bem… — Ela meneou a cabeça, pensando em como explicar. — Isso não é algo que faça parte da minha vida. Diferente da sua Wanda, não tenho essa habilidade de viajar entre realidades diversas, mas… Quando ela apareceu pela primeira vez, fui obrigada a buscar respostas.

Os dedos dela, menos ansiosos que o da ruiva que conhecia, voaram para o colar com pingente de olho, que usava, algo que já tinha visto antes.

— Com… Strange?

— Dentre outros… — Ela respondeu distraidamente, no que Bucky precisou se conter para não perguntar mais, não invadir qualquer privacidade que estivesse estabelecida ali, afinal não eram nada um do outro. — Já ouviu o termo Eternalismo?

— Er… Mais ou menos. — Se lembrava de uma coisa ou outra sobre o tema, mas não era algo que tivesse realmente exigido sua atenção em algum momento. — Basicamente, nesta teoria todo o universo coexiste em blocos, só que de épocas diferentes.

— Passado, presente e futuro em um mesmo bloco, sim. — Ela sorriu, colocando o chá em xícaras grandes para ambos, sem sequer perguntar se aceitaria. Era, definitivamente, estranha a forma como a ruiva estava, realmente, à vontade. — Mas… Expanda isso para outras terras que compõem um mesmo universo. Todos os mundos coexistem, em seus próprios tempos e espaços, suas próprias galáxias, mas podem ser acessados.

— E Wanda pode fazer isso…

Concluiu, totalmente impressionado, porque aquilo soava muito mais como ficção científica do que qualquer outra. Dito isso, a Wanda à sua frente parou o que estava fazendo para encará-lo, de maneira incisiva, inclinando-se sobre a ilha que os separava com as duas mãos apoiadas no mármore.

— Na verdade, a Feiticeira Escarlate pode. — Ela meio que estreitou os olhos em sua direção, analisando-o. — A Wanda da sua Terra não é apenas Wanda, ela é… Algo mais, detém um poder pouco conhecido na maioria das Terras. Não é apenas ela mesma. Você sabe disso, não é?

— Sim… — Respondeu rápido demais, como se não soubesse que Wanda tinha consigo aquele outro lado de Feiticeira Escarlate, como uma espécie de Mestre do Caos. Se perguntou por um instante se, como a outra, esta seria tão sensitiva às suas emoções e pensamentos, mas resolveu não adentrar muito nessa seara. Discretamente, empurrou a caneca de chá adiante e juntou as mãos, pensando. — Então… Faz muito tempo que ela conseguiu acesso a esta realidade?

Começou de maneira não muito sutil. Tinha alguém, à sua frente, que talvez lhe desse as respostas que queria, alguém que não parecia tão atravessada pelo luto, pelo trauma e o desejo de ter uma família perfeita.

— Ela veio há algumas semanas. — Wanda resolveu se sentar na banqueta do outro lado da ilha, parecendo definitivamente incomodada. — No começo foi… Estranho. Ela é minha imagem e semelhança, mas ainda assim… Uma estranha. Quando eu vi… Ela estava no jardim, brincando no parquinho com as crianças, ajoelhada no chão.

Bucky sentiu algo quente e temeroso se afundar em seu peito. Ali estavam as crianças que ela tinha encontrado, por isso não havia as levado consigo assim que as encontrou. Billy e Tommy não estavam passando por nenhum tipo de sofrimento ou aflição por não existirem na realidade de Wanda, pois não faziam parte dela; ao contrário, pertenciam àquela Wanda, à mãe deles. Merda.

— Se passando por você? — Questionou, notando o semblante pensativo dela, que não quis entrar nesse detalhe. Era tão parecida com — “sua” — Wanda que chegava a ser perturbador, mas, ainda assim, possuía a objetividade de uma pessoa menos sensível, mais madura.

— Bem… Por incrível que possa parecer, eu… Passei a compreendê-la, entende? — Os dedos brincaram entre si sobre o mármore da ilha, mas havia uma certa distinção até nisso. Ponderou que havia passado a conhecer “sua” Wanda bem demais para notar esse tipo de coisa. — Ela veio do trauma, é tudo o que conhece, e as crianças também foram tiradas dela em uma espécie de trauma, então… Meio que aceitei a presença dela. Para amenizar a dor, eu acho.

