The Hurting. The Healing. The Loving.
46 Capítulo 45
O ruído das botas pesadas contra o chão de tacos era o único que cortava o ambiente. Podia sentir as mãos pegajosas sob as luvas e o suor escorrendo na têmpora através dos fios longos e escuros, mas aquilo não o incomodava a ponto de parar.
Odiava apenas quando o trabalho não era limpo. Quando tentavam opor resistência a algo que, sabidamente, se assemelhava a uma máquina de matar — sem rastros, sem comprometimentos externos, sem segundos questionamentos morais. Costumava receber dossiês sobre seus alvos, pois raramente ficava com o trabalho de investigação e estes auxiliavam em suas emboscadas.
Execuções eram ágeis, mas não tão perfeitas quanto outros tipos de assassinatos. Chamavam a atenção pela rapidez e forma calculista com que ocorriam, especialmente quando se tratava de alguém com uma certa fama — como os Stark há, não menos do que, dois ou três anos. Não saberia dizer ao certo: os nomes, rostos e memórias repletas de desespero se misturavam em sua mente confusa, de forma que a imagem mais clara sempre seria a da próxima vítima. Havia um objetivo claro a seguir, uma missão a ser cumprida e este era o único objetivo do Soldado.
A família Kaminski tentou lutar por sobrevivência. Cientistas com especialidade em energia nuclear. Tinham se juntado a H.Y.D.R.A. dois anos antes e cumprido sua função no departamento para o qual foram designados, mas, por algum motivo, a organização decidiu eliminá-los — sabiam demais ou estavam ameaçando expor o grupo com quem trabalharam durante aquele tempo, quem poderia saber.
Mariusz, um homem de meia idade, careca e tão alto, que chegava a ser corpulento, tentou alcançar uma arma sobre a escrivaninha de mogno do escritório com vista para uma praça central de Varsóvia. Não fora rápido o bastante — ninguém era — e o Soldado preferiria ter usado uma arma menos característica, mas a lâmina afiada na garganta do homem gritava como um recado bem dado — como a H.Y.D.R.A gostava de dar.
Foi então que ouviu o ofego contido vindo da porta de madeira entreaberta e, através da pequena brecha para o corredor, olhos azuis encontraram os dele de maneira assustada e, no segundo seguinte, sumiram. Com um último olhar para o homem, que sangrava com o rosto pendente em sua cadeira caríssima, ganhou o corredor a tempo de ver mechas loiras, tão claras quanto areia, desaparecerem em um dos quartos mais distantes.
A mansão dos Kaminski era, obviamente, repleta de pinturas muito antigas e esculturas caras, que nada significavam para um homem que nada sabia sobre o mundo além da matança. Um dia aquilo havia importado, mas não mais. Piscou demoradamente pela conclusão a que chegara, mas seu foco rapidamente voltou à porta onde a garota se escondera.
A informação era de que os filhos de Mariusz e Leonor não estariam em casa para o feriado da Páscoa, mas o fato de se encontrarem no local não faria qualquer diferença no resultado final da missão. Arrombou a porta de duas folhas com o ombro metálico, sem qualquer dificuldade, imediatamente notando o movimento suave das cortinas claras, que davam para o jardim. Apesar de ser uma residência abastada, quase todos os cômodos espaçosos ficavam no térreo, incluindo os quartos. Um humano comum não teria notado a respiração baixa e trêmula, muito menos o leve som que a garganta da garota produzia com o movimento que, tinha certeza, acreditava ser mínimo demais para ser ouvido. Mas, pelo Soldado Invernal, era.
Por isso, quando afastou as cortinas com um rápido puxão, o grito que ela dera ao vê-lo se assomar à sua frente, muito mais alto do que deveria, pois se encontrava abraçando os joelhos em uma prece silenciosa, ressoou por todo o ambiente e pelo o resto da casa. Os olhos claros estavam marejados, mas era tudo o que podia enxergar na semiescuridão do quarto.
