Bucky e Wanda perambularam em silêncio pelas ruas de Tanier antes de entrarem em um dos pequenos mercados de produtos artesanais da cidade turística. A Bruxa havia pedido que fossem até lá fazer a compra de mantimentos para o Dia de Ação de Graças e eles não tiveram motivos para recusar.

A ruiva não podia passar a maior parte do dia afundada em ensinamentos místicos, ainda que essa fosse sua vontade mais urgente, pois isso constantemente a esgotava e ele não tinha o que fazer na casa dela a não ser acompanhar Wanda. Não era seguro que ela fosse à cidade sozinha, pois os seguidores de Chthon, aparentemente, estavam por toda a parte. Portanto, ainda que ela estivesse com os cabelos mais escuros e usando boné e óculos, assim como ele, era melhor manter a discrição.

Eles se mantinham em um silêncio calmo, mas não muito confortável. Não era como se toda a perturbação da noite anterior não houvesse existido e ainda havia… Aquela manhã. Quando acordou, tudo o que viu era vermelho, pois seu rosto estava inteiramente enfiado no pescoço dela e as mãos a prendiam junto ao seu corpo em uma conchinha que, surpreendentemente, pela forma como respirava pesada e abandonadamente, não soava incômoda.

Pegar no sono depois do pesadelo havia sido uma surpresa, mas voltar a dormir ao notar o conforto da posição, apesar das almofadas no chão não serem nada agradáveis, fora completamente fora da curva. Bucky era um homem totalmente matutino e nem mesmo o sono costumeiramente leve o obrigou a sair dali tão cedo, só voltando a acordar quando, mais tarde, Wanda se espreguiçou, se esticando ainda junto a ele e depositando um beijo silencioso em sua bochecha antes de jogar o cobertor para o lado e se dirigir ao banheiro.

Chegou à conclusão de que era muito tarde quando abriu os olhos e percebeu a luminosidade esbranquiçada da manhã nublada, que banhava o quarto, mas não se importou. Ao contrário, ocupou o tempo processando o fato de que se sentia totalmente descansado, apesar do pesadelo na noite anterior.

Geralmente, não era assim que funcionava. Bucky sabia que não conseguia se livrar tão facilmente das sensações revividas pelo Soldado naquela camada inconsciente de seu cérebro, especialmente quando se tratava das impressões físicas que permaneciam, impregnando seu corpo por dias.

No entanto, enquanto distraidamente alcançava o travesseiro de Wanda, mergulhando no aroma suave e singular que emanava dali, percebeu que a madrugada anterior parecia muito distante. Se perguntou se a ruiva havia se utilizado de seus poderes para acalmá-lo ou, quem sabe, livrá-lo dos efeitos físicos do episódio, mas imediatamente chegou à conclusão de que não faria aquilo sem seu consentimento, pois já havia explicitado o quanto sua mente era… Complexa, para dizer o mínimo.

Estranhamente, a possibilidade de tê-la manipulando sua mente para livrá-lo de seus demônios não o perturbava ao extremo. Os poderes da ruiva eram parte de quem ela era, sua essência, peça especialmente determinante de sua alma, agora era capaz de compreender isso e, diferente de quando chegara ali, não o assustavam e afastavam. Estava tão perdido em Wanda Maximoff, que não o assustavam mais, completou para si mesmo.

Soltou o travesseiro e se levantou ao ouvir a maçaneta da porta do banheiro girar, começando a arrumar militarmente a cama improvisada que tinham feito no chão. Então, deixou o cobertor que acabara de dobrar sobre a cama e se dirigiu até ela, que passava a escolher algumas peças de roupa na cômoda junto à porta.

Eles eram silenciosos todas as manhãs, o que agradecia, pois, apesar de ter o costume de acordar muito cedo, não tinha absolutamente nenhum humor para manter um diálogo normal. Contudo, naquela em específico sabia, sem saber como realmente tinha tanta certeza disso, que a ruiva estava se mantendo à distância para conceder a Bucky algum espaço depois de tudo o que aconteceu.