Por pena, Bucky complementou para si mesmo, respirando fundo. Isso… Era difícil, mais complexo do que imaginara a princípio. O que aquela mulher faria se Wanda resolvesse levar as crianças? Era isso o que ela queria desde o início, certo? Como ela podia permitir que ela continuasse a frequentar a casa, quando tudo o que Wanda, claramente, desejava era poder viver a vida que ela vivia? E se Wanda resolvesse substituí-la? Conhecia muito bem sua imprevisibilidade, apesar de toda a vulnerabilidade que carregava.

— Billy e Tommy… Eles são tudo o que ela sempre quis.

Disse, distraidamente, olhando para o lado e vendo, pela janela, o pequeno parque infantil a que ela havia se referido, próximo às árvores altas que rodeavam o que parecia ser um terreno de subúrbio ou uma casa bastante afastada da cidade.

— Isso o incomoda?

A voz dela o puxou novamente para a cozinha pequena. Sabia muito bem o que o incomodava e o que não incomodava, mas foi salvo pelo gongo quando a porta da frente foi aberta em um ruído alto e passos infantis soaram por toda a casa, reverberando contra o chão de tacos pelo corredor até chegar a cozinha, junto com eles uma bola de futebol pequena.

Billy e Tommy, suas versões de ao menos oito anos, ao menos, não eram nada como imaginava, ao mesmo tempo em que pareciam exatamente com o que seu inconsciente tinha criado em razão das descrições de Wanda, bem como pelos objetos que ela atribuíra a eles anteriormente — a faixa de cabelo e o relógio analógico. Eram enérgicos e pareciam apressados, ainda que tivessem acabado de chegar. Bucky notou que eles não deram muita bola para o visitante.

— Mãe! Mãe! Mãe! — Um deles se abaixou e pegou a bola, quando viu o olhar de Wanda, enquanto o outro continuou, como se fosse gêmeos. — Morgan não quer deixar os meninos da rua debaixo brincar.

Estreitou os olhos, notando que havia mais semelhanças no rosto fino e no nariz bem angulado iguais aos da mãe do que qualquer outra coisa. Além disso, eram praticamente do mesmo tamanho e se vestiam com estilos e cores parecidos, ainda que não exatamente iguais.

— Vocês sabem o que os meninos da rua debaixo fazem com ela. — Ela abriu a geladeira e pegou uma jarra d’água, bem como, copos para ambos. — Eles não gostam de jogar futebol com uma menina.

— E por isso não podemos brincar com eles? Com mais gente é melhor… — Choramingou o mais baixo em uma pose mimada.

— Billy e Tommy, vocês não vão deixar a amiga de vocês sozinha. — Wanda foi firme, fazendo com que ambos apertassem os lábios em total contrariedade, enquanto a ruiva se virava para ele. — Agora, digam oi para James Barnes, um velho amigo da mamãe.

Bucky franziu o cenho por aquela descrição, uma confirmação real de que ela o conhecia, e os cumprimentou de volta, quando murmuraram um cumprimento desanimado em uníssono, prestando atenção no sargento pela primeira vez.

Porém, durou pouco tempo, pois Tommy se voltou ao mais baixo e o chamou para voltar para a rua, onde iriam encontrar Morgan novamente, uma garota que deveria estar totalmente chateada, se pudesse apostar. Então, quando a ruiva se voltou a ele com um suspiro materno insatisfeito, Bucky franziu o cenho de forma questionadora para ela.

— Então, como nos conhecemos… Nessa realidade?

Notas finais
Olááá!!! James e Wanda se entendendo em outra realidade, porque eles são soulmates, eu não aceito menos do que isso rsrs Espero que tenham gostado desse capítulo e de toda a imersão de James passando a compreender o que Wanda queria dizer quando disse que havia encontrado as crianças... Enfim, me contem o que acharam porque eu amei escrever! Até breve ♥