The Hurting. The Healing. The Loving.
57 Capítulo 56
Aquilo havia soado mais como um flerte do que qualquer outra coisa, o que não havia sido intencional, mas a deixou um tanto desconcertada. Bem, ela usava uma aliança e tinha certeza que não era dele, por isso, a surpresa era compreensível.
- Foi… Há muito tempo atrás.
Ela encarou o próprio chá, embora Bucky tivesse rejeitado tomar qualquer coisa dali. Ainda que parecesse infantil e até mal agradecido, não conhecia aquele lugar. Então, Wanda se levantou com um suspiro e contornou a ilha da cozinha, passando por ele para voltar à sala de estar, onde se acomodou de maneira mais confortável em um poltrona, quase que se enrolando em si mesma, e gesticulou para que ele fizesse o mesmo.
Bucky escolheu se manter de pé, no entanto, apesar de ter se aproximado. Apesar da hesitação dela em contar sobre o Sargento que conhecia, algo mais o chamou a atenção. Sobre a lareira e em uma das estantes embutidas, diversas fotos da família estavam dispostas. Havia Wanda e Visão, em sua versão humana, durante o casamento, assim como ela grávida das crianças e diversas fotos de Billy e Tommy juntos — o primeiro dia na escola, o primeiro dente arrancado, os dois fantasiados de personagens de terror para o Halloween, os dois brincando em parques e em uniformes iguais de futebol. Ali, havia vida, a mais pura de todas, e não sabia muito bem o que fazer com toda essa informação, pois era a vida que Wanda, a do seu mundo, desejava.
- Onde está Visão? — Questionou antes que pudesse se conter.
- Em uma missão com Stark.
- Algumas coisas, realmente, não mudam.
Murmurou distraidamente, fixando a atenção em uma foto de Wanda vestida de noiva. Era um vestido na cor champagne, que não tinha qualquer adereço ou volume, apenas um tecido bonito e aparentemente maleável, mas o modelo deixava os ombros à mostra e a cintura marcada chamando a atenção para o colo. Os cabelos ruivos, completamente soltos e ondulados, assim como o buquê de flores em cores outonais, eram os únicos acessórios e toda essa simplicidade a deixava linda — não havia outra forma de adjetivá-la.
No espaço de tempo daquela foto, era como se nada a diferenciasse da Wanda que ele conhecia e isso era um tanto assustador, pois queria, de fato, poder vê-la um dia daquele jeito — íris brilhantes, semblante tranquilo, sorriso despreocupado e todo o resto, enquanto posava para quem quer que fosse que havia registrado o momento. Engoliu em seco, impedindo os próprios dedos de se moverem para tocar o porta-retrato — tanta realidade era, realmente, um peso sobre a que viviam, além de parecer extremamente sedutora em comparação.
- James.
Wanda chamou pacientemente e ele se voltou para encará-la, notando as feições preocupadas e hesitantes, como se sua presença fosse estranha também para ela, o que não duvidava nenhum pouco. Por isso, resolveu mudar de assunto.
- Você parece falar como se não tivesse os mesmos poderes que Wanda. — Se encaminhou ao sofá, sentando-se de maneira tensa ao vê-la menear a cabeça em concordância. — Não é uma Feiticeira Escarlate, então….
- Meus poderes vieram da jóia da mente e meu pai biológico… Bem, ele é um mutante poderoso. Mas, pelo o que Wanda me contou, não há muito disso em sua realidade… — A encarou sem entender por um instante. Era estranho, sentir que a conhecia, mas saber que essa não era a verdade sobre eles, pois Wanda — “sua” Wanda — estava há milhas de distância dali, em outra realidade. Por isso, se sentou no sofá maior, juntando as mãos de forma desconfortável. — Acredite, é estranho também… Ter você aqui, presenciando toda a vida que construí.
- Você pode ler minha mente? — Levantou os olhos, alarmado, no que ela apenas sorriu, meneando a cabeça em negação.
- Eu apenas conheço você. — A observou, de maneira desconfiada. — Ou uma versão de você.
Então, ela se levantou e se dirigiu a um dos armários da sala, se abaixando para abrir uma gaveta com uma caixa repleta do que pareciam pertences pessoais. Então, observou com surpresa quando ela retirou de lá uma dog tag exatamente como a que carregava em seu pescoço. Sabia que, se verificasse, encontraria o número de batalhão e identificação idênticos àquela que usava mais por costume do que qualquer outra coisa. Era parte do antigo James Barnes, não do Soldado Invernal, então parecia essencial que estivesse sempre com ele e, se ela tinha uma, significava que havia sido importante para sua versão daquele mundo, por isso, enquanto analisava o cordão que ela lhe entregava, se viu compelido a se abrir. Ela não era sua Wanda, no fim das contas.
- As crianças não me incomodam. — Refletiu, ocupando o espaço no sofá ao lado dela, sem encará-la diretamente. — Ela os ama, ama a ideia deles… E eu respeito isso, especialmente quando sei que Wanda já perdeu muito na vida.
- Mas…? — Apoiando o rosto contra o braço, ela apenas aguardou, inabalada, parecendo saber exatamente o que viria dele.
