O ruído das botas pesadas contra o chão de tacos era o único que cortava o ambiente. Podia sentir as mãos pegajosas sob as luvas e o suor escorrendo na têmpora através dos fios longos e escuros, mas aquilo não o incomodava a ponto de parar.

Odiava apenas quando o trabalho não era limpo. Quando tentavam opor resistência a algo que, sabidamente, se assemelhava a uma máquina de matar — sem rastros, sem comprometimentos externos, sem segundos questionamentos morais. Costumava receber dossiês sobre seus alvos, pois raramente ficava com o trabalho de investigação e estes auxiliavam em suas emboscadas.

Execuções eram ágeis, mas não tão perfeitas quanto outros tipos de assassinatos. Chamavam a atenção pela rapidez e forma calculista com que ocorriam, especialmente quando se tratava de alguém com uma certa fama — como os Stark há, não menos do que, dois ou três anos. Não saberia dizer ao certo: os nomes, rostos e memórias repletas de desespero se misturavam em sua mente confusa, de forma que a imagem mais clara sempre seria a da próxima vítima. Havia um objetivo claro a seguir, uma missão a ser cumprida e este era o único objetivo do Soldado.

A família Kaminski tentou lutar por sobrevivência. Cientistas com especialidade em energia nuclear. Tinham se juntado a H.Y.D.R.A. dois anos antes e cumprido sua função no departamento para o qual foram designados, mas, por algum motivo, a organização decidiu eliminá-los — sabiam demais ou estavam ameaçando expor o grupo com quem trabalharam durante aquele tempo, quem poderia saber.

Mariusz, um homem de meia idade, careca e tão alto, que chegava a ser corpulento, tentou alcançar uma arma sobre a escrivaninha de mogno do escritório com vista para uma praça central de Varsóvia. Não fora rápido o bastante — ninguém era — e o Soldado preferiria ter usado uma arma menos característica, mas a lâmina afiada na garganta do homem gritava como um recado bem dado — como a H.Y.D.R.A gostava de dar.

Foi então que ouviu o ofego contido vindo da porta de madeira entreaberta e, através da pequena brecha para o corredor, olhos azuis encontraram os dele de maneira assustada e, no segundo seguinte, sumiram. Com um último olhar para o homem, que sangrava com o rosto pendente em sua cadeira caríssima, ganhou o corredor a tempo de ver mechas loiras, tão claras quanto areia, desaparecerem em um dos quartos mais distantes.

A mansão dos Kaminski era, obviamente, repleta de pinturas muito antigas e esculturas caras, que nada significavam para um homem que nada sabia sobre o mundo além da matança. Um dia aquilo havia importado, mas não mais. Piscou demoradamente pela conclusão a que chegara, mas seu foco rapidamente voltou à porta onde a garota se escondera.

A informação era de que os filhos de Mariusz e Leonor não estariam em casa para o feriado da Páscoa, mas o fato de se encontrarem no local não faria qualquer diferença no resultado final da missão. Arrombou a porta de duas folhas com o ombro metálico, sem qualquer dificuldade, imediatamente notando o movimento suave das cortinas claras, que davam para o jardim. Apesar de ser uma residência abastada, quase todos os cômodos espaçosos ficavam no térreo, incluindo os quartos. Um humano comum não teria notado a respiração baixa e trêmula, muito menos o leve som que a garganta da garota produzia com o movimento que, tinha certeza, acreditava ser mínimo demais para ser ouvido. Mas, pelo Soldado Invernal, era.

Por isso, quando afastou as cortinas com um rápido puxão, o grito que ela dera ao vê-lo se assomar à sua frente, muito mais alto do que deveria, pois se encontrava abraçando os joelhos em uma prece silenciosa, ressoou por todo o ambiente e pelo o resto da casa. Os olhos claros estavam marejados, mas era tudo o que podia enxergar na semiescuridão do quarto.

Levou um dos dedos aos lábios, mandando que fizesse silêncio e, quando ela abriu a boca para dizer algo, uma bala certeira cessou qualquer movimento. Era como se, por um breve instante, o ato tivesse suspendido o tempo. Os olhos dela se arregalaram, como se chocada pelo próprio e abrupto fim, especialmente quando o sangue passou a jorrar com força por seu estômago. A garota, que não deveria ter mais do que quinze ou dezesseis anos, levou as mãos à barriga, de onde os dedos saíram escandalosamente manchados de vermelho, antes de tombar para o chão de tacos, sem maiores empecilhos em um baque seco demais para denotar que, ali, havia ainda qualquer vida.