- Ei. — Chamou suavemente antes de rodear os ombros dela com o braço normal, trazendo-a para junto de si sem cerimônias, o que pareceu deixá-la surpresa. Depositou um beijo calmo em sua têmpora, apreciando o toque macio dos fios longos em seu peito nu, e correu os lábios pela bochecha dela, desejando poder enxergar cada nuance do rosto bem desenhado. — Obrigado… Pelo o que fez essa noite.

Os dedos dela correram por seu braço até chegarem à sua mão, para se entrelaçar com os seus, enquanto suspirava, se fazendo mais à vontade contra ele. Ela beijou de volta sua bochecha, bem no canto dos lábios, e sorriu levemente ao virar somente o rosto para observá-lo com calma, como que procurando as sombras de qualquer tormento que ainda pudesse habitar nele. E Wanda sabia que elas existiam, por isso o brilho de preocupação no olhar esverdeado, e a forma como apertou seus dedos ansiosamente.

- Você…. Nunca fala sobre os pesadelos. — Ela constatou, baixinho. — Talvez fosse bom mergulhar neles de verdade, não apenas tentar… Evitá-los.

Bem, essa era a maior verdade sobre a forma como o Soldado ainda permanecia em sua vida. Era como se fosse sempre ficar em razão daqueles momentos em que Bucky se via perder o controle em razão de lembranças que deveriam, há muito, ter sido deixadas para trás. Mas a impregnação, especialmente mental, era uma característica do Soldado. Depois de décadas sob seu domínio, não era uma surpresa que fosse difícil deixá-lo para trás. Na verdade, tinha plena certeza de que o resto de sua vida seria inteiramente marcado pela onipresença Dele ou de Seus feitos.

- Não quero, eventualmente, descobrir que há muito dele em mim.

Murmurou o que nunca tinha admitido a ninguém, pois o medo de saber que poderia ser capaz de qualquer atrocidade, estando no controle de suas faculdades mentais, desde que havia retomado algum, era latente. Bucky sempre se questionava se havia se tornado o Soldado Invernal, com suas habilidades e talentos especiais aprimorados pelo soro de Zola, porque já tinha alguma predisposição latente para o mal.

- Bucky… Eu me juntei a H.Y.D.R.A. antes, acreditei neles, no falso discurso da busca por justiça social contra o imperialismo americano, todas essas coisas… — Ela apertou um pouco mais seus dedos, mantendo o abraço um pouco mais forte e tenso. — Foi uma escolha própria. E ainda assim… Você está aqui comigo. Isso, mais do que qualquer outra coisa, diz muito sobre quem você é de verdade. O Soldado foi criado para a destruição, não há nada disso em… James Barnes.

Por mais que tivesse tentado se lembrar e houvesse mergulhado nas histórias de Steve sobre aquela época, não se lembrava de muitos detalhes de sua vida pregressa, a não ser o básico. Tinha uma família estável e adorável, mas pobre, morava no Brooklyn e ganhava alguns trocados em um trabalho de meio-período numa fábrica local antes de se alistar no exército. Naquela época, esta era a saída para pessoas como ele, Steve e muitos dos garotos da sua vizinhança.

Não sabia o que Wanda estava sugerindo, de concreto, ou se tinha algo a ver com os estudos místicos que vinha aprimorando com a Bruxa, mas não tinha cabeça para se preocupar com ambos no momento. Além disso, naquela manhã, Bucky estava bem — mentalmente falando. Havia sido assim por toda a madrugada, graças a ela, e não queria que isso mudasse.

- Espero que esteja certa. — O sargento a apertou contra si novamente. — Vou pensar sobre isso, ok?

A ruiva fez menção de se voltar totalmente para ele, mas, antes que pudesse concluir o movimento, seu celular vibrou novamente sobre a cômoda e os olhos de ambos recaíram sobre o aparelho. Bucky apertou os lábios e Wanda, imediatamente, deixou seus dedos.

- É Sam. — Ela alcançou o aparelho e entregou a ele, pegando uma troca qualquer das roupas na gaveta aberta à sua frente para rapidamente impor alguma distância entre eles. — Você deveria atender.