Levou um dos dedos aos lábios, mandando que fizesse silêncio e, quando ela abriu a boca para dizer algo, uma bala certeira cessou qualquer movimento. Era como se, por um breve instante, o ato tivesse suspendido o tempo. Os olhos dela se arregalaram, como se chocada pelo próprio e abrupto fim, especialmente quando o sangue passou a jorrar com força por seu estômago. A garota, que não deveria ter mais do que quinze ou dezesseis anos, levou as mãos à barriga, de onde os dedos saíram escandalosamente manchados de vermelho, antes de tombar para o chão de tacos, sem maiores empecilhos em um baque seco demais para denotar que, ali, havia ainda qualquer vida.
Deixou o quarto perturbadoramente infantil e feminino e voltou pelo corredor de madeira, atento a qualquer movimento. Não era como se sentisse qualquer adrenalina o percorrendo pela bala que acabara de disparar ou pela lâmina, que rapidamente encontrara a artéria do cientista. Eram desconhecidos e, ainda que não fossem, aquela era apenas mais uma missão a terminar antes de seguir para a próxima.
Com o cano do revólver, empurrou levemente a porta de outro cômodo, encontrando outro quarto. As cortinas, novamente, se moviam levemente com a brisa, mas, dessa vez, não havia ninguém atrás delas. As luzes do quarto, decorado naquele bom gosto antigo típico dos aristocratas europeus, com seus painéis de madeira, camas com cabeceiras de ferro e grandes poltronas macias demais, estavam baixas, mas o leve ruído de água preencheu o ambiente e o Soldado seguiu para a única porta fechada do quarto.
A mulher dentro da banheira não o viu imediatamente. Completamente nua, tinha os braços sobre as laterais da banheira retangular e a cabeça deitada sobre uma toalha posta sobre a beirada de cerâmica floreada nas portas com pequenos desenhos negros geométricos. Ainda, mantinha os pés cruzados sobre a outra extremidade da banheira e parecia muito distraída em seu próprio mundo, com o que parecia ser a música clássica, que tocava alta nos fones em seu ouvido.
Não lembrava em nada a Dra. Leonöre, de expressão permanentemente fechada e lábios finos, de tão desgostosos. Mesmo as rugas da idade, tendo em vista que já chegava aos cinquenta anos, pareciam menos chamativas e os cabelos loiros mais vibrantes do que pálidos sob o céu nublado do inverno polonês, onde a foto mostrada no dossiê deveria ter sido tirada.
Guardou a arma com tranquilidade e a analisou, de maneira calculada, antes de se abaixar ao lado da banheira e estender o dedo para desligar a música, que aparentemente criava uma barreira entre a senhora e o resto do mundo. Ela abriu os olhos assim que o som se foi, mas imediatamente o viu e fez menção de se afastar dentro d’água, mas seus dedos, logo, se fecharam na garganta fina, impedindo qualquer movimento que a mulher pudesse ter feito.
Terminaria o serviço assim, meramente sufocando-a, sem se importar com os dedos sem força, que tentavam se cerrar contra o pulso metálico coberto pela jaqueta e pela luva. Porém, o barulho de algo se quebrando atrás dele o chamou a atenção e o Soldado se virou para encontrar um menino — cinco ou seis anos, cabelos loiros, feições delicadas, olhos claros — encarando a cena que se desenrolava no pomposo banheiro em absoluto choque, e acabara de deixar cair a xícara grande demais para dedos muitos pequenos.
A mulher arregalou os olhos — verdes, invés de azuis, como os da filha — e lutou mais bravamente contra ele — água encharcando-o e ao tapete, que rodeava a banheira. Por isso, resolveu terminar aquilo mais rapidamente e, ainda a segurando pela garganta, a virou sem dificuldades e empurrou a cabeça de cabelos loiros contra a água repleta de sabonete líquido e sais de banho, que deixavam o ambiente excessivamente cheiroso.
Segundos depois, toda a movimentação cessou e ela não fazia mais força contra ele. Estava acabado. Voltou-se para o menino, que subiu os olhos do corpo flácido da mãe para ele, aterrorizado, e num estalo começou a correr quando se colocou de pé sem pressa. Era apenas um novo empecilho, afinal de contas.