Deixou o quarto perturbadoramente infantil e feminino e voltou pelo corredor de madeira, atento a qualquer movimento. Não era como se sentisse qualquer adrenalina o percorrendo pela bala que acabara de disparar ou pela lâmina, que rapidamente encontrara a artéria do cientista. Eram desconhecidos e, ainda que não fossem, aquela era apenas mais uma missão a terminar antes de seguir para a próxima.

Com o cano do revólver, empurrou levemente a porta de outro cômodo, encontrando outro quarto. As cortinas, novamente, se moviam levemente com a brisa, mas, dessa vez, não havia ninguém atrás delas. As luzes do quarto, decorado naquele bom gosto antigo típico dos aristocratas europeus, com seus painéis de madeira, camas com cabeceiras de ferro e grandes poltronas macias demais, estavam baixas, mas o leve ruído de água preencheu o ambiente e o Soldado seguiu para a única porta fechada do quarto.

A mulher dentro da banheira não o viu imediatamente. Completamente nua, tinha os braços sobre as laterais da banheira retangular e a cabeça deitada sobre uma toalha posta sobre a beirada de cerâmica floreada nas portas com pequenos desenhos negros geométricos. Ainda, mantinha os pés cruzados sobre a outra extremidade da banheira e parecia muito distraída em seu próprio mundo, com o que parecia ser a música clássica, que tocava alta nos fones em seu ouvido.

Não lembrava em nada a Dra. Leonöre, de expressão permanentemente fechada e lábios finos, de tão desgostosos. Mesmo as rugas da idade, tendo em vista que já chegava aos cinquenta anos, pareciam menos chamativas e os cabelos loiros mais vibrantes do que pálidos sob o céu nublado do inverno polonês, onde a foto mostrada no dossiê deveria ter sido tirada.

Guardou a arma com tranquilidade e a analisou, de maneira calculada, antes de se abaixar ao lado da banheira e estender o dedo para desligar a música, que aparentemente criava uma barreira entre a senhora e o resto do mundo. Ela abriu os olhos assim que o som se foi, mas imediatamente o viu e fez menção de se afastar dentro d’água, mas seus dedos, logo, se fecharam na garganta fina, impedindo qualquer movimento que a mulher pudesse ter feito.

Terminaria o serviço assim, meramente sufocando-a, sem se importar com os dedos sem força, que tentavam se cerrar contra o pulso metálico coberto pela jaqueta e pela luva. Porém, o barulho de algo se quebrando atrás dele o chamou a atenção e o Soldado se virou para encontrar um menino — cinco ou seis anos, cabelos loiros, feições delicadas, olhos claros — encarando a cena que se desenrolava no pomposo banheiro em absoluto choque, e acabara de deixar cair a xícara grande demais para dedos muitos pequenos.

A mulher arregalou os olhos — verdes, invés de azuis, como os da filha — e lutou mais bravamente contra ele — água encharcando-o e ao tapete, que rodeava a banheira. Por isso, resolveu terminar aquilo mais rapidamente e, ainda a segurando pela garganta, a virou sem dificuldades e empurrou a cabeça de cabelos loiros contra a água repleta de sabonete líquido e sais de banho, que deixavam o ambiente excessivamente cheiroso.

Segundos depois, toda a movimentação cessou e ela não fazia mais força contra ele. Estava acabado. Voltou-se para o menino, que subiu os olhos do corpo flácido da mãe para ele, aterrorizado, e num estalo começou a correr quando se colocou de pé sem pressa. Era apenas um novo empecilho, afinal de contas.

Porém, quando começou a sair do banheiro, a sensação de que as paredes se moviam junto com ele se fez presente. Viu que o garoto ultrapassou a porta sem fazer questão de fechá-las, mas, de repente, a sensação pesada de que deveria acordar daquele que era um pesadelo o tomou. Voltou a andar sem se importar com a impressão de que aquilo estava indo longe demais e chegou ao corredor, inconscientemente continuando a procurar o garotinho de olhos muito claros.

Sem se esforçar muito, imaginou que ele teria seguido para o quarto da irmã e voltou até lá em passos, todo o cuidado de antes deixado de lado agora que sentia a urgência — de encontrá-lo para terminar a missão ou, meramente, de acordar, não saberia dizer. Ele não conseguia conter a própria respiração assustada, incondizente com a sua que, ao contrário, se mantinha calma, ainda que tivesse que lidar com duas mortes a mais do que o planejado para aquele feriado.