- Às vezes… Na maioria das vezes, penso que… — Era como se se sentisse engasgado, a falta de ar o tomando brevemente e levando suas palavras sempre maduras em conjunto. Raramente, não conseguia se expressar como James Barnes, a natureza mais expansiva fazia parte de sua personalidade naturalmente, embora, depois de todos aqueles anos e do Soldado Invernal, se sentisse estranhamente compelido a se manter mais soturno, se manifestando pontualmente. — Não importa o que eu viva com Wanda, nada irá mudar que a história dela é Visão, as crianças e… Todo esse resto, que parece ser muito grandioso, mas muito… Opressor ao mesmo tempo. Enfim, algo que parece ser inerente a Wanda Maximoff.
Despejou sobre ela a realidade do que sempre tentara evitar sentir em relação à ruiva. Ela era demais para Bucky Barnes e todo o universo parecia apontar isso, apesar da inconformidade dela sobre o assunto e de sua própria tendência a uma espécie de sadomasoquismo. Conhecia muito bem sua propensão a se apaixonar e havia escolhido continuar, dar um passo atrás do outro na direção dela, porque, de repente, era como se precisasse disso para se sentir… Vivo novamente. Porque se concentrar em Wanda significava se distanciar de suas próprias questões, de sua lista, suas vítimas, significava paz interna, ainda que todo o Caos — literalmente — os rodeasse.
Fechou os olhos, suspirando um tanto quanto indignado e levou as mãos ao rosto, de repente sentindo um certo tipo de cansaço mental o tomando.
- Acho que… Esse amor que ela almeja deles ou… da ideia de Visão e as crianças, é apenas o único tipo de amor que a sua Wanda conheceu em toda a vida. O amor familiar. O de sacrifício. — Wanda diz, de maneira pensativa. — Acredito que fará bem a ela se puder vivenciar outro tipo de amor…
Bucky sorri amargo, os cotovelos nos joelhos e os olhos baixos na corrente prateada entre seus dedos.
- Não acho que funcione assim. — Levantou os olhos para ela, a encarando curiosamente. — O que aconteceu entre você e a minha versão desta realidade?
Ela sorriu e se sentou de forma mais confortável, juntando as pernas contra si mesma no sofá. Não parecia ser um assunto difícil para ela, por isso imaginou que as coisas entre ela e o James Barnes dali não haviam sido tão complicadas quanto a da terra em que ele vivia.
- Nós éramos jovens demais e ele era americano, como você…
Algumas coisas pareciam não serem mutáveis, notou. Sua origem no Brooklyn, sua história no exército, a família que Wanda construiu com Visão, inclusive com as crianças, era como se houvesse um padrão naquela espécie de “multiuniverso”.
- Sinto muito por isso. — Conseguia se lembrar vagamente de como ele próprio era antes de tudo, mas Wanda não parecia ofendida, dispensando com um gesto de mãos.
- Ele estava só de passagem… — Ela sorriu pensativa. — Nós nos conhecemos em uma missão humanitária dos Estados Unidos no território da Sokovia. Eu trabalhava como enfermeira voluntária e ele… Bem, sua versão, era um sargento do exército americano. Foi algo rápido, que durou o tempo de um verão. Ele prometeu mandar cartas quando foi embora, mas não é como se eu realmente esperasse isso de um oficial de vinte e poucos anos…
- Mas ele te deu isso. — Gesticulou para a dogtag, que Wanda alcançou para brincar com o material. — É um gesto importante…
Sabia que, em sua época, se uma de suas versões, ou um outro soldado qualquer, desse aquele cordão a uma garota seria quase como uma promessa de noivado. Ela deveria ser importante para a sua jovem versão daquela Terra, o que não era uma grande surpresa, considerando seu próprio estado em relação à “sua” Wanda e agora meio que sentia muito por aquele James Barnes. Imaginava o que havia acontecido com ele, afinal, apesar dos padrões, detalhes pequenos pareciam ser muito diferentes, como o próprio fato dela chamá-lo pelo primeiro nome.
- Não se preocupe, o James da minha realidade não olhava para mim como você olha para ela. — Bucky franziu o cenho, mas ela parecia firme em sua convicção. — Sei que o que ele sentia era algo profundo, talvez acreditasse que me amava, mas não era pra ser… Nós fomos um momento no tempo, que ficou para trás. Agora… A forma como a olha… Isso é algo maior.
Bucky quase pode sentir muito pela versão trágica do James Barnes e da Wanda Maximoff dali. Acreditava nela, mas também imaginava que seu sósia devia ter, realmente, a amado em algum nível, como se não houvesse escapatória quanto a isso, porque bastou passar a conhecê-la um pouco melhor para se encantar e se ver totalmente preso a ela.
Porém, antes que pudesse elaborar qualquer pensamento sobre a constatação fatalista daquela à sua frente, um ruído seco à direita, próximo ao arco de entrada da cozinha fez com que se virassem em alerta para que pudessem se deparar com a Feiticeira Escarlate, uniforme vermelho, coroa e tudo, cambaleando para dentro da sala, visivelmente desorientada.
Seus cabelos se encontravam em uma bagunça desorientada, seu rosto sujo de fuligem e algo mais escuro, como veias largas, que parecia manchá-la de forma sobrenatural, além de algumas escoriações na testa e por todo o corpo, onde era possível ver. Ainda, um fio longo de sangue manchava acima de seus lábios, sendo impossível identificar se vinha do nariz ou não.
Apesar disso, os olhos eram verdes e brilhantes quando o encararam em um apelo silencioso, levando uma das mãos a barriga e, antes que se curvasse completamente, Bucky se levantou em um impulso rápido, chamando seu nome e chegando até ela em um só movimento, tão depressa, que apenas pôde impedir, que atingisse o chão ao desmaiar sem forças em seus braços.
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