Porém, quando começou a sair do banheiro, a sensação de que as paredes se moviam junto com ele se fez presente. Viu que o garoto ultrapassou a porta sem fazer questão de fechá-las, mas, de repente, a sensação pesada de que deveria acordar daquele que era um pesadelo o tomou. Voltou a andar sem se importar com a impressão de que aquilo estava indo longe demais e chegou ao corredor, inconscientemente continuando a procurar o garotinho de olhos muito claros.
Sem se esforçar muito, imaginou que ele teria seguido para o quarto da irmã e voltou até lá em passos, todo o cuidado de antes deixado de lado agora que sentia a urgência — de encontrá-lo para terminar a missão ou, meramente, de acordar, não saberia dizer. Ele não conseguia conter a própria respiração assustada, incondizente com a sua que, ao contrário, se mantinha calma, ainda que tivesse que lidar com duas mortes a mais do que o planejado para aquele feriado.
Puxando uma das lâminas, que carregava no suporte externo junto à perna, se aproximou de um móvel de madeira e, sem precisar de muito, o empurrou para longe com um simples chute. Seus olhos imediatamente recaíram na figura pequena enrolada contra si mesma no chão. O garoto tremeu e não teve coragem de levantar a cabeça para encará-lo novamente, como havia feito no banheiro de sua mãe.
Novamente, no entanto, a sensação de que deveria acordar se assomou nele, assim como um inexplicável aperto na altura do estômago e o Soldado, simplesmente, olhou para o menino por longos segundos. Era como se visse de fora a cena, a figura alta que era gritando a discrepância com a criança abaixada à sua frente, praticamente paralisada de medo.
— Bucky. — Seus dedos metálicos se fecharam mais forte em torno da afiada adaga. — Bucky!
Olhou ao redor, mesmo que não soubesse quem poderia ser “Bucky”, pois aquele tom desesperado nada tinha a ver com o filho dos cientistas. Porém, assim que tirou os olhos dele, o cenário imediatamente mudou para algo um tanto mais desesperador.
Diferente do Soldado, Bucky era capaz de sentir, quase que fisicamente, a morte daquelas pessoas. Deitado no chão, como de costume, sobre as almofadas do sofá do quarto que Wanda e ele ocupavam na casa da Bruxa, olhou ao redor com dificuldades para respirar. Estava completamente suado, o que, em tese, poderia até justificar as mãos atipicamente suadas em seu pesadelo e a ruiva estava ajoelhada no chão, logo ao seu lado, os cabelos soltos e bagunçados e um olhar preocupado enquanto mantinha seus braços presos com magia.
Correu os olhos dela para a energia escarlate, que utilizava para mantê-lo no lugar. Novamente, não era uma sensação opressiva, era uma energia que o envolvia como se o respeitasse, que impunha com cautela, o que talvez representava o cuidado dela no que dizia respeito à sua mente.
— Você disse para não deixar que me machucasse.
Ele apenas acenou em breve e desconfiada concordância, imaginando se teria a ameaçado de alguma forma, mesmo estando inconsciente, como da outra vez — ainda na cabana. Imaginou que Wanda havia usado seus poderes para, novamente, tirá-lo do sonho, sem comprometer sua mente, pois tinha medo de mexer com sua cabeça.
Afastou os cobertores, sentindo a umidade do suor encharcando a camiseta branca que usava, e levou as mãos aos olhos, uma leve dor de cabeça se instalando em suas têmporas. Era sempre assim quando se tratava do Soldado, ele sempre estaria à espreita para açoitá-lo quando menos esperava. Não eram imagens artificialmente criadas por sua mente com base em acontecimentos básicos, eram lembranças reais e quase exatas de sua missão na Casa Kaminski.
Havia acontecido no fim dos anos 60, mas, assim como as demais áreas de seu corpo, a memória se tornara superior com o soro, por isso, tantos anos depois, lá estava Bucky se lembrando perfeitamente das feições da Dra. Leonöra ou de sua filha inocente e o garoto… Seus dedos apertaram os fios de seu cabelo e, num rompante, se levantou ouvindo o tom preocupado de Wanda.
— Bucky…
— Preciso de um banho.
Murmurou decididamente, sem se importar com o que ela pensaria. Era a primeira vez em muito tempo que não se sentia tão autoconsciente da presença marcante de Wanda ao seu lado.
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