Puxando uma das lâminas, que carregava no suporte externo junto à perna, se aproximou de um móvel de madeira e, sem precisar de muito, o empurrou para longe com um simples chute. Seus olhos imediatamente recaíram na figura pequena enrolada contra si mesma no chão. O garoto tremeu e não teve coragem de levantar a cabeça para encará-lo novamente, como havia feito no banheiro de sua mãe.

Novamente, no entanto, a sensação de que deveria acordar se assomou nele, assim como um inexplicável aperto na altura do estômago e o Soldado, simplesmente, olhou para o menino por longos segundos. Era como se visse de fora a cena, a figura alta que era gritando a discrepância com a criança abaixada à sua frente, praticamente paralisada de medo.

— Bucky. — Seus dedos metálicos se fecharam mais forte em torno da afiada adaga. — Bucky!

Olhou ao redor, mesmo que não soubesse quem poderia ser “Bucky”, pois aquele tom desesperado nada tinha a ver com o filho dos cientistas. Porém, assim que tirou os olhos dele, o cenário imediatamente mudou para algo um tanto mais desesperador.

Diferente do Soldado, Bucky era capaz de sentir, quase que fisicamente, a morte daquelas pessoas. Deitado no chão, como de costume, sobre as almofadas do sofá do quarto que Wanda e ele ocupavam na casa da Bruxa, olhou ao redor com dificuldades para respirar. Estava completamente suado, o que, em tese, poderia até justificar as mãos atipicamente suadas em seu pesadelo e a ruiva estava ajoelhada no chão, logo ao seu lado, os cabelos soltos e bagunçados e um olhar preocupado enquanto mantinha seus braços presos com magia.

Correu os olhos dela para a energia escarlate, que utilizava para mantê-lo no lugar. Novamente, não era uma sensação opressiva, era uma energia que o envolvia como se o respeitasse, que impunha com cautela, o que talvez representava o cuidado dela no que dizia respeito à sua mente.

— Você disse para não deixar que me machucasse.

Ele apenas acenou em breve e desconfiada concordância, imaginando se teria a ameaçado de alguma forma, mesmo estando inconsciente, como da outra vez — ainda na cabana. Imaginou que Wanda havia usado seus poderes para, novamente, tirá-lo do sonho, sem comprometer sua mente, pois tinha medo de mexer com sua cabeça.

Afastou os cobertores, sentindo a umidade do suor encharcando a camiseta branca que usava, e levou as mãos aos olhos, uma leve dor de cabeça se instalando em suas têmporas. Era sempre assim quando se tratava do Soldado, ele sempre estaria à espreita para açoitá-lo quando menos esperava. Não eram imagens artificialmente criadas por sua mente com base em acontecimentos básicos, eram lembranças reais e quase exatas de sua missão na Casa Kaminski.

Havia acontecido no fim dos anos 60, mas, assim como as demais áreas de seu corpo, a memória se tornara superior com o soro, por isso, tantos anos depois, lá estava Bucky se lembrando perfeitamente das feições da Dra. Leonöra ou de sua filha inocente e o garoto… Seus dedos apertaram os fios de seu cabelo e, num rompante, se levantou ouvindo o tom preocupado de Wanda.

— Bucky…

— Preciso de um banho.

Murmurou decididamente, sem se importar com o que ela pensaria. Era a primeira vez em muito tempo que não se sentia tão autoconsciente da presença marcante de Wanda ao seu lado.

Notas finais
Ei!! Tava tudo muito tranquilo por aqui nos últimos tempos né?! Eu gosto de explorar o fato de o Bucky ter este passado e ainda não saber lidar com o Soldado Invernal, ainda mais porque isso casa muito com a história da própria Wanda e acho que ela é capaz de enxergar isso mais do que ele! Dessa vez não teremos três capítulos de uma vez, mas chego com a notícia de que estou terminando de escrever os últimos capítulos da história e tem um motivo especial junto com a minha volta, porque eu não me aguento e comecei uma short desses dois, que vai ser bem curtinha, então espero que gostem! Amo explorar cada possibilidade deles! https://pt.plusfiction.com/book/We-dont-kiss-like-strangers-815710 Muito obrigada a todos que estão acompanhando e comentando, amo saber o que estão achando, principalmente agora que consigo responder nessa nova versão do Nyah. E, como já estou bem adiantada por aqui, quem sabe volto mais cedo do que o esperado! Até breve ♥