Bem, a questão do Dia de Ação de Graças não seria superada tão facilmente, deveria ter imaginado. Apenas analisou como ela manteve os olhos baixos nas roupas e na própria mala, mexendo distraidamente em alguns de seus pertences pessoais, como uma desculpa para não encará-lo.

- Posso falar com ele depois. — Wanda levantou uma sobrancelha para ele, julgando silenciosamente sua óbvia covardia. — Sua amiga bruxa tinha pedido que buscássemos algumas coisas na cidade.

- Sim… — Ela se direcionou ao banheiro, dizendo secamente. — Para o Dia de Ação de Graças.

“Do qual você não vai participar”, quase conseguiu ouvi-la dizendo ao ver a porta ser fechada com um baque seco e levou uma das mãos aos cabelos, bagunçando-os, para extravasar a própria frustração. No fim das contas, ela era uma mulher. Fitou novamente o contato de Sam e decidiu começar a manhã escolhendo uma roupa decente, pois tinham de ir à cidade de qualquer forma.

Por isso, naquele momento, não tinham muito a dizer enquanto, com uma cesta nos braços, a ruiva escolhia muito pensativamente alguns ingredientes da intrincada lista que carregava entre os dedos.

O primeiro estabelecimento em que entraram ficava em uma das esquinas da avenida principal da pequena cidade. Tinha uma aparência simples, mas era atulhado até o teto de mercadorias de todos os tipos, das coisas europeias mais exóticas e caras, que jamais estariam em uma mesa naquela data, até as mais simples.

Wanda era sempre adepta dos cabelos escuros em público e, após uma segunda olhada quando saíram, notou que usava seu boné cinza, mas resolveu não elaborar muito sobre o assunto. Agora, que a encarava enquanto o ignorava cortantemente, pois não estava nem minimamente preocupado com a lista que ela lhe entregara mais cedo, embora juntasse um ou outro item, percebeu que era uma forma de manter a distância dele.

Seguiram assim até juntarem tudo e se dirigirem ao caixa, onde uma adolescente de aparência mal humorada mascando chiclete e usando um moletom cinza grande demais passou todas as compras. No momento em que a ruiva fazia o pagamento, seu celular chamou atenção em uma vibração, que o pegou desprevenido.

Não precisava de muito para saber que seria Sam, novamente, já que não o havia atendido naquela manhã, por isso apenas recusou a ligação e juntou as sacolas para sair do apertado armazém sob o olhar especulativo de Wanda, que se manteve quieta por todo o caminho até o carro, onde guardaram as sacolas para seguir até o outro estabelecimento.

Wanda, no entanto, não se moveu quando fechou a tampa traseira do carro. Os olhos se estreitaram sob a aba do boné por conta da claridade e ela o encarou por apenas meio segundo antes de desviar o olhar seguindo o movimento de turistas daquele horário. Então, ela escondeu os dedos nos bolsos do casaco pesado que usava e respirou fundo, parecendo… Pensativa.

- Você deveria ir. — Bucky estacou, imediatamente franzindo o cenho em uma expressão confusa. Percebendo seu silêncio perplexo, Wanda abaixou os olhos, concentrada no movimento lento dos pés contra o cascalho por um instante. — Eu sei que gostaria de estar com eles nesta data, então… Está tudo bem, se quiser ir.

Bucky piscou, um tanto chocado, quando ela meneou a cabeça, como se chegasse à conclusão de que isso era tudo o que tinha a dizer, e se afastou rapidamente com os dedos bem fechados ao lado do corpo, deixando-o sozinho.

Notas finais
Ei!!! Vocês pensaram que o conflito tinha ido, mas não! rs E voltamos para mais um capítulo, ao mesmo tempo, pesado, mas que não deixou de ser fofo... Em alguns momentos! Eu acho que faz parte da história Bucky tentar acompanhar esse raciocínio da Wanda, mas, no final de tudo, he's a man and she's a woman! kkkkk Espero que tenham gostado dessa continuidade e espero que estejam curtindo esse lento desenvolver deles! ♥ Me contem suas impressões heim! Até breve ♥ PS. Não deixem de ler We don't kiss like strangers, que também é sobre eles, e vai ser bem curtinha!